Maria Jos Dupr

LUZ E SOMBRA

12. Edio
Editora tica
1985

Em memria da amiga Laura Queiroz Aranha de Souza que me auxiliou com as informaes sobre a escravido no Brasil.
A Autora

Je me souviens
Des iours anciens
Et je pleure...
Et je ren vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
De , de l,
Pareil  la Feuille morte.
Verlaine


IMPOSSVEL voltar ao passado;  como uma cortina que se fecha e nos separa do que ficou atrs.  como a morte. Lembramos sempre do que morreu como lembramos do que 
passou, mas sabemos que nem um e nem outro voltaro.
 como se eu vivesse ainda naquela poca, poca um pouco sombria, cheia de vidas sombrias. poca de maridos tiranos, de mulheres plidas como camlias, de vestidos 
que se arrastavam, rumorosos, de cinturas finas, de gemidos de negro castigado, de casas fechadas como conventos, de olhares ansiosos atravs das rtulas, de lgrimas 
em faces maceradas nas noites quietas. poca de sombras. Ouo ainda o estalar das folhas secas do pomar, quando passevamos  tarde; ouo vozes enrgicas determinando 
castigos, e suspiros de dor nas senzalas; ouo o tinir das esporas nos degraus da escada; lembro de carnes chicoteadas e dos sales fechados onde os mrmores e as 
pratas refletiam um brilho sem vida. Lembro-me de mame bordando um manto para Nossa Senhora do Rosrio num bastidor enorme num canto da sala e de papai fumando 
um charuto, sentado no alpendre do fundo da casa e bebendo uma cerveja vinda da Inglaterra. Lembro-me das rosas desfolhadas entr
 e os canteiros, da caixinha de rap de tio Antnio, onde havia a figura de uma pastora vestida de azul conduzindo carneirinhos brancos e do pranto sentido de Francisca 
Miquelina no dia em que disseram que ela ia casar-se com tio Rodolfo. Sombras.  como se eu espiasse por trs da cortina e tentasse rever o que se perdeu no nevoeiro 
do tempo, mas s visse sombras, to negras e tristes como a prpria morte.
Lembro-me da trepadeira do alpendre; eram florzinhas azuis enfeitando a grade de ferro; do perfume de jasmim nas noites bonitas e do vestido de mame arrastando 
pelo cho. Ouo papai dizer: O jasmineiro est em flor!
Ouo o relinchar dos animais nas manhs escuras quando os homens se preparavam para a caada e vejo Pampa, meu cavalo malhado, roar a cabea no meu brao. Ouo-os 
partirem; o trote dos cavalos, os latidos dos ces, perdem-se ao longe; tudo recaiu no silncio. Por mais que eu queira ouvir de novo os sons familiares do passado, 
no consigo. Tudo est morto  minha volta.
Impossvel voltar ao passado. O jasmineiro, se ainda vive, pode cobrir-se de flores e seu perfume ainda pode embriagar, mas aqueles que o plantaram, que o trataram, 
que o amaram, no mais existem. Perderam-se no nevoeiro. Penso que o jasmineiro j morreu; quando ele florescia e seu perfume entrava pela casa toda, respirvamos 
jasmim desde manh; com o perfume, vinha a primavera, a luz, o sol.
Nunca fui algum na minha numerosa famlia; por uma farsa cruel do destino, compreendi que era inferior s minhas irms; elas eram belas, claras ou morenas, inteligentes 
e elegantes; eu fui sempre feia e triste. Tinha sade fraca e por isso, aos vinte e dois anos, chamavam-me solteirona e homem algum me escolheu para esposa.
Mas essa mesma fraqueza me deu foras para, mais tarde, aparar os embates do destino. Atendi sempre aos que me solicitavam; chamavam-me quando algum estava doente, 
quando a nascer uma criana ou quando iam viajar e precisavam de mim para tomar conta da casa vazia. E levada assim pelos vendavais da famlia, vi escoar-se minha 
mocidade.
Nossa casa era no largo do Ouvidor; um casaro cheio de sacadas de ferro e rtulas; ao lado das sacadas havia enfeites de vidro azul em formato de abacaxi e as rtulas 
dos nossos quartos nunca se abriam, muitas vezes espivamos atravs delas o largo silencioso.
A porta de entrada era enorme, muito alta, com incrustaes de madeira escura; ficava aberta o dia todo e quando Benedito a fechava  noite, ela rangia surdamente 
e dizamos umas s outras: Fechou-se a porta do convento.
Ao lado dela, havia um brao de ferro com um lampio de querosene que balanava nos dias de vento e fazia um rumor que acompanhava nosso sono. Sua luz bruxuleante 
iluminava a porta e uma parte do largo; mais alm, a escurido, somente a escurido.
Quando papai estava em S. Paulo, o lampio ficava aceso at dez horas da noite e a chama brilhava sinistramente iluminando o largo; quando o lampio no se acendia, 
os raros passantes diziam entre si: O Baro de S. Marcos est viajando, o lampio est apagado.
Quase no saamos de casa e tnhamos licena de ficar  janela somente em dias de procisso; mas muitas vezes quando estavam entretidos l dentro, abramos as rtulas 
e espivamos. Assim foi no dia em que papai anunciou o casamento de Maria Letcia; estvamos ela e eu olhando o largo deserto e vendo o sol bater em cheio sobre 
os velhos sobrados; toda a cidade estava silenciosa. Ouvamos, de quando em quando, a msica tocada no salo; Leopoldina, nossa irm mais velha, tocava piano e Lus 
acompanhava-a na flauta; tocavam a Gavotta de Felipe. Comeamos a marcar o compasso no rebordo da janela; de repente, percebemos que eles erraram um compasso, pararam 
e logo comearam. Sorrimos e Maria Letcia disse:
        Lus sempre se atrapalha nessa pgina.
Mas o pensamento de Maria Letcia no estava na msica, devia estar longe, no Rio de Janeiro. Pensaria no primo? Tinham-se encontrado duas vezes apenas; a primeira, 
durante as cavalhadas no Rio de Janeiro, depois em casa dos tios de Paiva; mas ela nem se atreveu a levantar os olhos do cho e corou muito quando se apertaram as 
mos. E percebi logo que qualquer cousa ficou entre eles, como se fios imperceptveis os houvessem ligado para sempre, desde o primeiro encontro. Olhei-a disfaradamente, 
mas sem coragem de perguntar, ela era to orgulhosa. Mame dizia:
        Orgulho  pecado, Maria Letcia, e voc  orgulhosa.
Era mesmo; orgulhava-se de tudo: da beleza, da altura, das mos perfeitas, da cor da pele, da fortuna e do ttulo de papai.
A msica cessou no salo e o silncio cresceu perto de ns; apenas um grupo de escravos vinha subindo a Rua de S. Bento carregando os barris que tinham ido buscar 
no chafariz. De repente, recomearam a tocar, mas a msica era outra; era uma mazurca de Goddard que Maria Letcia tambm tocava quando nos reunamos  noite em 
volta do grande piano de cauda do salo. Comecei a cantarolar acompanhando a msica e pensando em como Maria Letcia estava diferente desde o encontro com primo 
Ferno nas cavalhadas. Estava esquisita, no havia dvida; vivia cismando num canto enquanto bordava ou fazia croch sem falar, sem rir. Quando perguntavam qualquer 
cousa, ela levava um susto como se tivesse acordado de repente. Louvado Deus! Isto devia ser amor!
Os escravos passaram falando alto sob a janela, arcados sob os barris d'gua; nossa mucama Modesta entrou no quarto:
        U, no vo jant? Todos j to na sala.
        J vamos.
Modesta falou com voz maliciosa:
        Ouvi umas conversa hoje: vamo t novidade.
Fingiu-se atarefada, arrumando umas roupas no gaveto da cmoda, mas percebi que, disfaradamente, vigiava Maria Letcia. Diante do espelho, Maria Letcia passou 
o pente nos cabelos, bem devagar, depois perguntou com indiferena, como quem no se importa de saber:
 Novidades? Que novidades so essas? Olhe Modesta, no gosto de mexericos.
E sacudiu o pente na direo de Modesta; a mucama parou no meio do quarto, as mos na cintura:
        Gente, quando  que andei falando mexericos? Diga, Sinh! Se eu falo que temo novidade,  porque temo. Vieram umas visita procura sinh baro... Deixa v 
quando foi... Fais uns quinze dia. Sinh baro mandou cham Sinh baronesa e eles conversaram um tempo. No sou boba; ouvi seu nome tantas veis que disse: Isso 
 casamento pra Sinh Letcia. No me engano  toa.
Maria Letcia corou e continuou a pentear-se simulando indiferena. Depois ralhou com Modesta para disfarar o embarao:
        Negra novidadeira. Vai ver que andou contando para todo o mundo, no? Decerto no  nada do que est pensando, tudo  inveno.
A mucama exaltou-se:
- ie, Sinhazinha, nenhuma palavra saiu desta boca. Sei muito bem o que t falando. Inveno, ? Olhou de esguelha, continuando:
        Inveno? Sei at quem  o noivo; sei muito bem.
Maria Letcia assustou-se, levou a mo ao corao:
        Quem , Modesta? Ser que acertou?
Bateram na porta chamando para o jantar; Maria Letcia largou o pente, endireitou a gola do vestido e, antes de deixar o quarto, olhou Modesta, com olhar de desprezo; 
a mucama sorriu e sussurrou:
        No precisa zanga, Sinhazinha. Chama Sinh Ferno.
Maria Letcia sorriu tambm e deixou o quarto com a cabea erguida, o olhar altivo. Fui atrs dela; no corredor, olhou-me e ps o dedo indicador nos lbios pedindo 
silncio. Fiz com a cabea um sinal de aquiescncia. Ento era ele, o primo. Soubramos dos concilibulos secretos, das reunies da famlia em que a palavra casamento 
fora repetida muitas vezes e Maria Letcia receara que no fosse Ferno. Se no fosse, lutaria, tenho certeza, pois tinha gnio forte e era destemida.
Entramos na sala de jantar, onde todos estavam reunidos, at os irmos casados, que jantavam quase sempre em casa; dirigimo-nos para nossos lugares na mesa. Sentvamos 
pela idade, papai  cabeceira, tendo  direita mame, depois os filhos casados; no outro lado, os solteiros e as crianas no outro extremo. ramos quatorze irmos 
e como trs j se haviam casado ramos dezessete  volta da mesa de jacarand, alm de meus pais e de tio Antnio, irmo de mame. Eu sentava entre Lus, o mais 
velho dos solteiros e Maria Letcia; mame servia os pratos que trs escravas distribuam. Quando fazia calor, e as moscas esvoaavam pela sala, o moleque Lucas 
abanava o grande leque de penas sobre nossas cabeas.
A mesa estava farta de iguarias, como todos os dias: frangos, lombos com farofa, arroz de forno, pastis de carne salpicados de acar. Aos domingos, havia peru 
recheado ou leitoa assada; as leitoas vinham inteiras, com raminhos de salsa na boca, entre os dentes, nos orifcios do focinho e no rabinho torrado e redondo como 
um o; sobre o corpo corado e luzidio, rodelas verdes de limo. Colocavam a grande travessa diante de papai que, com o trinchante de prata, resplandecente, cortava 
fatias delicadas que eram logo distribudas entre todos. As sobremesas eram variadas e numerosas; prximo  despensa, havia o quarto dos doces, com prateleiras at 
o teto, repletas de latas, boies e vidros de boca larga cheios de doces de todas as qualidades. Antes do jantar, mame ia com a chave dependurada  cintura escolher 
as sobremesas para o dia; nunca menos de cinco ou seis espcies de doce apareciam na mesa: compoteiras com doce de cidra, de leite, de batata-roxa
 . Talhadas amarelas de abbora aucarada, laranjas inteiras em calda espessa e grossa, goiabas vermelhinhas nadavam nas compoteiras de cristal; s vezes eram pastis 
de nata, nuvens douradas, papos de anjo e, nos dias de visita, apareciam pratos de manjar branco com folhas de laranjeira  volta toda e uma rosa encarnada espetada 
no centro. Ou ento pirmides de fios de ovos que, na mesa, diminuam rapidamente. Na cozinha, trabalhavam a cozinheira, vrias ajudantes e a escrava que s lidava 
no forno e era chamada a forneira; um grande forno de barro dava para a cozinha e a forneira com um pano branco amarrado  cabea, suarenta e apressada, tinha sempre 
quitutes para assar.
Os irmos menores tinham o hbito de perguntar  mame todas as tardes: Quantos doces posso escolher hoje? E mame respondia quase sempre: Apenas trs, mais de 
trs  feio. Durante todo o jantar, as crianas iam pensando nos trs doces que iriam escolher; tinham medo de errar e no comer os preferidos. Mas quando havia 
visitas  o que acontecia sempre  ningum prestava ateno e as crianas comiam mais do que deviam e tinham depois indigestes que eram tratadas com ch de losna, 
tomado  fora.
Essa tarde estava quente e o sol entrava pelas cinco grandes janelas que se abriam para o jardim interno da casa. Eram quatro horas. Durante o jantar s os mais 
velhos falavam; papai pedia notcias de uma das fazendas ao meu irmo Flix chegado essa manh. Flix trazia novidades; contou que, nas terras da fazenda Guararema, 
encontrara uma madeira chamada ararib, em grande quantidade. Papai ficou interessado.
Flix comeou a falar sobre a cor e a grossura da madeira, dizendo que as madeiras de qualidade se espalhavam pelas nossas terras. Ouvamos com ateno; Leopoldina 
queria saber quais eram as outras madeiras; Flix enumerou-as entre um bocado e outro. Terminou dizendo que as cinzas da madeira guararema serviam para refinar acar 
porque tinham muita potassa.
Perguntei, admirada:
 Cinza para refinar acar?
Riram-se de minha ignorncia e Maria Letcia me chamou de boba em voz baixa; papai explicou como se fazia e disse que o av havia batizado a fazenda com o nome de 
Guararema por causa dessa madeira. Continuamos a jantar; um dos irmos falou sobre a pea que estava sendo representada no Teatro S. Jos; pretendia assistir a ela 
nessa noite, com a mulher e a cunhada. Era um drama muito bonito: A av. Francisca Miquelina disse que tinha vontade de ir, pois ouvira dizer que a pea era empolgante; 
tratava-se de uma av que envenenara a neta. As crianas pararam de comer para prestar mais ateno, enquanto Lus falava:
        J ouvimos contar a histria; dizem que o palco fica todo escuro e a gente v a av pondo veneno no copo da neta.
Maria Letcia pediu ao irmo que a levasse, quando mame falou olhando o nosso lado:
        Hoje, no podem ir; temos que conversar.
Maria Letcia corou e por baixo da mesa apertou minha mo; a sua estava fria. Sorri para ela, encorajando-a. Quando terminamos o jantar, papai iniciou a reza; levantamos 
com rudo de cadeiras; s meus pais e irmos casados continuavam sentados. Baixamos as cabeas e papai falou com voz forte que fez tremer-lhe a barba grisalha sobre 
o peito:
        Bendito e Louvado seja o Senhor que nos deu de comer e nos deu de beber, sem merecer.
Repetimos a orao em voz baixa; em seguida deixamos a mesa e fomos para o jardim; Maria Letcia no havia descido ainda os degraus que davam para o ptio, quando 
ouvimos a voz de papai:
        Maria Letcia!
Sobressaltada, ela voltou-se e perguntou:
        O senhor chamou, papai?
Ele fez um sinal para que o acompanhasse ao salo, onde mame j estava sentada na frente do bastidor, cuja seda esticada mostrava flores prateadas e douradas para 
o manto de Nossa Senhora do Rosrio. Quando Maria Letcia sumiu na porta do salo, olhamos uns para os outros: Que ser?
Minutos depois, vieram chamar-nos; encontramos Maria Letcia sentada ao lado de mame, muito plida. Papai de p, com o charuto na mo, olhava as duas e falava:
        Maria Letcia foi pedida em casamento por Ferno Seixas de Albuquerque; a boda est marcada para daqui a dois meses. Est tudo acertado.
Ela continuou imvel, os olhos no cho, muito branca e sem saber o que falar, mame levantou-se para abra-la dizendo:
        Minha filha deve sentir-se feliz; faz um bom casamento e todos devemos nos alegrar com a notcia.
Ela apertou os lbios para no chorar e sem dizer uma palavra, correspondeu ao abrao; todos ficamos  volta, olhando. Francisca Miquelina foi a ltima a entrar 
e, com os grandes olhos brilhantes, perguntou da porta:
        Que foi? Nosso pai mandou-nos chamar?
Quando soube de que se tratava, saudou Maria Letcia enquanto papai mandava servir o vinho para festejar o acontecimento; tio Antnio, o irmo mais moo de mame 
e que morava conosco, levantou os dois braos para cima, exclamando :
        Trs bien, ma petite, trs bien.
E beijou com suavidade a testa de Maria Letcia. Ele foi educado na Europa e tinha a mania de falar francs; em toda conversao, enxertava frases em francs e achava 
isso trs distingue. Estava agora comeando a envelhecer; j passava dos quarenta e comeava a engordar, mas ainda era elegante. Usava bigodes muito bem tratados, 
 Napoleo III, com as pontas bem finas e retorcidas que ele acariciava com cuidado enquanto conversava. Mas tio Antnio no gostava de trabalhar; papai, por vrias 
vezes, indicara-lhe alguns cargos elevados, que ele recusava com ar superior; nada estava  altura da sua competncia, do seu nome, da sua capacidade. Achava que 
homens ricos no deviam ocupar-se de nada, ainda mais trabalhos rotineiros; era imprprio, ridculo. Passava os dias lendo livros franceses, ou tocando ao piano 
canes que aprendera em Paris; j no era rico, pois diziam que gastara uma fortuna na Europa, onde tivera cavalos de raa
 e freqentara os sales do Faubourg Saint Honor. Diziam tambm que tivera um castelo em Fontainebleau, onde dera festas suntuosas; isto, porm, no ficou provado. 
Quando falava na poca passada em Paris e nas manhs do Bois, onde passeara seus belos cavalos, seus olhos despediam fascas e todo seu corpo vibrava no entusiasmo 
das recordaes. Papai e meus irmos mais velhos desprezavam-no um pouco no ntimo, assim creio, pois viam-no levar essa vida ociosa, tomando ch com as damas dizendo 
que une robe cor de ervilha deve ser usada com rendas creme e que um robe de brocado no precisava enfeite porque a fazenda j enfeitava. Sabia, como ningum, dar 
receitas de pratos raros; ele que ensinou mam Zabel a preparar peitos de pombo com molho de vinho de Porto e um pudim de ovos, delicioso. Nos ltimos tempos, vi-o 
mais de uma vez pedir dinheiro  mame, s escondidas, e creio que mame dava bem contrariada. Gostava de passar os dias
 conversando, lendo ou cochilando, deitado na rede do alpendre; s vezes cantava: Mon vieux Paris... Em surdina, sorrindo e afagando os belos bigodes de que se orgulhava.
Nessa tarde, com o clice de vinho na mo, felicitou Maria Letcia em francs, enquanto papai explicava a todos:
        Esses Seixas de Albuquerque so do Estado do Rio; famlia de nome. O av de Ferno, Visconde de Seixas, tomou parte saliente no Gabinete Liberal do Visconde 
de Maca, em 48. A famlia  muito rica, o pai tem umas vinte fazendas e mil e quinhentos escravos trabalhando na cana e no caf.
Um ah! de admirao acolheu essas palavras e papai continuou:
        Ferno Seixas j tem uma fazenda prpria: Santarm.
Terras muito produtivas. Caf e engenho de cana.
Mame perguntou com voz apreensiva:
        E a nossa filha vai residir nessa fazenda de Santarm?
        Penso que por ora no; Ferno Seixas pretende primeiro formar-se em Direito; est no quinto ano. Ele me disse que vo ficar uns tempos na chcara da Penha, 
aqui em S. Paulo. Dizem que  uma belssima chcara.
Discorreram a respeito do casamento durante algum tempo. S Maria Letcia no dizia nada, sempre com os olhos no cho. Papai perguntou dirigindo-se a mame:
        Ferno Seixas pode fazer uma visita  noiva de hoje a quinze dias?
Mame espetou a agulha numa rosa dourada e refletiu um pouco antes de responder:
 O senhor no acha que daqui a um ms ser mais conveniente? Haver tempo de sobra para fazer os preparos com antecedncia.
Papai falou com Maria Letcia, sacudindo a cinza do charuto:
        Prepare-se para receber seu noivo de hoje a um ms.
        Sim, senhor.
Dormamos as trs no mesmo quarto: Maria Letcia, Francisca Miquelina e eu. Fiquei acordada durante muito tempo e percebi que Maria Letcia tambm no dormia; com 
certeza pensava no noivo, fora tudo to inesperado! Pensei como havia de ser bom pensar num noivo, imaginar a cor dos seus olhos, as primeiras palavras que me diria 
no dia do noivado, na ternura do seu olhar, no primeiro aperto de mo. Decerto eu ficaria muito acanhada e nem saberia que havia de dizer. Se dissesse apenas: Boa 
tarde!, seria muito pouco. Se dissesse: O senhor como vai? Est passando bem? Que bobagem chamar o noivo de senhor; isso  tempo antigo. Hoje a gente diz voc 
logo no primeiro dia; papai  capaz de no gostar, mas eu digo, ora esta! Mais tarde, direi a papai confidencialmente: No seu tempo a noiva dizia senhor, mas hoje 
no, papai; desculpe-me, mas os tempos so outros. E digo voc a Ferno, desde o princpio. A questo  que me esqueci
 da cor dos olhos de Ferno; creio que so acinzentados. J tive um vestido assim, de gorgoro, entre cinzento e azulado. At discutiam a cor do vestido; quando 
eu vestia esse vestido, colocava uma camlia na cabea, no sei por que. Os olhos de Ferno so assim, como o vestido, no como a camlia; camlia  branca ou cor-de-rosa, 
os olhos dele so cinzentos. Deixa ver se me lembro do jeito que ele sorri... Nossa Senhora! Mas... O que ser isto? Estou pensando no noivo de Maria Letcia? Credo! 
Ele vai casar com ela e no comigo. Vou tratar de dormir; Satans est me tentando, vou rezar uma Ave-Maria. Espere a. Ave, Maria...
Nesse momento, ouvi soluos do outro lado do quarto; Francisca Miquelina estava chorando, ela tambm estava acordada na sua cama perto da janela. O que seria? Fiz 
um movimento para me levantar, quando vi Maria Letcia acender a vela da cabeceira, quase sem fazer rudo. De camisola branca, comprida at os ps, as lindas tranas 
soltas nas costas, aproximou-se da cama de Francisca Miquelina e perguntou com solicitude:
        Francisca Miquelina, por que est chorando?
Imvel na minha cama, fiquei escutando e fingi que dormia. No ouvindo resposta, Maria Letcia colocou o castial sobre a mesinha e pegou no brao de Francisca Miquelina; 
tornou a perguntar:
        O que tem? Por que est chorando? Sente alguma dor? Fale!
Francisca Miquelina parou de chorar um momento; afastou os cabelos que caam sobre a testa, olhou para Maria Letcia e, mergulhando novamente o rosto entre as mos, 
chorou mais forte, soluos angustiosos; Maria Letcia debruou-se sobre o leito, sem saber o que fazer. Falou energicamente:
        Mana Francisca Miquelina, diga o que tem, diga. Quer que chame nossa me?
A resposta veio entre soluos:
        No. No quero nada, nada.
 Ento por que chora assim? Algum lhe fez algum mal? Fale, fale, mana.
Francisca Miquelina sentou-se na cama limpando as lgrimas com as mangas da camisola; empurrou os cabelos para trs outra vez e encarou a irm:
        No tenho nada. J disse que no tenho nada e, mesmo que tivesse, no diria.
 Ora esta! Por qu?
Ela apertou os lbios com fora e no respondeu.
        Por que, Francisca Miquelina? Fiz alguma cousa?
Ento  comigo?
Ela apertou mais os lbios; a chama da vela tremulava iluminando as duas enquanto eu, do meu canto escuro, olhava. Maria Letcia insistiu:
        Diga,  por minha causa?
Os soluos recomearam outra vez e Francisca Miquelina tornou a esconder o rosto entre as mos, dizendo:
        Preferia morrer a dizer.
Maria Letcia pensou um instante; depois pegou o castial e aproximou-o do rosto da irm; com a outra mo segurou-lhe o brao fortemente:
        Diga de uma vez. Eu preciso saber.  por causa de Ferno?
Fez-se breve silncio. Os soluos diminuram. Ela insistiu:
  por causa de Ferno? Francisca Miquelina, fale de uma vez.
        No.
        Ento por qu? Quero que diga logo;  por causa de Ferno que est chorando?
Francisca Miquelina tomou uma resoluo; sentou-se na cama, enxugou o rosto e encarou Maria Letcia; depois disse com lbios trmulos:
        Pensei que... que... que... ele me escolhesse.
Chorou de novo. Maria Letcia sorriu triunfante e aproximou mais a vela do rosto de Francisca Miquelina:
        Mas  a mim que ele quer desposar. No viu como me olhava durante as cavalhadas no Rio de Janeiro? Eu no olhei, mas vi.
A voz veio entre soluos:
 Mas ele olhava tambm para mim... pensei que... ele... me quisesse.
Maria Letcia levantou a cabea com ar altivo:
        Mentira. Ele olhava para mim, s para mim. Eu vi.
E depois... eu sou mais velha, j fiz dezesseis anos, voc fez quinze outro dia mesmo. Papai gosta de casar primeiro as mais velhas. E ele me escolheu por ser mais 
velha; no adianta chorar e suspirar desse jeito. Ele gostou de mim. E se for fazer queixa a algum, conto para papai. Entendeu bem? Boa noite.
Levantou-se com a vela na mo; Francisca Miquelina segurou-a pela camisola:
        Se papai gosta de casar primeiro as mais velhas, ento devia escolher a mana...
E olhou para o meu lado; Maria Letcia sorriu e compreendeu; falou com voz compassiva:
        Boba! Ela no foi feita pra casar,  muito tmida.
Olhe, Francisca Miquelina, o amor  sublime e quando a gente ama, ama at a morte.
Baixou mais a voz:
        Outro dia, tirei um livro da biblioteca de tio Antnio, ningum sabe... um livro de Stendhal.  proibido para moas.
Interessada, Francisca Miquelina levantou um pouco a cabea para escutar melhor; apoiou-se num cotovelo enquanto Maria Letcia continuou com nfase:
        O livro conta a vida de Helena de Campereale. Ela fugiu para amar um homem, fugiu porque os pais no queriam o casamento. Teve muitas aventuras, mas no 
conseguiu o que queria... Coitada!
 O que queria ela?
        Amar o homem, viver com ele. Houve tanta cousa que eles no conseguiram nada. Ah! Se fosse comigo... Eu havia de conseguir...
        No diga isso, Maria Letcia!
        Deixaria pai, me, tudo para seguir o homem que amo. Isso  amor, voc no sabe. Para amar  preciso coragem, beleza e inteligncia. Mana Rosa no pode 
amar.  feia, tola e tmida. (Mana Rosa era eu.)
        E por Ferno voc abandonaria tudo?
        Ainda pergunta?
        Conte mais alguma cousa do livro que leu. E depois?
        Agora no,  muito tarde. Amanh.
Maria Letcia voltou para o leito; assoprou a vela e o quarto retornou ao silncio. Durante muito tempo, fiquei escutando, tudo estava tranqilo. Eu era feia, tmida 
e tola. Pobre de mim, ningum me escolheria. Na escurido que nos envolvia, imaginei Maria Letcia tranando e destranando os cabelos escuros e pensando no noivo. 
Sorrindo no escuro. As outras irms podiam casar-se com quem papai escolhesse, ela no. Foi ela quem escolheu.

CHEGOU o dia da visita de Ferno; Maria Letcia amanheceu pensativa; Modesta entrava e saa do quarto, afobada. Muito antes da hora, comeou a pente-la; repartiu 
os cabelos quase negros ao meio da testa, prendeu as duas tranas na nuca e borrifou gua de jasmim nos braos e no colo de Maria Letcia. Depois, comeou a vesti-la, 
auxiliada por mim; primeiro o camiso, o colete, a armao de arame, as saias de baixo e, finalmente, o vestido de cetim azul celeste. Enquanto vestia, Modesta dizia 
que, se a cor do vestido fosse um pouco mais escura, combinaria melhor com os olhos da Sinhazinha que pareciam duas flores azuis depois da chuva. Maria Letcia sorriu, 
satisfeita.
        U, no aquerdita? Lembra do crguinho de Guararema? Aquele perto do monjolo que est cheinho de flozinha azul dependurada n'gua? No posso oi pra vossunc 
que lembro das flozinha do crguinho, e quando t l e vejo as flozinha lembro de vossunc.
Modesta apertou com fora os cordes do colete enquanto com as saias prontas na mo, eu esperava. Maria Letcia gritou:
 Ai, Modesta, no aperte tanto assim. A flor azul  miostis. Papai sempre diz que eu tenho os olhos da av portuguesa, no ouviu falar? Por que aperta desse jeito? 
Eu arrebento.
Modesta fungou:
        Quem  que qu s bonita? Quem foi que disse hoje cedo pra mim: Modesta, quero ficar linda hoje pra receber meu noivo.... Falou noivo com a boca cheia. 
Quem foi? Quem  que tava me adulando?
        Mentirosa.
        Credo! Sinh Rosa viu muito bem, sabe que no s mentirosa. Agora vem com lambana: No aperte que arrebento. Ainda me chama de mentirosa.
Amarramos os cordes das saias, depois vestimos o longo vestido; Modesta comeou a abotoar os colchetes desde a gola at a cintura. Depois resmungou:
        Todas j to pronta, Sinh baronesa t no salo h que horas... Sinh Leopoldina vai chega. Veja -, um carro parou na porta, deve s ela.
Maria Letcia arregaou a saia de cetim e correu para a janela para ver nossa irm casada descer da carruagem, espiou atravs da rtula. Modesta foi atrs, censurando:
        Assim desse jeito, eu no acabo de abotoa esse vestido, Sinhazinha. Sossegue um poo.
Com as saias arregaadas, Maria Letcia fez um sinal para mim:
        Rosa, venha ver Leopoldina com o vestido de veludo cor de pinho. Depressa.
        J vi.
        No viu nada; venha ver daqui.
Modesta resolveu intervir e aproximou-se de Maria Letcia:
        Nossa Senhora do Rosrio, sossegue um poco. Vamos acab de vesti.
        Estou sossegada; tambm voc  uma lerda.
        Pode xing quanto quis, mas quero v quem sabe pente Sinhazinha to bem como esta negra aqui.
E bateu no peito. Nesse instante, uma das escravas falou atrs da porta:
        Sinh baronesa mand pergunta se Sinh Letcia no t pronta. To no salo esperando.
Modesta abriu a porta:
        J vai.
Voltou-se para Maria Letcia:
        No disse que tamo atrasada? Tava s brincando...
quando eu falo, ningum aquerdita. Pensa que tudo  brincadeira. T vendo?
Tirei um leque da gaveta da cmoda e dei a Maria Letcia. Ela bateu com impacincia o p no cho:
        No quero este, quero o novo, o de penas roxas e brancas.
Modesta assustou-se:
        No, Sinhazinha. Pena roxa  pras casadas.
        Mas eu quero,  muito mais bonito que este. Ande, mana Rosa.
Olhei Modesta; ela tornou a intervir:
        Por amor de Deus, Sinhazinha, o que seu noivo vai pensa? Veja bem, no dia do noivado, aparece com leque de pena roxa? Parece at que t arrependida. Roxo 
 tristeza, no , Sinh Rosa?
Maria Letcia tornou a bater o p direito no cho; falei:
        Leve o branco, Maria Letcia, mas esse no.
        O branco no fica bonito.
        Ento este. Olhe que beleza.
Maria Letcia no deu ateno s minhas palavras; passou pela gaveta da cmoda, tirou um leque cinzento e saiu do quarto abanando-se. Modesta seguiu-a sacudindo 
a cabea e eu fui atrs das duas; antes de entrar no salo, ela chegou  porta do jardim e mandou o moleque Lucas colher uma rosa cor-de-rosa; corri e fui buscar 
um alfinete e com ele prendi a rosa na cintura de Maria Letcia; ela sabia que, na linguagem das flores, rosa significava amor; lera num livro. Mas no momento de 
prender a rosa, espetou o dedo mnimo num espinho e foi assim que entrou no salo: chupando o sangue do dedinho.
Todos estavam l; ela recebeu os cumprimentos dos irmos e dos parentes prximos; colocou-se entre papai e mame e ficou  espera do noivo. Estava linda, mas um 
pouco agitada; percebi que, com o canto dos olhos, procurou Francisca Miquelina; desde o dia em que tinham anunciado seu compromisso com Ferno Albuquerque, no 
se falaram mais e discutiram muito no dia seguinte por causa de Ferno. Francisca Miquelina andava esquisita e s lhe dirigia a palavra quando outras pessoas estavam 
presentes; parecia evit-la. De repente viu Francisca Miquelina sentada perto de uma porta, entre as primas, conversando com calma; na cabea, levava como enfeite 
um ramo de esporinha. Vi que Maria Letcia ficou vermelha de raiva. Sobressaltei-me. Como  que Francisca Miquelina tinha coragem de pr esporinhas nos cabelos? 
Toda a gente sabia que essa flor significava tristeza.
Estava escrito no livro. E no ficava bem. Tristeza nesse dia? Teria ela feito de propsito?
No tive tempo de pensar mais; ouvimos o rudo de um carro parar  porta de casa e, a seguir, o noivo entrou no salo acompanhado dos pais e irmos mais velhos. 
Quando ele se inclinou diante de papai que se adiantava para receb-lo, todos ouvimos papai dizer:
 Maria Letcia, eis aqui seu noivo, Ferno Seixas de Albuquerque.
Como ele era bonito! Muito mais bonito do que a lembrana que ficara na minha memria; olhei os dois e vi quando ele se inclinou diante da noiva, sorrindo levemente. 
Meu corao deu um salto como se fosse eu a escolhida. Os dois se olharam de perto pela primeira vez. Ferno era forte e moreno, tinha altura regular e um sorriso 
simptico: era simplesmente atraente. Observei-os com ateno. Faziam um belo par. De vez em quando, eu procurava Francisca Miquelina para observ-la tambm; conservava-se 
arredia e enigmtica.
Toda a famlia se adiantou para cumprimentar os noivos; entre o ruge-ruge das sedas e o abanar de leques, vieram apertar as mos dos noivos e desejar-lhes felicidades. 
Novamente, vi Maria Letcia procurar com os olhos Francisca Miquelina; ela observava Ferno de longe, plida e inquieta, os lbios estranhamente cerrados. Vi quando 
se aproximou dos noivos, o semblante fechado e os olhos baixos; beijou a irm e, sem dizer uma palavra, apertou a mo de Ferno; depois, afastou-se com passos vagarosos, 
abanando-se com o grande leque de penas roxas que Modesta no deixara Maria Letcia usar. Ao andar, as esporinhas tremulavam entre os bands castanhos. Vi que Maria 
Letcia mordeu os lbios de raiva e murmurou baixinho: Atrevida! Pois Francisca Miquelina fazia de propsito.
Os escravos dirigidos pelo mordomo Benedito entraram trazendo doces e refrescos e, enquanto todos conversavam pausada e cerimoniosamente, os noivos conseguiram trocar 
entre si as primeiras palavras. Logo mais, papai mandou vir champanha na grande bandeja de prata que pesava dezesseis quilos e vinha carregada por dois escravos; 
as vozes se calaram. Cada convidado tirou uma taa e, depois de todos servidos, o velho Seixas, pai de Ferno, deu uns passos solenes para o centro do salo. Era 
alto e forte, estava de sobrecasaca e colete xadrez; tinha uma barba branca  volta do rosto e dava a impresso de uma lua cheia; olhou os noivos e, levantando a 
taa bem alto, brindou o futuro casal. Disse que havia muito tempo almejava tal aliana entre as duas famlias e o longnquo parentesco existente entre os So Marcos 
e os Albuquerques iria estreitar-se ainda mais com o feliz enlace; disse mais palavras como essas e terminou levantando mais a taa e quase gritando:
  Felicidades!
Palmas romperam em todos os cantos do salo; nesse momento, vi Ferno dar um estojo de veludo a Maria Letcia; quando ela abriu, vi o brilho de um adereo de rubis 
e brilhantes; de um lado, um bracelete e brincos, de outro, um lindo colar. Todas a rodearam para ver as jias lanando exclamaes entusisticas; Maria Letcia 
comeou a beber o champanha aos golinhos, quase em xtase; estava tremendo de felicidade e de orgulho ao mesmo tempo.
Os tios idosos pareciam apreensivos pelos cantos do salo: conversavam em voz baixa sobre a guerra do Paraguai; nosso tio de Paiva dizia que soubera no Rio de Janeiro, 
de fonte fidedigna, que Caxias ia passar o comando do exrcito. O tio de Sousa Mendes sacudiu com o dedinho a cinza do charuto, um pouco nervoso:
        Ento, quem ficar no lugar de Caxias? Quem assumir o comando das tropas?
 Dizem que ser o Conde d'Eu. Vrias vozes falaram ao mesmo tempo:
        No acredito.
-        No  possvel.
        Caxias tem-se portado de maneira brilhante. Temos Itoror.
        E Ava?
        E Lomas Valentinas?
Papai estendeu a mo pedindo calma:
        Esperemos. Esperemos, senhores. O que mais me impressiona neste momento  que dois filhos meus querem partir.
Tio Paiva suspirou:
        Os meus tambm... E esta guerra est demorando muito. No sei onde vamos parar...
Houve uma pausa enquanto os primeiros convidados se retiravam; nessa mesma noite o casamento de Maria Letcia ficou marcado para o ms seguinte: 8 de fevereiro de 
1869.
Dirigimo-nos para o quarto onde Francisca Miquelina j estava deitada, a cabea coberta. Modesta desabotoava os vestidos e comentava a festa; falou do Sinh Ferno 
 garboso como poucos, dos convidados, dos vestidos das damas; desfez as tranas de Maria Letcia e s deixou o quarto depois que a viu deitada; com um boa noite, 
Sinhazinhas, apagou a vela e foi embora. Ficamos quietas, escutando a escurido; por toda a parte o silncio e as trevas; toda a cidade dormia. Como eu seria feliz 
se fosse a noiva. Santo Deus! Ferno era moo, bom e simptico. Na hora de despedir-se, ficou segurando a mo de Maria Letcia com tanta ternura e eu senti um arrepio 
como se ele segurasse a minha mo. Era Satans que me estava tentando outra vez; mentalmente rezei uma Ave-Maria e a tentao passou. Durante todo o tempo, observei-o; 
quando falava, quando ria, quando tomava vinho. Era capaz de am-lo at a morte, mas sou feia, tola e t EDmida. No posso ser amada. Meu Deus! Estou outra vez pensando 
no noivo de minha irm; dai-me um bom sono e afastai-me da tentao.
Enquanto pensava, ouvi um rudo; era Maria Letcia que se levantava e andava s apalpadelas pelo quarto; ouvi a voz dela chamando em voz baixa Francisca Miquelina:
        Francisca Miquelina!
Ouvi um movimento e uma voz sussurrar:
        Estou com enxaqueca!
        Fale de uma vez. Quero s saber isto: Tem raiva de mim e de Ferno?
        No.
        Ento por que anda to esquisita? No falou com ningum, sempre com ar aborrecido num canto do salo. At me perguntaram se voc estava doente; bem sabe 
que no tenho culpa do que aconteceu...
Silncio.
        Voc acha que tive culpa?
        No.
        Ento tem raiva dele? Ele tem culpa? Silncio.
        Voc no quer responder? Pois no responda. Ao menos pode dizer-me por que estava com um ramo de esporinhas na cabea?
         toa.        
-        No se pe flor  toa no cabelo, veja bem. Conto tudo para nosso pai; conto que voc me estava provocando.
        Mas eu no estava.
        Mas eu conto que ps esporinhas no cabelo s para me aborrecer e para dizer que est triste com meu noivado...
Francisca Miquelina mexeu-se na cama, depois disse com voz de choro:
        Estou com enxaqueca, j disse. Mas no estou zangada.
Maria Letcia ameaou:
        Veja bem, hein? Se falar a algum, j sabe o que acontece. Conto tudo.
        No falo.
Tateando, Maria Letcia voltou para seu leito e deitou-se. Durante algum tempo, fiquei acordada, pensando: Aqui neste quarto, Ferno Seixas tem trs noivas e no 
uma. Uma  de verdade, duas de corao.
Todas as escravas que sabiam bordar, foram reunidas para fazer o enxoval de Maria Letcia; Modesta dirigia e distribua o trabalho; passavam o dia todo bordando 
e tecendo rendas. Maria Letcia continuou tomando lies de piano e francs; durante horas inteiras, ficava sozinha no salo tocando uma mazurca de Goddard de que 
Ferno gostava muito. Francisca Miquelina continuava esquisita e reservada.
Muito antes do dia determinado para a cerimnia do casamento, nossa casa movimentou-se; chegaram hspedes do Rio de Janeiro, das fazendas e das chcaras longnquas. 
Uns vinham a cavalo, outros em grandes carruagens, outros ainda em liteiras. O casaro ficou cheio: os escravos tinham servio dobrado, mas estavam contentes porque 
a festa ia durar trs dias: receberiam roupas novas e papai daria carta de alforria como fazia sempre que casava um filho. Cochichavam pelos corredores; uns diziam 
que Z Congo teria liberdade esse ano, outros diziam que era Jernima e Tedulo, mas ningum sabia ao certo e papai guardava segredo at o ltimo momento.
Todas as manhs, mame recebia Modesta em sua sala particular, depois a chefe da cozinha que era Mam Zabel e o Benedito que dirigia os escravos de dentro e tratava 
da ornamentao da casa. Mame dava ordens, explicava tudo com pormenores e inquiria:
        Mam Zabel, que se fez ontem?
Mam Zabel, a escrava mais antiga da casa e de maior confiana, contava nos dedos enquanto revirava o corpo grande e pesado de um lado a outro.
        Ontem foi dia dos sequios. Sequios de araruta, de coco, de polvilho... de fub mimoso... Tem sequio prum mundo, Sinh.
Mame sorria com complacncia; com as pontas dos dedos, arrumava os fios de cabelo que escapavam de dentro da touquinha preta que usava de manh; depois procurava, 
na penca de chaves que trazia  cintura, a chave da despensa e a entregava a Mam Zabel:
        Quero que faa os bolos hoje; biscoitos tambm.
        Sim, senhora. E os doces de calda?
        Amanh ser dia dos doces de calda.
Mam Zabel retirava-se, orgulhosa com a confiana que mame depositava nela, levando a chave da despensa de modo que todos vissem, com as saias engomadas fazendo: 
flac, flac...
Modesta entrava e falava das costuras, dos bordados, das rendas; dizia o que precisava para o dia; depois fazia um ar desanimado e ficava olhando o cho, esperando. 
Mame perguntava :
        Que mais, Modesta?
         aquela negrinha, Sinh. A Merenciana. Fazia uma pausa e continuava:
        Vadia como ela s. T impossive, no trabia direito, pede toda hora pra sa, at estragou o bordado do cabeo de uma camisa de Sinh Letcia.
Fazia uma pausa, embaraada:   Acho que ela t precisando de uma sova...
Mame que no gostava dos castigos corporais, procurava outros meios para corrigir os escravos e dizia, apaziguando:
        Diga a Emerenciana que se continuar assim no receber vestido novo para o casamento de Sinh Letcia. Todas recebero, menos ela.
Modesta saa apressada, pisando firme. Benedito entrava pedindo ordens; dizia ter encomendado flores em todas as chcaras de S. Paulo: rosas, dlias, brincos de 
princesa, jasmim do cabo, do imperador; mame recomendava-lhe no se esquecer de um pouco de verde para enfeitar os lustres e as mesas. Benedito perguntava:
        Melindre, Sinh?
        Pode ser melindre, avencas e palmas, algumas palmas.
E Benedito saa para cumprir as disposies; andava curvado. O tempo que havia trabalhado no eito, deixara-lhe a marca: andava com o busto meio dobrado para a frente 
como se carregasse um peso enorme e suas mos eram encarquilhadas e grossas. Ia repetindo pelo caminho contando nos dedos: Melindre, avenca, alguma palma, melindre, 
avenca...
Ouvia-se o dia todo o piano do salo; eram as primas que tocavam valsas, polcas, mazurcas. De vez em quando, ouvia-se a harpa de Francisca Miquelina, que escolhia 
as msicas mais tristes e as interpretava com sentimento. Eu ficava espiando na porta do salo; em seus olhos escuros pairava certa melancolia e quando se sentava 
ao lado do instrumento e seus dedos passeavam tateando as cordas, a harpa parecia chorar com ela e cada nota era como um gemido; parecia acompanh-la nas horas de 
tristeza. Todos escutavam em silncio, quando Francisca Miquelina tocava a Serenata de Schubert, eu disfarava e ia chorar no quarto, pois a msica era muito triste. 
Ningum l nos coraes, mas creio que Francisca Miquelina sofreu muito durante o noivado de Maria Letcia; s a harpa sabia, por isso parecia que choravam juntas 
quando ela tocava.
Dias antes das festas chegaram nossos tios; um era o Conselheiro de Paiva que residia no Rio de Janeiro. Chegou com nossa tia e doze filhos; trouxe grande quantidade 
de escravos e tambm parte do enxoval de Maria Letcia, confeccionado pelas bordadeiras da corte. Outro tio, o Baro de Sousa Mendes, era muito rico: morava numa 
fazenda de Guaratinguet. Veio com titia e apenas dezesseis filhos mais jovens; os mais velhos andavam de estudos pela Europa. Presenteou Maria Letcia com uma baixela 
de prata portuguesa de quase cem peas. Os irmos de mame tambm foram chegando; residiam nas fazendas de Taubat ou em chcaras fora da cidade.
Uma das tias tinha uma filha aleijadinha, menina de seus doze anos, plida, nariz muito comprido e olhos amortecidos. Andava sempre em companhia de uma mucama chamada 
Prudncia, a vigi-la. Era corcunda e as perninhas, finas como se fossem quebrar, mal se adivinhavam sob as saias engomadas; o pescoo parecia desaparecer entre 
os ombros enormes. Chamava-se Carola, mas, longe dela, as crianas diziam: a priminha corcunda. No gostavam dela na mesa, costumava beliscar os que sentavam ao 
lado; era a maneira lgica de vingar-se dos que no tinham nada nas costas.
Muitas vezes Prudncia segurava-lhe a mo, j sobre o brao da vtima; e quando Prudncia no segurava a tempo, l vinha o grito: Ai! Prima Carola me beliscou!
O pior era quando conseguia arranjar um alfinete ou um broche; aproximava-se disfaradamente e enterrava o alfinete nas carnes das crianas ou nas pernas das escravas, 
e ento seu rosto plido transfigurava-se pelo prazer da vingana. As crianas gritavam e as mes precisavam intervir; ento Carola chorava e dizia que a provocavam. 
Prudncia pedia que perdoassem, era doentinha, coitada! Tivessem pacincia.
Os pais de Carola ficaram hospedados em casa de nossa irm casada, Leopoldina, que residia na ladeira da Memria; outros hospedaram-se em casas de parentes, situadas 
nas redondezas.
O programa das festas ficou assim organizado: concerto e ceia no primeiro dia; segundo dia: jantar de gala, distribuio de cartas de alforria aos escravos e danas; 
terceiro dia: cerimnia do casamento, ceia, grande baile.
Na noite do concerto, nossa casa encheu-se de animao: mame estava triste com a ausncia de dois filhos: os gmeos Incio e Leontina. Incio estava na Europa, 
aonde fora estudar pintura, bem contra a vontade de papai; Leontina estava casada havia dois anos com um primo de Paiva; residia numa fazenda em Campos, onde possuam 
grandes usinas de acar. Como estava esperando filho, no pde vir a So Paulo, para as festas do casamento.
 hora do concerto, Ferno, que fora dos primeiros a chegar, sentou-se ao lado de Maria Letcia, no sof do salo, rodeado por todos ns. s oito em ponto, deu-se 
incio  msica; tocaram solo de piano, depois piano acompanhando a flauta, o violino e o violoncelo. Francisca Miquelina interpretou o minueto de Mozart, na harpa, 
acompanhada pela flauta de Lus e pelo violino do primo Lenidas. Um dos primos de Paiva, estudante de Direito, declamou uma poesia de Casimiro de Abreu; Leopoldina 
tocou Dalila em surdina, para acompanh-lo. Mais tarde, titia de Paiva lembrou-se de pedir a Francisca Miquelina para tocar a Serenata de Schubert, Francisca Miquelina 
no estava no salo. Mame fez-me um sinal para que fosse procur-la e Modesta foi atrs de mim com um vestido novo engomado, recendendo a manjerico. Encontramos 
Francisca Miquelina no quarto, a cabea encostada na rtula, chorando no escuro. A mucama levou um susto e eu fiquei parada,
  olhando.
 Que ser isto, Sinh Moa? Todos to chamando Vossunc pra toc a Serenata. No faa Sinh baro esper, fica feio.
Aproximei-me de Francisca Miquelina e pedi que voltasse ao salo, pois haviam de reparar e sua ausncia seria comentada. Segurei a vela, enquanto Modesta comeou 
a passar o leno muito de leve no rosto dela, sem parar de falar:
        O que ho de diz? Comea logo os falatrio; o unindo  mais ruim que bo, vo diz logo que  coisa de am.
Pensa que no sei? Vai v. Fica feio, t avisando.
Francisca Miquelina foi-se acalmando; de repente comeou a passear pelo quarto e a desabafar; dizendo-se infeliz.
        No fale assim, Francisca Miquelina. Por que infeliz?
Modesta acendeu outra vela; olhamos Francisca Miquelina que continuava a andar pelo quarto; Modesta exaltou-se:
        No diga que  infeliz; quem tem tudo como Vossunc no pode s infeliz. Cruz credo! Isso at  tenta do demo.
        Mas sou.
        Num . Que  que falta pra Sinh? Bonita como um jasmim, rica, mimada. Um dia arranja um moo bonito como Sinh Ferno, vamo t mais festa, mais casamento. 
Sinh Rosa t a pra fal.
        Francisca Miquelina, vamos para o salo. O que mame estar pensando? Vamos!
Ela passeava pelo quarto, arrastando o vestido de brocado de um lado a outro, sem me ouvir, sem se resolver a sair. De p perto da porta, Modesta a observava e insistia:
        Vamo, Sinh Francisca. Vamo embora, t avisando.
De repente, falou em voz baixa:
        Nossa Senhora, ser tudo isso por causa do Sinh Ferno?
Como se alguma cousa a assustasse de sbito, Francisca Miquelina parou no meio do quarto e encarou Modesta com a testa franzida:
        J vem essa negra novidadeira com embustices; no invente histrias, Modesta. V embora e deixe-me sozinha.
Modesta olhou-me rapidamente como se quisesse dizer que acertara; fingiu que estava zangada:
 Num vou, ta. Num vou sem Sinh Moa sa daqui. O que os convidado vo pens? Temo que sa junta daqui. Tenha juzo, Sinh Francisca, t avisando... Deixe de t 
se amofinando por causa do noivo das outras...
Ouvimos o rudo dos passos ligeiros de Mam Zabel; entrou tambm no quarto varrendo o tapete com as saias barulhentas.
        Que  que Sinh Francisca tem? Tudo t esperando no salo. Vamo toca harpa: Sinh baro mand cham...
        No mandou...
        No mand? Por alma da defunta Sinh Chica que Deus guarde, mand. T dizendo que mand.
E Mam Zabel cruzou dois dedos e beijou-os com efuso; depois ajeitou os cabelos de Francisca Miquelina, enquanto falava:
        Sinh Moa t to bonita hoje. Vamo; t vendo que logo temo outro casamento nesta casa. Pensa que a negra no tem io pra v? Vamo toca harpa, no esqueceu 
o leque?
Vamo, Sinh Rosa.
Entramos no salo; Francisca Miquelina sentou-se ao lado da harpa, passou de leve os dedos pelo instrumento, arranjou a saia em ondas graciosas sobre os ps e olhou 
 volta; seus olhos pousaram instantaneamente num dos primos que a mirava extasiado. Sorriu para ele e deu os primeiros acordes da Serenata de Schubert; ouvi a msica 
pensando que muito breve ela tambm se casaria; s eu ia ficando.
Aps o concerto, a ceia; dirigimo-nos todos para a sala de jantar onde centenas de velas brilhavam nos lustres de cristal e onde se enroscavam ramos de melindre 
entrelaados com dlias e brincos de princesa.
Na mesa principal, sentaram-se os noivos, as pessoas mais velhas da famlia e os tios; em outras mesas menores, esparsas pela sala, espalharam-se os mais jovens.
Uma orquestra contratada por papai e vinda do Rio de Janeiro, tocava trechos clssicos em surdina, para no perturbar as palestras: sentado logo aps os noivos, 
estava o tio de Paiva, irmo mais velho de papai. Era um velho quase bonito; a pele rosada contrastava com as suas brancas que lhe ocultavam parte do rosto. Residira 
sempre no Rio de Janeiro e freqentava a corte; tinha certo orgulho disso e seu maior prazer era descrever a vida e os esplendores do Palcio de S. Cristvo. Lembrava-se 
perfeitamente de quando a Arquiduquesa Leopoldina viera da ustria para casar-se com D. Pedro; falava com voz forte, autoritria, em tom de oratria. Ouvamos em 
silncio enquanto os escravos serviam a ceia, movendo-se nas pontas dos ps.
Mame pediu-lhe para contar a chegada da arquiduquesa aos mais jovens da famlia, que no tinham tido ainda ocasio de ouvi-la. Ele comeu o ltimo bocado de peru, 
sorveu um grande gole de vinho e depois de passar o guardanapo pela boca, olhou a sala toda como a pedir mais silncio, cofiou as suas e comeou:
        Lembro-me como se fosse hoje: toda a cidade do Rio de Janeiro se engalanara para receber a Princesa Leopoldina; eu me encontrava entre o povo acompanhado 
de meu pajem; vi-a quando ela passou na carruagem, ao lado do rei. Das janelas e balces das casas pendiam mantos e tapetes coloridos e as mulheres jogavam flores 
a mancheias na carruagem da arquiduquesa; as ptalas de rosas ficavam pairando uns instantes no ar por causa da brisa. Era uma lindeza. Em outras carruagens vinham 
a rainha, as outras princesas, o Infante D. Miguel e demais pessoas. O dia estava conforme, muito agradvel e belssimo.
Mordiscou um quindim e continuou:
        Isso foi a 12 de novembro de 1817 e eu contava justamente dezesseis anos; lembro-me muito bem. Depois do desembarque, dirigiram-se todos para o palcio 
onde foi rezada missa e Te Deum em ao de graas.
Tio Sousa Mendes interrompeu:
        Mas a festa principal foi na cidade ou no Palcio de S. Cristvo?
        No Palcio de S. Cristvo que j estava preparado para receb-los.
Um dos primos perguntou-lhe:
        E o beija-mo, meu tio? Como foi o beija-mo?
O tio Conselheiro alisou as suas com carinho:
        Ah! Isso foi no dia seguinte; houve beija-mo e,  noite, grande concerto. Eu no compareci porque era criana, mas, nossos pais contavam como foi. Os manos 
no se lembram de quando nossa me contava esse fato?
Papai e tio Sousa Mendes concordaram que ainda lembravam. Ao fim da ceia, brindaram Maria Letcia e Ferno, depois levantaram-se e espalharam-se pelos sales. Alguns 
formaram roda para conversar a respeito do episdio evocado pelo tio de Paiva, que continuou a falar para um grupo que o rodeava.
De um lado, eu observava os noivos e vigiava Francisca Miquelina, que disfaradamente tambm olhava Maria Letcia e Ferno. Eles trocavam poucas palavras entre si, 
quase todo o tempo conversavam com os que estavam prximos; no momento de se despedirem, Ferno disse uma frase que fez Maria Letcia corar. Olhei Francisca Miquelina 
que tambm estava corada como se tivesse ouvido e eu senti minhas faces em fogo.
No segundo dia, rezou-se missa em S. Gonalo,  qual compareceram todos; depois do almoo houve a cerimnia da entrega das cartas de alforria a alguns escravos; 
vieram eles com roupas novas, limpos, e postaram-se em fila diante de mame e papai. Parte dos parentes assistia ao ato, de um lado do ptio, enquanto outros debruavam 
no alpendre. O dia estava muito bonito, embora quente; as folhas paradas, o ar luminoso, o sol brilhante e um ou outro pssaro voando l no alto. Quatro escravos 
iam ficar livres. Houve um movimento de alegria quando papai gritou no silncio do ptio: Jos Congo! O silncio que se seguiu foi to perfeito que uma mosca passou 
zunindo e todos a ouviram: Z Congo deixou a fila e caminhou com passos trmulos para receber a carta; depois ajoelhou-se e beijou a mo de papai; em seguida, beijou 
a ponta do vestido de mame. Explodiram aplausos de todos os lados e Z Congo voltou para a fila, mostrando as gengivas vermelhas
  num sorriso trmulo, sem saber que fazer com o papel que segurava na mo, bem apertado entre os dedos encarquilhados. De repente, ele olhou para o alto; uma poro 
de nuvens brancas se amontoava num canto do cu e o sol deu em cheio sobre um passarinho que voava baixo; creio que s neste momento Z Congo compreendeu que estava 
livre; foi quando viu o brilho da asa refletindo o sol. Liberdade! Vi uma lgrima apontar-lhe no olho esquerdo, o olho sempre dolorido e meio fechado, que, muitos 
anos antes, meu irmo Loureno ferira com o chicote. Z Congo baixou a cabea para disfarar a emoo; mas s eu vi aquela lgrima porque papai j chamara outro 
nome: Salustiana! Salustiana era uma das negras da cozinha; veio pisando firme, com as saias armadas recendendo alecrim e rebolando-se. Recebeu a carta, beijou a 
mo de mame sem se ajoelhar e voltou para o seu lugar, toda orgulhosa. Mam Zabel, que assistia  distribuio, fez um muxox
 o de desprezo esticando o beio e resmungou alto:
        ta negra embusteira!
O casal Tedulo e Jernima foram tambm alforriados esse ano; Jernima chorou ao receber a carta e, depois de beijar a mo de mame, voltou soluando para a fila. 
Um dos convidados perguntou:
        E Mam Zabel? Pensei que Mam Zabel fosse receber tambm.
        Gentes, no sabe que sou forra desde o casamento de Sinh Leopoldina? Foi no ptio da fazenda Guararema; quando Sinh baro gritou meu nome: Zab! Senti 
o corao d um safano no peito. Gritei pra mim mesma: Ah! negra, cheg teu dia. Sa da fila sem saber onde pisava, enrosquei os p na saia e quase fui pro cho. 
Tornei a fal: que  isso, negra, tremelique? Quando vortei pra meu lug, tava qui nem peru co rabo pra cima. Mas no deixei a famia do Sinh baro; continuei servi 
eles do mesmo jeito. Quero bem todos; t aqui desde que Sinh Leopoldina era um tiquinho de gente assim; hoje t de fio e eu t firme. Fico at as pernas se neg 
a carreg o corpo. Quero bem Sinh baronesa, ta.
Rimos ao ouvir as explicaes de Mam Zabel; depois fomos assistir  entrega dos presentes aos convidados e aos escravos; Maria Letcia e Ferno distriburam roupas 
e calados aos escravos; depois leques e rendas s primas e parentes.
Recolhemo-nos, ento, aos quartos e alcovas para dormir a sesta;  tarde, haveria jantar e danas.
O banquete foi servido na baixela de prata e os vinhos Diais finos acompanharam os pratos escolhidos a capricho. A alegria era geral e culminou depois do banquete, 
quando a Orquestra tocou msicas de danas e papai, dando o brao a mame, encaminhou-se para o salo de festas. Foi organizada a quadrilha dos casados; apenas os 
casados e os noivos que casariam no dia seguinte, poderiam danar.
Quando a orquestra comeou a tocar a quadrilha de Macbeth e os pares j formados no salo esperavam a voz de mando do tio de Paiva, o salo apresentava aspecto imponente. 
Ns todos ficamos  volta, assistindo, e atrs de ns ficaram os escravos de dentro, que, nas pontas dos ps, espiavam a festa; seus rostos escuros luziam em sorrisos 
alegres.
A certo ponto, o tio conselheiro, com toda a solenidade, de casaca preta, colete branco e gravata de cetim, deu um passo  frente levando titia pela mo e gritou: 
En avant, tour! Trinta e tantos pares se adiantaram com passos cadenciados e inclinaram-se uns diante dos outros; alguns tinham as cabeas grisalhas e outros, inteiramente 
brancas. Entre os que danavam, estava a Baronesa de Sobral, com sessenta e poucos anos de idade; era magrinha e empinada; cabea quase alva, mas era temida pelos 
seus ditos cheios de sarcasmo e malcia. Todo mundo evitava servir-lhe de alvo; com seus olhos perfurantes como verruma, o nariz em ponta avanando diante do rosto 
como se se esforasse por farejar escndalos, zombava de todos com voz fina; a maledicncia era seu passatempo predileto. Quando diziam A Baronesa de Sobral est 
no salo, muita gente se aprumava e olhava ao espelho para verificar se os cabelos estavam penteados, se a gola estava em ordem, se tudo
  estava bem, pois a viva do Baro de Sobral no perdoava e escarnecia dos que mereciam e dos que no mereciam ser escarnecidos. Sua lngua ferina no escolhia 
ningum e no discernia. Quando danava, sobressaa-se entre todos no s pelos cabelos completamente brancos e pelo grande vestido preto rodado, como pela maneira 
de danar,  moda de Lacombe, aos pulinhos.
Danava com o tio Sousa Mendes e de vez em quando cochichava e ria para o par; ns que assistamos  quadrilha dos casados, ficamos entusiasmados ao ver a elegncia 
de todos; nenhum se atrasava, nem se adiantava, mantendo um ritmo perfeito. Tio Antnio, ao nosso lado, no se conteve:
 Oh! Cest beau, voil!
Mam Zabel, a um canto, deu uma cotovelada em Modesta:
 No h como os brancos pra sab dan. Veja que importncia.
Modesta nem respondeu; com os olhos arregalados, no queria perder um detalhe; apenas confirmou com a cabea. S falou quando Maria Letcia passou num galope ao 
lado dela, de mos dadas com Ferno, o largo vestido azul borboleteando no ar e sorriu, um largo sorriso de felicidade. Ento Modesta deu um suspiro e sussurrou:
        Minha fia  a mais bonita de todas, veja que maravia. Quando digo que os io dela parece as flozinha azul do crguinho, ningum aquerdita. To luzindo hoje 
qui nem brasa!
        Onde se viu chama os io de brasa, rapariga? T delirando?
Modesta sacudiu os ombros:
        Modos de fal. To luzindo qui nem fl da beira dgua, isso  que falei.
        Isso sim.
Depois da quadrilha, os pares foram tomar refresco de maracuj e de orchata e os moos danaram o lanceiros; fiquei de um lado, olhando, pois ningum me convidou 
para par. Os mais velhos os observavam; os homens bebendo o refresco em golinhos e as senhoras abanando-se com os belos leques de plumas.
A Baronesa de Sobral conversava com D. Escolstica, uma nossa vizinha; comentava a festa; com sua voz esganiada, a baronesa falava enquanto passava o lencinho de 
cambraia na testa:
        Maria Letcia precisa ter cuidado; homem bonito no d certo, toda mulher cobia. E Ferno Seixas  muito bem posto.
D. Escolstica agitou o leque de rendas e respondeu:
        Ah! baronesa, Ferno Seixas Albuquerque  de boa raa e o que se deve olhar primeiro num casamento  a raa, no acha?
A baronesa tomou um golinho do copo que tinha na mo, conservando os olhos enviesados para o lado dos noivos:
        A senhora fala em raas como se falasse de cavalos; Eles tm razo. A raa est em primeiro lugar, por isso  que  melhor casar os filhos com parentes. 
Suspirou e continuou:
        Mas pensa por acaso que um homem, por ser de boa estirpe,  mais srio do que outros? Bem se v que ainda est acreditando na juventude, eu no acredito 
em ningum mais.
Tomou outro gole de refresco; D. Escolstica sorriu, lisonjeada:
        No sou to nova assim, mas...
A baronesa interrompeu-a mostrando com o copo o tio Sousa Mendes e baixou a voz:
        Olhe o Sousa Mendes,  de boa raa, no ? Conheci-o moo, foi um belo homem, mas muito mulherengo.
Teve tantas aventuras, tantas...
Bateu com o leque umas trs vezes na mesa onde estavam os copos vazios:
        Agora vive amasiado, na fazenda dele, com uma mulata e na prpria casa. A baronesa finge de sonsa, mas v tudo.
E virando-se de repente para D. Escolstica:
        E o baro meu marido? Pensa que no teve pecados tambm? Os homens so peste do diabo.
Senti as faces em fogo e quis sair do meu canto para que me vissem, mas no tive tempo; a baronesa riu com malcia:
 s vezes as mulheres tambm...
D. Escolstica riu abafadamente; percebi que escondera o rosto atrs do leque, depois com voz surda:
        Quem  que pode com uma mulher moa e bonita quando d para virar a cabea dos homens?
A Sobral riu alto, uma risadinha aguda e bateu com o leque fechado na mo de D. Escolstica; olhou depois o salo e falou, disfaradamente:
        A mocidade de hoje no tem compostura; veja um pouco os modos da filha mais moa do Conselheiro de Paiva, e no  muito moa. No sei se se casar, j fez 
vinte anos.
No olhe agora, repare nas promenades; revira-se tanto que a gente v at o meio da perna, atrs. Uma indecncia. E que modos esquisitos de danar! No v que no 
meu tempo era assim; hoje tudo est to diferente... Olhe, daqui a pouco v-se-lhe o joelho... Repare agora. Agora! Vai passar!
As duas se inclinaram na porta do salo para ver melhor; D. Escolstica pareceu horrorizada:
 Credo! Como  que os pais vem isso e nada dizem?
A senhora tem razo; vi-lhe a barriga da perna, inteirinha.
A baronesa abriu o leque e comeou a abanar-se, examinando os outros com olhos aguados e dizendo:
        Viu a barriga da perna? Pois vai ver mais, D. Escolstica. No demora muito e a senhora ver acima da barriga da perna. Estou dizendo que falta compostura 
nas moas. No meu tempo... No v que era assim. Estas novidades arrunam a sociedade.
E comeou a contar episdios do seu tempo; enquanto falava, olhava para os lados, vida de bisbilhotices, numa nsia de descobrir segredos.
Tossi umas duas vezes para denunciar minha presena e levantei-me da cadeira onde estava sentada, atrs da cortina de veludo; as duas ficaram quietas de repente 
e olharam-me, indecisas. Depois, a Baronesa de Sobral olhou rapidamente para D. Escolstica, um pouco assustada, mas dominou-se logo e me disse com voz indiferente:
        Estvamos comentando a festa; estava dizendo que h muito tempo no tinha o gosto de assistir a to bela reunio.
S. Paulo  uma cidade triste, no tem divertimentos. Mas esta festa vale por todo o tempo em que no tem havido nada, no  mesmo, D. Escolstica?
Antes de ouvir resposta, continuou animada:
        E que belo par fazem sua irm e Ferno Seixas! Verdadeiramente, no se v um par bonito assim muitas vezes.
No  mesmo, D. Escolstica?
Mas D. Escolstica estava preocupada; voltou-se para mim com um amvel sorriso:
        No quis danar o lanceiros? Ou j danou e veio descansar um pouquinho no seu canto?
 No dancei, vim assistir daqui. Estava um pouco cansada...
Olharam-me novamente, assustadas; nesse momento, papai aproximou-se, convidando a Sobral para uma polca; ela hesitou fechando e abrindo o leque uma poro de vezes; 
falou com voz fininha:
        J passei da idade das polcas, baro.
        Mas quem dana quadrilha to bem como vossncia, tambm dana polca.
Ela aceitou e apanhando a grande cauda num gesto rpido, deu o brao a papai e foi danar a polca; com corpo inclinado para trs, danava rpida e animadamente, 
como se fosse uma moa.
Fui para outro lado do salo, onde algumas primas estavam conversando; a prima de Paiva, a mesma que a Sobral Murara, falava a uma outra:
 A Baronesa de Sobral no tira os olhos de ns. Que ela que ver aqui? Velha novidadeira! Outra prima replicou:
 Se fosse s novidadeira, ainda bem. Mas  assanhada.
 Voc no viu como ela dana quadrilha? H quem ache bonito, eu no, parece uma lebre a pular diante do p de couve.
Rimos todas escondendo o rosto atrs dos leques; a prima Sousa Mendes respondeu:
        Pois ela tem orgulho disso; diz que aprendeu a danar na Europa.
        Danavam.. danavam... mas, agora a moda  outra.
        Ser possvel? Mas ela diz...
A prima de Paiva tornou a falar:
        Ela diz, como pode dizer muitas outras mentiras.
O que ela ...  presunosa, isso sim. Presuno e gua benta...
Responderam depressa:
        Cada um toma quanto quer.
Tornamos a rir enquanto a prima de Paiva apontava disfaradamente:
        Olhem, veja como ela dana polca; est danando com o tio de S. Marcos. No parece mesmo uma lebre?
        E que vestido exagerado para uma senhora da idade dela. Acho indecente.
Enquanto olhvamos, uma das primas dirigiu-se a mim:
        O que ser que Francisca Miquelina tem? Anda triste e arredia, sempre com violetas no cabelo; no sabe, prima Rosa?
        No. So modos dela; foi sempre assim, um pouco retrada.
E olhei para outro lado a fim de no perceberem que estava mentindo. Continuaram a comentar:
        Violeta  mgoa. Ela est magoada. Por que ser?
        Alguma paixo recolhida? Vamos ver se descobrimos?
De longe, comearam a observar Francisca Miquelina que, sentada l do outro lado, perto de uma janela, olhava a festa, distraidamente.
s onze horas, ouviu-se o rudo das carruagens que levavam os convidados; no dia seguinte, a festa seria mais suntuosa. Todos se apresentavam para assistir ao casamento 
de Ferno e Maria Letcia.
Quase no dormi nessa noite; estava excitada e pensando na festa do dia seguinte; mais umas horas, e Maria Letcia deixaria nossa casa. Era a terceira irm que se 
casava; para onde a levaria o destino?
O dia seguinte amanheceu lmpido e bonito; um dia quente de fevereiro, sem nuvens no cu muito azul, o azul quente do vero. Nossos hspedes levantaram-se cedo; 
muitos saram para ouvir missa em S. Gonalo. O movimento era incessante no sobrado, um ir e vir de pessoas; uns entravam, outros saam, outros, ainda, perambulavam 
pela casa como  procura de alguma cousa.  tarde, o rebolio era indescritvel; escravos passavam sobraando grandes bacias, ou carregavam baldes cheios de gua 
tpida para os banhos dos hspedes. Portas abriam e fechavam com estrpito, vozes clamavam por pajens e mucamas, gritinhos impacientes irrompiam dos quartos; os 
escravos de dentro corriam apressados e, por toda a parte, pelos corredores, quartos e sales, a gua de cheiro se espalhava pelo ar, impregnando a casa inteira.
No ptio, os escravos falavam todos ao mesmo tempo, vigiavam os cavalos dos hspedes tudo em grande afobao. Mame Zabel, comandava o exrcito da cozinha, com autoridade 
e energia. Benedito dirigia os ltimos arranjos das salas e alpendre; havia flores em todos os cantos; rosas grandes e quase desfolhadas; dlias compactas, de ptalas 
muito unidas e entrelidas com melindres, enfeitavam a escadaria de entrada; camlias e avencas caam abraadas das arandelas de cristal. Benedito, imponente na farda 
nova, tudo fiscalizava, reclamando contra o atraso do servio.
Em nosso quarto, Modesta e duas mucamas vestiam Letcia, cerimnia demorada; Leopoldina e nossas duas cunhadas, Eponina e Aninhas, assistiam dando sugestes, intervindo 
nos detalhes. O vestido de Maria Letcia era de brocado branco e os desenhos, entretecidos com fios de prata, formavam flores de lis, aqui e ali, tiras de veludo 
branco atravessavam a larga saia. Sobre o corpete, na cintura, e na cabea, havia numerosas flores de laranjeira, vindas do Rio de Janeiro; e, para a mo esquerda, 
estava reservado um grande ramo de botezinhos amarrados com fitas brancas de cetim, bem compridas.
Os ltimos retoques foram dados por Leopoldina e pelas cunhadas. Aninhas e eu colocamos o vu, enquanto Eponina escolhia o colar que a noiva devia usar; Leopoldina, 
a certa distncia dizia:
        Puxe o vu mais para a frente, assim. No, mais de lado, do lado direito. Assim. Estou achando as flores muito cadas na testa...
Com gotinhas de suor brilhando nas faces, perguntei:
        E assim, est bem?
        Deixe ver. Est. Deixe assim.
As mucamas, agora inativas, olhavam silenciosas; Eponina afastou-se e voltou com um colar na mo:
        Estar bem este aqui?
        No, contraveio logo Aninhas. Nada de ouro hoje. Prolas ou brilhantes ficariam melhor.
Leopoldina discordou:
        Acho prola triste para uma noiva.
Maria Letcia olhou para mim.
        Mana Rosa, veja o colarzinho de prolas, aquele que tem uma cruzinha de brilhantes, o que papai me deu.
Leopoldina tornou a discordar:
        Maria Letcia, achava melhor pr s o broche de brilhantes, o que mame usou no casamento.
Aninhas e Eponina achavam melhor o colarzinho de prolas; procurei nas gavetas, nas caixinhas e no o encontrei. De repente, Modesta lembrou que o colar estava na 
caixa de lenos de Francisca Miquelina; foi buscar.
        No  este, Sinh?
        Esse mesmo.
Colocamo-lo com cuidado no pescoo da noiva e nos afastamos um pouco para ver o efeito; Maria Letcia, imvel, sorria diante do espelho, admirando a prpria imagem.
        J ps cheiro? perguntou Eponina.
Nossa Senhora, tnhamos esquecido! As mucamas trouxeram s pressas uma garrafa cheia de um lquido amarelo e com ele borrifamos os braos, o colo e as mos da noiva; 
depois esfregamos delicadamente. Estava pronta, nada faltava.
Nosso quarto estava em grande desordem; roupas para um lado, caixas abertas pelo cho, sapatos espalhados por toda a parte, gavetas escancaradas mostrando camisas, 
meias e camisolas, algumas dependuradas fora da gaveta. Os escarpins pretos para viagem que mame achara to caros, pois pagara R$ 500 o par, achavam-se atrs da 
bacia de banho, quase debaixo da cama. Silenciosamente, as mucamas comearam a pr tudo em ordem, enquanto Modesta acabava de arrumar os bas e as malas que Maria 
Letcia levaria para sua nova casa. Mame veio chamar-nos dizendo que estava na hora. Um pouco nervosa, Maria Letcia deu o brao a papai e entrou no salo. Estava 
linda, os grandes olhos azuis sobressaam na brancura do rosto e contrastavam com os cabelos escuros; notei um frmito de admirao passar atravs dos convidados. 
Murmuravam uns para os outros:  a filha mais bonita do baro. Bonita como ningum.
Diziam que Maria Letcia era orgulhosa; talvez por ser bonita, por ser rica, por ser fidalga, era orgulhosa. Quando ela entrava na igreja, por exemplo, onde papai 
tinha um banco reservado, fechado a corrente e onde estavam as iniciais B. de S. M., ela mantinha a cabea alta, sem olhar para ningum e para lado algum. No Teatro 
S. Jos, onde tnhamos um camarote e comparecamos algumas vezes, ela ficava indiferente  multido que se comprimia l embaixo, e olhava o palco com o olhar displicente 
de quem se aborrece irremediavelmente. Tratava de isolar-se; Flix, nosso irmo mais velho, dizia que gostava de viver  margem. Mame no gostava e sempre o censurava: 
Orgulho  pecado, Maria Letcia. Quando foi pedida em casamento, aceitou porque era Ferno; mas, se no fosse, lutaria, lutaria contra papai, contra os irmos, 
a sociedade, os preconceitos, contra tudo. No era como as outras jovens da nossa poca, que se casavam com q
 uem os pais escolhiam. No, era diferente. Queria que sua vontade prevalecesse sempre. Creio que o primeiro espinho a feri-la foi perceber que Francisca Miquelina 
tambm queria casar-se com Ferno. Ficou perplexa e revoltada. Como se atrevera Francisca Miquelina a tanto? No devia nem sequer pensar nisso. Perturbou-se um pouco 
a princpio, mas, como saiu vencedora, esqueceu logo. O espinho fizera um arranho to leve que no deixara sinal.
Pensei nisso quando a vi dirigir-se ao altar pelo brao de papai; armado no fundo do salo, com um grande crucifixo de prata no centro, o altar brilhava suavemente 
entre as chamas das velas tremulantes e jarras azuis cheias de jasmins. Todos observavam Maria Letcia com curiosidade; os convidados comentavam entre sussurros 
a beleza da noiva e o garbo do noivo, que, de p, esperava junto ao altar. Ela passou entre alas de convidados atentos, a cabea alta, linda e serena; durante a 
cerimnia, no silncio que se fez de repente, ouvia-se o crepitar sutil das chamas e o balbucio de preces. O perfume de jasmins predominava.
Depois da cerimnia, os noivos receberam os cumprimentos dos parentes e amigos. De p, em frente ao altar, sorriam alegremente, enquanto que de um lado mame e a 
me de Ferno enxugavam as lgrimas e disfaravam a emoo. Dirigimo-nos depois para a sala de jantar, onde, na mesa principal, havia o bolo de noiva, alto e grande, 
coberto de confeitos, obra-prima de Mam Zabel que, espiando por uma porta semi-aberta, ria e chorava ao mesmo tempo, enxugando os olhos no avental e admirando: 
Que casal to bonito! Nunca a defunta Sinh Chica, que Deus guarde, pensou que a neta ficasse to bonita e casasse to bem! Deus a conserve, amm.
Nesse momento, ouvimos risadinhas e cochichos; alguns primos vieram da copa, rindo muito e disfarando; fiquei curiosa e perguntei a uns e outros: afinal meu irmo 
Loureno contou: o primo Nicolau Sousa Mendes era robusto e gabava-se da sua fora fora do comum; quando viu dois escravos na copa, levantando a grande bandeja de 
prata para levar ao salo, riu-se dizendo que no eram necessrios dois homens para se carregar uma simples bandeja e que, possante como era, ele a carregaria sozinho.
Ao inclinar-se sobre a mesa para segurar a bandeja pelas duas alas e ergu-la, no esforo que fez, sua casaca fez trec... e rasgou-se de alto a baixo, nas costas. 
Ningum pde conter-se e riam-se ainda da cara do primo Nicolau, que sem saber o que fazer, nem para onde se virar, l ficara com a casaca rasgada. Tio Antnio, 
entre risonho e penalizado, saiu para livr-lo de to aflitiva situao, emprestando-lhe outra roupa. Horas depois, ainda se comentava o episdio, entre risotas 
e murmrios.
Quando Benedito entrou dirigindo dois escravos a carregarem com solenidade a bandeja cheia de taas rendilhadas, as atenes de novo se voltaram para os recm-casados. 
Feito o brinde, serviu-se o jantar que durou mais de duas horas. Tio Antnio escolheu os vinhos prprios para cada prato. Ningum entendia melhor que ele a qualidade 
de vinho que devia acompanhar cada prato e, se algum contestava ou no achava que estava bem, tio Antnio se ofendia e repuxava o lbio inferior em sinal de desprezo.
Em mesas menores, distribudas pelos cantos da sala e do alpendre, viam-se as crianas com suas mucamas; de vez em quando ouvia-se um gritinho agudo: Olhe a priminha 
Carola me cutucando. s vezes, choravam; outros, mais ousados, devolviam os belisces e a menina chorava ento em altos gritos. Prudncia procurava acalm-la, censurando 
os outros:
        Tenha pacincia com a menina, ela no tem culpa de s doente.
        Mas ela me cutucou.
        Pobrezinha de minha fia.
Tio Antnio exclamava do seu lugar,  boca cheia:
        Oh! La pauvre petite malade.
s vezes titia, a me de Carola, ia ver o que havia. Era ainda moa, de fisionomia plida e tristonha; nos lbios tinha sempre um sorriso que mais parecia um rictus, 
desses que ficam gravados em certos semblantes sofredores; tomava Carola ao colo e abraava-a dizendo com voz compungida:
        Minha filhinha! Minha pobre filhinha!
E devolvia a pequena  mucama. Penso que no tinha muita pacincia com a filha.
Durante o banquete, nosso irmo mais moo, Bonifacinho, sentiu-se mal e saiu vomitando pelo corredor afora; mas a me fez-me logo sinal para que o acompanhasse. 
Tivemos que chamar nosso mdico, o Dr. Maranho, que residia perto, na rua do Jogo da Bola. Mame ficou nervosa e durante o banquete levantou-se vrias vezes para 
v-lo e eu fiquei a maior parte do tempo com ele.  noite, acalmou-se e dormiu; quando acordou, ainda danavam no salo. Deixei uma escrava velando-o. Quando o viu 
acordado, ela perguntou se ele queria um prato de canja. Bonifacinho deu um grito dizendo que nunca mais havia de comer na vida dele, que no falasse em comida e 
atirou-lhe um sapato; a mucama deixou o quarto e foi chamar mame dizendo que o Sinhozinho estava bom, pois jogara um sapato em sua cabea.
Mame sorriu, satisfeita, e foi beijar Bonifacinho antes que ele dormisse de novo. Talvez por ser o ltimo da famlia, Bonifacinho era terrvel, cheio de vontades, 
irrequieto e travesso, o terror dos escravos. Usava cabelos longos e encaracolados at os ombros e todas as manhs havia gritos, sopapos e reclamaes quando a mucama 
lhe fazia os cachos.
Nesse dia do casamento de Maria Letcia, estava vestido com uma roupa nova de veludo azul, com gola e punhos de renda; mas no se passou muito tempo e a gola de 
renda de Bruxelas estava toda molhada, assim como os cabelos, porque Bonifacinho fora brincar na gua que os escravos usavam para lavar os cavalos, enquanto sua 
mucama estava na cozinha, ocupada. Os punhos de renda ficaram rotos, em pedaos; teve que vestir outra roupa e a mucama foi severamente repreendida porque no soube 
vigi-lo.
Enquanto estvamos ainda  mesa, alguns escravos passaram a fim de trocar as velas do salo; levavam banquinhos para facilitar o trabalho; todas as velas foram trocadas. 
Depois do banquete, a orquestra executou uma valsa e Maria Letcia danou com o marido, sozinhos, no grande salo resplandecente de velas; danaram a dana de roda 
pela primeira vez.
Pediram, depois, a tio Antnio para marcar a quadrilha dos solteiros, organizada com quase cinqenta pares. Tio Antnio marcava com elegncia; quando dizia tour! 
A aba de sua casaca fazia uma reviravolta graciosa e rodopiava no ar; com as pontas dos dedos na cintura do par, fazia-o rodopiar tambm. O cumprimento era solenssimo, 
executado com graa, e tio Antnio continuava: promenade  gache!  droite! Grand chaine! Tour au centre! Dando  voz uma entonao diferente e forte, a cabea 
bem alta, os bigodes pontudos e lustrosos, os olhos brilhantes!
Dancei essa quadrilha com primo Nicolau; ele estava com uma casaca velha de tio Antnio; era um pouco grande e suas mos estavam ocultas nas mangas. Todas as vezes 
que girava, a casaca parecia voar, o que provocava risadas e ditos alegres e o deixava bem encafifado; eu, ento, tinha vontade de desaparecer debaixo da terra, 
de to envergonhada.
Os tios e todos os convidados de idade ficaram postados nas portas e no podiam deixar de aplaudir com. entusiasmo quando tio Antnio passava arrastando atrs de 
si os cinqenta pares. Palmas explodiam em todos os cantos. As crianas assistiam sentadinhas  volta, vigiadas pelas mucamas; Carola, com um vestido de gorgoro 
bem armado para disfarar o defeito e as pernas fininhas, olhava a festa com ar indiferente e melanclico. Ningum se sentava perto dela, com medo dos belisces, 
mas, se uma criana se aproximava distraidamente, dava logo um grito forte e ia queixar-se  mucama ou aos pais.
Mais tarde, j noite fechada, Bonifacinho acordou outra vez dizendo que queria ver os noivos danarem; desceu no colo de Modesta e ficou numa das portas do salo, 
olhando e acenando com a mo para Maria Letcia, o rosto amarelo e os cabelos desgrenhados, caindo-lhe sobre os olhos.
Nossa irm Leopoldina estava pomposamente vestida de chamalote cor de ouro; tinha ouro nos cabelos e nos braos. Vi-a danando com o marido uma valsa rodada e as 
saias giravam, giravam... Parecia uma grande flor de ouro a rodopiar. A Baronesa de Sobral estava com um vestido preto bordado de vidrilhos e conversava com D. Escolstica 
por trs do leque. Naturalmente, censurava a alegria de Maria Letcia, ou o vestido de Leopoldina, e tudo mais que via. Dizia na sua vozinha fina: No meu tempo, 
havia mais recato e uma moa no dia do casamento, no danava com tanta alegria assim. Olhe s. D. Escolstica confirmava com a cabea e dava-lhe uma cotovelada 
quando a grande flor de ouro passava rodopiando; a Sobral animava-se ento, pois o assunto era atraente e falava: E a Leopoldina ento? Onde se viu uma senhora 
casada, me de dois filhos, valsar desse jeito? Olhe como as saias se levantam, v-se o p inteirinho... at o tornozelo.  com
 o estou dizendo, D. Escolstica, no h mais recato, nem pudor.
E D. Escolstica confirmava com a cabea outra vez, escandalizada, enquanto a Baronesa de Sobral continuava a cochichar e os leques se agitavam indo e vindo porque 
a noite estava quente.
s onze horas, os noivos saram: pediram a bno aos pais e foram tomar a calea que os levou para a chcara da Penha;  frente da carruagem, ia um batedor a cavalo 
para abrir as porteiras. A calea era nova e puxada por quatro cavalos tordinhos, que, impacientes, batiam as pesadas patas no cho. O cocheiro trazia libr e cartola 
alta envernizada; acompanhava-o um ajudante. Os convidados ficaram debruados  janela do sobrado para assistir  partida dos recm-casados; no Largo do Ouvidor, 
no Largo de S. Francisco, nas ladeiras adjacentes, a multido ainda se comprimia para ver a festa.  porta de casa, o lampio de querosene iluminava parte do largo 
e as carruagens dos convidados. Um chuvisco comeou a cair quando Maria Letcia e Ferno disseram adeus e entraram na calea; era uma garoa sutil que caa de manso, 
cobrindo a cidade de nvoa; o cocheiro estalou o chicote no ar, e os cavalos partiram com estrpito sob o manto cinz
 ento da neblina. Francisca Miquelina e eu estvamos numa das sacadas e continuamos impassveis, sem dizer uma palavra. Somente percebi que os dedos de Francisca 
Miquelina foram ficando brancos, brancos como marfim, os dedos que apertavam o leque contra o peito. Vimos nossos pais acenando da porta at a carruagem dobrar a 
primeira esquina e continuamos silenciosas. De repente, fugi para o nosso quarto para poder chorar, e quando entrei, vi um vulto escuro espiando atravs das rtulas; 
quando me viu, voltou-se em silncio e chorou alto, um choro triste e desconsolado. Era Modesta que se lamentava:
 A fia do corao foi embora. Pronto. Se acab.
Sentei-me ento na cama e chorei tambm, ao lado de Modesta.
No segundo domingo aps o casamento, Maria Letcia e Ferno vieram almoar conosco. A visita j era esperada, de modo que tio Antnio encomendara, na cozinha, pato 
assado recheado de po e leite para ser servido com Chambertin; Benedito guarnecera a sala e a mesa com camlias cor-de-rosa e as crianas foram esperar na porta, 
animadas, apostando quem veria primeiro a carruagem. s dez horas, surgiu a calea na Rua de S. Bento, precedida pelo batedor. Quando parou junto do sobrado, o moleque 
abriu a portinhola num pulo e Ferno desceu dando a mo a Maria Letcia; viemos todos receb-los  porta, curiosos e alegres. Modesta estava na ponta dos ps, atrs 
de mame. Maria Letcia veio com um vestido cinza claro enfeitado com rendas largas na gola e nos punhos, as mangas altas e crinolina bem armada; sobre a cabea 
um pequeno chapu com vu preto. Desceu e beijou respeitosamente as mos de nossos pais, depois beijou-nos; Francisca Miq
 uelina correspondeu com um sorriso frio.
Maria Letcia estava alegre, parecia feliz. Foi beijada na testa por tio Antnio que no pde deixar de exclamar:
        Como est bonita, ma petite, tu es jolie  ravir!
Ela corou de contentamento e foi procurar Modesta. Alguns parentes, vindos para o casamento, ainda estavam em casa; as mesas armadas na sala de jantar eram muitas, 
alm da mesa principal, onde Ferno se sentou logo  direita de mame, pois nesse dia era o convidado de honra. O assunto que nos empolgava nessa ocasio dominou 
durante todo o almoo; tio Antnio estava escrevendo uma comdia em francs para ser representada no dia do aniversrio de D. Gertrudes Bueno, grande amiga de nossa 
famlia. Maria Letcia falou durante a refeio, despreocupada e alegre; queria saber quantos atos teria a comdia e como se chamaria; tio Antnio sorriu alisando 
os bigodes lustrosos:
        O nome! O nome! Tenho-o na cabea, mas no sei s'il ser, bien!         Diga qual , tio Antnio.  segredo? pedimos todos.
Ele levantou o copo de vinho contra a luz, depois desceu-o devagar, bebeu dois goles com emoo, limpou os bigodes e disse olhando a mesa de ponta a ponta:
        La robe bleue de Mademoiselle Joujou, Voil!
        Muito bem! Muito bonito!
        E no podemos saber do que se trata? Quis saber Maria Letcia.
        No. No. Isso  querer muito.
A mesa toda ficou ansiosa por saber o enredo; Maria Letcia tornou a perguntar:
        E quem vai ser Mademoiselle Joujou? Tambm no podemos saber?
Tio Antnio apontou o dedo indicador para Francisca Miquelina e continuou a descascar um pssego:
        Francisca Miquelina?! Oh! Que surpresa! Por que no nos contou antes, Francisca Miquelina?
Nossa mana corou dizendo que no quisera aceitar, mas tio Antnio insistira tanto...
Leopoldina queria saber quais os outros intrpretes; Lus disse que se comeassem a divulgar o enredo, perderia a graa. Ele tambm tomaria parte; os ensaios j 
haviam comeado, um dia em casa deles, outro dia em casa de Leopoldina, mas ningum a eles assistia, exceto os interessados. Durante uma hora inteira, houve comentrios 
e discusses  volta de tio Antnio que se mostrava imperturbvel e, levantando a mo direita, dizia:
        Ainda no, ainda no.
Papai aproveitou um momento de silncio para contar que recebera uma carta do Rio de Janeiro e soubera que, no Palcio de S. Cristvo, houvera um brilhante sarau: 
Gotschald executara, pela primeira vez, o Hino Nacional Brasileiro de uma maneira mui linda e diferente, depois tocara a Tarantela acompanhado por outro piano. O 
espetculo terminara com cenas do repertrio de Ristori, representada por ela mesma.
Deploramos ento a falta de tais festas em S. Paulo; tio Antnio alisou os bigodes, suspirando.
Procurvamos evitar o assunto da guerra; o tema, porm, se impunha, como se os acontecimentos, mais fortes que ns, viessem dominar-nos poderosamente. Aninhas, com 
a cabea baixa, quase no comeu e no falou, apenas suspirava de quando em quando e olhava o marido; soubramos que nosso irmo lhe dissera dias antes em tom decidido:
        Se o Conde d'Eu for para o Paraguai, vou tambm.
Pode ficar certa disso!
E ela nada respondera; apenas chorara apertando o filho nos braos. Alberto, o marido de Leopoldina, perguntou de repente, como se lesse o pensamento de Aninhas:
 Afinal o Conde d'Eu vai  frente do exrcito?
Houve um rpido silncio e todos nos olhamos pensativamente; Aninhas encarou papai numa interrogao; papai hesitou antes de responder:
        Dizem que sim.
O olhar de mame cruzou-se com o de Aninhas e ambas baixaram a cabea, sem nada dizer.
Ferno falou; participou a todos que estava de partida para sua fazenda em Barreiro.
        Ento no ficam para assistir  comdia de tio Antnio? perguntou Leopoldina.
Ferno respondeu no lhe ser possvel. Precisava ir  fazenda que no visitava havia algum tempo.
        E quando pretendem estar de volta? Indagou mame.
Ferno disse que talvez no fim do ano; pretendia passar toda a colheita na fazenda; Leopoldina prometeu mandar-lhe um escravo com uma carta descrevendo a representao 
e tudo o que houvesse acontecido na cidade durante a ausncia deles. Depois do almoo, dispersamos pelo jardim e pelo alpendre; Maria Letcia passeava entre mame 
e eu; olhvamos as rosas e admirvamos algumas que tinham desabrochado nessa manh. Maria Letcia pediu a mame que mandasse Modesta para seu servio particular; 
sentia falta de sua mucama; havia outras em casa de Ferno, mas gostava de Modesta com quem se acostumara desde pequena.
        S ela e mana Rosa me penteiam com gosto, mame.
Mame prometeu mandar Modesta no dia seguinte, Maria Letcia voltou-se para mim:
        Mana Rosa no quer passar essa semana comigo? convidou-me. Assim me auxilia a arrumar a casa e preparar a viagem para Santarm. Mandaremos busc-la amanh; 
pode ir com Modesta. J falei com Ferno.
Prometi ir. Fomos at o canteiro de margaridas; de repente, mame perguntou em voz mais baixa:
        Sente-se feliz, minha filha?
Maria Letcia olhou-nos de soslaio e, colhendo uma margarida, comeou a desfolh-la, respondendo animosamente:
        Somos muito felizes; Ferno e eu nos queremos muito.
Ele  carinhoso e delicado. Agora estou ansiosa por conhecer Santarm; dizem ser muito grande e bonita. H l quinhentos escravos;  bem maior que Guararema. Estou 
contente de ir.
Jogou fora o resto da flor e perguntou olhando Francisca Miquelina que brincava com Bonifacinho:
        E Francisca Miquelina? No quis ir para o Rio de Janeiro com os tios de Paiva?
        No, respondeu mame. Mas at foi bom; agora est entretida com essa representao. Foi melhor no ter ido.
Aproximamo-nos de Ferno que conversava com papai e meu irmo; calculava as arrobas de caf que esperava colher esse ano. Falava com convico nos lucros que teria. 
No queria, porm, deixar de receber o diploma de bacharel; viria freqentar os ltimos meses de aula e formar-se-ia na Academia de S. Paulo.
Nesse momento, Bonifacinho veio correndo dizer que queria ir com Maria Letcia para a fazenda de Santarm; Maria Letcia inclinou-se para abra-lo e disse que, 
quando voltasse a S. Paulo, ele iria passar uma temporada bem grande com ela na chcara da Penha. Bonifacinho teimou que queria ir nesse dia mesmo, e comeou a chorar, 
puxando os cabelos, como costumava. Uma escrava veio busc-lo e ele foi meio arrastado, dando pontaps na mucama. Tio Antnio censurou-o:
        No faa assim, menino. Cest mchant a.
Maria Letcia foi atrs dele, prometendo trazer-lhe um cavalo alazo da fazenda; ele enxugou os olhos empurrando os cabelos para trs:
        Cavalo de verdade?
        Cavalo de verdade. Um cavalinho novo, alazo de plo brilhante.
Mais calmo, acompanhou a mucama pensando no cavalo alazo; mas antes de entrar em casa, a escrava disse qualquer cousa e ele revoltou-se, procurando morder-lhe a 
mo. Papai observou:
        Esse menino precisa ser castigado; est cada dia pior.
Mame defendeu-o, explicando que, com a idade, ficaria melhor; e mandou-me ver o que ele queria. Maria Letcia e Ferno despediram-se de toda a famlia e fomos acompanh-los 
at a calea; quando esta partiu, acenamos com os lenos e as mos. Desta vez, Modesta no chorou; foi correndo arrumar as roupas no ba velho, feliz porque Sinh 
Letcia no podia passar sem ela. Aprontei tambm e esperei o trole no dia seguinte.
A chcara da Penha era quase encostada a outra chcara to bonita ou mais ainda do que a dos Seixas Albuquerque; a casa era pintada de branco com seis janelas de 
frente, um alpendre coberto de rosas amarelas e, entre os canteiros do grande jardim, dois jardineiros negros aparavam buxos e podavam dlias.
No dia seguinte  minha chegada, vi um vulto feminino passeando entre os canteiros da casa vizinha e dando ordens aos escravos; levava na mo uma sombrinha de renda 
para resguardar-se do sol que se filtrava atravs da renda e se refletia no vulto formando desenhos extravagantes. Era ainda moa; andava devagar e a saia rodada 
ia varrendo o solo e as plantas rasteiras, como se a dona estivesse to distrada que delas se esquecesse. Perguntei a Maria Letcia quem era a vizinha e ela no 
soube dizer-me. Uma tarde, ao jantar, Maria Letcia perguntou a Ferno quem eram os vizinhos da chcara pegada; ele, que estava tomando caf, interrompeu para responder 
com displicncia, olhando para outro lado da mesa:
        So os Menezes, o Comendador Menezes.
        Conhece-os?
        Pouco. Joguei solo com ele algumas vezes; gostam muito de jogar.
E Ferno, tomando a mo de Maria Letcia, perguntou se ela estava satisfeita de seguir para Santarm na semana seguinte. Inclinei a cabea para no perturb-los 
e comecei a interessar-me vivamente pelo desenho da toalha. Durante os dias que se seguiram, Maria Letcia e eu esquecemos a vizinha; mas no sbado, um dia antes 
de ir  cidade almoar em casa de papai, vi-a de novo passeando entre os canteiros. Chamei Maria Letcia e ficamos olhando-a por trs da cortina e seguindo-lhe os 
movimentos. Ela parava aqui e ali e olhava com insistncia para nosso jardim; parecia esperar algum. Maria Letcia inquietou-se. No dia seguinte, enquanto nos aprontvamos 
para ir  missa, Ferno desceu e foi esperar-nos no jardim; nesse instante, vimos Ferno conversando com a vizinha. Ela segurava o cabo de uma sombrinha vermelha 
e parecia nervosa; com a mo esquerda, despetalava uma rosa louca que enfeitava a cerca de separao entre os dois jardins.
  Ficamos olhando com curiosidade; ela esmagava as ptalas da rosa enquanto conversava com Ferno. Maria Letcia debruou-se  janela, queria ver se a vizinha era 
bonita; enquanto falava, a vizinha sorria e fazia a sombrinha girar com mais fora sobre a cabea cheia de cachos. Do outro lado da cerca baixa, Ferno ouvia-a com 
o chapu na mo, em atitude respeitosa. Nada podamos ouvir, mas, de repente, Ferno disse uma frase e a vizinha riu alto, girando a sombrinha. Pudemos ento ver-lhe 
o rosto rapidamente; tinha os cabelos castanhos e sedosos; formavam ondas dos lados e terminavam em rolos at os ombros. Maria Letcia fez um muxoxo, dizendo que 
no era nada bonita e parecia um pouco velha, mas apressou-se a descer, entre curiosa e enciumada. Disse que ia ser apresentada  vizinha. Escolheu no guarda-roupa 
a sombrinha mais bonita, uma que o tio Sousa Mendes trouxera da Inglaterra: era de seda azul, listada de branco, e parecia uma borboleta.
  Calou mitaines de renda e desceu a escada do jardim, devagar, com elegncia. Eu fui atrs, a certa distncia. Quando ela se aproximou de Ferno, ele estava s, 
quebrando com a ponta da bengala todas as plantinhas ao seu alcance, com gestos bruscos e precipitados; vimos ento uma carruagem que se distanciava pela estrada 
cheia de p. Tomando o brao do marido, Maria Letcia entrou na calea que nos levou celeremente para a cidade; ela estava um pouco plida, os lbios apertados de 
raiva, mas nada perguntou por que era muito orgulhosa. Esperou que o marido falasse alguma cousa da vizinha, mas ele nada disse e isso a magoou. Nem depois da missa, 
nem durante o almoo em casa de papai, nada se falou sobre o incidente.
Nesse domingo, o almoo foi triste e quase ningum conversou. Mame enxugava furtivamente os olhos e no comia; papai percorria a mesa com olhar ansioso; meus dois 
irmos solteiros, Vicente e Loureno, haviam seguido para o Rio de Janeiro, a fim de partirem com o Conde d'Eu, que assumira, nesse ms, o comando do exrcito brasileiro 
em luta contra as foras de Lopez; Augusto, o marido de Aninhas, seguiria dois dias depois. S Lus no fora aceito por sofrer da vista, e ficara acabrunhado. Dois 
primos, filhos do tio Sousa Mendes, haviam partido tambm, e o primo Fabrcio, filho do Conselheiro de Paiva. Parecia que um vendaval sinistro passava sobre a famlia, 
arrastando os mais jovens e os mais fortes.
Mes e esposas ficaram aterradas, sem ousar, porm, manifestar-se. E os pais, apesar de apreensivos, deram a bno aos filhos que partiram. A partir desse dia, 
as mulheres viviam sobressaltadas, esperando noite e dia portadores com notcias dos filhos e maridos. E durante as noites, na cidade silenciosa, se ouviam passos 
na beirada das casas, sentavam-se na cama e ficavam  escuta, esperando as batidas na porta da rua; mas os passos se distanciavam numa cadncia montona, e ningum 
batia.
Deitavam-se ento de novo e procuravam dormir, fechando os olhos; mas muitas madrugadas vieram encontr-las despertas, e algumas, como mame, ajoelhadas diante do 
oratrio do quarto, pedindo que os filhos voltassem sos e salvos da guerra sinistra.
Uns dias antes de partirem para Santarm, Maria Letcia e Ferno convidaram-me para ir com eles; eu no tinha muita vontade de ir devido ser a viagem longa e fatigante; 
consultei mame e papai e disseram-me que eu devia ir; em vista disso, aceitei o convite.
Auxiliei Maria Letcia a preparar todo o necessrio para levar  fazenda e, ajudada por Modesta, cobri os mveis e os enfeites da chcara e guardei os objetos de 
valor.
Dias antes da partida, Maria Letcia tornou a ver a moa da chcara vizinha; viu-a passeando no pomar. Ento chamou Modesta e disse que indagasse o nome da vizinha, 
e se era bonita. Queria saber  toa, por saber. Modesta espiou a moa pela cerca, perguntou aos escravos da chcara e veio contando que se chamava Sinh Deolinda, 
era casada com o Comendador Menezes que passava grandes temporadas no Rio de Janeiro e deixava a esposa sozinha. Era bonita, mas esquisita; no era nada boa para 
os escravos. Maria Letcia perguntou, rindo:
        Esquisita por que, Modesta?
        No sei diz, Sinh. Acho que  cisma de quem fal.
        Modesta  uma negra astuciosa...
A mucama dobrou as roupas na gaveta e eu coloquei no ba as que pretendamos levar; Maria Letcia ficou pensativa, depois voltou-se para Modesta:
        Olhe aqui Modesta, ela passeia sempre no jardim e, s vezes, conversa com Sinh Ferno... So conversas sem importncia, mas eu bem queria ouvir; se eu 
fosse um passarinho, ficava num galho, escutando. H certos dias em que tenho inveja dos passarinhos; h de ser to bom voar para onde quiser, ir de galho em galho. 
Ou ento, se eu fosse um besouro, ou mesmo uma borboleta bem mida... assim... olhe.
Modesta olhou: Maria Letcia mostrou com os dedos o tamanho da borboleta:
        Preferia ser borboleta, besouro no. Assim.  toa, sabe? S para ouvir, tenho uma vontade de saber...
Modesta fechou o gaveto da cmoda e no disse nada; ele quando em quando, chegava  janela e olhava para ver se percebia algum. Maria Letcia acabou de preparar-se, 
passou gua de cheiro nas mos e nos cabelos e foi buscar o marido no escritrio, para jantar. Depois do jantar, samos e fomos dar uma volta no jardim; meia hora 
depois, Maria Letcia disse que se esquecera de dar uma ordem para o dia seguinte e entrou, dizendo:
        Venha ajudar-me, mana Rosa.
L em cima, atravs da vidraa, ela ficou olhando o marido que continuava a andar por entre os canteiros, distraidamente. Fez-me um sinal:
        Venha ver.
Ficamos espiando. Nesse instante, vimos a vizinha aproximar-se da cerca, colher uma rosa louca e cumprimentar Ferno; ele respondeu ao cumprimento e continuou a 
andar em direo  casa. Ento, a vizinha o chamou com um gesto e vimos Ferno voltar em sua direo e falar-lhe, enquanto ela esmigalhava a rosa entre os dedos. 
Maria Letcia no se conteve:
        Meu Deus! Quem ser essa D. Deolinda que s procura meu marido quando estou longe?
E suas mos comearam a tremer de encontro  vidraa; procurei acalm-la.
        Tolices! O que tem que conversem?
Ela no respondeu e continuava a olhar; vimos Ferno cumprimentar a vizinha e entrar em casa; Maria Letcia desceu e foi ao seu encontro; percebi que, com esforo, 
procurava conter-se. Falou na viagem do dia seguinte e esperou mais uma vez que ele se referisse  vizinha, mas ele no falou. Nessa noite, antes de deitar-se, quando 
Modesta foi preparar-lhe o banho no quarto, percebeu que a mucama queria contar alguma cousa. De fato, logo que temperou a gua na bacia de cobre, Modesta murmurou 
enquanto eu estendia a camisola sobre o leito:
 Sinh Letcia.
 Que , Modesta?
 Hoje de tarde, fiquei que nem uma borboletinha deste tamainho, escondida numa moita.
        Onde?
        No jardim. Sabe aquela tocera grande de cidr do lado de l? Fui l procur erva cidrera pra faz um ch, na horinha que Sinh Ferno tava l. Ele no me 
viu, mas eu vi Sinh Deolinda cheg doutro lado da cerca e fal com ele, com uma rosa amassada na mo...
Maria Letcia fingiu-se desinteressada e comeou a fazer trana nos cabelos; depois, olhou para o meu lado, pedindo:
        Mana Rosa, passe o pente no meu cabelo. E falaram sobre nossa viagem, no foi, Modesta?
        Quem me dera que eu entendesse, Sinh Letcia. Quem me dera!
Maria Letcia sobressaltou-se e olhou Modesta:
        Ora esta! Por que no entendeu?
        Falaram s em franceis. Eu sei por que ouvi muitas veis Sinh Antnio fala com vossunc nessa lngua. Ela fal a mesma coisa, tudo atrapaiado e Sinh Ferno 
respondeu.
Maria Letcia apertou os lbios fortemente, depois impacientou-se:
        Est bem, Modesta. Pode ir.
A mucama deu umas voltas pelo quarto; antes de sair, falou indecisa:
        Sinh Moa.
        Que ?
        Cuidado com Sinh Deolinda. Percisa t cuidado com ela.
A testa franzida, um ar preocupado, Maria Letcia olhou Modesta pelo espelho; a mucama fez uma pausa e disse antes de fechar a porta:
        Cuidado com ela! Essa mui t marcada pelo demo... t marcada...
E puxando o trinco, fechou a porta sem rudo.

DEPOIS de muitos dias de viagem fatigante a cavalo, com pousadas pelo caminho, divisamos ao longe a fazenda de Santarm. Um escravo foi  frente, participar a chegada 
dos amos; ouviu-se ento do alto da serra o toque do sino chamando os que trabalhavam na roa ou capinavam no cafezal. Eram quatro horas da tarde; ouviu-se tambm 
o som de uma corneta para os que estavam do outro lado da mata, no plantio do arrozal.
No alto da serra, paramos os cavalos e ficamos olhando a fazenda, onde Maria Letcia iria passar, talvez, a maior parte de sua vida; divisamos a casa grande, branca, 
com o telhado achatado, de telhas escuras pelos anos. Quis contar as janelas, pintadas de azulo, mas confundi-as na distncia, no percebi se eram vinte ou mais. 
Maria Letcia disse que a casa parecia um quadrado branco jogado no meio da verdura; Ferno achou graa. Grandes arbustos rodeavam-na. Vimos depois os terreiros 
de caf,  direita; pareciam cheios de formiguinhas que corriam, apressadas. Eram os escravos que, sob as ordens dos leitores, se preparavam para receber os amos.
Ferno, ao nosso lado, apontava com o chicote de cabo de prata na direo de Santarm, e explicava o que significava o verde mais claro  esquerda  o canavial. 
Depois o verde mais escuro  o milharal; os cafezais imensos a se estenderem para os lados tinham um tom verde ainda mais escuro. No fundo da paisagem, com uma linha 
verde-escura fechando o horizonte, a mata que parecia infinita. Disse-nos que, alm da mata, ficavam os arrozais. Vagarosamente, fomos descendo a serra, enquanto 
as pedrinhas rolavam sob as patas dos cavalos; a terra estava mida e o ar fresco, apesar da hora. Grandes rvores ao lado do caminho confundiam-se no espao entre 
galhos e cips que escureciam o cu e pssaros soltavam seus pios agudos na parte mais escura da serra; de vez em quando, ouvia-se um bater de asas muito suave e 
muito manso, sobre nossas cabeas.
Ao p da serra paramos de novo para dar gua aos cavalos, no ribeiro que atravessava Santarm; no era muito volumoso, mas havia lugares onde ele se encachoeirava 
e depois se abria mais adiante, entre pedras, dando aspecto novo  paisagem. Alm, quase no limite da mata, havia o brejo, onde os sapos coaxavam  noite e as saracuras 
diziam umas s outras, todas as tardes, ao pr do sol: Quebrei trs potes! Quebrei trs potes! numa voz aguda. Na mesma tarde da nossa chegada, ouvimos os gritos 
das saracuras. Transposto o ribeiro, j em terras da fazenda, tocamos os cavalos em trote ligeiro para chegar mais depressa; Maria Letcia observava as plantaes 
de lado a lado do caminho. Chamou a ateno para a beleza de tudo, dizendo que achava Santarm muito mais grandiosa e pitoresca que Guararema, a melhor fazenda de 
papai. Concordei e ficamos admiradas com o movimento de escravos, pois quando divisamos os terreiros de caf, na parte l
 este da casa grande, estacamos de repente os cavalos, num gesto de admirao; quinhentos escravos estavam formados no terreiro diante de ns e saudaram, todos ao 
mesmo tempo, quando nos avistaram:
        Louvado seja Nosso Sinh Jesus Cristo!
O som dessas vozes possantes ecoou ao longo e pareceu-nos que atravessava a serra, a mata, os cafezais. O eco repetiu-se ainda mais longe, na linha verde-escura 
do horizonte. E mal o eco morreu no ar, ouvimos a voz forte de Ferno, respondendo:
        Para sempre seja louvado!
Descemos dos cavalos: os feitores vieram falar com os amos e os negros desfilaram um por um na nossa frente, a cabea baixa, humildes e silenciosos.
Por ordem de Ferno, o resto daquele dia seria feriado em toda a fazenda e os negros tiveram licena de organizar um batuque  noite para festejar a chegada da nova 
dona de Santarm.
Visitamos a casa toda; da sala de jantar partia um corredor escuro com quartos de hspedes de lado a lado; de vez em quando, uma alcova sombria e escura. Em todos 
os quartos, o mobilirio era o mesmo: camas grandes de jacarand liso; cmodas pesadas com trs ou quatro gavetas, consolos e mesas ao lado das camas. E, sobre os 
mveis, toalhinhas de croch amarelecidas pelo tempo. Nas alcovas, uma ou outra canastra de couro de vaca, coberta com tachinhas de cobre. O ar cheirava  umidade 
e a mofo, principalmente nas alcovas onde mal se viam os mveis, As salas eram alegres, com pinturas de flores, frutas e animais; mesas de mrmore, de trs ps, 
encontravam-se nos cantos e sobre elas viam-se castiais de prata; paisagens e retratos alternavam com espelhos venezianos pendurados s paredes.
Maria Letcia escolheu logo uma saleta perto do alpendre para passar os dias; as cadeiras eram de palhinha e, em cima do sof enorme, com almofadas de veludo preto 
nos cantos, havia um desenho colorido; um gato malhado brincando com um novelo de l verde. A saleta dava para um grande salo, Onde havia candelabros de cristal 
de mais de cem velas, cortinas e tapetes de grande valor. Numa das paredes, dois retratos  leo, enormes, de corpo inteiro; eram os avs de Ferno, os fundadores 
de Santarm. Olhamos com curiosidade para o retrato da av; estava com um vestido decotado, cor de tabaco, mostrando os ombros rolios e o comeo dos seios. Brincos 
compridos, de ouro e rubis, quase lhe roavam os ombros; prendendo o decote, um broche de ouro e rubis parecia espalhar ainda cintilaes na semi-obscuridade do 
salo. Os cabelos negros, repartidos ao meio e formando cachinhos na nuca; tinha um ar severo, olhos bonitos, mas frios, boca fina e dura de mu
 lher dominadora. Sem as jias e os cachos na nuca que amenizavam o retrato, aquela fisionomia daria impresso ntida de revolta. Maria Letcia ficou exttica diante 
do quadro e Ferno procurou descrever a vida de seus antepassados; tinham lutado com ndios, com onas, com negros rebeldes; mas tinham vencido, pois ali estava 
o prmio das lutas: Santarm! A fazenda rica e produtiva.
As escravas de casa corriam azafamadas para servir; Modesta, como mucama particular de Maria Letcia, era respeitada e a todo momento consultada a respeito dos gostos 
de Sinh Letcia.
Terminado o jantar, Maria Letcia e Ferno foram passear no pomar, e eu fiquei olhando atravs da janela; caminhavam abraados, com passos lentos, enquanto o sol 
sumia rapidamente no horizonte. As saracuras comearam a cantar l longe no brejo; nhambus passavam sobre as rvores do pomar e davam pios tristes. Toda a fazenda 
se preparava para recolher-se. Arrumei as roupas nas gavetas e depois fui encontrar-me com eles; havia uma figueira nova logo  entrada do pomar; Ferno tirara o 
canivete do bolso e estava gravando o nome de Maria Letcia no tronco da figueira; em seguida, escreveu seu prprio nome.
Comeou o concerto dos sapos em resposta aos gritos das saracuras que contavam numa voz esganiada, umas s outras, os potes que haviam quebrado. O horizonte ficou 
vermelho de repente e todo aquele fulgor inesperado caiu sobre Santarm, em reflexos incandescentes.
Sentada sobre um tronco cado de rvore, Maria Letcia parecia radiante; viu os dois nomes entrelaados sobressaindo, muito brancos, na cor verde-escura do galho. 
E, olhando para mim, mostrou-me a beleza que a rodeava: o cu rubro, a natureza como que, suspirando, venturosa; ouviu as vozes que emergiam do pomar, do rio, da 
mata, e riu baixinho, um riso manso e doce. Como era feliz! Na tarde fresca e amena, ao lado do marido que amava, tendo diante de si a imensido de suas terras a 
se perderem na distncia; vendo aquele cintilante pr do sol, um sol vermelho e dourado que desmaiava por trs da mata, sentiu que tamanha ventura a sufocava. Respirou 
profundamente e pareceu-me que, para desviar o sentimento angustioso comeou a dizer uns versos de Fagundes Varela que havamos decorado tempos atrs:
 Na tnue casca de verde arbusto Gravei teu nome, depois parti; Foram-se os anos, foram-se os meses! Foram-se os dias, acho-me aqui! Mas, ai! O arbusto se fez to 
alto, teu nome erguendo, que mais no vi! E nessas letras que aos cus subiam meus belos sonhos de amor perdi, Ferno riu alto, depois abraou-a alegremente.
        So lindos os versos, minha querida, mas no so para ns; no perderemos nosso amor, nem os belos sonhos.
Ela riu-se tambm e, abraados, continuaram a percorrer o pomar; voltei sozinha para casa.
Fiquei no alpendre, meditando, e eles s voltaram  noitinha, quando o batuque se estava iniciando no terreiro e os escravos j faziam roda, um deles batendo de 
manso no tambor. A noite de maro estava quente e estrelada; sentaram ao meu lado, no terrao, e ficamos olhando o cu azul-marinho que Maria Letcia comparou com 
o manto de Nossa Senhora. De sbito, ouvimos o canto dos negros: era o batuque. Prestamos ateno aos primeiros cantos:
 Terra do am e da glria Baa do Nosso Sinh. ..
Outros respondiam:
 A Baa  terra santa Terra de So Salvad.
Ferno observou:
        Foram os baianos que comearam; tenho uns escravos que vieram da Bahia.
O tambor batia sem cessar; Maria Letcia observou com ar pesaroso:
 Pobres criaturas!
Durante algum tempo, permanecemos atentos ao batuque que ia pela noite afora; Ferno convidou-nos para ver de perto, fomos. Quando nos viram, alguns pararam de danar, 
e os que estavam de ccoras se levantaram. Ferno disse-lhes:
 Continuem, continuem... Ento, um deles, talvez o mais velho escravo da fazenda, gritou com voz rouca:
 Viva Sinh Ferno! Viva Sinh Letcia! Responderam num s grito. E as danas recomearam mais animadas, o tambor tocando com mais fora. Pedro, escravo de dentro, 
convidou Elisa, sua mulher, para danar. Dona Elisa, saia na roda, Elisa sabe coroa... Elisa pulava. Era uma negrinha baixa e gorda, toda redonda, com a saia de 
chita revirando  volta. Dava uns passinhos curtos e rebolava-se, de modo que suas ancas subiam e desciam em movimentos rtmicos; de repente, levantou para o alto 
os braos luzidios e, num gesto impetuoso, deu uma umbigada no marido; o som ressoou como se tivessem batido num pandeiro, um som surdo e cavo. Continuaram a danar 
dando voltas e fugindo um do outro at nova umbigada; os outros que estavam  volta, acompanhavam o pandeiro batendo com os ps no cho e batendo as mos com movimentos 
iguais e montonos. O par deixou a roda; veio outro. Comeamos a achar divertido; na fazenda de papai, nunca tivemos permiss E3o de assistir a batuques.
Os que ficavam atrs iam-se revezando com os da frente; corria de vez em quando um pouco de quento, por ordem do Sinh; comiam rapadura, canjica, amendoim, batata-doce. 
A nica luz que iluminava as danas era a da fogueira que crepitava, levantando para o alto as labaredas vermelhas como braos esguios, aflitos, em busca de espao. 
 volta dela, os mais velhos, que j no danavam, assavam batatas e alimentavam o fogo, atirando-lhe gravetos que ele agradecia estalando e lanando chispas por 
todos os lados.
Depois que nos retiramos, a animao aumentou; os feitores assistiam de longe, esperando a hora determinada pelo amo para mandar parar a festa.
Durante horas, j deitada, continuei a ouvir os cantos e o rudo do pandeiro; era to montono que se tornava triste. No ouvia as palavras, mas procurei cantar 
o que sabia, combinando com as batidas do pandeiro. Lembrei-me de uns versos que comeavam assim: Sozinha no descampado, sozinha sem companheiro, l vou eu pelos 
caminhos, em busca de um paradeiro...
Encaixei os versos na cadncia do canto distante e repeti-o durante algum tempo enquanto no vinha o sono. Pensei comigo mesma que Maria Letcia encontrara um paradeiro: 
Ferno. E eu? J com as plpebras cerradas, repeti  toa, para dormir: L vou eu pelos caminhos, em busca de um paradeiro....
Nos dias que se seguiram, ficamos conhecendo toda a fazenda e tudo o que ela produzia. De manh, amos a cavalo, ao lado de Ferno, visitar os canaviais, o arrozal, 
os cafezais. Ferno tinha um gnio irrequieto e a cada movimento dava demonstrao de sua vitalidade, mais ainda, da sua personalidade.
No sabia ficar quieto, inativo, nem dez minutos; gostava de rir e conversar, gostava de viver. Seus gestos eram impetuosos, mas tinha bom corao e enternecia-se 
diante de qualquer infelicidade alheia. No sabia andar devagar e em silncio; batia as portas, pisava com fora no cho, abria as gavetas das cmodas com tal mpeto 
que os objetos, se por ventura estivessem sobre o mvel, comeavam a danar e alguns tombavam. Mesmo que os visse no cho, no se dava ao trabalho de levant-los. 
Era exuberante nos gestos; quando estava na fazenda, dirigia ele prprio todo animado e alegre. O cavalo ficava quase o dia todo amarrado no moiro da cerca.
Visitamos as senzalas, assistimos  moagem da cana,  do milho, espiamos o monjolo a trabalhar. Passvamos dias em atividade nessas ocasies, seguiam tropas para 
as cidades prximas, para vender os produtos da fazenda; desde madrugada, os enfileiravam ao longo da estrada que margeava, carregados de arroz, milho, feijo. Quando 
era a despachar caf, as mulas e os carros de boi iam cheios e gemendo e cantando subiam a serra. Maria Letcia se levantava de madrugada, nos dias em que havia 
tropas; gostava daquilo. A madrinha ia  frente agitando o cincerro: dlin, dlin, dlin e os burros carregados ficavam obedientes e serenos, sacudindo as grandes orelhas. 
Indo para as cidades, ver um pouco do mundo, dlin. Iam atravessando o ribeiro, subindo a serra, marchando, pelos caminhos sem fim que eles venciam com passo firme. 
Ficamos ouvindo o cincerro da madrinha at sumir na trilha e o silncio de novo voltava  fazenda; s se ouvia o rudo do pilo no ter
 reiro, onde todos os dias o moleque socava o arroz: tan! tan! tan! E quando Ricardo parava de socar, ouvia-se a voz da cozinheira Gabriela gritar da cozinha: Soca, 
Ricardo! E o moleque socava, fazendo rudo na imensido de Santarm. s vezes, gritava imitando a cozinheira e seu grito fino repetia: Soca, Ricardo! Peste do 
diabo! Peste do diabo!.
Maria Letcia chegava  porta da cozinha e chamava: Mulata, venha, Mulata! E dava o dedo  Mulata que a olhava de lado, desconfiada. No terreiro, Ricardo socava 
e as casquinhas de arroz voavam para os lados, enquanto o sol aquecia Santarm e fazia o rio brilhar, a terra viver, as plantas crescerem; e do poleiro da porta 
da cozinha, vinha a vozinha artificial da Mulata: Peste do diabo! Soca Ricardo!. Trs meses depois de nossa chegada a Santarm, Maria Letcia mandou uma pequena 
tropa para S. Paulo com cartas a mame, juntamente com alguns presentes da fazenda e, na volta, recebemos vrias cartas, uma delas de Leopoldina que lemos vrias 
vezes e guardamos como lembrana:

S. Paulo, 2 de junho de 1870.
Queridas manas:
Que pena no terem assistido  comdia de tio Antnio; tudo correu to bem que me parece vo representar outra vez no fim do ano e ento vocs podero assistir. 
Esquecia-me de contar que vamos bem, quero dizer, agora estamos bem, mas houve muita cousa antes. Bonifacinho caiu da mangueira e torceu um p; mame ficou muito 
aflita, mas agora ele j est curado. Tia Leontina no est nada boa, e os mdicos dizem que  uma doena que no tem cura.
Pensamos em Carola; que ser dela, assim aleijada? Decerto ficar com mame. Estou esperando outro filho, e vou bem. Souberam do combate de Cerro-Cor? Dizem que 
foi horrvel, morreram muitos brasileiros e primo Fabrcio desapareceu nessa batalha; no sabem se est prisioneiro ou se morreu.
Acham que morreu. Os tios de Paiva esto desesperados. Os nossos vo bem, graas a Deus. A comdia foi um mimo; mandaram fazer convites impressos; mando um para 
verem. Aninhas chora dia e noite por causa de Augusto. Lembranas a Ferno e beijos para vocs duas.
Mando um convite para verem.
Leopoldina
Atrs do convite, continuava a carta:
No est bonito? Uns dias antes, tio Antnio parecia doido com os ensaios; nem dormia sossegado. Em casa, s se falava nisso. Francisca Miquelina ficou radiante 
com a representao, esqueceu as tristezas que a acabrunhavam.
Quando vocs voltam? Esqueci de contar que a Gama apareceu com um vestido de veludo gren, um sucesso. Dizem que custou 100 na loja Leal e Leme. Imagine s!
Adeus. Beijos da mana saudosa, Leopoldina.

Lemos e relemos a carta; e a guardamos para ler mais tarde, outra vez. Percebi a alegria de Maria Letcia; mandou encilhar o cavalo alazo e galopou a tarde toda 
ao lado de Ferno. Imaginei que estava contente por saber que Francisca Miquelina havia esquecido as mgoas. Com certeza, no usa no cabelo nem esporinhas nem violetas.
Em agosto, Ferno e Maria Letcia resolveram regressar a S. Paulo e, alegremente, fui preparar minhas malas. Ferno precisava fazer os exames na Academia de Direito 
e apesar de estudar todas as noites na fazenda, enquanto eu bordava e a Letcia tocava piano, receava perder o ano.
Afinal, chegamos  chcara da Penha, onde os escravos j esperavam com a casa pronta. S nesse dia, Maria Letcia se lembrou outra vez da vizinha; nessa mesma noite 
da chegada e como que disfarando, perguntou ao marido porque no vendiam a chcara; Ferno, com um livro aberto diante dele, arregalou os olhos, admirado:
        Mas, por que, Maria Letcia? No est satisfeita aqui?
Ela, um pouco embaraada, baixou os olhos sobre o bordado e respondeu:
 Acho um pouco longe da cidade, gostaria de morar perto.
Ferno olhou-me perguntando:
        Acha longe, Rosa?
Respondi que no, e Maria Letcia olhou-me censurando. Ferno sorriu:
        Mas, querida, a calea leva menos de uma hora daqui at l; acha longe essa distncia? E se souber que pretendo aumentar a chcara? J mandei ver as terras 
l de baixo; pretendo juntar tudo e fazer uma espcie de stio que produza tudo o que se possa vender na cidade. Mando vir o Joaquim, que  feitor de confiana, 
para tomar conta de tudo quando estivermos ausentes. Voc no aprova?
Maria Letcia olhou-o e corou um pouquinho ao responder;
        Aprovo tudo que meu marido fizer.
Ferno ficou satisfeito; tomou-lhe a mo e beijou-a. Mais tarde, com um pretexto qualquer, Maria Letcia entrou no meu quarto para dizer que eu devia auxili-la 
e achar longe a chcara; em vez de ajudar, eu havia atrapalhado. Respondi que no podia adivinhar a inteno dela e no falamos mais nisso.
No dia seguinte, visitamos papai e mame; quando a calea com os quatro cavalos tordilhos parou  porta do sobrado, foi um rebolio em casa. Houve gritos de crianas, 
as escravas correram assustadas, para avisar mame, os olhos brilhantes:
        Sinh Letcia chegou!
S viam Sinh Letcia; eu era apenas a sua sombra. Mam Zabel foi a primeira a receber-nos; com a grande saia engomada, foi cumprimentar Maria Letcia e Ferno:
        Louvado seja Nosso Sinh! Como Sinhazinha t bonita, mais corada, mais gorda!
Cruzou os braos sobre o ventre e ficou, extasiada, a olhar Maria Letcia; depois, lembrou-se de que precisava avisar os amos e caminhou  nossa frente, arrastando 
a saia barulhenta. S ento se lembrou de mim:
        E Sinh Rosa. Tambm t forte... Sinh baronesa vai fic contente; Sinh baro vai leva um susto. Espere um pouco, vou chama os Sinh.
Voltou-se, rpida, e a saia rodopiou:
        Louvado seja! Tudo vai bem, tudo vai bem.
E l se foi pelo corredor, muito gorda e redonda: flac, flac, flac...
Tio Antnio estava cochilando na rede do alpendre; levantou-se com preguia, os olhos ainda meio cerrados por causa da claridade e exclamou ao ver a sobrinha preferida:
        Oh! La petite Marie. Ento os viajantes chegaram?
Bonifacinho veio correndo e caiu no meu colo; depois abraou Maria Letcia. Os outros irmos tambm vieram e, finalmente, apareceu mame que nos deu a bno. Quando 
papai entrou, levantamo-nos todos e Maria Letcia adiantou-se para beijar-lhe a mo. Francisca Miquelina, a princpio um pouco desconfiada, conversou depois, alegremente 
sobre a representao; todos deram opinio sobre o espetculo. Uma escrava foi correndo  casa de Leopoldina; e ela veio logo, com dois filhos, numa grande alegria. 
A roda estreitou-se para conversarmos melhor. Todos faziam perguntas sobre a fazenda de Santarm, sobre a viagem; depois voltamos a falar da famlia. Algum lembrou 
a molstia de tia Leontina. Os mdicos no descobriam a causa da doena, e ela definhava dia a dia. Mame suspirou, pensando nos sobrinhos que iam ficar sem me; 
a maior preocupao era Carola. Carola? Algum perguntou e mame respondeu logo:
        Ficar comigo, tenho essa obrigao, pois quando tia Leontina sentiu os primeiros sintomas da molstia, foi de mim que se lembrou, talvez porque sou a irm 
mais velha, e falou, sentada a nesse sof: Mana, vou pedir um favor, quando eu morrer, olhe por Carola.  uma pobre doentinha, aleijada, e no tenho confiana 
em ningum, a no ser na mana.
Olhamo-nos em silncio e pensamos em tia Leontina.
Para quebrar essa tristeza, papai perguntou a Ferno se precisaria colher muito caf esse ano; o assunto voltou a Santarm. Contamos s nossas irms o batuque no 
dia de nossa chegada e quanto havamos gostado. Tio Antnio que estava ansioso, e olhava Maria Letcia, exclamou de sbito:
        Como a petite Marie est bonita! La beaut de mour!
E, alando os olhos para o teto, alisou os longos bigodes tipo Napoleo III. Rimos todos e Maria Letcia corou intensamente. Ferno perguntou sobre a comdia de 
tio Antnio e Maria Letcia voltou-se para Francisca Miquelina: E seu vestido? Ficou bonito? Perguntou.
 Fui com o vestido branco de cetim; na cabea coloquei flores vermelhas e douradas.
Concordamos que devia ter ficado muito bonita.
Bonifacinho interrompeu perguntando quando iria a Santarm e quantos cavalos havia na fazenda. Maria Letcia e eu comeamos a explicar; sentado no meu colo, ele 
pedia pormenores.
Papai perguntou se todos ficariam para o jantar e como dissemos que sim, ele desculpou-se dizendo que o administrador de uma das fazendas o esperava no escritrio. 
Deixou a sala. Ferno beijou Maria Letcia na testa e pediu desculpas, mas precisava ir  Academia ver quando comeariam os Atos. Tio Antnio ficou ao nosso lado; 
recostou-se numa boa poltrona e cerrou os olhos enquanto conversvamos. Nossas cunhadas Eponina e Aninhas vieram logo depois, ansiosas por verem Maria Letcia aps 
tantos meses de separao. As conversas se animaram. Leopoldina perguntou:
        Sabem que Francisca Miquelina est estudando uma msica nova? A Muette de Portici, d'Auber.
No sabamos; perguntei se era bonita.
        Linda. Lus est tirando a parte de flauta para tocarem no aniversrio de papai; mas  segredo, no contem nada.
Eponina interrompeu:
        A princesa imperial tocou essa msica a quatro mos, no Pao.
Aninhas riu:
        Eponina s diz: princesa imperial... princesa imperial... Por que no diz Princesa Isabel?  engraado!
Francisca Miquelina interrompeu:
        U! Ela gosta de falar assim. Maria Letcia no viu ainda o penteado novo  Maria Stuart?
Maria Letcia admirou-se:
        Penteado novo? No. Como ? Em cachos?
        No. Em bands, assim... com flores ou brilhantes; esta parte vai para cima... assim... e esta cai ao lado da testa... assim... Sabe quem estava com esse 
penteado no dia da representao? A Lages. Dizem que na corte esto usando muito essa moda.
Tio Antnio resmungou do fundo da poltrona, os olhos cerrados;
        No gosto nada dessa moda.
Houve protestos; Francisca Miquelina falou:
        Oh! Tio Antnio, ento no gostou? Acho lindo, principalmente com brilhantes ou plumas cadas nos ombros.
Eponina disse que Maria Letcia devia ficar muito bonita com esse penteado. A mucama entrou com o filho menor de Leopoldina; a criana chorava e, quando parava de 
chorar, chupava a mozinha fechada; mame explicou:
        Isso  fome. Pobrezinho! H quanto tempo est sem mamar?
        No pode ser fome, mame. Dei antes de vir; no faz mais de uma hora.
E Leopoldina, pegando o filho ao colo, comeou a embalar, cantando baixinho:
        Dorme, meu filhinho, seno o lobo vem... Vem?
(Parava de cantar para falar.)
 Ento tio Antnio no gosta do penteado  Maria Stuart? Pois acho bem bonito... L... l... l... Seno o lobo vem... Vem? Dorme meu filhinho... l... l... l... 
Mame, no  hora do caf com mistura? Tenho fome agora, tenho fome toda a hora. Dorme, filhinho...
Achamos graa no modo de Leopoldina embalar o filho; Aninhas aconselhou:
        D o peito  criana que ela est querendo mamar.
No percebe? Voc tem fome porque est amamentando.
Leopoldina desabotoou o vestido rapidamente, de costas para tio Antnio, e deu o seio  criana que comeou a sug-lo Com prazer, fazendo um barulhinho ao engolir 
o leite. Veio o lanche para todos e mame pediu-me para servi-lo. As crianas pediram bolos e sequilhos. Estvamos comendo quando Benedito entrou e disse  mame 
que havia uma visita no salo; em nosso primo Joo Antnio, filho do tio de Paiva. Mame reclamou:
        Joo Antnio? Ah! Mande entrar aqui, Benedito. Diga que entre.
Leopoldina foi para dentro com o filho no colo; Francisca Miquelina exultou:
        Ih! Vamos ter notcias da corte!
Joo Antnio foi logo beijando a mo de mame, numa reverncia:
        Senhora minha tia, como est passando?
Sentou-se na cadeira que Benedito ofereceu, depois de ter cumprimentado toda a roda; contou que chegara na vspera do Rio de Janeiro. Viera a negcios. Maria Letcia 
perguntou rapidamente:
 E o Rio de Janeiro?... Muito animado? Muitas festas?
Ele sorveu um gole de caf que eu lhe oferecera e voltou-se para Maria Letcia:
        Ah! Prima Letcia no soube do baile de 20 de julho no palcio do Baro de Itamarati?
Quando dissemos que no sabamos, ele preparou-se para descrev-lo; fui correndo chamar Leopoldina l dentro; ela entregou a criana  mucama e veio para a sala; 
tio Antnio sentou-se na poltrona, todo empertigado. Francisca Miquelina implorou:
        Conte, primo Joo. Como foi?
Ele pigarreou, passou o leno pela boca e contou que o baile fora oferecido ao Conde d'Eu pela Guarda Nacional para festejar o fim da guerra e a vitria. Haviam 
comparecido cerca de 1.500 pessoas. Repetimos com entusiasmo:
        1.500 pessoas? Esteve l, primo? Que beleza!
Joo Antnio teve um momento de hesitao e seu rosto se contraiu quando disse:
        No. Da nossa famlia, ningum compareceu. Meu pai anda muito amofinado porque Fabrcio ainda no voltou da guerra.
Mame assustou-se:
        Como no voltou? O que aconteceu?
        Ningum sabe ainda, minha tia. Meu pai tem feito tudo para descobrir o paradeiro dele. A princpio, pensamos que estivesse prisioneiro, tnhamos quase certeza. 
J fizemos indagaes; agora estamos desanimados. No h notcia alguma; desconfiamos que morreu em Cerro-Cor.
Durante alguns instantes, ningum falou; mame ficou compungida:
 No  possvel. Ele voltar. E o conselheiro?
        Papai j perdeu as esperanas e est acabrunhado; mas mame ainda espera. Espera todos os dias a chegada dele.
Diz que vir de repente, sem ningum esperar.
Novo silncio. Ns que estvamos alegres com a volta dos nossos, sentimos uma espcie de alvio por Fabrcio no nos pertencer. Aninhas suspirou:
        Coitada!
Joo Antnio continuou:
        Depois da guerra contra o Paraguai, a vida social ficou muito mais animada. Elevou-se; e no devemos esquecer que o Conde d'Eu, o nosso general vitorioso, 
tem recebido todas as honras. Essa festa foi uma das mais lindas... Esqueci de contar que o salo estava iluminado com 800 velas...
Papai entrou na sala esfregando as mos e dirigiu-se a Joo Antnio:
 Ento, senhor meu sobrinho, como vamos? Como vai o conselheiro?
Voltamos a falar a respeito do Paraguai, de Fabrcio e do acabrunhamento do tio de Paiva. Joo Antnio ficou para jantar.
Durante o jantar, todos reunidos novamente, falamos das festas da corte. Papai tambm fazia perguntas:
        E concertos? Tem havido muitos?
        Tem havido alguns em residncias particulares; temos grandes cantores lricos como Tamberlick; amadores tambm, alunos de Francisco Manuel. Nunca deixamos 
de ter boa msica.
Falou sobre as damas da corte, citou nomes, animado por sentir, em todos ns, indisfarvel curiosidade e vontade de saber. Explicava:
        Algumas damas so excepcionais; lindas e distintas; a Viscondessa de S. Bento  uma senhora extraordinria; nunca se recosta nem nas carruagens, nem nos 
camarotes dos teatros.
Sempre muito digna. Muito altiva.
Ferno perguntou:
        A imperatriz e o imperador compareceram ao baile do Baro de Itamarati?
Joo Antnio sorriu:
        L estiveram sim. E danaram muito. Gostam de danar a quadrilha de lanceiros. A imperatriz danou com os ministros da Rssia, da Blgica, dos Estados Unidos. 
D. Pedro I danou com a Viscondessa de Arajo, com a senhora Lemos, e a Ministra Saint-Georges. Havia duas orquestras; vinham em fila, a quatro de fundo.
        Como Joo Antnio sabe dos detalhes? Algum lhe contou?
        Dois primos Sousa Mendes foram ao baile.
Serviu-se de fios de ovos:
        Mas, falando em ministros, lembrei-me de contar uma cousa. O Saint-Georges tem tido ms notcias da Europa; parece que a poltica l no vai bem. A Prssia 
e a ustria esto em conflito e a ustria est sendo derrotada. Agora a Prssia ameaa a Frana. Quase j se pegaram h alguns anos. Dizem que vai haver guerra, 
talvez inda este ano.
Houve um silncio; tio Antnio parou de comer e ficou com a colherinha de sobremesa no ar:
        Oh! La pauvre France. Que querem com ela? Por que no a deixam em paz? Ela nada pede a ningum, a ningum importuna.
Bateu a colherinha com fora no prato e repetiu:
        Por que no a deixam tranqila? Pobre Frana!
 No se sabe; Bismarck  um lobo mau. Quer tudo para ele: ustria, Baviera, o Wurtemberg e os demais Estados da Confederao Germnica.  insacivel.
Papai perguntou:
        Afinal o que faz pensar numa guerra com a Frana?
        O Saint-Georges anda apreensivo; toda a Germnia ficou de repente contra a Frana, do lado da Prssia. Isso  mau sinal.
Lus disse com voz alta, do outro lado da mesa:
        Se a Frana entrar na guerra, vou combater por ela.
Permite, papai?
Mame olhou-o e suspirou; papai levantou a mo num gesto conciliador:
        Veremos, veremos.
Bonifacinho falou da outra ponta da mesa, sacudindo os cachos dos cabelos:
        Se mano Lus for para a Frana, eu vou tambm.
Deixa, mame?
Rimos muito. Aninhas sacudiu o dedo indicador na direo dele:
        Criana no fala na mesa.
Tomamos caf pensando na guerra; de vez em quando faziam um comentrio em voz baixa; ento papai fez o sinal de costume e ordenou:
        Vamos rezar.
Levantamo-nos empurrando as cadeiras; olhei Maria Letcia. Ela no se levantava mais, j estava casada. A barba grisalha de papai tremeu sobre o peito:
        Bendito e louvado seja o Senhor que nos deu de comer e nos deu de beber, sem merecer.
Repetimos a frase em voz baixa, as cabeas inclinadas para a frente, pensando na Frana.

TODOS os dias, Maria Letcia ficava em casa enquanto Ferno freqentava as aulas da Academia; um dia contou que os filhos, o Comendador Menezes e senhora, tinham 
convidado Ferno para um jogo de solo s oito horas; ela tambm fora convidada para tomar ch. Foi logo dizendo que no iria, pretextaria uma dor de cabea, ou ento 
diria que o ch  noite lhe dava enxaqueca, mas no iria. Reprovamos essas idias e disse que ela precisava ir, nem pensasse em recusar; Letcia disse olhando para 
outro lado:
        Eu vou, se mana Rosa for tambm.
Protestei:
        Mas eu no fui convidada, Maria Letcia. E o que iria fazer l? No conheo ningum.
        Eu tambm no conheo ningum. No me simpatizo com aquela mulher, e digo que voc est passando uns dias aqui, por isso vai tambm.
Mame ralhou com ela por chamar a vizinha de mulher; Maria Letcia baixou a cabea e fez cara de choro. Respondi:
 Mas ela deve saber que no estou mais na sua chcara, estou em casa de meus pais.
Tudo foi intil; Maria Letcia pediu tanto que pus meu melhor vestido e fui com eles; percebi que Ferno no aprovou muito a idia.  hora do jantar, ela ainda procurou 
esquivar-se. Ferno aconselhou: foi a primeira vez que nos convidam, Maria Letcia, no podemos deixar de ir.  boa gente, voc vai gostar. A Menezes talvez seja 
um pouco aloucada, quero dizer, estabanada, mas so boa gente.
Ela aproveitou a ocasio para perguntar:
        Aloucada? Eu j a vi na cerca conversando com voc e esmagando rosas entre os dedos. Parece que ela tem sempre muito assunto. E desviou os olhos como fazia 
sempre quando tocava num ponto sensvel, Ferno riu-se:
        Ah! Ela gosta de conversar. E depois, eu os conheo h muito tempo, desde que compramos esta chcara; fomos sempre vizinhos.
Ela olhou-o de frente:
        Ento voc freqentou a casa deles?
        J. Mais de uma vez fui l a convite para jogar carimbo ou solo, conversar, tomar ch, E tambm fazer msica; ela toca bem, D. Deolinda. Maria Letcia e 
Rosa vo gostar; vo ver que bela a casa do comendador, com lindos objetos de arte, trazidos da Europa.
        Viajam muito? Perguntei.
        Parece que a segunda filha nasceu l; j residiram um tempo em Viena. O marido ocupava um cargo qualquer na Embaixada Brasileira, Maria Letcia ficou pensativa 
e foi para o quarto, vestir-se. Acompanhei-a para auxili-la. No sabia que vestido havia de escolher, afinal escolheu um de seda cor de ervilha, com punhos e gola 
de bordado ingls.
Modesta comeou a pente-la; ouvimos a voz de Ferno cantando no quarto vizinho, enquanto se vestia: Ninon, Ninon, que fais tu de la vie?
Pelo espelho, vi Maria Letcia apertar os lbios de raiva; tinha esse hbito desde criana. Percebi que estava terrivelmente enciumada, pois nunca o marido cantava 
assim, parecia mais alegre esse dia que nos outros.
s oito em ponto, chegamos  casa do comendador, fomos recebidos por um mordomo negro, e D. Deolinda, quando nos viu, se adiantou para receber-nos; foi nesse instante 
que me lembrei do aviso de Modesta: Cuidado Sinh, essa mui t marcada pelo demo.
Sorri para ela enquanto a olhava nos olhos; tinha uns olhos vivos e grandes, vi-os percorrendo Maria Letcia num relance. No aperto de mo que trocaram, breve e 
cerimonioso, senti que Maria Letcia estremecia, como se tivesse tido, nesse momento, uma intuio, intuio de que tinha diante de si uma perigosa adversria. Outras 
pessoas estavam no salo e durante as conversas observei disfaradamente D. Deolinda; no era muito moa, mas era bonita, com olheiras azuis sob os olhos escuros, 
e a boca de lbios espessos; quando falava ou ria, mostrava a alvura dos dentes. Trajava-se de gorgoro azul-rei, enfeitado com babadinhos, andava de um lado para 
outro, com desembarao e elegncia invejveis. O marido conversava numa roda de homens e observei-o tambm; falava com voz grossa que se sobressaa das dos outros; 
fazia grandes gestos com as mos gordas e peludas; parecia bem mais velho. Tinha suas grisalhas que lhe caam em ambos os la
 dos do rosto quase at os ombros; pensei que podia fazer tranas nas suas do comendador e tive vontade de rir. Sobre o ventre proeminente, uma corrente de ouro 
que atravessava de um bolso a outro do colete xadrez; uma corrente to exageradamente grossa como nunca vi outra igual. E usava no dedo mnimo da mo direita, dedo 
grosso e curto, um anel de ouro com um vistoso brilhante. Comparei-o com Ferno; como eram diferentes! Suspirei e comecei a conversar com a senhora que estava  
minha direita; quando olhei de novo a sala, D. Deolinda estava de p, ao lado de meu cunhado; Ferno estava alegre; com um baralho de cartas na mo, explicava a 
ela um jogo qualquer. Olhei Maria Letcia que estava mais alm; percebi o cime apertar-Ihe o corao. Estava plida e respirava ofegante como se alguma cousa a 
sufocasse; procurou disfarar e conversou com uma senhora idosa que estava a seu lado, no sof. Ouvi-a perguntando se o bronze que estava so
 bre o consolo era de Morbedienne; a senhora idosa disse que sim e que D. Deolinda era mulher de gosto invulgar; que ali tudo fora escolhido por ela. E continuou, 
animada:
 Reparou nas cadeiras de charo, minha senhora? So especiais, assim como os candelabros de bronze. E as placas de prata? S D. Deolinda podia ter-se lembrado de 
colocar as placas de prata cinzelada dos lados da porta. So pratas de llenner, no sabia? As nicas existentes aqui. Quando conhecer melhor D. Deolinda, ver que 
mulher extraordinria.
Maria Letcia relanceou os olhos pela sala e abanou-se muito de leve com o leque de renda branca; D. Deolinda, sentou-se ao lado de Ferno, conversava sem cessar. 
Maria Letcia abanou-se com mais fora enquanto olhava o marido ao lado da vizinha. Vi que estava sofrendo, mas nada podia fazer. A senhora idosa insistia nos elogios 
a D. Deolinda e  casa:
 Reparou nas cortinas combinando com os tapetes?  gosto dela; o comendador no manda aqui dentro. Ah! D. Antoninha Figueiredo a vem. Est de passagem por S. Paulo. 
Conheceu? Freqenta muito a corte.
Levantamos para cumprimentar o casal Figueiredo; ao caminhar, D. Antoninha espalhava um perfume de violetas e abanava-se com um leque de cetim pintado  mo, queixando--se 
do calor. O comendador convidou os homens para passarem  sala de jogo, onde as mesas estavam formadas para o besigue. O marido de D. Antoninha manifestou sua preferncia 
pelo voltarete e sentou-se  parte, com dois ou trs parceiros. De onde eu estava, ao lado da Sra. Maranho, via uma parte da sala de jogo. D. Deolinda ia e vinha 
entre os convidados; falava com os homens, sentava-se um instante ao lado de uma senhora e, de repente, ia ver o jogo outra vez. Percebi o interesse de Maria Letcia 
em observar a dona da casa; espreitava-a; queria saber o que havia entre ela e Ferno, pois desde o princpio achou que devia haver alguma cousa. Conversava com 
a senhora idosa para disfarar, mas ao mesmo tempo vigiava D. Deolinda; era difcil vigi-la porque ela no parava. Eu achava-a d
 esenvolta demais para uma dama distinta.
Quando D. Deolinda ria, mostrava os dentinhos brancos entre os lbios espessos; fiz logo uma observao; ela dirigia-se sempre aos homens, nunca s mulheres. S 
falava com as senhoras quando no havia homens por perto. Falava com eles, ria para eles, provocava-os com frases estudadas que jogava como quem joga uma bola. Olhava 
de soslaio depois que jogava a bola, a cabea um pouco inclinada para um lado, os olhos cintilantes de malcia e ficava esperando a resposta. Quando se pensava que 
ela j havia desviado a ateno, percebia-se que ainda olhava sorrindo, de esguelha, os lbios entreabertos, fortes e carnudos, sempre mostrando a alvura dos dentes. 
Esse olhar assim de lado, persistente e profundo, perturbava; parecia sondar o interlocutor at a alma, parecia querer descobrir, adivinhar. E conforme a resposta 
 pergunta, ria-se, um riso descarado e maldoso.
Maria Letcia olhava as prprias mos para disfarar; parecia concentrar a ateno na conversa, mas no podia. D. Deolinda dominava a sala de uma maneira to perceptvel 
que o mais insignificante observador o notaria. As mulheres no existiam para ela, pareciam meros objetos decorativos no salo; seus sorrisos, seus olhares, seus 
gestos e as frases espirituosas que atirava com displicncia, eram s para os homens; ela se dirigia a todo instante para a sala de jogo, onde eles estavam. Quando 
estava conosco, s entre senhoras, toda sua espirituosidade caa como um saco vazio. Procurava manter a fama de bem receber, mas com evidente esforo. Fazia uma 
ou outra pergunta, dirigia-se s senhoras que estavam a seu lado, mas toda sua ateno estava na outra sala. Era como se seu corpo estivesse conosco e sua alma na 
sala de jogo. No se continha; era outra mulher quando estava entre homens; seu esprito brilhava, suas frases eram prontas, seu
 s olhos tinham cintilantes de pedras preciosas e sua boca sorria todo o tempo. Maria Letcia percebeu qualquer cousa porque me olhou com um brilho imperceptvel 
mostrando a atitude diferente, quieta e cismadora de D. Deolinda, ao nosso lado. Enquanto isso, ouvamos D. Antoninha Figueiredo contar as festas da corte, pomposas 
e lindas; os bailes, os saraus, os concertos. De longe, eu vi Ferno jogar; ele escolhia a carta e jogava com um gesto indiferente de quem est absorvido pelo jogo. 
De repente, D. Deolinda foi outra vez  sala de jogo perguntar se queriam ela; e veio de l rindo-se muito e passando a ponta da lngua sobre o lbio superior; Maria 
Letcia olhou-me horrorizada. Olhei aquele trejeito imprprio de uma senhora; em nossa casa, no se permitiam certos gestos. Aquela mulher era mesmo irritvel. Comparei-a 
a um animal que fica  espreita atrs in loco, esperando outro para subjugar, estrangular. Abanando-me de leve, comecei a pensar a
 que animal perigoso D. Deolinda podia ser comparada. Ona? Raposa? Tamandu?
Raposa, porque era astuta e m. Astuciosa. Lembrei-me de uma raposa morta na fazenda de papai, certa madrugada, quando roubava frangos; olhei D. Deolinda para ver 
se tinha alguma semelhana com a raposa morta. No tinha. Nesse momento, tinha ela escondido o rosto com o grande leque verde e apenas seus olhos apareciam por cima 
dele, luminosos e risonhos.
Havia dito uma frase qualquer em voz baixa a Ferno e esperava o efeito, espreitando-o por trs do leque. Voltei-me para falar com a Sra. Maranho e vi Maria Letcia 
muito branca, como se estivesse se sentindo mal, a mo na garganta. Parecia sufocar. No ouvi o que Ferno respondeu, s percebi D. Deolinda rir-se, depois de servir 
refrescos que as escravas apresentavam em bandejas de prata. Interrompeu-se o jogo; ouviu-se a voz grossa do comendador, do canto da sala de jogo:
 Senhora, prefiro um caf forte a esses refrescos de gua com acar.
O Figueiredo queixou-se da falta de sorte essa noite, apesar de ser o voltarete o seu jogo predileto; sempre que havia reunies no Pao, l estava ele. Enquanto 
tomava o seu refresco, D. Antoninha queixou-se da tristeza de S. Paulo; no compreendia como se podia viver aqui, sem festas, nem bailes. Achava S. Paulo triste 
e os paulistanos muito retrados.
s onze horas, os convidados comearam a retirar-se. Passando outra vez pela sala onde minha mana e eu havamos deixado nossas mantilhas, Maria Letcia viu, sobre 
um consolo de mrmore, o retrato de um menino de dez anos, forte e muito bonito. D. Deolinda aproximou-se e explicou-nos que era seu filho mais velho, Casimiro. 
E comeou a falar do filho longamente.
Pelo brilho dos olhos, pelas palavras ternas que pronunciava diante do retrato do filho, percebi, ou tive a intuio de que o sentimento dominante daquela mulher 
que se assemelhava a uma raposa, era o amor maternal. Falava dele com ternura, explicando que estava passando uns tempos na fazenda do pai, em Taubat.
Despedimo-nos tambm e samos para a estrada banhada de luar; as carruagens dos outros convidados desapareciam na distncia, levantando nuvens de poeira.
Entramos em casa e, enquanto Ferno fechava a porta de entrada, Maria Letcia perguntou-me em voz baixa se no vira D. Deolinda passando a ponta da lngua sobre 
o lbio superior. Disse que sim; ela estava revoltada e furiosa, disse que jamais vira uma mulher assim abominvel. Quis falar mais, porm Ferno entrou na sala 
e contou um episdio do jogo:
        O Comendador, o Saraiva, o Maranho e eu jogvamos carimbo. Ah! O Bento tambm. De repente, as apostas foram-se amontoando no meio da mesa e j havia uns 
quinhentos mil-ris quando o Maranho apostou tudo...
        Quinhentos mil-ris?
        Mais ou menos. Ento o Comendador Menezes olhou o mdico e perguntou: Maranho, sabe quanto h na mesa?, como quem diz: Tem dinheiro para pagar?. O 
Maranho tirou uma nota de quinhentos mil-ris da carteira em vez de responder e perguntou: O comendador tem uma nota igual a esta? O comendador tirou outra nota 
idntica e mostrou; ento o Maranho disse: As duas notas so iguais, no so? Ambas tm o retrato de D. Pedro II, no tm? Ou a sua ser diferente da minha? Pois 
se so iguais, posso, tanto como o comendador, apostar o que est na mesa. Jogou e ganhou. O comendador ficou sem graa: Este Maranho... este Maranho.... Pelo 
fato de o Maranho ser mdico e no grande agricultor como ele, o comendador pensou que o parceiro no pudesse pagar. Mas fez mal, e o Maranho falava com tanta 
ironia, foi engraado... Vocs precisavam ver.
Maria Letcia nem ouvia bem, parecia distrada. Perguntei se ela queria um ch de folha de laranjeira; disse que sim e acompanhou-me  cozinha; foi s para falar 
de D. Deolinda. Comentou os gestos da vizinha, o riso, o modo de falar com os homens, o trejeito de passar a lngua sobre o lbio superior. Sufocava de raiva. Tomou 
o ch dizendo que seria difcil a um homem livrar-se de uma mulher assim absorvente. Seria quase impossvel. Despediu-se e entrou no quarto: aconselhei-a a no pensar 
mais em D. Deolinda, e com os olhos abertos, fiquei pensando durante muito tempo em D. Deolinda; imaginei que Maria Letcia tambm estava acordada, amofinando-se. 
Uma semana antes do aniversrio de papai, toda a famlia se alvoroou para festejar condignamente a data. Haveria um grande almoo e depois todos assistiriam  procisso 
de Nossa Senhora, uma das mais importantes do ano; e,  noite, haveria um concerto que seria uma surpresa para papai.
Fomos assistir  missa em S. Gonalo. Almoamos juntos e ficamos esperando a passagem da procisso; mame mandou colocar colchas de seda nas sacadas de casa, pois 
a procisso passaria no Largo do Ouvidor e mandou as escravas espalharem flores em toda a frente da casa. Da nossa famlia duas crianas vestiram-se de anjo: Augusto, 
filho de Aninhas, e Fortunato, filho de Leopoldina. As tnicas iam at o cho e eles estavam srios e compenetrados, quase no falavam. Bonifacinho comeou a caoar 
deles e a beliscar a asa de Fortunato; foi preciso mame segurar Bonifacinho por um brao. Quando os sinos da igreja de S. Francisco comearam a repicar, avistamos 
a procisso que vinha subindo solenemente a rua de S. Bento. Toda a gente saiu  rua ao ouvir os sinos badalarem; viam-se palmas e mantos de seda nos balces das 
casas, ptalas juncavam o cho; a multido encheu as esquinas, as janelas, os largos, ansiosa por presenciar o desfile. P
 rimeiro apareceram quatro cavaleiros, depois veio um grupo de anjos, seguidos pelos portadores de candelabros carregando grandes crios enfeitados com flores de 
cera colorida, pssaros e cabeas de querubins.
S ento apareceram os primeiros andores; as imagens eram em tamanho natural: vieram um rei e uma rainha, vestidos com longas tnicas, cada qual levando um rosrio 
na mo; depois um Santo Antnio e um Cristo, ambos curvados sobre cruzes de madeira; uma Nossa Senhora da Conceio, de p, envolta em nuvens de tule prateado, bordado 
com cabeas de anjinhos. Um S. Benedito negro, vestido com tnica escura, tendo na cintura um cordo branco e na mo um crucifixo; depois vieram S. Tiago, de p, 
muito alto, com um co ao lado; S. Lus, rei de Frana, levando na mo os trs pregos e a coroa de espinhos, estava de opa azul, cabeleira branca e grandes bigodes. 
Santa Isabel, rainha de Portugal, com seu manto amarelo e uma coroa de ouro, fechava a fileira dos Santos. No fim da procisso apareceu Cristo crucificado, ao p 
do qual se via Santo Antnio, em atitude de adorao; logo atrs, vinha uma fila de anjos, entre os quais estavam os no
 ssos. Em seguida, desfilaram padres, frades, a banda militar e o povo. A procisso durou quase quatro horas porque caminhavam muito lentamente, entre alas de gente 
comprimida nas ruas e s portas das casas, os olhos fitos nas imagens e nos anjos com cartazes alegricos presos em bastes prateados.
Vibramos quando vimos nossos anjos passarem, o azul e o rosa; mas j vinham cansados e suarentos, pois, apesar do nosso entusiasmo, mal nos olharam. Os carregadores 
de andores paravam para revezar-se, pois o peso era enorme e no o suportavam durante muito tempo. Na esquina do Largo do Ouvidor, as mucamas tiveram ordem de recolher 
os meninos, que estavam bem cansados. Assim que entraram em casa, os dois pediram gua fresca, pois a tarde estivera quente e o sol muito forte. Fui buscar gua 
na moringa, e foi ento que se deu a briga dos anjos: Fortunato, cheio de mimos, jogou o resto da gua na cara de Augusto; Augusto no disse nada, apenas pegou a 
asa esquerda de Fortunato e puxou com fora; a asa resistiu e ele puxou mais; ento a asa destroncou-se e ficou dependurada. Durante esse tempo, recebeu pontaps 
e tapas de Fortunato, mas no se importou. Tudo foi rpido e, apesar de meus gritos, continuaram a brigar. Fortunato, ao perceber que estava com a a
 sa destroncada, deu um grito e avanou no arco de papelo coberto de papel prateado que ia de um ombro ao outro de Augusto e arrancou-o numa tirada. Augusto, sempre 
em silncio, avanou nas plumas que cobriam a cabea do primo Fortunato e saiu rindo, com as plumas destroadas nas mos. Fortunato, cada vez mais furioso, atracou-se 
ento s asas do anjo cor-de-rosa e no as largou enquanto no tirou pedaos; desta vez Augusto gritou, rasgou a camisola do anjo azul e arranhou-lhe o rosto, aos 
berros. Foi a que as mucamas acudiram e conseguimos separar os dois anjos; quando as mucamas viram seus Sinhs naquele estado lastimvel, com camisolas rasgadas, 
asas quebradas, plumas e flores pisadas no cho, comearam a discutir entre si, cada uma pondo a culpa na outra. Leopoldina e Aninhas, ouvindo o barulho da discusso 
e os gritos das crianas, aproximaram-se; Leopoldina deu uns piparotes no filho e puxou-o por um brao; l foi ele, chorami
 ngando com a asa a arrastar pelo cho. Aninhas ralhou com o filho, dando-lhe um coque e perguntando:
        Onde est sua asa, Augusto?
Augusto chorou mais fortemente e comeou a virar-se de um lado a outro  procura da asa, mas esta fora levada pelo primo Fortunato. A mucama saiu correndo para reclamar 
enquanto Aninhas continuava repreendendo:
        Nunca mais sair na procisso. Nunca mais. A gente tem um trabalho para arranjar esse menino, no fim briga e fica sem asa. Anjo no briga.
Augusto, com as mos sujas e suadas, procurava limpar as lgrimas que lhe corriam pelas faces, desesperado porque perdera a asa. O rosto estava manchado de p e 
lgrimas; Aninhas deu-lhe outro coque e mandou-o para casa com a mucama; esta j trouxera a asa, mas faltava um pedao. Ele foi para casa segurando a mo da escrava, 
um pedao de asa debaixo do brao, chorando de raiva.
Mais tarde, na sala de jantar, rimos durante muito tempo ao recordar a briga dos anjos.
Aps o jantar, fomos para o salo, onde houve o concerto dedicado a papai. Leopoldina exibiu-se primeiro: tocou uma valsa de Chopin. Depois Lus executou na flauta, 
acompanhado por Leopoldina, a Valse-Caprice, de Rubinstein. Maria Letcia tocou ento uma sonata de Beethoven; papai ouvia extasiado, pois para ele nada havia melhor 
que a msica, por isso obrigara todos os filhos a estudarem, ou piano, ou harpa, ou flauta. S eu no consegui tocar nada; diziam que tinha os ouvidos tapados para 
a msica.
A primeira parte do programa terminou com Francisca Miquelina tocando na harpa a Muette de Portici. Papai, que no conhecia a msica, aplaudiu com entusiasmo; depois 
felicitou Francisca Miquelina pela admirvel interpretao.
A segunda parte inclua alguns recitativos; Flix, nosso irmo mais velho, declamou a Judia, com acompanhamento de piano, em surdina. Augusto, marido de Aninhas, 
declamou trechos da Divina Comdia, traduzidos por ele mesmo. Leopoldina tocou outra valsa de Chopin e Francisca Miquelina tocou com mestria na harpa Pense Fugitive, 
de Papini.
Tio Antnio, que ouvia silencioso, entusiasmou-se afinal, dizendo que Franois Copp certa vez ouvira o harpista Lebano tocar e dissera com nfase, quando Lebano 
terminara o Sherzo, de Hauser: La harpe est un corps sec et sans flamme, Lebano joue, c'est un me.
Dias depois, em princpios de outubro, estvamos todos em casa, excitados com as notcias recebidas, quando Maria Letcia e Ferno chegaram ao Largo do Ouvidor. 
Estvamos todos falando alto e gesticulando; apenas mame parecia calma, sentada na poltrona predileta. E quem falava mais era tio Antnio; batia com a palma da 
mo na mesa, revoltado, os cabelos em desordem, os bigodes cados, a fisionomia abatida, falando alto:
        O jornal diz que Bazaine foi obrigado a retirar-se para Metz e a  que est cercado. O exrcito foi quase todo aniquilado. Pobre Frana!
Andava de um lado para outro e voltava para bater na mesa com a palma da mo e falar cada vez mais alto:
        Isso foi em princpios de agosto; imaginem agora...
O que no ter acontecido?
Lus observou:
        Para mim, o pior  Napoleo ter sido derrotado e obrigado a capitular em Sedan;  a desgraa da Frana. Se no fosse isso...
Maria Letcia e Ferno escutavam parados  porta da grande sala; ouvindo essas palavras, Ferno precipitou-se para o nosso lado:
        Que foi? Tiveram notcias da Europa? Napoleo capitulou?
Tio Antnio segurou-o por um brao, explicando:
        Mon pauvre ami, chegaram notcias da Europa, no pode imaginar o que anda por l. A Europa  um caos... Uma terrvel carnificina.
        Bismarck?
        Sim. Bismarck invadiu a Frana com toda a horda de brbaros e Bazaine est cercado, completamente cercado. Isso j faz dois meses, mais at... Foi em princpios 
de agosto. E agora?
E tio Antnio puxou os bigodes.
        Mas por qu? Perguntou Ferno. Que fez a Frana para ser assim invadida?
Papai, de p, falou com calma:
        A Frana  invejada,  cobiada. Bismarck invadiu-a barbaramente, mas isso no pode ficar assim; o mundo civilizado deve intervir. No pode.
Flix comeou a explicar com o jornal na mo:
        Aqui diz que houve duas grandes batalhas, a de Worth e a de Gravelotte; depois Bazaine foi cercado em Metz e Napoleo derrotado em Sedan.
Ferno empalideceu:
        Como? Derrotado?
O marido de Leopoldina, com as mos nos bolsos, passeava pela sala, olhando o cho; parou para dizer:
        Mas ainda h esperanas; no devemos desanimar.
Flix sacudiu o jornal:
        Como assim? No leu os jornais? Onde est a esperana?
Alberto encarou Flix:
        Bem, a Frana est cercada pelas tropas de Bismarck, mas quem diz que ela no pode resistir? Paris no pode reagir?
Paris  sempre uma esperana...
Tio Antnio pegou o jornal e sacudiu-o diante dos dois:
- Mas aqui diz que as tropas prussianas esto fortssimas; em nmero, em equipamento, em tudo. Levaram anos a se preparar: como pode a Frana resistir? Mon Dieu!
E abrindo o jornal outra vez sobre a mesa, mostrou as notcias com as mos espalmadas:
        Leiam isto. Olhe, as notcias so positivas: o cerco de Paris  uma realidade. Como podero expulsar os invasores, se so os mais fracos? No sei de que 
lado pode vir a esperana, no sei...
Disse Augusto:
        Napoleo III tem fracassado sempre; fracassou com Maximiliano no Mxico; isso foi o pior que podia ter feito, enviar aquele pobre homem que no queria ir, 
para ser fuzilado estupidamente...
Papai com o dedo na cava do colete, disse com calma:
        E foi o nico culpado, o nico. Tem errado sempre. Admito que se erre, todo o mundo pode errar, mas deve-se fazer tudo para, depois do erro, reabilitar-se 
e procurar no cair novamente. E Napoleo III s tem feito isso: errar.
        Mas papai, replicou Lus, quem pode impedir que o mais forte aniquile o mais fraco? Isso at me faz lembrar La Fontaine: Le loup et l'agneau. Si ce riest 
toi, c'est donc ton frre. Je rien ai point. Cest donc quelqu'un des tiens; car vous ne rrpargnez gure, vos bergers et vos chiens. On me l'a dit, II faut que 
je me venge. Assim, Bismarck avanou na Frana para se vingar. De qu? Ningum sabe.
        Muito bem, meu filho, disse papai. Mas no deve esquecer-se de que Napoleo provocou a questo com a Prssia logo depois do fracasso do Mxico; foi por 
causa de Luxemburgo, h uns trs anos. Agora veio a invaso, mas ele andou provocando a Prssia.
Maria Letcia falou pela primeira vez:
 Ento papai tem razo; se ele provocou,  culpado da desgraa da Frana. No se provocam em vo animais ferozes...
Tio Antnio levantou a cabea inclinada sobre o jornal e encarou Maria Letcia:
        Muito bem, petite Marie. Trs bien.
Alberto interveio:
        Mas Napoleo acalentava uma esperana, meu sogro.
Ele pensava que a ustria, a Baviera e o Wurtemberg ficassem do lado dele contra a Prssia.
Flix interrompeu:
        Mas isso  uma utopia, um sonho tolo. S mesmo Napoleo III.
Leopoldina foi em defesa do marido:
        Bem, Flix, mas Napoleo agiu com boas intenes; ningum pode impedir que uma pessoa tenha boa f, e ele teve.
Aninhas e Eponina, com os filhos pequenos ao colo, escutavam, imveis, num canto da sala; papai continuou:
        Foi tolice dele fazer essa suposio. Quem no viu que, desde 1848, os germanos eram um s povo, unido at em esprito? Bismarck imps a monarquia Hohenzollern. 
Isso  sabido. Quem no sabe?
Leopoldina fechou a mo direita num gesto de revolta; sacudiu-a no ar:
        Tenho dio a Bismarck. dio! Lobo mau! Atrevido!
Lus acalmou-a:
  La Fontaine, Leopoldina. Lembre-se da fbula do lobo e o cordeiro e compreender Bismarck; o mundo est cheio de lobos assim. Cheio.
Falei timidamente do fundo da sala:
        Mas Paris est cercada pelo exrcito prussiano, como vai fazer para comer? Oh! Deve ser horrvel!
Tio Antnio deu um gemido e olhou-me, furioso:
 Oh! No falemos nisso. Por que foi lembrar? S esse pensamento me deixa desesperado. Como estar vivendo aquele grande povo? O povo mais evoludo da Europa. O 
povo que tem sculos de cultura e que deu ao mundo um Victor Hugo. Sabe o que so sculos de cultura? O que isso representa? A Frana que deu ao mundo um Pascal... 
um Voltaire... Falava os nomes bem alto, olhando para cima, como uma invocao. Lus aventurou:
        Um Jean-Jacques Rousseau... Alguns protestaram:
        Esse no, era suo. Rousseau era suo. Lus corou um pouquinho:
        No quis dizer Rousseau. Confundi. Era Balzac. Tio Antnio repetiu como num sonho:
        Honor de Balzac... Alphonse Daudet... Rabelais...
        E Dumas? perguntou Ferno. Alexandre Dumas? E quantos outros?
Francisca Miquelina observou que a guerra no era na Itlia, mas ningum respondeu. Mame, aliviada, abriu a segunda carta; era de nossa irm Leontina que residia 
numa fazenda do Estado do Rio e havia casado dois anos antes; contava que o filho j estava com seis meses e ficava de p; pretendia vir a S. Paulo no fim do ano 
para batiz-lo. As meninas bateram palmas com a notcia.
Benedito entrou na ponta dos ps para avisar que a Baronesa de Sobral estava no salo; viera fazer uma visita. Olhamo-nos, receosas; Leopoldina disse logo:
        Que novidades trar?
        Vem fazer-nos uma visita, Leopoldina, disse mame levantando-se.
Eponina insinuou:
        Creio que mame  que est devendo visita. Se veio hoje,  porque tem novidade.
        No sejam faladeiras, censurou mame.
Maria Letcia sorriu:
        Ora, mame, a senhora sabe que ela no d ponto sem n.
Rimos todas. Mame saiu dizendo que traria a visita para tomar ch na sala de jantar; Leopoldina dirigiu-se ao meu quarto para arranjar o vestido. Minhas manas mais 
moas tambm deixaram a sala; s ficamos Maria Letcia, Francisca Miquelina e eu. A Baronesa de Sobral entrou logo depois, magrinha e pequena, agitando o leque preto. 
Depois dos cumprimentos, sentamo-nos  volta da mesa, esperando o ch que Benedito ia servir. A visita perguntava por todos, e abanava-se; seus olhos pequenos e 
vivos percorriam as pessoas, a toalha, o lustre, as arandelas, o servio que Benedito ia colocando na mesa com cuidado; as xcaras, os bules e os pratos com bolos 
e doces. Seus olhos percorriam tambm as portas fechadas, querendo descobrir o que havia alm delas. Quando Leopoldina entrou e cumprimentou-a, ela apenas perguntou:
        Quando teremos a festa, Leopoldina?
        Breve, respondeu Leopoldina corando.
Mame fez um imperceptvel sinal para que Francisca Miquelina se retirasse; no gostava que ela ouvisse conversas entre casadas; Francisca Miquelina deixou a sala 
imediatamente. Como eu era considerada solteirona, podia ficar. A baronesa olhou Maria Letcia:
        E Maria Letcia? Quando teremos o herdeiro dos Seixas Albuquerque.
        No sei, baronesa.
E seu rosto corado voltou-se para mim, os olhos cheios de raiva. Fiz-lhe um leve sinal para que no se importasse, enquanto a baronesa olhava Eponina e Aninhas que 
entravam na sala e sentavam-se  mesa. Comecei a servir o ch; havia bolo de fub, gelia de mocot, rosquinhas e biscoitos.
Saboreando a gelia de mocot com a colherinha de prata, a Baronesa de Sobral lembrou que se anunciavam espetculos, no Teatro So Jos; a companhia era boa e as 
peas muito interessantes; j assistira no Rio de Janeiro.
Ficamos alvoroadas, com as colherinhas suspensas no ar; Aninhas e Eponina foram as primeiras a dizer que de certo iriam; os maridos j haviam falado alguma cousa 
a respeito. Maria Letcia disse que ia pedir a Ferno para que a levasse tambm; s Leopoldina nada disse e continuou a comer tristemente a gelia; Aninhas cochichou:
        E se aumentasse seu vestido cor de azeitona?
Um brilho diferente apareceu nos olhos castanhos de Leopoldina:
        O de veludo?
        Sim, o de veludo. No h jeito de aumentar na cintura? Poder ficar muito bom.
Mame olhou-as numa interrogao; Eponina interveio:
        Eu estava assim de seis meses e fui ao baile de D. Gertrudes; creio que Leopoldina pode ir.
Mame levantou uma das mos:
        No; no. Nada disso. No fica bem.
A Baronesa de Sobral trincou uma rosquinha e disse, maliciosa:
        Pode ser que desta vez sejam gmeos, hein, Leopoldina?  de famlia.
Leopoldina respondeu com indiferena:
        Se forem gmeos, desejo que sejam duas meninas, porque j tenho dois meninos.
Aninhas lembrou:
        Ela poderia entrar no teatro com a mantilha cada nos ombros, ningum havia de reparar.
Mame tornou a falar:
        J disse que no fica bem; chamar a ateno de todos. E o que no iro falar? Maria Letcia, corte o bolo de fub.
Leopoldina fez voz de choro:
        J perdi o baile das Gama por causa do Fortunato, o aniversrio de casamento dos Lage por causa do Vicente, essa festa tinha at orquestra do Rio de Janeiro. 
Agora perco a temporada de teatro...
Todas rimos baixinho; comeamos a comer o bolo de fub e no voltamos a falar do teatro. As irms mais moas entraram na sala e, pedindo licena, sentaram-se na 
outra ponta da mesa. Mame serviu  visita uma segunda xcara de ch e perguntou:
        A prima  servida de mais um pedao de bolo de fub? No faa cerimnia.
A baronesa arrotou forte antes de responder:
        Obrigada, prima, j estou confortada.
E abanou-se outra vez com o leque deixado sobre a mesa, ao lado da xcara.
Falamos sobre a guerra da Europa; trocamos comentrios. Nesse momento, tio Antnio entrou na sala; cumprimentou a visita e pediu uma xcara de ch; enquanto eu o 
servia, contou as ltimas notcias recebidas da Europa: tudo ia mal. Trocou umas frases amveis com a baronesa e afundou-se na poltrona com o jornal sobre os joelhos 
e a xcara de ch numa das mos, esquecida. Reparei quanto tio Antnio envelhecera nos ltimos tempos; os cabelos estavam inteiramente grisalhos, at os bigodes 
j no tinham o brilho antigo, nem as pontas reviradas. S pensava na guerra, numa obsesso doentia. Chamei-lhe a ateno sobre o ch que estava esfriando na xcara; 
e ouvi a Baronesa de Sobral dirigir-se a Maria Letcia:
        Como vai sua vizinha, D. Deolinda Menezes? Maria Letcia voltou-se, sobressaltada:
        Conhece-a?
        Muito. Meu pai foi vizinho do pai dela, na fazenda. Gente ruim para escravos. Ela  boa?
Maria Letcia hesitou:
        No posso saber, baronesa. Conheo-a to pouco, apenas de vista; no temos relaes de amizade.
A baronesa animou-se:
        Como? Mas seu marido freqentava muito a casa do comendador; ia jogar solo, ou ento fazer um pouco de msica com D. Deolinda. Ele no lhe contou?
Percebi o mal-estar de Maria Letcia; Leopoldina tambm percebeu, porque olhou para mim, admirada. Maria Letcia respondeu com voz surda:
        Contou, sim, senhora.
Desviou o olhar e ficou vermelha; percebeu que ela acabava de dizer uma mentira. A baronesa com os olhos fitos nela, uns olhos pequenos e vivos, continuou, animada:
 E uma gente perigosa: Gente capaz de tudo, dizia meu pai. Um tio dela respondeu a jri em Itu porque matou uma escrava de tanta pancada. Dizem que o pai dela 
tambm matou; e ouvi dizer que D. Deolinda, quando manda refinar o acar, pe cinza nas gemas de ovo, para as escravas no aproveitarem. As claras vo para a refinao 
e as gemas para as cinzas. Mulher danada. No sabia?
Percebendo que conseguira um assunto para aular o auditrio, no esperou resposta e continuou, imperturbvel:
        Ela era muito moa quando se casou com o Comendador Menezes; ele  uns quarenta anos mais velho... E contam cousas do tempo em que era solteira. E depois 
de casada tambm...
Relanceou os olhos para a ponta da mesa onde estavam as meninas; hesitou um segundo e resolveu:
        Ela no  boa bisca; no souberam do baile dos Cosmes? Faz uns dois anos mais ou menos...
Olhou firme para Maria Letcia. Sem saber o que falar, virei-me para mame; ela estava inquieta e de repente disse:
        Rosa, mande as meninas experimentarem os vestidos.
Mandei Adelaide e Cristina, minhas irms mais moas, deixarem a sala outra vez. Levantaram-se devagar e foram saindo, curiosas por ouvirem as conversas da baronesa. 
Esta dizia:
        A menina ainda no era casada; pois nesse baile ela foi muito criticada. Estava com um vestido de seda creme com rendas da Inglaterra. E deu que falar... 
deu que falar...
Ajeitou-se melhor na cadeira e abanou-se:
        Seu marido estava l, deve saber muito bem o que se passou. Ferno Seixas no contou? Eu me lembro bem. Vi e ouvi!
Rematou a frase apontando os olhos e os ouvidos com o leque. Maria Letcia sentiu-se mal; no queria saber e, ao mesmo tempo, queria, estava vida por descobrir 
qualquer cousa; era como se se debatesse aflitamente; olhou  volta da mesa e fixou a baronesa. Esta insistia:
        Pois  isso. At me lembro de que Ferno Seixas danou o lanceiros com D. Deolinda; no sei se uma ou duas vezes. Deixe ver se me lembro... Duas vezes. 
No, enganei-me. Trs vezes. Ferno Seixas tinha chegado do Rio de Janeiro e no conhecia bem os costumes daqui.  isso: Trs vezes. Esse baile deu pano pras mangas...
Falava sorrindo malevolamente, olhando de esguelha para Maria Letcia que, sem saber o que fazer, fitava ora a mesa, ora a interlocutora, cuja vozinha de papagaio 
repetia as frases, apressada e nervosa:
        Lembro at que Ferno Seixas havia chegado do Rio de Janeiro havia pouco tempo; todos queriam conhec-lo, pois era simptico e bem parecido.
Leopoldina remexeu-se na cadeira; no sei como, tive de repente uma idia. Interrompi a visita e olhei Maria Letcia:
        Mam Zabel est esperando sua receita de pudim de laranjas; disse que quer fazer hoje. No se lembra? Agora mesmo ela espiou na porta e fez um sinal para 
que chamasse voc.
        Ah! Havia me esquecido.
E Maria Letcia levantou-se, pedindo desculpas  visita. Depois que deixou a sala, a Baronesa de Sobral mudou de assunto e pouco teve que contar; levantou-se e despediu-se. 
Seus olhinhos brilhavam de contentamento; conseguira o que desejara; atirar o veneno da dvida no corao de Maria Letcia. Como quem atira fora flores murchas.
Fomos com ela at a porta da rua; l estava a cadeirinha esperando-a; era forrada de veludo verde e as cortinas das janelas tambm eram verdes. Entrou, recomendando-se 
a toda a famlia; os negros passaram as correias sobre os ombros e levantaram a cadeirinha; ela puxou as cortinas e cerrou-as bem. Os escravos j haviam dado uns 
passos, quando a baronesa abriu uma das cortinas rapidamente e ps o rosto para fora, um rosto enrugado como laranja murcha; disse com sua vozinha de papagaio:
 Esqueci-me de Maria Letcia. Muitas lembranas a ela...
E cerrou com fora a cortininha outra vez. Mame virou-se para ns:
        Como a conversa da Sobral  inconveniente; raramente fala com sensatez.
        Cobra malvada, resmungou Leopoldina.
Eponina e Aninhas riram-se e Francisca Miquelina acrescentou:
        Mulher especula. Tudo quer saber e mexericar.
Adelaide e Cristina fizeram caretas na direo da cadeirinha que ia virando a Rua Jos Bonifcio; mame levou os dedos aos lbios pedindo silncio. Leopoldina tinha 
razo; a Sobral era como a serpente.
Voltamos  sala de jantar. Tio Antnio estava de p, explicando a Maria Letcia de que modo acabaria a guerra; e Maria Letcia, apoiada  mesa, plida e trmula, 
mal lhe dava ateno.

DESDE esse dia Maria Letcia comeou a sentir-se mal, preocupando toda a famlia; desconfiou-se de que ia ter uma criana; ningum falava, mas todos tinham o mesmo 
pensamento. Mame, Leopoldina, as cunhadas e at as mucamas da casa esperavam a confirmao da boa nova. Modesta cercou-a de maiores carinhos e cuidados.
Em dezembro, Ferno completou o curso da Faculdade de Direito; foi por ocasio do Natal. Maria Letcia ofereceu, ento, um jantar  famlia e pediu-me que fosse 
auxili-la. Fui novamente para a chcara; tudo correu bem e depois do jantar houve uma hora de arte. Tio Antnio fez questo de cantar a Marselhesa, com acompanhamento 
de piano e flauta. Um frmito de entusiasmo perpassou entre todos quando tio Antnio de p, no meio da sala, ergueu o brao direito e comeou a cantar o hino francs, 
os olhos brilhantes fixos no teto.
L fora, a noite era calma e estrelada, uma noite quase selvagem de grandeza e silncio. Entre as rvores que rodeavam a casa da chcara, somente grilos e vaga-lumes 
davam sinais de vida; tudo mais era quietude, na rua e nas senzalas.
 meia-noite j se haviam retirado todos, alguns a cavalo, outros em caleas; foram cantarolando pelo caminho, enquanto a poeira se levantava sob as patas dos cavalos. 
Fiquei com Maria Letcia, Bonifacinho tambm ficou na chcara para uma temporada.
Certa noite de janeiro de 1871, acordamos, s duas horas, com insistentes batidas no porto; as mucamas levantaram-se e Ferno mandou que abrissem a porta da rua. 
Quando viu um dos escravos de seu pai, ficou plido e perguntou logo o que acontecera; Modesta e eu, com os castiais acima das nossas cabeas para iluminar a cena, 
vimos ao claro das velas o escravo cansadssimo, pois viera diretamente da fazenda Albuquerque, em Valena, contar que o velho Seixas estava  morte.
Ferno leu a carta da me, escrita s pressas; o pai sofrera uma queda do cavalo e o acidente trouxera complicaes, pois ocasionou congesto cerebral; pedia a presena 
do filho. Ele ficou um momento assustado, com a carta na mo, olhando para a frente como se no tivesse compreendido; ento o escravo tornou a repetir os pormenores 
do desastre, falando devagar e pausadamente. Parece que de repente Ferno despertou: ordenou a Maria Letcia que fosse ficar esses dias em casa de papai; vestiu-se 
s pressas, pediu seu melhor cavalo, mandou o escravo Tomsio que se aprontasse para acompanh-lo e s cinco horas da manh partiu, aflito e preocupado, tomando 
o caminho do Rio de Janeiro.
Mais tarde, Maria Letcia mandou atrelar a calea e seguimos com Bonifacinho e Modesta para a casa do Largo do Ouvidor, onde ocupamos nosso antigo quarto, esperando 
a volta de Ferno.
Nesse mesmo ms, deram-se dois acontecimentos importantes na nossa famlia: Francisca Miquelina foi pedida em casamento por tio Rodolfo e Maria Letcia teve certeza 
de que ia ter um filho. Tio Rodolfo conhecera Francisca Miquelina em nossa prpria casa, pois era irmo de mame por parte de pai. Vivera sempre na fazenda e pouco 
freqentava a cidade; era vivo e tinha um filho do primeiro matrimnio. Quando Francisca Miquelina soube que fora pedida em casamento por tio Rodolfo, no ficou 
alegre nem triste: com a maior indiferena, continuou a mastigar sementinhas de maracuj. Maria Letcia ficou preocupada, creio que se lembrou da noite de seu prprio 
noivado e das lgrimas de Francisca Miquelina; sobressaltou-se um pouco olhando a irm.
        Voc quer casar-se com tio Rodolfo? Perguntou.
        No sei. Por qu?
Maria Letcia comeou a elogiar o noivo:
        Papai e mame fazem muito gosto nesse casamento, no  mesmo, mana Rosa? E depois, ele pertence  nossa famlia,  tima pessoa. Sabe que  parente dos 
Lage por parte de me? Eles tm fazenda em Taubat e vo muito ao Rio de Janeiro. Quem sabe se voc vai morar na corte? Francisca Miquelina mastigou outra sementinha 
e respondeu, como um eco:
        Quem sabe?
Maria Letcia tornou a falar:
        Que bom se voc for morar no Rio de Janeiro; l  to bonito e a vida na corte deve ser interessante... No, mana Rosa?
Respondi que devia ser interessante. Francisca Miquelina soprou uma sementinha para longe; pegou outra para mascar enquanto Maria Letcia continuava:
 E depois Rodolfo  simptico, um moceto. Ele e voc faro um lindo par. No acha, mana Rosa?
Respondi que achava. Silncio. Maria Letcia arriscou uma pergunta:
 Gosta dele, Francisca Miquelina?
Francisca Miquelina cuspiu outra sementinha e disse com jeito displicente:
        No sei.
E foi brincar no jardim com as irms mais moas; Maria Letcia ficou pensativa durante algum tempo. Nessa tarde, seu pai anunciou o noivado de Francisca Miquelina; 
ela no fez nada. Maria Letcia cochichou com Leopoldina:
        No acha Francisca Miquelina muito indiferente com noivado?
        Francisca Miquelina? Foi sempre assim, um tanto esquisita, mas tem gnio bom. Se ela e o marido tiverem que morar num rancho de sap, ela vai do mesmo jeito. 
Tem um qu assim de pouco caso, nada lhe faz mossa.
 Mas gostar dele?
 Vai gostar, sim, mas ele no  to moo; vinte anos mais velho que ela.
 Vinte? No pensei que fosse tanto assim. No acha Leopoldina?
 No, acho at razovel. No v nossos tios de Paiva?
 Os bares? Meu sogro tambm? O mnimo de diferena de idade entre um e outro  quinze anos. Voc e Ferno, sou, somos exceo; uma diferena de cinco ou dez anos 
apenas; mas tudo d certo. Francisca Miquelina vai ser feliz.
Fez uma pausa e continuou:
        E depois ouvi nosso pai dizer uma vez: Ela se casa com a raa, e a raa  boa.
        Que idia! Afinal ela se casa com o homem, no ?
        Mas nosso pai olha acima de tudo a raa; e, nos tempos de hoje,  muito razovel pensar assim. Ela vai ser feliz;  muito acomodada.
Maria Letcia suspirou:
        Tomara que seja feliz.
E ficou olhando Leopoldina bordar a camisinha; Leopoldina aconselhou:
        Quando for bordar suas camisinhas, borde assim. Este modelo  muito bonito. Veja.
Abriu o pano de cambraia, aplicado de pontas e entremeios de croch. As duas estavam distradas com o bordado; fui para o quarto e encontrei Francisca Miquelina 
enxugando as lgrimas disfaradamente. Olhei-a e perguntei.
        Voc est chorando?
        No. Quero dizer, meus olhos encheram-se de lgrimas porque dei uma batida na porta. S por isso.
Tornei a perguntar:
        Onde foi que bateu?
Ela ficou um pouco atrapalhada, depois respondeu mostrando uma das mos:
        Aqui no dedinho. Doeu muito; agora est passando.
Olhei o dedinho e no vi nada. Encarei-a:
        Francisca Miquelina, voc no quer casar-se com tio Rodolfo?
Ela quis disfarar e no conseguiu; baixou a cabea e tapou o rosto com as mos; soluou baixinho:
        No sei se quero ou no, mana Rosa. Nem sei, mas... creio que no.
Abracei-a; ela chorou encostada no meu ombro durante uns momentos.
        Pois ento no se casar com ele, consolei-a; vou falar com papai hoje mesmo.
Ela encarou-me, assustada:
        No. Por favor, mana Rosa. No fale com papai... Por favor.
        Ento falarei com mame.
Ela parou de chorar e suplicou:
        No. Nem com mame, no fale nada, no quero.
Separamo-nos; ela comeou a passar o leno pelo rosto.
        E ento? Perguntei. Por que no quer que fale? Se no gosta dele?
Enxugando o rosto, respondeu-me:
        Mas eu acabo gostando dele, mana Rosa. Isso acontece com todas, depois a gente gosta. Vai ver; mas, por favor, no fale nada.
Prometi no falar. Maria Letcia entrou no quarto e preparamo-nos para dormir.
Dias mais tarde chegou um escravo da fazenda Albuquerque com a notcia de que o velho Seixas havia falecido devido  queda do cavalo e Sinh Ferno no o encontrara 
com vida. Na carta que escreveu, Ferno anunciava a sua volta em fevereiro.
Maria Letcia vestiu luto fechado para esperar o marido em fevereiro; e nesse mesmo ms tivemos ms notcias da Frana. O exrcito de Metz havia capitulado em outubro; 
Paris rendera-se ao invasor aps um stio doloroso. E a Frana pediu paz. A consternao foi geral; tio Antnio comeou a usar gravata preta, de luto.
Soubemos que a assinatura da paz fora feita em Versalhes, na Sala dos Espelhos; vida de territrios, a Alemanha apoderou-se da Alscia e da Lorena, cujos habitantes 
tinham condies franceses, assim como Metz e anexou-as ao seu pas; dizem que o fez devido s minas de ferro que ela queria para si. Todo mundo previu choques entre 
sditos franceses e os iluminadores alemes nas regies anexadas e todo mundo sentindo a dor da Frana. Napoleo III, derrotado e aniquilado, refugiou-se na Inglaterra.
Quando Ferno chegou de Barreiro, em fins de fevereiro, encontrou Maria Letcia muito plida, os olhos azuis amortecidos e as mos difanas bordando uma touquinha. 
Beijou-a e ficou sentado ao lado dela, contando a morte do pai, a tristeza de no o encontrar mais com vida, as atribulaes da viagem, a fadiga, o sentimento da 
me. Todos ns, reunidos, dividimos os acontecimentos; durante o jantar, comentamos os filhos.
Nessa mesma tarde, quando eu estava aprontando as roupas de Maria Letcia para ela voltar  chcara, ouvi Ferno perguntar-lhe por que estava to plida; ela apenas 
sorriu. Depois ele perguntou para quem era aquela touquinha que ele a surpreendera bordando; ela respondeu corando:
        Para nosso filho.
Ele tomou-lhe ambas as mos e beijou-as com carinho; depois beijou-a na face.
No dia seguinte, Maria Letcia contou-me que, antes de dormir, haviam discutido o destino do filho. Deram-lhe o nome de Antnio Ferno; os olhos seriam azuis, como 
as flores do crguinho, iguaizinhos aos da me. Conversaram sobre a cor dos cabelos, com que idade andaria e qual a primeira palavra que seus lbios pronunciariam. 
Imaginaram o primeiro dente e a festa de batizado; seria grandiosa, com muitos convidados, uma mesa de doces muito grande e at msica. Pediriam para Francisca Miquelina 
tocar harpa.
S num ponto no estavam de acordo; Ferno disse que o filho devia estudar na Europa, mas Maria Letcia reprovou:
        Mas aqui no se estuda to bem? Para que ir to longe? L h perigos de guerra; ele poder ir quando for mais velho, depois de formado.
Ferno teimou em mandar o filho; mostrou as vantagens de estudar na Inglaterra e o quanto se arrependia de no ter querido ir. E concluiu:
        E a cultura europia  outra; no v seu tio de Paiva, o conselheiro? E seu pai? E tio Antnio? E tantos outros?
Maria Letcia contou-me que se sentou na cama, encarou o marido e disse com voz magoada:
        Ah!. Ferno, ento vou separar-me do meu filho? Viver anos e anos longe dele? No, preferia que no fosse assim.
E ficou fitando a vela que fazia figurinhas na parede do quarto. Ferno refletiu um pouco e sugeriu:
        E se fssemos tambm? Podemos ir e ficar um ou dois anos l com ele at se acostumar; depois voltaremos.
Ela ficou mais animada e acrescentou:
        Assim, sim. Podemos ficar l o tempo todo que ele estudar, no ?
Dando um bocejo, Ferno respondeu com voz de sono:
        Naturalmente, podemos ficar l todo o tempo que Antnio Ferno estudar. Deite. Vou apagar a vela.
Maria Letcia deitou-se, tranquilamente, enquanto o quarto mergulhava na escurido; depois de um instante perguntou sorrindo:
        Afinal,  preciso saber primeiro se ele quer ou no estudar na Europa, no  mesmo?
Ferno comeou a ressonar e Maria Letcia ficou imvel com as duas mos sobre o ventre como se acariciasse a cabecinha do filho.
Quando acabou de contar, rimos juntas ao lembrar a conversa sobre Antnio Ferno. Depois nos fomos preparar para celebrar o noivado de Francisca Miquelina; Mam 
Zabel com o vestido engomado fazendo flac-flac dava ordens na cozinha indo de um lado para outro, enquanto a saia rodopiava. Ralhava porque os quindins no estavam 
bem assados, porque todos eram vagarosos e ningum queria trabalhar. Resmungava e censurava; estava ficando velha, a Mam Zabel.
Benedito enfeitava os lustres e as arandelas com melindre, camlias e dlias;  tarde chegaram Leopoldina e Alberto, nossos irmos casados e respectivas esposas, 
e Francisca Miquelina ainda no estava pronta.
A mucama, aflita, foi procurar-nos; Maria Letcia, Leopoldina e eu entramos no quarto onde Francisca Miquelina estava indecisa olhando os vestidos, sem saber qual 
deles havia de escolher. Leopoldina ralhou:
        Precisa apressar-se; falta apenas meia hora para Rodolfo chegar e voc ainda no est pronta.
Ela respondeu:
        No tenho pressa, ele pode esperar.
        No diga isso. O que mame ir dizer? E papai, que est to contente com este casamento?
Voltou-se para a mucama e ordenou:
        Tire o vestido cor de alecrim para Sinh Francisca vestir.
Diante do espelho, vestida apenas com a saia branca que ia at o pescoo, com fitinhas entrelaadas, Francisca Miquelina passava o pente nos cabelos com gestos vagarosos. 
Olhei-a e ela desviou o olhar; Maria Letcia resolveu intervir:
        Vamos, mana, ns vamos ajud-la e num instante ficar pronta.
Francisca Miquelina largou o pente e voltou-se para ns:
 No quero esse vestido: j disse que no quero. A mucama comeou a falar com voz de choro:
        Ela disse que no qu este, nem aquele azul, nem o branco. Eu num sei o que Sinh t querendo.
Aninhas entrou tambm no quarto, com um vestido de moir antique, cheio de babadinhos de renda;
        O que  isso? Estamos na hora. A noiva no est pronta? Nossos pais j esto no salo.
Eponina entrou atrs, perguntando:
        No est pronta ainda? Santo Deus! Estamos quase na hora, j esto perguntando pela noiva.
Francisca Miquelina mordeu os lbios, voltou-se e com o vestido cor de alecrim na mo, esperava de um lado. Cruzou os braos nus sobre o peito e disse claramente:
        No tenho vontade nenhuma de ficar noiva.
Ficaram todas tomadas de espanto, menos eu. Eponina sentou-se arquejando na beira da cama; Aninhas fitou-a com a boca aberta; Leopoldina deu uns passos  frente 
e Maria Letcia levou a mo  garganta como se algo a sufocasse. S eu fiquei impassvel, mas meu corao sentiu pena dela. Leopoldina falou com impacincia:
        S agora diz isso? Agora que est tudo pronto e nossos pais to contentes? Por que no falou antes? Por qu? Papai havia de dar um jeito. Agora que os convidados 
j esto chegando, a famlia toda j reunida? Oh, mana! No, no pode ser. Deus de Misericrdia!
Leopoldina torceu as mos; Maria Letcia balbuciou:
        Por favor, mana. Ele  um moo bom e bonito; voc vai gostar dele. Ferno me disse que  um homem correto, bom e ajuizado... E depois  irmo de mame por 
parte de pai. Nosso parente to chegado...
Francisca Miquelina interrompeu-a:
        Mas ele  velho, tem mais de quarenta anos.
Eponina e Aninhas aproximaram-se e comearam a dar exemplos de casamentos com grande diferena de idade; contavam nos dedos:
        Veja os tios de Paiva. Veja eu e Flix.
        E minha mana Maria Antnia? Diferena de mais de vinte anos. Vivem to felizes!
        Meu Deus! E vov baro?
        E meu pai e minha me? Dezoito anos de diferena; ela casou-se aos treze anos.
        E eu, Francisca Miquelina? E eu?
Eponina bateu no peito sobre a renda creme. Houve um silncio. Leopoldina olhou os vestidos no guarda-roupa:
        Quer este de seda cor-de-rosa com folhas de lirre?  o vestido mais bonito daqui. Quer?
Aproximei-me de Francisca Miquelina e supliquei que se vestisse e fosse para o salo, pois nosso pai no perdoaria se ela se recusasse, seria uma cousa terrvel 
para a famlia. De saia branca no meio do quarto, Francisca Miquelina olhou-me como se no tivesse ouvido; depois foi at a rtula e espiou o largo. Ouvia-se o rudo 
das carruagens que chegavam. Voltou ao meio do quarto sem dizer nada e de repente comeou a chorar, a cabea entre as mos. Ficamos todas  volta dela, animando-a:
        Pelo amor de Deus, vamos, tenha coragem.
        No chore assim, fica com o nariz vermelho e os olhos inchados.
Indecisa, ela ergueu a cabea e murmurou:
        No gosto de homem que toma rap.
Olhamos umas s outras e Aninhas sorriu como quem sorri a uma criana:
        Que tolinha que voc . S por isso? Francisca Miquelina tornou a falar:
        E depois ele  vivo... Eu no queria. . . Eponina adiantou-se uns passos:
        Francisca Miquelina, ser possvel que no queira casar-se com Rodolfo por ser ele vivo? Mas que tem isso? Imaculada Conceio, s por isso?
Leopoldina perdeu a pacincia e ordenou com energia:
        Vamos, lave o rosto e passe p de arroz. O que diro na sala? Est demorando muito!
Lavei o rosto de Francisca Miquelina com uma toalha mida, passei p de arroz de leve no nariz, depois borrifei o perfume no pescoo e nos cabelos; em seguida, Eponina 
e Aninhas vestiram-lhe o vestido de seda cor de rosa com folhas de lirre. Como se fosse uma boneca, ela no reagiu, nem disse cousa alguma; percebi, porm, seu 
corao a bater descompassadamente.
Quase em silncio, acabamos de apront-la; fomos atrs dela at o salo; Rodolfo j estava l; adiantou-se para cumpriment-la e ns nos olhamos umas s outras, 
receosas. Francisca Miquelina, porm, dcil, estendeu a mo ao noivo, que se inclinou diante dela. Com um sorriso triste, ela correspondeu. S ento reparamos que 
ela levava na mo esquerda, bem fechado entre os dedos, um raminho de violetas: mgoa. Nunca descobrimos onde ela arranjou as violetas, pois no era tempo. S sei 
que foi sua nica demonstrao de desagrado e foi esquecida logo depois. Nunca contamos a ningum.
Depois da morte do pai, Ferno comprou mais terras que divisavam com a chcara da Penha; aumentou o nmero de escravos e instalou um engenho. Mandou vir de Santarm 
o feitor Joaquim para dirigir os trabalhos da moagem; apesar de ser to grande como uma fazenda, a propriedade continuou sendo A Chcara da Penha. As senzalas 
foram aumentadas e Ferno comprou mais escravos; bem cedinho saa a cavalo para dirigir os servios; mandou um de seus irmos mais moos para a colheita de caf 
em Santarm.
Fiquei ainda essa temporada com Maria Letcia; ela pediu-me para auxili-la no enxoval da criana, pois eu gostava de bordar e fiz quase tudo, ela apenas me indicava 
os desenhos para os bordados. Duas vezes por semana, amos passar o dia todo com mame e aos sbados, eles, quero dizer, papai, mame e nossos irmos mais moos 
iam jantar conosco, na chcara. Nesses dias eu tambm tinha muito trabalho porque a cozinheira de Maria Letcia no sabia o que havia de fazer; e eu ia ento ensin-la 
e no fim fazia quase tudo. Eu no queria que Maria Letcia se incomodasse com cousa alguma, para no cans-la.
Tio Antnio, aborrecido um dia, tirou dinheiro adiantado e foi distrair-se no Rio de Janeiro, alegando precisar de diverses, pois sentia-se muito doente.
Em abril, num dia escuro de chuva, estava eu bordando ao lado de Maria Letcia quando Modesta entrou no quarto. Andou de um lado para outro, espreitando o rosto 
da ama; de repente falou em voz baixa como se contasse um segredo:
        Sinh Moa, hoje de manh, eu tava passeando na horta quando vi Sinh Deolinda.
Maria Letcia que tambm estava bordando, deixou o bordado no colo e olhou a mucama um pouco assustada:
        Ela estava sozinha?
        Tava; depois eu vi que tava oiando l pra baixo e Sinh Ferno vinha vindo a cavalo; vinha no cavalo baio, aquele que Sinh gosta. Eu tava oiando bem o 
jeito de Sinh Deolinda; pra v mi me escondi atrs de uma tocera de capim; ela oi aqui pra nossa casa, oi prs lado da casa dela e passou a mo nos cabelo, ansim... 
Depois come a revir a sombrinha nas mo, uma sombrinha escura que eu no conhecia. Quando Sinh Ferno foi chegando mais perto dela, deu uns passo pra frente 
e encost a cara na cerca, pro vo; a chuva moiava a cara dela, mas ela nem sentia. Ele tir o chapu pra cumpriment e ela disse rindo, o dente briando: ***Bom 
dia, dot, ento como vai o vizinho que no vejo h tanto tempo? Ele tambm riu e respondeu: Vamo bem, D. Deolinda. E o comendad, como vai? Em vez de respond, 
ela pregunt: No qu desc um poco do cavalo pra d uma prosa? Ele disse: No tem me
 do de chuva, D. Deolinda? ie que essa chuvinha d pra moi. Ela oi pra ele, se revir ansim e disse: No. No tenho medo de nada neste mundo, quanto mais de 
chuva.
Maria Letcia olhou para mim e eu baixei os olhos para o bordado; ela ento levantou-se, foi at a janela olhar a chuva que tamborilava na vidraa, Perguntou a Modesta 
sem se voltar:
        E ento? Ele desceu do cavalo?
Modesta respondeu com um tom de triunfo na voz:
        Capais, Sinh Moa. Nada disso. ie, no v me chama de negra novidadeira porque t contando essas coisa. Mas ovi sem quer e conto tudo bem direitinho.
Maria Letcia voltou-se, curiosa e aflita; sentia uma sufocao na garganta, Modesta continuou:
        Into ela oi bem di frente pra ele, com a sombrinha nesta mo e esta mo no peito... Ele tava rindo e no dizia nada, ela ento fal: Sabe que  o homem 
mais bonito que conheo? E tambm o mais perigoso?  desses que, a gente no pode esquec. Ela fal umas coisa ansim e ele fico quieto, sem ri. Eu j tava encharcada 
d'gua, tava em cima de uma poa bem grande. Ento Sinh Ferno comeou a pass a mo no pescoo do baio bem devagarinho pra baixo e pra cima, pra baixo e pra cima, 
depois fal: Deolinda, sabe que t perdendo seu precioso tempo?
Maria Letcia levou a mo  garganta e eu levantei a cabea para olhar Modesta.
        Ele falou assim mesmo? Voc ouviu bem, Modesta? Perguntou Maria Letcia ansiosa.
        Ovi com estes ovido; ansim como Vossunc t agora aqui na minha frente, eu vi os dois l no fim da horta, perto do capinz. Por Deus do cu, desta vez no 
falaram francis e ovi tudo.
        E ela, Modesta? Que fez ela?
        Espere, Sinh Moa. Conto tudo direitinho. Ele fal mais ainda; no me alembro mais, s sei que quando ele par um poquinho, ela riu como no t acreditando, 
ento ele disse: No sabe que quero bem  minha mui? E peso minha felicidade; isso no entendi bem. Toc o cavalo e disse tirando o chapu: No perca seu tempo, 
passe bem. Sinh Letcia, Sinh Rosa, se visse a cara daquela mui! Tava verde, os io fuzilando qui nem raio, braba como bicho. Vossuncs j viram cobra quando 
 pisada? Quando ela vira danada pra mord? Pois ela tava ansim. Quis fala umas coisa pro Sinh, mas ele j ia longe, aquele baio  bo marchado. Eu disse baixinho: 
A, cobra venenosa, vespa braba, marcada pelo demo, mui ruim. Ela arrega as saia e saiu correndo pra casa pisando nas poas d'gua, tropeando, o vestido todo 
enlameado. A sombrinha gotejava... Quando tudo seren e eles j tavam longe, sa
  do meu canto e vim pra casa. A desfeita que Sinh Deolinda recebeu hoje, ela no esquece. Nunca mais ela esquece. Tenho at medo.
Maria Letcia continuou de p, recostada na vidraa, vendo a chuva cair no jardim; notei que estava mais calma, e at o tremor das mos havia desaparecido. Quando 
Modesta deixou o quarto, continuamos em silncio e no trocamos uma palavra sobre o fato.
 noite ainda chovia, uma chuvinha fina de abril, persistente e fria. No escritrio onde Ferno fazia as contas, Maria Letcia estava sentada ao lado dele, bordando. 
Mais longe um pouco, eu tambm bordava. De sbito, ela empurrou o bordado para um lado e perguntou a Ferno com voz pouco firme:
        Como iro nossos vizinhos? H muito tempo que no os vejo.
Ferno levantou a cabea e encarou-a:
        Os Menezes? Tambm no tenho sabido deles. De certo o comendador est viajando outra vez.
Vi Maria Letcia apertar os lbios:
        E ela? Tambm est viajando?
Ferno olhou o livro de contas sobre a mesa e disse com voz que procurava ser indiferente:
        Quem? D. Deolinda? Hoje mesmo eu a vi l embaixo dando umas ordens.
A voz de Maria Letcia tremeu de leve ao perguntar:
        E voc falou com ela? Ou apenas a viu de longe?
Apavorada com a coragem de Maria Letcia, olhei-a e fiz um sinal imperceptvel para que no falasse mais; ela fingiu no me ver e ficou esperando a resposta do marido. 
Ele disse:
        Cumprimentei-a ao passar a cavalo. Apenas de longe.
Ferno acendeu um cigarro, depois levantou-se para fechar uma janela. Acrescentou:
        Estava chovendo muito naquela hora, e at agora est chovendo. Que tempo horrvel!
Tremendo de medo por causa de Maria Letcia e receando que ela continuasse a perguntar o que no devia, levantei-me e perguntei se queriam ch que eu iria fazer. 
Ferno olhou-me com uma expresso feliz no olhar, ela sacudiu os ombros e no respondeu.
        Boa idia, mana Rosa! disse ele. Ainda mais com este tempo frio. Boa idia!
Deixei o escritrio e fui fazer o ch. No se tocou mais no assunto, porm, mais tarde, no quarto, quando fui despedir-me dela, observei:
        Que imprudncia, Maria Letcia. No se deve falar ao marido certas cousas. Tive tanto medo que Ferno se impacientasse, ele j estava ficando nervoso.
Ela fez um muxoxo e respondeu:
        Voc no sabe nada, mana Rosa. Voc no  casada. Viu como os homens mentem? Mentem sempre.
        Tambm por que voc fazer essas perguntas? Isso no se faz.
Pedi-lhe que nunca perguntasse nada a Ferno e ela prometeu. Com essa promessa, deixei o quarto e fui dormir.
Nessa poca, Leopoldina deu  luz o terceiro filho ao qual ps o nome de Alberto, o nome do marido. Papai marcou o casamento de Francisca Miquelina para maio; com 
a mesma indiferena com que recebeu a notcia do noivado, ela casou. No sei se chorou escondida no quarto, isso no sei.
Rodolfo tinha quarenta e poucos anos, era baixo e cheio de corpo, moreno, uma barba preta em ponta sob o queixo.
Vivia sempre na fazenda e tinha as maneiras um pouco rudes; mas era simptico. Apesar de ser nosso tio, nunca freqentou muito nossa casa porque vivia na fazenda; 
creio que a primeira vez que ele viu Francisca Miquelina foi no casamento de Maria Letcia.
No dia do casamento a casa ficou novamente cheia de hspedes vindos das fazendas e das chcaras; novamente as mucamas correram de um lado para outro a fim de servir 
os amos, e papai deu carta de alforria para mais trs escravos.  noite, depois da cerimnia, danaram; os sales enfeitados com flores e avencas, estavam iluminados 
feericamente; as mesas regorgitavam de bebidas e doces de todas as qualidades.
Francisca Miquelina abriu o baile danando com Rodolfo uma valsa de Strauss; estava com um vestido de brocado branco, parecido com o de Maria Letcia e havia flores 
de laranjeira sobre o vu, sobre o corpinho do vestido e no ramo que levava na mo. Muito plida e silenciosa, deu o brao ao marido e seus ps delicados deslizaram 
pelo salo aos primeiros compassos da valsa. Desde a festa do noivado, nunca mais se lamentou; e nem chorou  hora do casamento. Conservou a cabea firme e erguida; 
estava muito bonita, apesar do semblante triste.
Organizaram depois a quadrilha dos casados, marcada desta vez por papai; em seguida, danaram o lanceiros, polcas e valsas.  meia-noite, os noivos tomaram a carruagem 
e foram para a casa dos pais de Rodolfo, de onde seguiriam para a fazenda no dia seguinte.
Um ms depois recebemos a primeira carta de Francisca Miquelina; muito simples e indiferente, dizia que tudo ia bem e no contava nada da fazenda onde residia. Como 
sempre teve um temperamento retrado e triste, ningum estranhou.
Em agosto, Maria Letcia teve um filho; fazia muito frio e as mucamas traziam bacias cheias de brasas para aquecer o quarto. Estava em casa de mame; durante a noite 
ningum pde dormir. Todas as crianas foram levadas para a casa de Leopoldina. Na cozinha, as escravas passaram a noite rezando; Mam Zabel pediu um pouco de gua 
benta aos frades da igreja de So Francisco e fez uma simpatia. Modesta foi colher um galho de alecrim  meia-noite e fez uma orao; queimou o galho no fogo. Depois, 
chegou  porta da cozinha e olhou o cu trs vezes, o pescoo bem esticado; voltou da porta sem olhar para os lados at o fogo, onde sapecou o alecrim outra vez, 
rezando com os olhos fechados. Ento, sempre sem falar e sem olhar para ningum, levou o galho e o colocou disfaradamente sob o travesseiro de Maria Letcia, para 
espantar os espritos das trevas.
No quarto, onde o frio procurava penetrar por todos os vos das portas, o Dr. Maranho ora sentava-se numa cadeira de balano e olhava as brasas que se retorciam 
na bacia, ora levantava-se e ia ao quarto vizinho, pra fumar um cigarro de palha. Duas escravas estavam ao lado da cama infundindo coragem a Maria Letcia; Leopoldina 
e nossas cunhadas iam e vinham, desassossegadas, torcendo as mos inteis, enquanto mame, ajoelhada no oratrio do quarto, deslizava dezenas de vezes o rosrio 
entre os dedos trmulos.
Ferno, que ia e vinha da chcara diariamente, foi chamado s dez horas da noite; montou o cavalo e partiu a galope desenfreado. Em casa, no teve sossego; seu temperamento 
impulsivo expandia-se de todas as maneiras e por qualquer motivo; dava ordens aos gritos, ia e voltava do quarto de Maria Letcia, ficava dez minutos com papai no 
escritrio e ia conversar com o mdico, fumando cigarro sobre cigarro. Batia as portas, pisava com fora no cho, bebia clices de vinho do Porto, to inquieto e 
nervoso que a prpria Maria Letcia lhe pediu que se acalmasse.
S de manh, s seis horas, nasceu Antnio Ferno; todos ficamos aliviados e a vida retomou os hbitos costumeiros, com mais um ser a fazer parte da famlia.  tarde, 
os filhos de Leopoldina, de Aninhas e o Bonifacinho entraram no quarto para ver a criana trazida pelos anjos; um cheiro de alfazema queimada enchia o ambiente e 
os meninos levantaram os narizinhos para o ar aspirando a fumaa que se evolava de um prato no cho. Olharam um tempo para o bero onde a criana estava deitada 
entre fitas e rendas; examinaram, falaram entre si, debruaram-se para v-la melhor, afinal, Fortunato perguntou:
        Onde est o anjo?
Respondi:
 O anjo j foi embora; ele traz a criancinha, deixa em casa da gente e vai voando outra vez para o cu.
 E ningum v?
 No.
        E por que ningum v?
        Porque ele vem sempre  noite e todos esto dormindo.
        Eu queria estar aqui para ver o anjo; por que Bonifacinho no ficou para ver?
Bonifacinho respondeu levantando os ombros:
        Me mandaram dormir na sua casa, no sei por que.
Continuaram a espiar a criana; de sbito Bonifacinho disse:
        Eu sou tio dele.
E apontou a criancinha.
 Mentira, disse Csar, o filho de Aninhas.
        Sou sim. Pergunte pra mana Rosa.
        Bonifacinho  tio dele, assim como  seu tio tambm. Fortunato e Csar olharam o tio com um olhar de pouco caso e fizeram um trejeito de mofa. Nesse instante, 
entraram no quarto, acompanhadas de mame, as nossas duas irms mais moas: Adelaide e Cristina.
Rodearam o bero fazendo exclamaes, uma queria ver os olhos, outra queria ver os ps; depois ficaram em silncio olhando. Fortunato apontou a criana:
        Ele tem pestana.
Comeamos a rir e Cristina explicou:
        Naturalmente que tem Fortunato. Ns tambm no temos?
Bonifacinho perguntou a Adelaide:
        Voc e Cristina viram o anjo?
        No.
Nenhuma havia visto porque tinham ido dormir em casa de Leopoldina. Fortunato, que era o mais curioso, perguntou:
        Ele  forte?
Adelaide respondeu:
        Quem? O anjo?  forte sim, pois pode carregar uma criana. No viu a figura?
Csar disse logo:
        Eu j vi; ele carrega a criana nos braos, dentro de um pedao de nuvem.
        Eu tambm j vi, afirmou Fortunato.
De repente, Cristina debruou-se mais, dizendo:
        Ele agora abriu a mo. Olhem, ele est abrindo a mo.
Debruamos todos e ela continuou:
        Eu vou ter uma criana porque j pedi para o anjo me trazer uma. No Natal.
Houve uma troca de olhares e Bonifacinho riu, caoando:
        Ela  boba, pensa que pode ter criana quando quiser. Precisa casar, no precisa, mana Rosa?
Mame olhou-os, assustada. Eu disse:
        Precisa, precisa. Vamos embora; a criancinha precisa dormir.
        Mas ela est dormindo...
        Mas com esse barulho pode acordar. Vamos.
Aninhas e Leopoldina riram baixinho; deixamos o quarto e Bonifacinho repetiu, orgulhoso:
        No disse que precisa casar para ter criana? No disse?
No momento de sair, os narizinhos espetados no ar. Cristina perguntou:
        Que cheiro gostoso  este?
        Alfazema.
No corredor, disse Csar:
 Decerto o anjo, tambm traz alfazema. S sinto esse cheiro quando tem criana nova em casa. Ser que traz?
Ningum respondeu. Mais tarde, entraram nossos trs irmos solteiros: Lus, Vicente e Loureno. Falaram com Maria Letcia, viram a criana e saram. Assim, Antnio 
Ferno passou seu primeiro dia de vida.
Um ms depois, voltamos para a chcara da Penha; acompanhei Maria Letcia para auxili-la a lidar com a criana. O menino ia muito bem; Modesta e eu tratvamos dele 
enquanto Maria Letcia descansava.
Nunca mais nos lembramos da vizinha. Todas as manhs, Maria Letcia e eu levvamos o menino para passear na chcara.  tarde, Maria Letcia tocava piano ou acompanhava 
o marido nos servios da moagem, enquanto eu ficava com a criana. Ferno havia mandado fazer uma grande reforma na casa, durante o tempo em que Maria Letcia esteve 
em casa de papai. Aumentou o salo, comprou moblias novas, cortinas e estatuetas de Svres.
Ento, nessa poca, justamente em outubro, veio uma grata notcia aos coraes de Ferno e Maria Letcia; com a morte do pai, Ferno, como o filho mais velho, herdou 
o ttulo de Visconde de Santarm, honra concedida pelo Imperador ao velho Seixas em retribuio s grandes doaes feitas por ele  cidade do Rio de Janeiro. O Correio 
Paulistano dedicou quase uma pgina  famlia Seixas Albuquerque, dizendo que o Dr. Ferno merecia muito dignamente esse nobre ttulo. Cartas de felicitaes comearam 
a chegar do Rio de Janeiro e de outras cidades; Maria Letcia e Ferno, ainda um pouco atordoados com a notcia, resolveram dar um grande baile para comemorar. Tio 
Antnio, quando soube, veio do Rio de Janeiro cumprimentar a petite Marie e trouxe-lhe de presente um leque to bonito que Maria Letcia guardou a vida inteira: 
as varetas eram de marfim trabalhado, e o leque de rendas de Bretanha.
Comearam logo os preparativos para a festa; nossos vestidos foram encomendados no Rio de Janeiro; a orquestra tambm veio de l, a mesma que tocava nos bailes da 
corte. Os convites foram enviados mais de um ms antes e muitas pessoas de destaque na poltica e na corte vieram a S. Paulo para tomar parte na festa. Tio Antnio 
trabalhou para que nada fosse esquecido, e em dezembro, dia 20, os viscondes de Santarm abriram seus sales pela primeira vez. Foi uma festa magnfica.
A noite estava quente;  volta da casa, em todo o jardim, Ferno mandou colocar centenas de lanterninhas de papel suspensas nas rvores; isso dava  chcara um aspecto 
fora do comum. De longe, Leopoldina disse que pareciam vaga-lumes parados no espao.
Maria Letcia sentia-se ansiosa pelo resultado da recepo; e apesar de no estar ainda acostumada com o ttulo, no ntimo gostava. Enquanto se vestia, disse-me 
que se sentia orgulhosa de ser viscondessa.
Toda a ala esquerda da casa, o alpendre e a sala de jantar, foi dedicada ao buffet; havia perus recheados, galantinas, cremes, doces, refrescos de vrias qualidades.
No fundo do salo, esperando os convidados, Maria Letcia e Ferno estavam de p para receber os cumprimentos. Maria Letcia pusera um vestido branco de tule, ornado 
com folhas verdes, sobre o colo, o colar de brilhantes e rubis e os ombros nus muito brancos sobressaam na brancura do vestido; mais tarde, eu a vi quando danava, 
levava no brao a longa cauda, mas com muita graa.
Francisca Miquelina no pde comparecer; havia levado uma queda na fazenda e, como estava esperando um filho, ficou doente; estava em casa de papai, muito fraca.
Leontina, nossa irm, que residia numa fazenda no Estado do Rio e que no pde vir para o casamento de Maria Letcia, nem de Francisca Miquelina, veio assistir a 
essa festa e trouxe um filho para ser batizado; tnhamos muito respeito por Leontina, talvez porque vivesse sempre longe e raras vezes nos encontrvamos.
Leopoldina chegou afogueada, depois de quase todos os convidados terem chegado; vinha um pouco nervosa. Ouvi-a cochichando para Maria Letcia; tivera que dar de 
mamar antes de sair.
Quando o mordomo anunciou: Comendador Menezes e D. Deolinda, eu vi Maria Letcia endireitar o busto e levantar a cabea, linda e orgulhosa; j no era a tmida Maria 
Letcia, era a mui linda e nobre viscondessa, como os jornais noticiaram no dia seguinte. Olhou de frente a adversria que se aproximava de cabea erguida; lembrei-me 
outra vez da frase de Modesta: Essa mui  marcada pelo demo. Cuidado, Sinh.
As duas se enfrentaram e quem se inclinou dessa vez foi D. Deolinda; baixou os olhos fazendo uma leve reverncia e dirigiu-se para o lado, misturando-se  multido. 
s dez horas, a orquestra tocou a primeira valsa e Ferno e Maria Letcia abriram o baile; depois todos os convidados danaram.
Mais tarde, quando estvamos no buffet, vimos de longe Ferno convidar D. Deolinda para danar um schoitish; Maria Letcia abanava-se levemente com o leque de rendas 
fingindo indiferena, mas seguia sempre o par com os olhos. Corada pela dana e pela excitao, os olhos grandes e negros, D. Deolinda falava com Ferno enquanto 
danavam.
Depois, organizaram a quadrilha dos lanceiros; Maria Letcia e Ferno eram vis  vis de Leontina e o marido; depois, recostada num dos reposteiros do salo, um pouco 
oculta pela cortina, ouvi a voz de D. Deolinda conversando com algum. Sua voz tinha um tom autoritrio:
        O senhor no est cumprindo com as regras do cavalheirismo.
Ouvi uma voz conhecida dizer:
        Como no, minha senhora? Nunca fugi a essas regras.
Levei um susto; era Ferno. Senti meu corao palpitar e procurei Maria Letcia; danando com nosso irmo Flix, ela me fez um sinal que no entendi. Fiquei imvel 
e, enquanto a orquestra tocava uma polca, ouvi outra vez a voz autoritria:
        Mas danou apenas uma vez comigo, eu, sua vizinha e... amiga, h tanto tempo.
Senti o sangue cobrir-me o rosto; a voz de Ferno respondeu, hesitando:
        D. Deolinda, muitas vezes um homem tem que fugir s regras do cavalheirismo para... para no ser desonesto...
Senti meu corao vibrar como se a conversa fosse comigo; ouvi a risadinha triunfante de D. Deolinda e quase no mesmo instante meu irmo Vicente veio convidar-me 
para danar. Procurei segui-los de longe e vi-os danando juntos outra vez. Que pretendia aquela diablica mulher? Oh! Ela era abominvel. Danava com Ferno, o 
rosto alegre, rindo-se muito. Percebi que o resto da festa foi um tormento para Maria Letcia; vigiava-os quanto podia e nem pde gozar a brilhante reunio. Quando 
todos estavam distrados, chegou-se a mim e perguntou o que D. Deolinda e Ferno tinham conversado ali perto da porta. Respondi que nem ouvira bem, mas no podia 
deixar de ser cousas referentes ao baile. Maria Letcia, porm, tinha sobre mim um incalculvel poder; comeou a dizer que, em vez de auxili-la, eu no me importava 
com a felicidade dela e outras cousas nesse teor.
Ento contei tudo o que ouvira; ficou muito branca e, batendo o leque na mo esquerda, disse que eu devia ter ouvido mais; s o que ouvira no era suficiente. E 
que eu era uma boba. Percebi que estava atordoada de raiva e de cime; sempre que estava com raiva, chamava-me de boba. Aconselhei-a a no se importar com isso, 
mas percebi que seu orgulho estava ferido e isso a fazia sofrer. Nem acreditou quando os convidados saram e chegou o fim do baile. Depois que todos se retiraram, 
perguntou a Ferno:
        Tudo estava bem, mas achei nossa vizinha D. Deolinda um pouco contrariada. Voc no reparou?
Entre dois bocejos, ele respondeu:
        Eu no disse uma vez que ela  meio aloucada? Mas  boa pessoa.
Ela no respondeu e acompanhou-me ao quarto, pretextando beijar o filho; l me disse, contrariada:
        Voc jura que eles no disseram mais nada? S o que me contou?
        Juro.
        Est bem. S o que estou pensando  o que a Baronesa de Sobral e D. Escolstica vo falar desta festa.
 Vo falar que a festa foi muito bonita e voc estava uma beleza.
Ela olhou-me irnica:
        Pensa que sou boba? Vo falar de D. Deolinda e de Ferno.
        Tenha calma, Maria Letcia. No se incomode com o que vo falar. Ningum vai falar nada.
 Eu j disse que voc  uma boba. E depois no conhece os homens, no se casou.
Saiu fechando a porta e nem me disse boa noite. Percebi que a dvida, mais uma vez, lhe picava o corao.

INICIARAM-SE os preparativos para a ida a Santarm: a fazenda Santarm e todas as fazendas vizinhas estavam organizando festas da durao de uma semana, em homenagem 
aos viscondes. De S. Paulo, alm deles, iriam nossos irmos, esposas e filhos, Leopoldina e o marido; tio Antnio, eu e os irmos solteiros. Uma verdadeira caravana 
se poria em marcha.
Na vspera da partida, Modesta contou-nos em segredo as ruindades de D. Deolinda para com os escravos. Judiara tanto de uma negra da casa, que um tio de D. Deolinda 
comprara a escrava de d, e perdera um conto de ris porque a negra no durara muito. Morrera em conseqncia das judiaes que sofreu.
Certa noite, acordei s onze horas com um barulho esquisito vindo da casa vizinha; de quinze em quinze minutos, ouvia-se algum atirar gua no cho do terreiro; 
levantei-me e espiei pela rtula. Vi ento Elisa, uma negrinha de D. Deolinda, ir e vir com um balde de gua que trazia do crrego, a uma certa distncia: como no 
tinha o que fazer com a gua, jogava-a no cho e esse era o rudo que eu ouvia. A ordem era trazer gua e jogar fora at D. Deolinda ter sono, pois a mulher sofria 
de insnia.
Enquanto eu dobrava as roupinhas de Antnio Ferno num grande ba de folha para a viagem, Modesta contava os casos da vizinha. Em seguida, dobramos os vestidos de 
Maria Letcia: o branco, o chamalote, o de brocatel. Modesta perguntava:
        Mas por que ser que ela  to ruim, Sinh? Ser que cobra picou ela?
        D. Deolinda? No sei, Modesta. Ouvi dizer que o pai dela tinha um quartinho bem estreito onde punha os escravos faltosos; eles ficavam de p no quartinho 
sem se poder mexer; um dia, ao abrir a porta do tal quarto, um escravo caiu morto diante dele.
        Cruz credo! No sei por que h gente marvada neste mundo de Deus.
E Modesta parou no meio do quarto, pensativa. Avisei-a:
        Tambm no sei. Vamos acabar de arrumar as roupas; lembre-se de que seguiremos amanh de madrugada.
- Mas Deus castiga ela, ou os fio dela. O fio home, o Casimiro,  bom, mas as fia mui j so mardosa qui nem ela. O dia inteiro to gritando c'as mucama.
Partimos no dia seguinte, s quatro horas da manh;  frente, os cavaleiros; em seguida, os bangus com as crianas pequenas e as mucamas, acompanhados dos escravos 
de confiana que iam a p, dirigindo as mulas; atrs de tudo, uma pequena tropa com malas e bas. Levamos cestas com virado para comer no caminho.
Nas paradas, geralmente perto de algum rio, em lugar sombreado, espervamos os bangus com as criancinhas; fazamos ento uma parada, comamos e descansvamos. Maria 
Letcia, Leopoldina e Eponina estavam amamentando, e em vez de repousar, cuidavam dos filhos menores, auxiliadas por mim. Depois, partamos de novo at  prxima 
pousada, onde dormamos; e na madrugada seguinte, continuvamos a viagem. Nos primeiros dias, o tempo estava bom, o cu muito azul e firme, as noites claras e estreladas; 
na alegria da viagem, brincvamos uns com os outros, alguns contavam fatos e anedotas.
As irms mais moas paravam para colher flores no caminho, Loureno e Lus cantavam, enquanto Augusto declamava versos.
Depois de alguns dias, o cu enfarruscou-se, e choveu; os cavalos enterravam as patas nas poas do caminho e os nossos roupes colavam-se nos corpos. Quando chegvamos 
no pouso, molhados e com frio, tomvamos vinho do Porto que Ferno levava sempre em viagem; enxugvamo-nos como podamos, secando as roupas em fogueiras improvisadas. 
Com a mudana do tempo, a nossa alegria decresceu; os cantos cessaram, o riso desapareceu. Preocupada com as crianas, comecei a viajar ao lado dos bangus e meu 
cavalo enterrava as patas na enxurrada; a lama espirrava para os lados. Nas subidas, os animais escorregavam e lutavam contra a enxurrada; algumas crianas comeavam 
a chorar. Ento parvamos um pouco e espervamos que a chuva diminusse, mas ela caa com intensidade e s vezes batia to fortemente contra ns que precisvamos 
defender nossos rostos com os braos e virar o cavalo de lado. Tio Antnio, sempre  frente, gritava de vez em quan
 do na sua voz forte que repercutia atravs da chuva:
        Como vai o moral das tropas?
Ramos apesar de tudo; Leopoldina chamava tio Antnio de general.
Continuamos a caminhada; a chuva enchia os caminhos e o vento sacudia as rvores sobre nossas cabeas; assobiava com fora por entre os galhos como em desafio. Flores 
e folhas corriam juntas na enxurrada, at que afinal, um dia, do alto da serra avistamos Santarm. A descida foi rpida, na pressa de chegar; a chuva foi amainando 
e a tarde tornou-se clara e fresca. Os pssaros da mata comearam a modular cantos estranhos como chamando uns aos outros, para festejar a bonana depois da tempestade. 
Os da fazenda tiveram notcia da nossa aproximao pelo escravo posto de sentinela. A banda de msica, formada pelos negros, uniformizados de brim pardo, foi esperar-nos 
pouco acima do ribeiro. Quando viram Ferno e Maria Letcia  frente da comitiva, um deles adiantou-se e gritou:
        Viva Sinh Visconde e Sinh Viscondessa de Santarm!
Os outros responderam, e a banda iniciou uma marcha alegre que todos ouvimos parados no declive que, das margens do ribeiro, ia at o jardim da casa grande. Ferno 
agradeceu tirando o largo chapu e a viagem terminou com o acompanhamento da banda. Os escravos estavam perfilados no terreiro do lado; dois negros angola e um moleque 
cafuso ajudaram-nos a descer dos cavalos e, como da outra vez, um s grito se elevou de todas as gargantas:
        Louvado seja Nosso Sinh Jesus Cristo!
Os donos de Santarm, os parentes que esperavam Ferno, ns e os escravos que vieram conosco respondemos em unssono. As palavras ecoaram pelo espao enquanto o 
sino da fazenda repicava e a banda comeava outro nmero.
Foram aqueles os dias mais festivos que Santarm viveu em toda sua vida; os irmos de Ferno organizaram os festejos que duraram uma semana. Uma orquestra do Rio 
de Janeiro tocava para as danas  noite; houve cavalhadas, fogos de artifcio, almoos nas fazendas vizinhas e um grande baile de encerramento com a presena de 
pessoas vindas de toda a redondeza. Os escravos ganharam roupas novas, comida especial e tiveram licena para organizar batuques e jogos.
No terceiro dia, houve uma caada de veados; desde manh, bem cedo, o ptio da fazenda estava cheio de movimento e de vida. Leopoldina, Eponina e Adelaide resolveram 
ir assistir  caada e pediram para que eu as acompanhasse. Nossos cavalos estavam prontos esperando; cachorros veadeiros, assanhados, iam e vinham entre as patas 
dos animais j encilhados e amarrados aos moires das cercas. Eles escavavam o cho com impacincia e estremeciam quando as moscas os importunavam. Negros corriam, 
aos gritos, ciosos de suas obrigaes; e o dia, que amanhecera nublado, recuperou aos poucos seu esplendor, enquanto a neblina desaparecia l pelos lados do brejo.
s seis horas, os homens desceram a escadinha do alpendre, fazendo tinir as esporas e, entre exclamaes e risadas, montaram. Partimos. Tomsio tocou a corneta trs 
vezes para chamar os ces e estes, com impacientes latidos, foram reunidos e seguros pelos negros que seguiam adiante.
Atravessamos a mata e o grande arrozal e fomos sair num campo imenso que confinava com o rio de um lado e a mata do outro; nesse lugar soltaram os ces. Muito tempo 
no se passou e houve o alarme; ns, atocaiados entre o campo e a capoeira, ouvimos de longe a cachorrada acuar. Leopoldina, nervosa, aprontou a carabina, pois atirava 
muito bem. Excitado, nosso irmo Augusto avisou os melhores caadores e cada um ficou no seu posto, atento. Os latidos dos ces em perseguio ao animal aproximavam-se 
cada vez mais; era o momento emocionante da caada. Com as carabinas preparadas, os caadores permaneceram em expectativa, atrs da capoeira, enquanto os cavalos 
eram levados para mais longe pelos escravos. Continuamos atentos,  espreita, percebendo pelos latidos dos ces que o veado tomou o lado do rio; os homens espalhados 
daquele lado no puderam atirar e o animal se distanciou de novo. Ansiosos, esperamos mais; havia momentos em que o som dos latidos p
 arecia desaparecer  distncia, de repente tornava-se forte outra vez, como se o vento se divertisse em enganar-nos; ora parecia vir do fundo da terra, ora pareciam 
gritos de angstia. De sbito, Ferno e alguns outros atravessaram galopando o descampado e dirigiram-se para o lado do rio; Augusto e Lus resolveram montar outra 
vez e segui-los, deixando os outros  espera. Fui atrs deles, apesar dos gritos de Leopoldina, dizendo para esperar. Quando chegamos a uma das margens, vimos um 
belo animal, um veado galheiro, nadando vigorosamente, no lugar onde o rio fazia uma larga curva, e as cabeas dos ces desesperados, a nadar em sua perseguio.
Tomsio e outro escravo j haviam cruzado o rio mais adiante, num lugar estreito, para cercar o animal na margem oposta; nas guas escuras, sobressaam as cabeas 
dos que nadavam afoitamente, na nsia de alcanar a margem. Quando o galheiro, j cansado, tentou alcanar a outra borda, foi tocado pelos negros e teve de voltar 
novamente ao rio, perseguido cada vez mais perto pelos ces.
O veado nadou ainda pelo meio do rio tentando atingir de novo a outra margem, mais acima, pressentindo perigo de morte por todos os lados, sem saber onde encontrar 
refgio. Os caadores, desmontados, esperavam com as carabinas apontadas; e quando o pobre animal, num arranco supremo, alcanou a margem e subiu ao barranco, ansioso 
por entrar na mata, soou um tiro que o eco repetiu longe no silncio grandioso; depois outro e outro, e o galheiro, dando um pulo, manteve-se um segundo de p nas 
patas traseiras, depois tombou pesadamente, rolando pelo barranco, a bonita cabea roando as guas.
Os cachorros rodearam-no no mesmo instante, com as lnguas vermelhas fora da boca; sacudindo-se da gua, farejavam o animal. Ferno e os amigos foram-se aproximando, 
e deram tiros para o ar, manifestando assim o regozijo pela vitria. No me aproximei para ver de perto; Tomsio tocou novamente a corneta e partimos de novo em 
busca de outra caa. S ento Leopoldina, Adelaide e outros caadores foram chegando; um dos escravos encarregou-se de levar o veado morto na garupa do cavalo.
S  tarde voltamos  fazenda; os caadores vinham jubilosos com trs veados mortos; atrs dos nossos cavalos, trotavam os ces, tambm cansados e alguns estropiados, 
as patas feridas, sangrando. No ptio da fazenda, os que tinham ficado em casa vieram assistir  chegada, entre risos e gritos de alegria. Os trs animais mortos 
foram enfileirados no cho, diante de Maria Letcia, rodeados pela cachorrada triunfante. Ferno foi logo dizendo que a cabea do galheiro ficaria muito bem no escritrio, 
sobre a porta da entrada.
Tio Antnio no gostava de caadas; com as mos nos bolsos, entrou de chofre no ptio, olhou tudo com um ar reprovador, de desprezo, e exclamou:
 Ento os brbaros j voltaram?
E com a ponta do p empurrou a cabea de um dos animais; o focinho escuro voltou-se para cima e os olhos vidrados pareciam fixar sinistramente o cu. Tio Antnio 
voltou o rosto, com nusea e pena. O solo emanava cheiro de sangue misturado com poeira e suor de homens e animais.
Por toda a extenso do ptio, os escravos corriam desencilhando os cavalos enquanto os ces, deitados  volta, respiravam ofegantes, as lnguas pendentes, a olhar 
os cavalos cobertos de espuma.
Os homens entravam e saam comentando o xito da caada, tinindo as esporas e levantando p a cada passo; com os chicotinhos batiam nas botas altas, dando estalos. 
Subimos a escadinha, cansadas, arrastando nossas saias de montaria. As caas abatidas foram levadas para fora a fim de serem retalhadas no dia seguinte de madrugada. 
O sol sumiu rapidamente e tudo silenciou l fora, homens e animais desapareceram do ptio; as senzalas aquietaram-se; s se ouviam, vindos do brejo, os gritos de 
saracuras desnorteadas. Dentro da casa iluminada, havia sons de msica, de tinir de copos, de risadas entrecortadas, de vozes alegres; e no escuro, l fora, alguns 
escravos assistiam de longe  ceia dos senhores. Cheguei-me a uma das janelas para ver; os girassis que se enfileiravam em volta do ptio, acompanhando a cerca, 
estavam sozinhos, as grandes cabeas redondas inclinadas para o cho, como se estivessem saudosos da luz do sol; e tinham uma aparncia t
 o desconsolada que dava pena v-los abandonados ao silncio e ao negror da noite.
Passou-se a semana de festas. Os convidados partiram em grupos e Santarm ficou tranqila de novo; nossos irmos voltaram a S. Paulo, os irmos de Ferno foram para 
Valena. Maria Letcia e Ferno resolveram passar na fazenda o tempo da colheita e pediram-me para ficar com eles. E assim ficamos, juntamente com o menino, na tranqila 
propriedade.
O tempo da colheita foi passando devagar; em junho, festejamos o padroeiro da fazenda, So Joo. Todos os anos, os Seixas Albuquerque davam uma festa nesse dia e 
a negrada delirava de alegria, desde um ms antes. No dia determinado, logo ao anoitecer, o ptio, o terreiro do lado e o jardim da frente da casa encheram-se de 
troles e cavalos dos vizinhos e amigos que chegaram para os festejos. Num dos terreiros, foram armadas duas enormes caieiras e, antes que o sol sumisse por trs 
dos cafezais, levantaram com solenidade o mastro de S. Joo; estava todo enfeitado de flores e palmas. Rojes subiram para o ar e a banda da fazenda, formada no 
ptio, tocou com animao. Logo mais, os bales de todas as cores foram preparados para serem soltos; Ferno e os irmos seguravam com delicadeza o papel de seda, 
enquanto os feitores umedeciam as mechas com querosene;  volta, ns assistamos e mais ao longe, espalhados no terreiro, os escravos olhavam, extasi
 ados. Largaram o primeiro balo; ele subiu hesitante, como se ignorasse o rumo a tomar, subiu mais, entortou para um lado, depois para outro, entre a gritaria da 
assistncia, depois firmou e subiu direito como se tivesse afinal acertado o caminho. Largaram o segundo; era verde e preto, como um grande sapo; a uma certa altura, 
enveredou para o lado do brejo e comeou a cair, lenta, lentamente, num desnimo indescritvel, sem coragem de prosseguir viagem to longa.
A molecada correu aos gritos para o lado do brejo, na tentativa de salvar o balo, mas ele queimou-se em poucos instantes, antes de alcanar o solo. E outros subiram 
depois e desapareceram no alto, como vaga-lumes perdidos; alguns incendiaram-se antes de subir, outros tomaram rumos ignorados e ningum mais os viu, tal qual vidas 
humanas.
As caieiras foram acesas e o fogo elevou-se em poucos minutos, estalando no espao; todos os escravos moos que queriam tomar parte nos jogos ficaram esperando de 
um lado, e, sobre os bancos do alpendre, os prmios estavam enfileirados; camisas, serrotes, cachimbos, cintos, canivetes, martelos. J era noite quando comearam 
os jogos,  luz das fogueiras; primeiro foi o pau de sebo. Quem subisse e conseguisse alcanar o alto do pau ganharia os prmios que l estavam amarrados num saco: 
uma camisa, um pacote de doces e uma moeda; a competio ia ser renhida porque os prmios eram cobiados. O primeiro que se apresentou para subir no pau foi Juvncio, 
um moleque esperto e gil; entre palmas de animao, ele cuspiu nas mos, esfregou com fora os ps nus na terra solta, olhou para cima para ver at onde teria que 
subir e resolutamente se abraou ao pau de sebo. Comeou ento a luta; escorregava porque o sebo no o deixava firmar-s
 e e ele tornava a tentar, numa pertincia titnica. Durante quinze minutos, Juvncio tentou incansavelmente, depois deu-se por vencido, arquejante e suarento. Apresentou-se 
o moleque Ricardo, filho da cozinheira Gabriela; trs vezes Ricardo escorregou at o cho e trs vezes quase conseguiu chegar ao fim. Vieram outros, resolutos e 
animados; esfregavam os ps na areia que traziam de propsito para isso, cuspiam nas mos, tentavam e desistiam. Finalmente, o moleque Juvncio tentou de novo e 
chegou at o topo do pau de sebo, num esforo inaudito; o feito foi coroado com palmas, msica e os prmios que tirou, triunfante, do alto do pau.
O quento passou em canecas de folha, entre os quinhentos escravos que  volta das fogueiras assistiam aos jogos. Chegou ento o momento de pular a fogueira; os 
escravos ficaram em fila, dirigidos pelo prprio Ferno; cada um deles com uma longa vara na mo; aquele que saltasse mais alto ou uma distncia maior ganharia os 
melhores prmios, que Maria Letcia distribuiria. Os que assistiam riam e aconselhavam os saltadores como deviam fazer, enquanto os negros velhos alimentavam a fogueira 
e davam canjica, batata-doce e bebida para todos. Os moleques corriam com as varas nas mos, firmavam-nas no centro da caieira e, num pulo alto, caam de p do outro 
lado e continuavam a correr um pouco mais no impulso do salto; via-se o vulto passar por cima das chamas, entre a fumaa e as fascas: pareciam demnios. Gritos 
aplaudiam e acompanhavam a faanha; e logo atrs vinha outro, e outro, em saltos cada vez mais altos.
Em seguida, Maria Letcia desceu a escada do alpendre, acompanhada por mim e por Modesta que levava os prmios numa bandeja; e os vencedores foram premiados galhardamente 
pela dona de Santarm, entre rojes e msica. Mais tarde, Ferno organizou o jogo da corda; era um jogo novo que um irmo de Ferno havia aprendido na Inglaterra. 
Colocou dez escravos de um lado e dez do outro e deu ordem para que puxassem, cada um para seu lado. Os possantes negros retesavam os msculos no esforo despendido 
e a assistncia delirava de entusiasmo; minutos depois de iniciada a luta, um grupo conseguiu dominar o outro e palmas estrugiram de todos os lados; novamente a 
banda de msica tocou marchas alegres.
A melhor surpresa foram os bois que Ferno mandou matar para que os escravos comessem carne  vontade nesse dia; e os pedaos sangrentos saam dos braseiros e eram 
distribudos entre eles, que comiam com as mos, avidamente;  luz das labaredas, podia-se ver a gordura amarela escorrer-lhes entre os dedos. Foi a festa mais bonita 
que houve em Santarm desde sua fundao; no tinham lembranas de terem visto nada igual, nem ouvido contar pelos antecessores.
Os jogos terminaram. Enquanto reunamos os convidados para a ceia no alpendre, entre lanternas de papel colorido, a banda tocou, depois dispersou-se e comeou o 
batuque. As fogueiras no morriam porque os negros velhos estavam alertas, alimentando-as; o quento passava e tornava a passar; algumas cabeas cansadas foram tombando 
para um lado, sonolentas, enquanto mais alm o batuque avanava pela madrugada: Cai sereno, cai sereno, cai na morena, cai sereno.
Durante a noite toda cantaram s isso, ininterruptamente; os convidados aos poucos foram-se retirando; os troles e os cavalos saram trotando pela estrada da serra, 
outros pela estrada do cafezal; recolhemo-nos aos aposentos e o batuque continuou na mesma toada cadenciada e montona, o mesmo bater de tambor e de ps, e o mesmo 
bater de corpos.
Quando o sol surgiu, brilhou sobre fogueiras mortas, sobre corpos de negros e negras estendidos no terreiro, dormindo profundamente, alguns de costas, bocas abertas 
para o espao e um fio de baba escorrendo-lhes pelos cantos da boca. Quando o sol esquentou mais, eles foram acordando, estremunhados, e sorrateiramente se dirigiram 
para as senzalas a fim de continuarem o sono interrompido, pois Sinh visconde dera feriado esse dia.
Mais tarde, cousa alguma restava da festa; tudo foi varrido e limpo, nenhum vestgio ficou. Olhei o mastro; l bem no alto, apenas via a imagem de S. Joo com a 
cabea muito crespa; parecia abraar carinhosamente o carneirinho; as flores j estavam murchas e caam, desoladas, ao longo do mastro. E o vento brincava com S. 
Joo; obrigava-o a olhar para um lado e para outro como a querer mostrar-lhe as terras de Santarm, e S. Joo obedecia, risonho, enquanto o mastro rangia de leve, 
como se rezasse.
Voltamos a S. Paulo depois da colheita. Na chcara da Penha, tudo ia bem; a plantao de cana e o engenho estavam sendo dirigidos por Joaquim, o feitor de confiana.
Foi nessa ocasio que nossa tia, a irm mais moa de mame, morreu de uma molstia desconhecida; e Carola, a priminha aleijada, foi morar em nossa casa, assim como 
a mucama que tratava dela.
Se as outras crianas no brincavam com ela, reclamava aos berros, dizendo que ningum a queria porque era rf; era bastante inteligente para saber lamentar-se; 
se brincava, ela as maltratava, ou se queixava de que elas lhe batiam. Mame precisava de muita pacincia e muita calma para solucionar as questes e Carola continuava 
a espalhar dissabores e lamentaes  sua volta. Mas, em memria de nossa tia, mame no se queixava, e quando tio Antnio ou papai se revoltavam, ela pedia que 
tivessem pacincia, que com a idade a menina se tornaria mais dcil, pois era uma pobre doente.
Mas Carola fora criada com mimos exagerados; era malcriada e exigente; batia o pezinho quando a contrariavam e reclamava contra tudo, sempre, chorando ou queixando-se. 
Bonifacinho no a tolerava; sempre que podia, beliscava-lhe o brao para vingar-se de todas as vezes que fora beliscado; foi preciso proibi-lo de se aproximar dela.
Tio Antnio, que costumava ler deitado na rede do alpendre, reclamava muitas vezes para mame:
 Como posso ler Shelley com sossego, ouvindo os berros dessa menina? S'il vous plat, mana, mande-a embora.
Tapava os ouvidos quando a menina gritava e, muitas vezes, ia fechar-se no quarto para no a ver nem ouvir. Mas, indiferente s antipatias que irradiava e ao transtorno 
que causava em nossa casa, Carola continuava a brigar, a exigir, a gritar e bater o p, o comprido nariz destacando-se no rosto sempre plido, a corcova nas costas 
entre os ombros desproporcionados.
Na chcara da Penha, Maria Letcia e eu samos um dia, a p, para ver o servio da moagem; o ar estava quente e o sol, abrasador; subimos a encosta do morro, lentamente, 
segurando as sombrinhas sobre as cabeas; de longe, avistamos a casa vizinha, o alpendre  volta e os jardins cobertos de dlias e rosas. No vamos D. Deolinda 
havia muito tempo; soubramos que estivera fora e essa ausncia tranqilizava Maria Letcia.
Foi nessa manh que Maria Letcia me contou que ia ter outra criana no fim do ano; queria agora uma filha e at j tinha nome. Enquanto falvamos observamos duas 
borboletas que esvoaavam  nossa frente; encontravam-se no ar como se se beijassem, separavam-se repentinamente, para tornar a se encontrarem mais adiante em vos 
rpidos e graciosos. Sorrimos olhando as borboletas. Vimos de novo a casa vizinha.
 Felizmente, D. Deolinda e o comendador no se lembraram mais de nos convidar para jogar solo, disse Maria Letcia. Felizmente. Creio que aquela mulher est marcada 
pelo demo, como disse Modesta. Detesto-a.
Procurei as borboletas; haviam-se distanciado um pouquinho, mas ainda se beijavam no ar; um pssaro voou to baixo que quase roou minha sombrinha; pousou um momento 
sobre uma rvore grande para descansar, j em cima do morro, depois desapareceu no espao.
Paramos tambm sob a rvore e olhamos a casa, onde as trepadeiras se enroscavam pelas paredes; Maria Letcia disse que fora construda pelo av de Ferno, o Visconde 
Seixas; e a casa, apesar de velha, era confortvel e estava agora muito melhor com a reforma feita por Ferno. Procuramos com os olhos Antnio Ferno e Modesta; 
deviam estar nos esperando no terrao da frente. Vimos, ento, os barris d'gua fresca enfileirados no alpendre, num lugar sombrio; diariamente os escravos traziam 
gua do rio l embaixo e colocavam os barris no alpendre do fundo da casa; dali, eles eram retirados e a gua servia para a cozinha, para a mesa, para os banhos. 
Distradas, os olhos velados por causa da claridade, ficamos olhando a casa batida de sol. Vimos, ento, um vulto sair sorrateiramente da cozinha, andar com passos 
leves, olhar para todos os lados e aproximar-se dos barris; firmamos a vista e reconhecemos Inocncia, uma das negrinhas que trabalhava
  na cozinha. Inocncia aproximou-se do primeiro barril, tirou a tampa e cuspiu dentro. Maria Letcia revoltou-se:
 Ser possvel o que estou vendo, mana Rosa?
Quis correr e gritar, mas segurei-a por um brao; Inocncia destampou o segundo barril e fez a mesma cousa; no terceiro, ela parou, olhou para os lados tornou a 
cuspir. Maria Letcia fez cara de nojo, indignada, pensando no castigo a infligir quela escrava. Com passos rpidos, dirigimo-nos para casa. Contornamos e entramos 
pela frente; no encontramos ningum; sabendo que Ferno estava n engenho, Maria Letcia mandou chamar o feitor Joaquim. Foi ento que fiz uma advertncia:
        O que vai ordenar, Maria Letcia?
Ela olhou-me ainda plida de raiva, os lbios apertados, e disse:
        Vai ver, mana Rosa. Vai ver daqui a pouco. Espere.
Quando so Joaquim chegou minutos depois, Maria Letcia ordenou-lhe que castigasse Inocncia severamente, pois a vira cuspindo dentro dos barris; ainda revoltada, 
deu ordem para que toda a gua fosse inutilizada e substituda.
Em seguida, subiu para ver o filhinho; estava dormindo nos braos de Modesta, gordo e corado. Contou o que vira e Modesta revoltou-se:
        Essa Inocncia  do diabo, Sinh. Ela no presta; j vi ela fazendo judiao pra pobre da cozinheira; ps tanto sal na comida da pobre que ela no pde 
jant. Com uma sova bem dada, ela indireita. Uma sova de tir couro.
Maria Letcia sorriu:
        Joaquim sabe o. que faz; decerto o castigo vai ser forte. E no a deixe mais trabalhar na cozinha; vou p-la no terreiro.
        Uma boa sova cura aquele demnio, Sinh. Vai v s.
Maria Letcia tomou a criana nos braos e beijou-a com carinho; quando a vi mais calma, fiz outra advertncia:
        Maria Letcia, no  essa Inocncia que sofre de ataques?
        .
        Ento voc no devia mandar dar a sova; devia dar outro castigo. Creio que, se a mandasse para Santarm, estaria bem castigada.
Maria Letcia olhou-me com uma expresso aborrecida, admirada por ver-me intrometer em seus prprios assuntos:
        Ora, mana Rosa, eu sei o que estou fazendo. Sei melhor que voc, que nunca dirigiu escravos.
Tentei ainda aconselhar Maria Letcia:
        Nunca se deve castigar uma pessoa doente. Chame so Joaquim e suspenda o castigo. Ainda  tempo.
Ela riu-se ironicamente:
        Mana Rosa, voc ainda no me conhece? No sabe que no volto atrs nas minhas resolues? Quando decido, est decidido.
E levantou-se para pr Antnio Ferno no bero. Deixei o quarto e fui para o meu, onde fiquei  janela, vendo os escravos que vinham subindo o morro, cansados do 
trabalho. Pensei que o que perdia Maria Letcia era o orgulho; era to orgulhosa que preferia sofrer a mudar de resoluo. E o orgulho  pecado.
Ao jantar, ela contou a Ferno o que acontecera e a ordem dada; Ferno ficou pensativo e disse depois que, em vez de mandar bater na escrava, antes tivesse castigado 
de outra maneira, enviando-a para Santarm. As escravas moas preferiam a chcara e s o fato de mand-las de volta  fazenda seria um castigo suficiente. Maria 
Letcia nada replicou e baixou a cabea sobre o prato. No contou que eu tinha aconselhado a fazer o mesmo. Apenas disse:
 Agora  tarde; j dei a ordem e a ordem que se cumpra.
Mas notei que no jantou quase, passou o resto da tarde tocando piano enquanto eu bordava e Ferno trabalhava no escritrio.  noite, quando subimos para nossos 
quartos, tive mpetos de dizer a Maria Letcia que mandasse saber notcias da escrava, mas entrei para o meu quarto e nada disse. No dormi bem, mais de uma vez 
acordei ouvindo gritos; s vezes pareciam gemidos que me deixavam impressionada. Prendia a respirao para ouvir melhor e no ouvia mais nada, apenas o silncio, 
o terrvel silncio dos lugares ermos.
De madrugada, quando os primeiros raios de sol comearam a clarear o quarto, ouvi perfeitamente uns gritos que pareciam vir das senzalas; no havia dvida, algum 
gritara. Levantei-me assustada e abri uma das janelas que dava para o quintal; fiquei espiando por trs da cortina; os gritos haviam cessado de repente, apenas vi 
os escravos dirigirem-se em fila para o engenho. Com calas e camisas brancas de algodo listado, l iam eles descendo o morro, cabisbaixos; notei qualquer cousa 
diferente essa manh, parece que cochichavam uns com outros e olhavam para trs como se me adivinhassem por detrs da cortina. O que seria? Resolvi acordar Modesta 
e, quando fui para o quarto vizinho, vi Maria Letcia de p, um ar aflito. Perguntei o que havia e ela me disse que no dormira  noite e agora mandara Modesta fazer 
um ch, pois estava com enjo de estmago. Estava de roupo, sentada perto da janela. Por que Modesta demorava tanto? Olhei tambm p
 ela janela e vi o cu muito azul e montinhos de nuvens que mais pareciam brancos novelos de l; os novelos passavam depressa como se corressem uns atrs dos outros. 
Para onde iriam? Bandos de pssaros voavam baixo, procurando as rvores, e as andorinhas que faziam ninho no telhado, comeavam seus chilreios, inclinando as cabeas 
para baixo e espiando o jardim, enquanto passavam e tornavam a passar o bico entre as penas. Depois, voaram do telhado para as rvores, procurando comida para os 
filhotes. Maria Letcia perguntou-me, ento, se eu no ouvira gritos durante a noite. Quem gritara? E por qu? Estava impaciente porque Modesta no voltava. Por 
que no voltava? De onde estvamos, no podamos ver as senzalas. Maria Letcia levantou-se e ficou passeando de um lado para outro, apertando o alvo roupo contra 
o corpo; aproximou-se outra vez da janela e, olhando atravs da cortina, viu Modesta atravessar quase correndo o espao entre a h
 orta e a casa; Maria Letcia chamou-me com um gesto para ver tambm. A mucama tinha a aparncia aflita, a mo no peito; estremeci, sem saber se era de frio ou de 
aflio; Maria Letcia sentou-se na poltrona do canto, aparentando calma.
Ouvimos finalmente os passos de Modesta que se aproximavam, apressados e leves; vi-a no vo da porta, a xcara na mo. No disse nada e entregou a xcara a Maria 
Letcia; ela tomou um gole, depois outro; percebi que suas mos tremiam. Ouvimos a voz de Modesta:
        Est mi?
        Estou melhor, obrigada.
Ento Modesta falou com voz rouca, vinda do fundo do peito:
        Sinh.
Maria Letcia e eu olhamos a mucama, interrogando-a com os olhos! Ela acrescentou:
        A Nocncia morreu, Sinh...
Maria Letcia ficou imvel, olhando-a sem compreender; de repente, sentiu todo o sangue acumular-se no corao, pois ficou to branca como seu roupo de flanela.
- Morreu? perguntou. Mas de que, Modesta? Por qu?
 Morreu da sova, amanheceu morta...
        Mas no  possvel, Modesta, interrompi. Maria Letcia no mandou dar tanto assim, no  possvel.
Modesta olhou-me:
        So Joaquim deu de chibata, Sinh Rosa; deu tanta chibatada que mat a negrinha. Deu aqui na cintura; ela come a urin sangue sem par e tava tudo uma 
sangueira. Eu fui v ela agorinha mesmo. Ps sangue pela boca tambm.
Maria Letcia recostou a cabea na poltrona e cerrou os olhos; vi que estava se sentindo mal. Tomei-lhe a xcara da mo e pedi-lhe que fosse deitar-se um pouquinho 
e no pensasse mais no que acontecera. Ela falou:
        Ento no foi imaginao. Tudo foi verdade; bem pressenti durante a noite alguma cousa, bem que ouvi gritos. Matei a negrinha.
Levantou-se e foi acordar Ferno; ele j vinha saindo do quarto e perguntou sorrindo, vendo-nos de p:
        Que madrugada  essa?
Mas, observando nossas feies transtornadas, ficou parado no vo da porta e perguntou:
 Que h? Est se sentindo mal, Maria Letcia?
Ela hesitou antes de responder, depois disse como num gemido, apoiando os braos na cmoda:
        Ferno, que horror! Inocncia morreu esta noite, dizem que de tanto apanhar. Mas eu no dei ordem para dar nela assim, s disse que a castigasse. S isso.
Ferno olhou-a um ar resoluto:
        E ele deu de chibata, no foi?
        Parece que deu.
Ferno apertou os lbios fortemente; depois perguntou:
        Sabe o que  chibata? Sabe bem o que ? Pobre Inocncia! O que ela fez, no era para morrer assim...
Maria Letcia tapou os olhos, angustiada; rodeei-lhe os ombros com meus braos e pedi-lhe que no se amofinasse; fiz um sinal a Ferno, ele compreendeu:
        No se aflija assim, Maria Letcia. Vou ver o que houve; no fique nervosa, deve haver muito exagero nisso tudo.
E deixou o quarto, apressadamente, sem olhar para nosso lado. Ouvimos o choro da criana; dirigimo-nos para l e quando Maria Letcia viu Antnio Ferno no bero, 
os braos estendidos para ela, teve um momento de fraqueza. Perguntou-me, hesitando:
        Mana Rosa, matei mesmo Inocncia?
E chorou.
 hora do almoo, Ferno mostrou-se apreensivo; no lhe saa do pensamento a morte da escrava. Maria Letcia encarou-o, receosa. Ele queria saber de que forma a 
ordem havia sido dada; ela repetiu palavra por palavra o que dissera ao Joaquim; ele olhou-a como que incrdulo.
        Pois o Joaquim me disse que voc estava furiosa e a ordem foi dada assim: D uma sova bem grande nela, uma sova bem grande e bem dada, porque ela merece.
Maria Letcia revoltou-se:
        No foi assim que eu falei, Ferno, no foi assim; pode perguntar a mana Rosa. Acredite em mim: eu falei assim, mana Rosa?
Ferno fitou-me com ar de dvida outra vez; respondi que a ordem foi dada simplesmente e que Joaquim havia exagerado.
Maria Letcia no almoou, empurrou o prato com um gesto nervoso e passou a mo direita vrias vezes pela fronte, como fazia sempre que estava preocupada. Ferno 
pediu:
        Veja se se lembra bem de suas palavras; talvez tenha dito essas palavras imprudentes e no se lembre. Mana Rosa de certo no ouviu bem, procure lembrar-se 
voc mesma.
        Juro que falei o que j repeti; por mais que eu queira, no me lembro de mais nada.
Houve um, silncio, depois ela perguntou em voz baixa, angustiada:
        E ela morreu... Por causa disso?
        Morreu. A sova foi tremenda. Parece que o feitor tinha enlouquecido de dio, a chibata cortou a carne da negra na altura dos rins e ela no resistiu.
Eu fechei os olhos imaginando a cena horrvel; no era possvel, pensei, no se morre assim facilmente. Maria Letcia insistiu:
        Mas de certo ela sofria do corao;  impossvel que uma pessoa morra de uma sova... No se recorda de que uma vez ela ficou doente e o Dr. Maranho veio 
v-la? No se lembra do que o mdico falou? Parece que ela sofria de uma leso qualquer.
Ele interrompeu:
        Voc no viu o cadver e no pode avaliar o que  uma sova de chibata. O corpo fica muito maltratado. J mandei chamar o Maranho para dar o atestado de 
bito. Muito desagradvel tudo isto.
Bebeu um grande gole de vinho. Ela tornou a perguntar:
        E agora? Vo enterr-la?
        Hoje; daqui a pouco. E no pensemos mais nisto. Vou mandar atrelar a calea; v para a cidade com mana Rosa e o menino.
No esperou o caf e saiu sem dizer mais nada. Meia hora mais tarde, chegamos  casa de papai; Maria Letcia contou tudo, lamentando-se. Papai, mame, tio Antnio 
consolaram-na dizendo que tais fatos eram freqentes; os feitores, uns brutos, interpretavam as ordens erradamente. Houvera casos idnticos em muitas famlias, casos 
de escravos morrerem por um castigo mal aplicado; ela devia procurar esquecer o incidente. Maria Letcia protestou, debilmente:
        Mas, tio Antnio, no sei como foi acontecer isso. Ferno est aborrecidssimo; quando me lembro de que fui a culpada...
Papai consolou-a:
        No se esquea de que a escrava era doente; no precisa aborrecer-se tanto; a negra tinha uma leso e voc no tem culpa disso.
        Foi o que eu disse a Ferno, mas ele alegou que no, que ela morreu da sova mesmo, o corpo estava muito maltratado.
Mame interveio:
        No foi voc quem deu a sova, por isso no tem culpa da brutalidade do feitor.
        Mas a ordem foi dada por mim, mame. Ah! Meu Deus, por que no foi Ferno?
Torceu as mos:
        A esta hora decerto est sendo enterrada; o que os outros escravos de Ferno pensaro de mim? Diro que sou uma mulher perversa que manda surrar at matar. 
Que horror! Mame ps as mos sobre os ombros de Maria Letcia:
        No se aflija assim, vamos ver sua mana Francisca Miquelina que chegou hoje da fazenda. Veio ter a criana...
Fiquei surpreendida e Maria Letcia perguntou:
        Francisca Miquelina chegou? Ainda hoje falamos nela; no foi, mana Rosa?
Acompanhamos mame at o quarto de Francisca Miquelina; antes de deixar a sala, ouvi a voz apreensiva de tio Antnio :
        a c'est terrible.
No amplo quarto que fora nosso, quando as duas ainda eram solteiras, encontramos Francisca Miquelina deitada, plida e cansada ainda da viagem; sentou-se no leito 
quando nos viu e estendeu-nos a mo emagrecida; contou que estava passando bem, s um pouco abatida da viagem e esperava o filho para o prximo ms. Maria Letcia 
sentou-se de um lado da cama e eu sentei-me do outro, na prpria cama. Comeamos a conversar e mame deixou-nos. Contamos a Francisca Miquelina a histria da escrava; 
os gritos que ouvimos durante a noite e o pressentimento da desgraa; Maria Letcia disse que o prprio Ferno duvidava dela, e isso era o pior... Protestamos dizendo 
que Ferno nunca duvidaria dela, era impossvel. Francisca Miquelina sorriu com ironia e procurou consolar Maria Letcia:
        No se importe com o que se passou e no diga que  infeliz por causa desse fato. Voc no sabe o que  infelicidade, no sabe.
Maria Letcia e eu olhamos para Francisca Miquelina, muito admiradas, pois sua voz estava profundamente triste; ela cruzou os braos atrs da cabea e continuou:
        Quando me casei, h um ano e tanto, no gostava de tio Rodolfo, mas todos diziam: Com o casamento, tudo  diferente, acaba querendo bem ao marido, como 
acontece com muitos casais. At mame disse isso, at Leopoldina, todos.
Eu considerava tio Rodolfo um tio bem mais velho que eu, e no podia pensar nele como marido. Casei e fomos para a fazenda. L  bonito, a casa  boa, h muitas 
plantaes e muitos escravos; procurei acostumar-me de todo o jeito. Deus  testemunha de que procurei. Mas nada deu certo; nunca me acostumei nem com a fazenda, 
nem com cousa alguma. Logo que cheguei, notei qualquer cousa esquisita, qualquer cousa que estava no ar, todos viam, menos eu; ento tratei de procurar essa cousa 
e achei. Todos me olhavam com cara triste, como se tivessem pena de mim e isso me deixava intrigada; mas, como eu mesma era triste, pensei que era devido  minha 
tristeza. Seis meses depois de casada, Rodolfo comeou a levantar-se mais cedo, de madrugada; dizia que precisava ver os escravos quando entravam no servio. Eu 
continuava dormindo; uma noite, ele levantou-se quando ainda estava escuro, dizendo que desconfiava que algum roubava leite e queria descobrir o ladro.
  No sei por que no acreditei. No dia seguinte, a mesma cousa; ento na terceira vez quando ele deixou o quarto, fingi dormir, mas fiquei pronta para segui-lo. 
Fui nas pontas dos ps e vi quando ele saiu pela porta da cozinha; no terreiro, em vez de seguir para o estbulo, onde dizia que ia, foi diretamente para o quarto 
de uma escrava, a Ambrosina.  uma mulata nova e bonita; fiquei sabendo tudo depois, pela cozinheira da fazenda; os irmos mais velhos e a me de Rodolfo, vendo 
que ele no deixava a Ambrosina, trataram de arranjar um casamento e eu fui a escolhida. Mandaram a Ambrosina para outra fazenda, para ver se acabava tudo entre 
eles. Qual! Uns dois meses depois de casado, mandou um escravo raptar a mulata e traz-la para nossa fazenda. Foi depois de vivo que comeou a viver com ela.
Fez uma pausa e mudou de posio:
        Fiquei quase louca de raiva. Sabe por que perdi o filho o ano passado? Pensa que eu ca dois degraus, no ?
Nada disso. Num domingo, vi quando os dois entravam no mato, atrs do pomar; disfarcei e, fingindo que estava colhendo frutas, fui atrs deles, mas com tanta infelicidade 
que ca sobre um tronco de rvore que estava no caminho, e machuquei-me muito. Quase morri. Quando Maria Letcia ficou viscondessa, eu estava de cama e nem pude 
vir  festa, no se lembram?
Um dia falei a ele sobre a Ambrosina; ele me respondeu que, se eu quisesse, podia voltar para casa de papai.
E suspirou:
        Assim vivemos l, eu e Ambrosina; Ambrosina est em primeiro lugar, por isso, ao chegar, encontrei um ambiente esquisito e todos com pena de mim; e porque 
sabiam que, mais tarde ou mais cedo, ele iria busc-la outra vez. No sei se hoje gosto do meu marido ou no; s sei que ver uma escrava ser preferida assim, quase 
na mesma casa, fere o corao da gente, e fere fundo. Sofro demais.
Maria Letcia e eu olhvamos para Francisca Miquelina sem dizer nada; de repente, perguntei em voz baixa:
        Contou tudo isso a papai?
        No, mana Rosa. Para qu? Ele me aconselharia a ter pacincia.
Maria Letcia perguntou:
        E a mame?
        Mame? Tambm no. Ela acha que as mulheres tm de suportar tudo. Que adianta falar?
Maria Letcia inclinou a cabea; Francisca Miquelina continuou:
        Por isso eu disse, Maria Letcia, que voc no deve lamentar-se; isso foi apenas um episdio sem importncia em sua vida; esquea a morte da escrava. Isso 
no  nada. Voc tem o amor de seu marido, tem o filho forte e bonito, tem riquezas e at o ttulo de viscondessa... Eu no tenho nada; j no digo o amor do marido, 
mas nem o respeito dele... Perdi o primeiro filho, vivo sempre doente agora, parece que no tenho mais a sade que tinha. Sofro.
Levou a mo direita aos olhos e concluiu:
        Vamos ver se este filho me traz um pouco de alegria: talvez at Rodolfo se modifique por causa da criana. Mas no creio; a cozinheira, minha confidente, 
disse que est desconfiada de que Ambrosina tambm vai ter filho...
Tomei a mo de Francisca Miquelina entre as minhas e, encontrando um pequeno motivo de consolao entre tantas vicissitudes, comecei a falar para confort-la:
        Francisca Miquelina, um filho de escrava nunca ser como um filho seu; lembre-se de que os dela sero mulatos tambm e isso para ele ser um motivo de vergonha; 
dos seus, porm, ele poder orgulhar-se. Francisca Miquelina, encare o futuro com coragem; Rodolfo h de mudar, ele  bom, h de mudar.  irmo de mame e h de 
compreender...
Maria Letcia levantou a cabea com orgulho e interrompeu-me:
        Francisca Miquelina, eu no suportaria essa situao. Nunca. Preferia morrer a ser humilhada assim. Saber que o marido vive com uma escrava e suportar isso 
em minha prpria fazenda? Nunca. Ah! Comigo havia de ver!
Perguntei:
        Que faria voc?
        No sei ainda, mas faria qualquer cousa. No suportaria isso.
Francisca Miquelina sorriu um plido sorriso e ia responder; nesse momento, mame entrou no quarto trazendo Carola pela mo, A menina cumprimentou-nos e sentou-se 
num banquinho perto do leito, cruzando as duas mos sobre os joelhos. Continuamos a conversar; de repente, Carola levantou-se e, tomando um alfinete nas mos, espetou 
uma borboletinha azul que esvoaava contra a vidraa; trouxe-a triunfante para junto de ns. Quanto mais o inseto se debatia, agonizante, mais ela ria e regozijava-se. 
Maria Letcia perguntou com uma expresso de revolta no olhar:
        Por que fez isso, priminha? No tem pena da borboleta?
Carola encarou Maria Letcia, os olhos cintilantes de maldade:
        No. Eu gosto. Pena por qu? Fez uma pausa e perguntou:
        E voc, que mandou matar uma escrava?
Diante das nossas fisionomias plidas, acrescentou, num tom de desafio:
        Pensam que no ouvi? Ouvi tudo!

MARIA Letcia viveu todo esse tempo obcecada pela morte da escrava; no falava, mas percebia-se; pelo modo de falar com os escravos, pela maneira de dar ordens. 
Uma vez mesmo me disse que sonhara com Inocncia. J se tornara uma obsesso. Passei todo esse tempo com ela e procurava distra-la sempre que podia; fazia-a tocar 
piano todos os dias, bordvamos juntas e falvamos de todos os assuntos, mas eu percebia que a idia fixa estava l num canto do seu crebro, martirizando-a. Todos 
os dias, amos para casa de mame, onde passvamos muitas horas com Francisca Miquelina e Leopoldina.
Um ms mais tarde, Francisca Miquelina teve uma menina; quando chegamos  casa do Largo do Ouvidor, logo depois do almoo, ouvimos o choro da criancinha. Bonifacinho 
e os filhos de Leopoldina estavam contentes, perguntando uns aos outros onde estaria o anjo; um chegara a ouvir um forte bater de asas, mas, quando chegara  janela 
para espiar, no vira nada. Que pena! Csar arriscou uma explicao: disse que estava no alpendre olhando as cousas l fora, quando ouviu o bater de asas; pensou 
logo que o anjo devia ser grande, ficou olhando e viu, ento, a ponta de uma tnica subir no cu. Percebeu logo que era o anjo.
        A ponta s? Perguntou Fortunato.
        E que cor tinha? Perguntou Bonifacinho.
Csar ficou um pouco indeciso, dizendo que parecia ser branca ou azul, no pudera verificar bem. Carola chegou-se s crianas e, quando ouviu a conversa, riu-se 
com superioridade.
Anjo? Quem disse que havia anjo? Ela no acreditava; a me contava que algumas crianas eram achadas entre flores, outras nos ps de couve; ela fora encontrada num 
galho de rvore e, como demoraram para peg-la, cara e machucara-se; por isso era diferente das outras, com aquela mala nas costas. Anjos eram para as crianas 
tolas. Fortunato ofendeu-se; disse que quem mentia era ela, pois o pai nunca mentia e dizia sempre que as crianas eram trazidas por anjos. Essa era a verdade; as 
crianas eram trazidas pelo ar, presas nos braos dos anjinhos. Carola, no gostando de ser contrariada, agitou-se, os olhos a brilhar de raiva; procurou logo um 
alfinete para enterrar no brao de Fortunato; este correu e ficou gritando de longe, batendo a mo direita fechada sobre a palma da mo esquerda:
         o anjo!  o anjo!  o anjo! Carola bateu o p no cho, teimando:
        No , mentiroso!  no p de couve,  no p de couve! Fomos ver o que havia: as mucamas queixavam-se de que no podiam zelar pelos meninos: bastava encontrar 
Sinh Carola, e eram brigas e alfinetadas. Para acalm-los, expliquei que as crianas vinham conforme a vontade dos pais; uns preferiam que os anjos as trouxessem, 
outros preferiam encontr-las nas plantas. E levei-os para verem a filhinha de Francisca Miquelina.
Voltei para conversar com Maria Letcia que estava sozinha num canto do alpendre. Nossas irms mais moas tagarelavam com as primas recm-chegadas do Rio de Janeiro; 
ouvimos a voz de uma das moas dirigindo-se a Adelaide, que j fizera quatorze anos:
        Prima Adelaide vai casar-se logo?
A voz de Adelaide respondeu um pouco aflita, num tom velado:
        No sei; dizem que vou casar com o primo Antunes.
Sorrimos; ela nem conhecia o primo, mas o casamento j estava combinado entre nossos pais e os dele. Outra prima do Rio cochichou:
        Pois eu tenho namorado!
Houve um murmrio de admirao e espanto; sussurraram: No fale alto. Depois risadinhas e cochichos. Logo mais, nossos trs irmos reuniram-se ao grupo das moas 
e comentaram os ensaios da nova comdia; Maria Letcia prestou ateno para saber de que comdia falavam e percebeu que era uma surpresa preparada para ela e Ferno. 
Queria saber que comdia era aquela, ento contei que tio Antnio havia escrito uma comdia intitulada: La confesse est arrive, e os irmos a estavam ensaiando; 
algumas primas do Rio de Janeiro tambm tomariam parte. Estvamos esperando apenas a chegada de nosso tio conselheiro para marcar a representao, que seria dedicada 
aos viscondes. Deixamos o alpendre e fomos para o quarto de Francisca Miquelina que estava recostada nos travesseiros, com a filhinha ao lado. O marido devia chegar 
de um momento para outro; j haviam mandado um escravo  fazenda, com a boa nova. Comentamos a surpresa que estav
 am preparando para Maria Letcia e ela sorriu, satisfeita. Disse que entre as tristezas que a absorviam, isso era como um raio de sol; sentia-se agora grata a tio 
Antnio e aos irmos que procuravam alegr-la, afastando-lhe os pensamentos que a oprimiam; e, sem nada falar a ningum, esperou o dia da representao.
S em fins de maio representaram a comdia; o conselheiro de Paiva no pudera deixar antes o Rio de Janeiro devido aos festejos oferecidos a SS. MM. que haviam regressado 
de uma viagem  Europa. Jantando em casa de papai, um dia antes do espetculo, descreveu o grande baile a que assistira no Cassino; Leopoldina e Eponina pediam detalhes 
a respeito dos trajes da Imperatriz e da Princesa Isabel; ele, porm, fez um gesto desanimado de quem no sabe descrever vestidos. Estava envelhecido, o tio conselheiro; 
a barba branca em forma de lua  volta do rosto, dava-lhe um ar de desalento. Desde que o filho Fabrcio no voltara da guerra contra o Paraguai, sentia-se cada 
dia mais velho e triste. Falou sobre os enfeites do salo do Cassino, a iluminao, a entrada de SS. MM. ao som do Hino Nacional e contou que a Condessa d'Eu danara 
com o ministro da Rssia e com o ministro de Portugal. Leopoldina insistiu:
        Mas o vestido dela, tio de Paiva? No se lembra ao menos da cor?
Com o vozeiro muito grosso, a mo peluda segurando o copo de vinho tinto, disse:
        Parece-me que era azul. E havia flores no toucado e um colar de prolas no pescoo...
E bebeu todo o vinho. Ferno e papai pediram-lhe notcias da Europa; as ltimas notcias recebidas diziam que os conflitos continuavam, na Alscia e na Lorena, entre 
os sditos franceses e os dominadores alemes; e que Napoleo III havia morrido na Inglaterra. Morreu justamente um ano depois da queda da Frana. Papai fez um comentrio:
        Assim terminou o regime dos Bonapartes na Europa. E terminou mal.
Tio de Paiva acrescentou:
        A Alemanha, depois da guerra, parece tomar demasiado impulso; est com a cabea erguida como um galo antes da briga, desafiando o mundo inteiro. Acha que 
s ela sabe conduzir a humanidade, s ela pode regener-la tambm; as demais naes so decadentes, insignificantes.
Tio Antnio observou com desprezo:
         o eterno orgulho dos Hohenzollern.
Ferno replicou:
 No sei se sabem o que o Conde de Moltke disse: A paz perptua  um sonho e nem sequer um belo sonho. A guerra , no mundo, um elemento de ordem preestabelecida 
por Deus; sem a guerra, o mundo se estagnaria e se perderia no materialismo. Vejam bem.
        Isso  um contra-senso, disse papai. Haver materialismo mais brutal que a prpria guerra, materialismo mais cru e mais real?
Leopoldina voltou-se com uma expresso de revolta:
        Odeio os alemes! Odeio-os todos!
Alberto acrescentou:
         pena eu no saber repetir o que o filsofo alemo Nietzsche diz da guerra; o pensamento dele reflete o do povo; diz mais ou menos o seguinte: Se o povo 
esquece a guerra, torna-se sentimental e cheio de iluses; e, quando uma nao perde sua vitalidade, no h nada como uma guerra, o assassnio a sangue frio, a aniquilao 
do inimigo, a perda de sua prpria vida e da de seus irmos; disso  que um povo precisa, e s uma guerra pode dar.
Protestaram todos, horrorizados. Tio de Paiva afirmou:
 Vejam s, tanto fala um filsofo como um militar; tanto fala o homem do povo como um aristocrata; todos tm o mesmo desejo da guerra porque esto convencidos de 
que a guerra  uma espcie de remdio para purificar a raa, quando ns todos sabemos que para a humanidade, a guerra s traz misria e dor.
         isso mesmo, confirmou papai. E agora, como so os vencedores, querem regenerar o mundo e andam com a cabea levantada, levantada demais.
Mais tarde, depois do caf, tio de Paiva tornou a falar:
        Esqueci-me de contar que no baile do Cassino de que falei, a Condessa d'Eu tambm danou com o Gro-duque Alexis.
Francisca Miquelina, ainda l, pois achava-se muito fraca para voltar  fazenda, animou-se:
        O Gro-duque Alexis foi ao baile, tio de Paiva?
        Ele e todo seu estado-maior. Danou uma quadrilha com a princesa. Foi uma festa brilhante. S numa quadrilha danaram sessenta pares. Houve tambm lindas 
marcas de cotillon.
Levantamo-nos da mesa e continuamos a conversar sobre o baile; Maria Letcia perguntou ao tio de Paiva:
        Meu tio, a seu ver, qual era a dama mais bonita dessa festa?
O tio conselheiro olhou-a um momento, depois levantou os olhos para o teto como se quisesse lembrar, baixou-os outra vez, dizendo:
        Estou velho demais para reparar, mesmo nas damas bonitas.
E, sacudindo o dedo gordo perto do rosto de Maria Letcia, acrescentou:
        Filha, digo como Benjamin Constant: J'ai passe Vage ou les vides se remplissent, et je tremble  renoncer  quoi que se soit, ne me sentant pas la puissance 
de rien remplacer.
E sorrindo acompanhou os homens  sala de jogo; outros foram chegando para uma prosa, como faziam todas as noites quando papai se achava em S. Paulo: o Bulhes, 
o Cnego Soares, o Dr. Maranho, o Juiz de Direito, o Dr. Lopes e outros. Naquela noite, o Cnego Soares estava com a palavra; contava um caso ocorrido em 1809 e 
todos ouviam, um tanto incrdulos. Ento ele se levantou e, sacudindo as mos fortes no ar, fez gestos decisivos e convincentes:
        Mas eu li, senhores, eu li no 2. Tabelio e, se no me engano, no livro 21, pginas tantas: Escritura de demisso, consentimento, conveno que faz Dona 
Beatriz Amaral Gurgel a seu marido Joaquim da Costa da Siqueira para o efeito de ser admitido a ordenar-se de clrigo.
O Cnego Soares parou e tomou flego, olhando os interlocutores que, silenciosos, fumavam; como ningum respondesse, ele continuou, animado, atroando com sua voz 
rouca o escritrio de papai:
        Mais ou menos isto: Saibam quantos este pblico instrumento... etc, etc, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e nove, 
aos cinco de janeiro do dito ano nesta cidade de S. Paulo na casa de morada de Dona Beatriz do Amaral Gurgel em a Rua das Flores onde eu, escrivo da Cmara desta 
cidade, etc, etc, tem preciso de passar uma escritura de consentimento a seu marido Joaquim da Costa da Siqueira morador nas Minas de Cuiab para se ordenar de 
sacerdote. Vi essa escritura no 2. Tabelio e achei o caso to interessante que no me pude esquecer...
Sentada perto da porta do escritrio, eu ouvia a voz do Cnego Soares; depois o Juiz de Direito tirou o charuto da boca para falar:
  de fato um caso interessante, um caso indito. Quanto mais se vive, mais se aprende; e se no fosse contado pelo Cnego...
Os outros tambm concordaram que no acreditariam. Tranqilizado, o Cnego sentou-se arregaando um pouco a sotaina e ficou silencioso, tamborilando os dedos na 
mesa ao lado. Tio de Paiva acrescentou:
        Muito louvvel a resoluo desse Joaquim Siqueira; deixar a esposa pelo sacerdcio.
Quando silenciaram, papai chegou-se  porta do salo e pediu-me que chamasse o Benedito; Benedito enfiou a cabea branca pelo vo da porta:
        O Sinh cham?
        O conhaque Napolon, Benedito.
O mordomo voltou logo depois e distribuiu na roda os copos bojudos; no pude deixar de sorrir; papai devia estar contente esse dia, pois s pedia conhaque Napolon 
quando se sentia feliz. Com solenidade, ele foi despejando um pouco da bebida em cada copo; ento, como num rito, todos rodearam os copos com as mos e aspiraram 
o conhaque quase religiosamente, antes de beb-lo. Durante segundos ficaram como em adorao diante dos copos; papai, com os olhos resplandecentes de prazer, bebeu-o 
primeiro com o olhar, espiando o precioso lquido contra a luz, depois com o nariz, aspirando-o com delcia, para finalmente lev-lo  boca, cerimonioso e concentrado. 
O Cnego Soares, muito simples, conversava com o vizinho, sem rodear o copo com as mos, sem aspirar a bebida, sem ador-la. Papai comeou a sentir-se mal e quando 
viu o Cnego fazer meno de beber o conhaque, disse com aquela voz forte que fazia tremer a barba grisalha:
        Cnego Soares, no sabe como se toma um Napolon?
Se o amigo no sabe, mando vir cerveja preta. Recebi uma partida da Inglaterra. Benedito, traga cerveja preta para o senhor Cnego.
Envergonhado, com visvel timidez, o Cnego levantou a mo num fraco gesto de protesto, dizendo:
        Gosto de conhaque, baro, mas uma cervejinha preta  prefervel.
Papai fez um gesto de desprezo e ao mesmo tempo de pena; como era possvel algum no gostar de Napolon?
No dia seguinte, representaram a comdia escrita por tio Antnio e dedicada a Maria Letcia e Ferno. Eles s tiveram permisso de comparecer s oito horas da noite, 
meia hora antes do espetculo. Procurei auxiliar os arranjos da casa e dirigir os escravos; toda a casa foi enfeitada com rosas. As rosas-ch cobriam a mesa. Nunca 
pude esquecer esse dia; essa festa foi o marco que separou a vida de nossa gente; foi como um limite. Comeou uma poca de tristeza e esse dia foi o ltimo de risos 
e festas. Foi a sombra interceptando a luz.  estranho pensar como os fatos se sucederam sem interrupo; so como as guas de um rio que deslizam em lugares bonitos 
ou feios, claros ou escuros, entre rvores ou pedras, sem escolher caminho. Nada interrompe seu curso.
A alegria foi desaparecendo desde esse dia; foi como um vento que arrastasse as vidas mais felizes num turbilho de incertezas e dor. Tudo se transformou. Nunca 
mais vi rosas brilhantes e perfumadas; parece que at as flores foram tocadas pelo vendaval.
S o jasmineiro continuou imperturbvel; indiferente ao frio, s tempestades e ao abandono, floriu nos outros anos e, nas manhs de calor, seu perfume inebriante 
enchia a casa, mas nunca mais trouxe alegria; parece que esta se fora com o perfume das rosas.
Lembro-me da admirao de Maria Letcia quando chegou:
        Meu Deus! Quanta rosa!
No salo, alguns convidados j se achavam sentados em frente ao palco improvisado; Benedito ia e vinha acompanhando os que chegavam.
Maria Letcia e Ferno sentaram-se no lugar de honra, uma espcie de tribuna, sobre a qual estavam escritos os nomes deles em letras douradas.
Maria Letcia estava com um vestido de veludo-marfim; vendo-a assim, linda e coberta de brilhantes, ningum adivinharia o que lhe ia no ntimo. Somente eu sabia 
o quanto ela sofria desde a morte de Inocncia.
Perguntava muitas vezes quando estvamos a ss:
        Ser que fui culpada, mana Rosa?
Mame entrou no salo levando Carola pela mo; os demais espectadores foram-se acomodando tambm. Tio de Paiva ficou ao lado de papai, depois meus irmos casados, 
com as esposas, o Dr. Maranho e a senhora, e vrias famlias amigas.
Comeou o espetculo; a cena passava-se no sculo XVII e os amadores representaram bem. Era uma comdia chistosa e sutil e tio Antnio mesmo dizia que certos dilogos 
lembravam os de Molire.
Depois do espetculo, tio Antnio foi chamado  cena muitas vezes e recebeu muitas palmas. Entre a ceia e as bebidas, ainda se comentava a pea; pediram para ser 
repetida no fim do ano, mas nunca chegou esse dia.
Nossas irms mais moas estavam radiantes; nunca tinham visto festa mais bonita e nem haviam tomado parte em comdias como aquela; Adelaide veio mostrar-me as luvas 
brancas bem grandes que mame mandara vir do Rio de Janeiro para ela; falava depressa, mostrando as mos cobertas:
        Veja, mana Rosa, veja o que ganhei. So s para saraus. Sabe quanto custaram?
Levantou trs dedos perto do meu rosto:
        Trs mil-ris! Veja que despropsito. Cristina ganhou mitaines, cada par custou mil e quinhentos... Reparou nos brincos de Leopoldina? So rosetas de ouro. 
Quando crescer pedirei um assim a mame. Eu, se fosse Maria Letcia, ficaria orgulhosa de ser bonita assim, e, ainda por cima, viscondessa. Ela est linda com esse 
vestido ivoire. Eu ficaria orgulhosa...
Tio Antnio, encantado com o xito da comdia, ia de um convidado a outro, conversando e trocando opinies; formaram-se rodas pelas salas; alguns homens foram para 
a saleta de fumar. Benedito aproximou-se de mim e disse que na porta da rua estava um rapaz querendo falar com Ferno, s com Ferno. Fui ver quem era e mandei chamar 
Ferno; iluminado pelo lampio de querosene, l estava um seu antigo colega e amigo, Benevides. Ferno convidou-o a participar da reunio, mas, com ar apreensivo, 
Benevides foi logo falando:
        Seixas, vim avis-lo de que est correndo um inqurito policial sobre a morte de uma sua escrava; isso ocorreu h uns quinze dias, no sei bem. Dizem que 
foi...
Ferno empalideceu e pegou o brao do amigo; fiquei parada no primeiro degrau e, apesar de no ser comigo o assunto, no tive foras para mover-me.
        O que, Benevides? Como soube? Que est sucedendo?
        Pensei que voc soubesse alguma cousa; por acaso estive na polcia para tratar de um caso meu, e inteirei-me desse inqurito. Acho bom voc procurar j 
um advogado. Resolvi avis-lo imediatamente.
Ferno apertou as mos uma contra a outra num gesto nervoso:
        Ora esta! Se a escrava morreu, que podemos fazer? Mas, o que dizem, afinal? No se inteirou do assunto?
Procurava dar firmeza s suas palavras, mas estava visivelmente nervoso. Benevides hesitou um instante e respondeu:
        Dizem que ela foi assassinada:  um absurdo, bem sei, mas  o que dizem. E que foi a mandado de sua esposa. Veja o amigo em que tempo estamos, com certeza 
so intrigas de abolicionistas; eles fazem tudo para ganhar a causa.
No se apoquente por isso e trate de provar a infmia da intriga e da calnia. Procure imediatamente seu advogado.
Com a mo sobre a boca, eu afogava um grito de susto; Ferno revoltou-se:
        Assassinada? Mas esto loucos? No  possvel, Benevides!
        Vim apenas contar o que soube na Polcia. No sei bem os pormenores; o que sei  que est correndo o tal inqurito devido  morte violenta da escrava. Fiquei 
sabendo hoje e vim logo avis-lo. Se precisar de auxlio, conte comigo. Recostado contra a parede, sob a luz do lampio, o rosto de Ferno estava transtornado pela 
surpresa e pelo susto; seu olhar passeava de um ponto a outro do largo, onde alguns transeuntes estavam parados, olhando nossa casa que, com as janelas iluminadas, 
se destacava das outras, mergulhadas na escurido. Absorto, ficou uns momentos em silncio. Benevides tocou-lhe o brao para despedir-se:
        Fale com seu advogado amanh mesmo. Cos diabos! No  grave assim, precisamos lutar contra a onda abolicionista; eles descobrem e at inventam crimes para 
vencer. Fale com o advogado. Boa noite, Seixas!
        Boa noite!
Quando o amigo j estava longe, Ferno voltou-se para mim dizendo:
        At esqueci de agradecer ao Benevides. Mana Rosa, no fale nada a ningum, deixe a festa acabar.
Fiz um sinal de assentimento e entramos de novo no salo. As despedidas j haviam comeado. Acompanhei Maria Letcia e Ferno e com eles fui para a chcara. Quando 
a calea tomou a estrada, a cidade foi ficando para trs, imersa no silncio e nas trevas. Ferno disse de repente:
        Meu amigo Benevides foi avisar-me de que h um inqurito contra ns, devido  morte de Inocncia.
Maria Letcia debruou-se, procurando ver o rosto de Ferno na penumbra da calea:
        Um inqurito? Mas por qu? No estou compreendendo, Ferno.
        Inqurito por causa da morte de Inocncia; dizem que ela foi assassinada; e o pior  que dizem que foi por sua ordem.
        Como? Assassinada? Dizem isso? Quem diz? Mas no foi, Ferno; todos sabemos que no. Temos a maior prova, que  o atestado do Dr. Maranho, o mdico sabia 
que ela era doente.
        Podia ser doente e viver ainda muito tempo. A sova podia ter-lhe abreviado a vida.
Maria Letcia aspirou o ar com violncia; acalmei-a:
 No se sabe bem o que se est passando, por isso no se apoquente tanto. Amanh vamos saber a verdade. Ela perguntou com altivez:
        Quem denunciou? Queria saber, saber para destruir a intriga. S pode ser uma intriga, uma calnia, uma infmia.
Quem denunciou?
E acrescentou aparentando calma:
        No estou apoquentada.
Ferno continuou:
        No sei quem denunciou; amanh vou procurar nosso advogado. Deve ser engano do Benevides. Afinal,  um absurdo. Como podem acusar-nos? Onde esto as provas? 
As testemunhas?  estupidez pensar em semelhante farsa. Isso  uma farsa. E nem devemos pensar nisso.
Levantei a cabea sentindo alvio:
        Tambm acho estupidez e absurdo. Quem poderia denunciar Maria Letcia? Algum do Partido Abolicionista? E como iria provar? Ningum testemunhou o fato.
        E temos uma atenuante, acrescentou Maria Letcia com animao: Meu defunto sogro no fazia parte da corrente abolicionista? No era contra a escravatura?
        Era, mas ele j morreu, disse Ferno. E todos sabem que sou contra a Abolio.
Em silncio, continuamos a viagem. Na chcara, encontramos Modesta ainda acordada, ao lado do bero do menino. Modesta retirou-se e ficamos olhando a criana dormir; 
seu rostinho meio comprimido pelo travesseiro, estava quase oculto; s sobressaa o brilho dos cabelos castanhos e as duas mozinhas fechadas e abandonadas sobre 
a colcha de seda. Maria Letcia inclinou-se e beijou de leve uma das mozinhas; depois com gestos rpidos comeou a tirar as jias dos cabelos, das mos, depositando-as 
sobre a cmoda. Aproveitou um momento em que Ferno deixou o quarto e virou-se para mim, a cabea alta, o sorriso nos lbios:
        Quero ver quem ser capaz de me acusar. Quem?
Era uma hora da manh e nenhum de ns pensou em dormir; Ferno passeava pelo quarto, um ar indeciso e acabrunhado; parecia duvidar ainda do que havia acontecido. 
Maria Letcia, um pouco plida, tomou o leque nas mos e comeou a bat-lo na cmoda e a falar:
 Que infmia, Ferno. Poderia eu mandar matar algum? Creia em mim, Ferno; eu disse apenas: Castigue essa escrava. Foram essas as minhas palavras; mana Rosa 
est a para confirmar. Eu seria incapaz...
Sentiu um momento de fraqueza, mas conteve-se, atenta aos gestos e s palavras de Ferno.
        Mas o principal  que ela morreu, disse Ferno. Seja como for, ela morreu, e algum pode haver denunciado. Temos agora, de enfrentar a Justia.  horrvel!
Sentou-se na poltrona do quarto e ficou imvel.
        No acredito que esse inqurito continue, falei. Ferno tem muito prestgio e papai tambm. Depois temos tio de Paiva que est em S. Paulo e pode auxiliar 
Ferno.
Maria Letcia encarou-me:
         verdade, tio de Paiva pode auxiliar-nos. E desconfio de quem deu a denncia; tenho quase a certeza. Oh! Ferno, temos inimigos temveis na vizinhana!
Ferno olhou-nos com ar de dvida:
        Mesmo que seja quem est pensando, o que no creio, que nos adianta saber? Precisamos saber a verdade: se no fosse to tarde agora, eu ia chamar o Joaquim 
para interrog-lo novamente.
Fui para meu quarto tentar dormir; pouco depois, Maria Letcia entrou tambm vestindo um roupo e recostou-se na cama, dizendo que no podia dormir. Percebi que 
no queria chorar perto de Ferno, perto de ningum. S eu conhecia as fraquezas de Maria Letcia. No queria ser fraca perto de outras pessoas, dizia que pertencia 
a uma raa forte e mostraria que era forte. Evocou nessa noite as palavras de papai: Vergar, mas nunca quebrar,  o lema de nossa famlia. Mas quando ficamos a 
ss no quarto meio escuro, onde s uma vela brilhava sobre a cmoda, ela se lamentou:
        Ah! Mana Rosa, creio que vou morrer... Olhei-a sem compreender:
        Morrer como?
        Quando tiver a criana; talvez eu morra. Passei to mal da primeira vez, que desta no escaparei. Devo morrer para no arrastar o nome de meu marido num 
escndalo como esse; por minha causa ele est sofrendo, por minha leviandade, talvez por minha maldade.
E chorou. Tentei acalm-la censurando-a um pouco:
        No deve pensar assim, nem perder a coragem. Mas o que pesa na sua vida  o orgulho, Maria Letcia. Mame diz que voc  orgulhosa; e  mesmo.
Ela procurou enxugar as lgrimas:
        No sou, mana Rosa.
         sim. Se no fosse, no mandaria surrar a escrava daquele jeito. Eu disse que no desse a ordem, mas voc deu e, para no voltar atrs, deixou a coitada 
apanhar tanto.  orgulho.
        Eu sei que no devia mandar surrar Inocncia, devia mand-la de volta a Santarm, mas fiquei com tanta raiva... Ah! Nossa Senhora do Rosrio, s h uma 
salvao para este caso  a minha morte. Levai-me deste mundo...
        No fale assim, Maria Letcia. Talvez no haja nada. Ferno tem muitas relaes, o inqurito no ir por diante... Voc vai ver.
Maria Letcia chorou mais e suspirou:
        Virgem Santssima do Rosrio!
Imaginou-se morta e, sentindo compaixo por si mesma, deixou as lgrimas correrem livremente. Pediu-me para tomar conta do filhinho quando ela morresse e no deixasse 
Carola maltrat-lo. Prometi.
Os primeiros clares do dia entraram pelo quarto adentro. Ento resolveu vestir-se e descer. Encontramos Ferno embaixo, no escritrio, mandando uma carta em que 
pedia o comparecimento de papai o mais breve possvel. Em seguida, vimos entrar Joaquim, o feitor, chamado por Ferno. Era um homem alto e forte, feies duras e 
grosseiras. Novamente, Ferno o interrogou:
        Joaquim, se por acaso a polcia mandar cham-lo para fazer perguntas, como vai responder?
O feitor enrolou o chapu nas mos, um pouco embaraado:
        Eu digo que cumpri as ordens dadas pela Sinh Letcia.
        E quais foram essas ordens?
Ele olhou Maria Letcia e baixou os olhos:
        Ela me disse para dar uma boa sova na Inocncia, uma boa sova.
        Foram essas as palavras da Sinh Letcia?
Perturbado, ele pensou um pouco e replicou:
        Sim senhor. Ela disse: Uma sova bem grande, bem dada, Joaquim. Foi isso. Eu cumpri as ordens; no tenho culpa se a escrava morreu.
Maria Letcia escutava tremendo; Joaquim era como uma barreira e tudo se batia contra aquela barreira; as palavras dele eram sempre as mesmas, no se alteravam: 
Cumpri as ordens, no tenho culpa. Ferno impacientou-se:
        Mas quando viu que a escrava estava sofrendo tanto, com as costas ensangentadas, por que no parou de bater?
        Porque a ordem foi: Dar uma sova bem grande. E quando eu dou nos escravos, dou assim mesmo.
 Mas voc no percebeu que ela ia morrer, ou podia morrer?
        No, Sinh. A Inocncia era uma mulher forte e no lembrei que podia morrer.
        Est bem. Pode ir.
L se foi o Joaquim novamente, indiferente ao mal que havia causado, uma barreira de estupidez e ignorncia sem sequer imaginar o sofrimento dos amos. Ficamos ss 
na mesa do caf. No falamos; mexamos as xcaras, tomvamos um gole, tornvamos a mexer e ficvamos olhando a toalha, ou ento a loua, cabisbaixos.
Uma chuvinha fina comeou a cair e o dia, que amanhecera claro, tornou-se cinzento, sombrio. Fazia frio. s nove horas, parou uma carruagem  frente da casa e mame 
e tio Antnio entraram, apressadamente e aflitos. Que acontecera? Contaram que papai seguira de madrugada com o tio conselheiro, para Guararema, e, ao chegar a carta 
de Ferno, j estavam longe. E mame, tirando a mantilha que a agasalhava, sentou-se na primeira cadeira, perguntando:
        O que houve? Passei um susto to grande, e estou vendo todos com sade. Onde est o menino? Aconteceu alguma cousa ao menino?
Ferno contou que houvera uma denncia na polcia; soubera pelo amigo Benevides. Mame olhou-o, incrdula:
 Ser possvel? Por causa da escrava? Tio Antnio repetiu:
        Ser possvel? Quem denunciou? No  cousa dos abolicionistas?
E, aproximando-se de Maria Letcia, ps-lhe a mo nos ombros, num gesto carinhoso e protetor.
Ferno mandou atrelar a calea, onde estavam gravadas em letras de ouro V. de S., sob uma coroa de visconde. E, despedindo-se rapidamente, partiu dizendo que ia 
falar ao advogado Dr. Simes. Passaram-se horas e mal tocamos nos pratos do almoo; abordvamos e repisvamos o mesmo assunto; era como se dividssemos o caso em 
pedacinhos e os fragmentos ficassem rolando no ar at serem juntados novamente e de novo calcados, despedaados, esmiuados.
 tarde, Flix, Augusto, Lus, Vicente e Loureno vieram saber o que havia; foram entrando barulhentamente pela casa adentro, fazendo as esporas tinirem sobre o 
tapete num som abafado, e perguntando, revoltados:
        Quem denunciou? Quem se atreveu? Quem?
Ah! Se conhecessem o denunciante, vingariam Maria Letcia; para quem levanta assim uma calnia, s uma bala no peito. Barulhentos e decididos, nossos irmos andavam 
e falavam alto, indignados, entre projetos de vingana. Augusto perguntou se Maria Letcia queria que eles fossem ao Rio de Janeiro explicar o caso ao imperador. 
Iriam a cavalo em viagem direta e contariam tudo; a denncia havia de desaparecer, morrer, ficar abafada... Pediriam uma audincia a D. Pedro por intermdio de nosso 
tio de Paiva; falariam, explicariam e tudo se reduziria a nada. Apoiaram todos a idia de Augusto. Leopoldina e Alberto chegaram mais tarde; demonstravam revolta 
pelo que sucedera. Num gesto unnime de solidariedade, ali estava toda a famlia, pronta para apoiar, defender e auxiliar Maria Letcia e Ferno. A horas tantas, 
disse Alberto, um pouco desanimado:
        Precisamos no esquecer, caros primos, que a corrente abolicionista cresce dia a dia; cada vez se torna mais forte e poderosa;  como se chovesse muito 
nas cabeceiras de um rio e o rio fosse engrossando de hora a hora. E essa corrente tudo far para dificultar o caso, para complicar, para fazer de Ferno e Maria 
Letcia um exemplo do que eles chamam os crimes da escravido.
Flix retrucou, exaltado, batendo a mo fechada na mesa:
        Os abolicionistas pensam que podem viver sem escravos; nem eles, nem ns, nem o Brasil.  um caso de vida ou morte. Precisamos dos escravos,  um erro pensar 
o contrrio.
Loureno falou com voz exaltada:
        E os escravos precisam ser tratados assim, com rigor. Se no, tomam conta de ns.
Lus e Vicente apoiaram Loureno. Depois do ch, ficamos silenciosos um momento, e de sbito ouvimos o rudo de uma carruagem parar  porta; alguns se levantaram 
e foram ao encontro de Ferno; ns ficamos de p, em ansiosa expectativa. Ferno entrou, apressado, uma expresso de cansao na fisionomia; atirando o chapu para 
um lado, falou enquanto todos os olhos se cravaram nele:
        Fui  polcia com meu advogado; declarei que, em vista do estado de sade de minha mulher, eu me apresentava em seu lugar; parece que concordaram. Ouviram 
meu depoimento e o processo segue seu trmite. Tenho que responder a jri.
Espanto e incredulidade acolheram essas palavras: falaram todos ao mesmo tempo:
        Mas no  possvel chegar a esse ponto!
        Ferno no tem culpa, nem Maria Letcia!
        A escrava morreu de outra cousa,  preciso provar.
Ferno sentou-se e acrescentou com voz cansada:
        Mandaram fazer auto de corpo de delito; examinaram o cadver e encontraram muitas escoriaes pelo corpo, equimoses, sinais de chicotadas; os mdicos, porm, 
acham que no morreu disso, no era suficiente para matar. Parece que foi de uma sncope...
Interromperam exaltados:
        Ento por que tanto rumor?
        Por que a polcia se envolve nisso?
        Ela podia ter morrido a qualquer momento, mesmo sem ter sido aoitada.
        Negro precisa ser tratado a chicote!
Ferno tornou a falar:
        Ah! Vocs no sabem como os abolicionistas esto fortes; meu advogado contou-me, em particular, que eles tudo faro para exterminar os escravagistas e que 
ho de perseguir principalmente os titulares, o mais possvel. Eu disse que no me importo de responder a jri porque no tenho culpa; tanto eu como minha mulher, 
temos a conscincia tranqila.
        E a denncia, perguntou Lus. De onde partiu? Quem denunciou?
Houve uma curta pausa, depois Ferno respondeu vagarosamente:
        No sei, s sei que mandaram uma carta annima  polcia. E essa carta dizia tudo.
        Carta annima? Quem seria?
Maria Letcia, at ento imvel e calada, levantou os olhos azuis para o teto, numa expresso de acabrunhamento; depois, olhou-me e fez-me um sinal de entendimento.
Leopoldina estava exaltadssima:
        Mas como? Quem se atreveu a denunciar uma viscondessa? Maria Letcia pertence a uma famlia de nome e  uma titular. Quem se atreveu?
Ferno respondeu passando as mos pelos olhos:
        No se pode saber ainda ao certo; a carta annima esclarece apenas que os vizinhos ouviram a ordem dada por minha mulher.
Protestos e exclamaes partiram de todas as bocas:
        Vizinhos infames, traidores. Que vizinhos so esses? No sabe, Ferno?
        Que dio!
        Infames!
Loureno adiantou-se, batendo a mo direita no punhal que trazia  cinta:
  pena eu no saber quem denunciou nossa irm. Queria desafi-lo e havia de mat-lo. Deve ser uma vbora perigosa; enlouqueo porque nada posso fazer...
Mame assustou-se e procurou acalmar Loureno:
        A vingana a Deus pertence, meu filho. Deus dar o castigo, quando for ocasio.
Tio Antnio de p, perto da janela, sacudiu a cabea:
        Mas isso  inacreditvel! Em que tempo estamos? Denuncia-se uma senhora de nome como quem denuncia um negro fugido?
Vicente encarou Ferno:
        E ns ficamos assim de mos atadas? Sem fazer nada? Sem agir?
Alberto perguntou, com medo:
        E Ferno ser preso?
Flix procurou acalm-los:
        Eu j estava com medo dos abolicionistas; j tem havido casos semelhantes e eles perseguem at o fim, sem piedade.
Ferno ser aconselhado pelo advogado; vamos esperar. Naturalmente ser absolvido, se chegar a responder a jri, no que no acredito.
Ferno levantou-se, um sorriso irnico nos lbios:
        Vou responder a jri, no h dvida alguma; resta saber se serei absolvido ou condenado. As testemunhas so muitas e todas dizem a mesma coisa: Viram passar 
uma rede ensangentada para o cemitrio e nessa rede ia o corpo de uma escrava. Dizem que lhe ouviram os gritos, quando foi aoitada, e ouviram tambm minha mulher 
dar a ordem: Joaquim, d nela at matar. Maria Letcia, num grito abafado, cobriu os olhos com as mos, esforando-se por no chorar; ficaram todos plidos e eu 
me aproximei dela:
        Maria Letcia, no leve os fatos to a srio. Ferno est dando aspecto trgico ao caso; ele ser absolvido, nem que seja para se recorrer a D. Pedro.  
uma calnia to grande, que a verdade h de aparecer; eu sei que voc no deu essa ordem.
Tio Antnio perguntou:
        E quem so estas testemunhas, Ferno?
        Os negros do comendador Menezes e outros; quase todas as testemunhas so escravos. H mais de quinze; uma cousa horrvel, horrvel...
Flix levantou-se para sair:
        Vamos mandar o Lucas chamar nosso pai em Guararema, hoje mesmo.
        Que v no melhor cavalo para chegar mais depressa.
        Que venha com o tio conselheiro imediatamente, acrescentou Lus. Vamos dar a ordem.
E nossos irmos saram juntos, batendo as esporas de prata no. tapete, impetuosos e destemidos; ouviu-se o tropel dos cavalos em disparada. Fez-se silncio na sala, 
cortado apenas pelo tamborilar da chuva na vidraa, muito de leve, como triste pressgio. Lembramos ento que estava chovendo e fazendo frio; ficamos todos imveis 
e pensativos, olhando o tapete. Tio Antnio, junto da janela, suspirou e murmurou, olhando a tarde cinzenta e coberta de garoa:
        Que tempos estes! Como se atrevem?
S ento me lembrei de que Ferno devia estar com fome e levantei-me para ir buscar caf.

Os primeiros dias se passaram; Ferno saa com o advogado, voltavam sem saber o que iria acontecer. Papai e tio de Paiva chegaram de Guararema, procuraram pessoas 
influentes para evitar o prosseguimento do inqurito, mas este continuou; os abolicionistas eram poderosos e respeitados.
O inqurito policial terminou um ms depois e chegou s mos do juiz, que iniciou o sumrio de culpa; este foi encerrado com a pronncia de Ferno. E, assim, teve 
ele de apresentar-se  priso e aguardar julgamento, juntamente com o feitor Joaquim.
Num gesto nobre, Ferno tomou a si toda a responsabilidade do processo, apresentando-se como nico visado pela denncia. Foi ento que Maria Letcia se desesperou; 
rodeada por todos ns, viu o marido ser levado  priso, sem nada poder fazer para salv-lo. Dias e noites passou aniquilada de dor; perante a famlia, aparentava 
calma e conservava atitude altiva Como se nada pudesse atingi-la; mas, a ss comigo, entregava-se ao desespero.
Todas as manhs, a calea nos levava, juntamente com Antnio Ferno e Modesta, para a casa do Largo do Ouvidor; na segunda semana aps a priso de Ferno, resolvemos 
ficar definitivamente em casa de papai; aquele ir e vir todos os dias podia ser prejudicial e depois, todos juntos, afrontaramos a fatalidade com mais nimo.
Papai e nossos irmos visitavam Ferno diariamente, trazendo sempre boas notcias; ele aguardava com calma o dia do julgamento e dizia-se bem tratado na priso. 
Os abolicionistas trabalhavam na sombra, mas Ferno nada receava, convicto de que tudo terminaria com sua absolvio. Cercvamos Maria Letcia de cuidados e consolo; 
apenas Francisca Miquelina, j de volta  fazenda do marido, ignorava a situao. Um dia papai mandou uma carta contando o sucedido a ela e a Rodolfo. Ficaram alarmados 
e Rodolfo veio um dia, a cavalo, visitar Ferno.
O tempo apresentava-se chuvoso; as ruas cheias de lama viviam desertas naquele inverno de 1872. O frio, insistente e fino como agulha, penetrava nas casas, e ns 
nos encolhamos entanguidos e silenciosos, envolvidos em chals de l e mantas para nos aquecermos. As crianas, no podendo brincar nos ptios e nos jardins, ficavam 
o dia inteiro dentro de casa e tornavam-se irritantes e malcriadas.
Num daqueles dias escuros, estvamos todos reunidos  volta da mesa, tomando o caf do meio-dia. Mame havia mandado acender dois lampies para iluminar a grande 
sala de jantar; quase no falvamos. Maria Letcia, a meu lado, servia-se de caf e tomava-o sem vontade, os olhos fixos na mesa, pensando no marido. Do outro lado, 
Leopoldina dava de mamar ao filho mais novo; mal se lhe via o seio branco, meio encoberto pela mantilha, sob a qual a criana sugava avidamente. Ela olhava o filho 
mamar e de vez em quando acariciava a testa da criana, passando a mo muito de leve para tirar um ou outro fiozinho de cabelo que por acaso a importunasse. Estvamos 
ss com as crianas; papai, nossos irmos, cunhados e tio Antnio tinham sado para falar com o advogado de Ferno. No fim da mesa, Carola mastigava com grande apetite 
um pedao de bolo de araruta; atrs da cadeira, Prudncia vigiava-a. De vez em quando, ouvia-se a voz de Leopoldina fala
 ndo com o filhinho: Quer mais, guloso? Olhem como ele mama! E virava a criana para mamar no outro seio. Antnio Ferno tomava caf com leite, bem agasalhado 
no colo de Modesta; com as duas mozinhas muito gordas, segurava a xcara, que ia virando devagar, auxiliado pela mucama. s vezes, parava para respirar e olhar 
a mesa; procurava entre os bolos qual deles havia de pedir depois; quando terminou, pediu o de araruta, mas no comeu. Espalhou-o no prato, picou-o em pedacinhos, 
provou e deixou. De repente, Bonifacinho deu um grito:
 Largue meu cabelo!
Era Carola que disfaradamente puxava o cabelo dele por trs da cadeira; Prudncia inclinou-se para ralhar com ela e segurar-lhe a mo. Ela se irritou e escondeu 
a mo:
        No puxei o cabelo dele!
        Puxou!
        No puxei, mentiroso!
Por baixo da mesa Bonifacinho deu-lhe um pontap e ela correspondeu com outro; Cristina, sentada entre os dois, levou um pontap na perna; contou a mame:
        Mame, eles esto brigando por baixo da mesa, levei um pontap.
Pedi que ficassem quietos, do contrrio deixariam a sala e iriam comer na cozinha; fizeram caretas para mim; ento mame ralhou com ambos e ameaou-os de castigo. 
Fortunato, no lado de Leopoldina, fazia de longe sinais a Bonifacinho para que desse um belisco na priminha Carola; e com a mo para cima, dava belisces no ar; 
quando Leopoldina percebeu, deu um tapinha na mo do filho e Fortunato fez cara de choro. Bonifacinho, inclinado sobre a xcara de leite, afastava de vez em quando 
para um lado os cachos de cabelo que quase lhe caam dentro do leite; comeu mais bolo e pediu licena para levantar-se; queria brincar com Fortunato no quarto de 
costura. Quando passou por trs da cadeira de Carola, com gesto rpido puxou-lhe as tranas e saiu correndo. Carola deu um grito e quis correr atrs dele, mas Prudncia 
segurou-a na cadeira. Mame mandou Bonifacinho voltar e colocou-o de castigo, de p, num canto da sala; mal-humorado, ele se encaminho
 u para o canto e ficou de frente para ns, fazendo caretas e pondo a lngua para Carola. Nesse instante, ouvimos o rudo de uma carruagem parar  frente da casa; 
pensamos que fosse papai que estivesse de volta; o mordomo entrou anunciando visitas; todos nos entreolhamos. Visitas num dia assim?
        Quem, Benedito? perguntou mame.
        A Baronesa de Sobral e D. Escolstica.
        D. Escolstica? A Baronesa de Sobral?
Benedito saiu e Leopoldina observou com voz maliciosa:
        Vieram  cata de notcias, as novidadeiras! Vivem falando cousas!
Mame levantou-se e censurou Leopoldina mostrando as crianas:
Leopoldina!
Leopoldina entregou a criana adormecida  mucama, dizendo a Maria Letcia:
        No aparea, Maria Letcia; elas s vieram para saber novidades, no lhes d esse gosto.
Maria Letcia concordou em silncio. Mame foi para o salo receber as visitas, enquanto Leopoldina se dirigiu ao nosso quarto a fim de passar um pente nos cabelos. 
Depois que deixaram a sala, Maria Letcia e eu vimos Bonifacinho deixar o canto sem pedir licena. Desanimada, fingi no ver a desobedincia. Bonifacinho passou 
sorrateiro por trs da cadeira de Carola e estendeu o brao para puxar-lhe novamente as tranas, mas no conseguiu porque a mucama o impediu, enquanto Carola dava 
outro grito agudo. Levantamos a cabea e olhamos para ele, carrancudas, mas Bonifacinho nem se importou, saiu da sala dando pinotes, os longos cabelos desgrenhados 
 volta do rosto, arrastando Fortunato pelo brao.
Leopoldina passou outra vez pela sala de jantar, dando de encontro com os meninos e, antes de entrar no salo, ralhou com eles; depois fez-me um sinal para que a 
acompanhasse e um gesto a Maria Letcia, mostrando a porta do salo.
        Velhas lambisgias! sussurrou.
Endireitou a cabea e, compondo um sorriso simptico, encaminhou-se para l.
Sentada no sof, ao lado de mame, a baronesa, magrinha e empinada, envolvida numa longa mantilha de l, perguntava por todos da famlia:
 Ento Francisca Miquelina foi embora? E est bem acostumada na fazenda? Gosta de l?
Tinha o hbito de fazer duas ou trs perguntas seguidas, sem esperar resposta; bastava a pessoa confirmar com a cabea e ela j fazia outra, esquecendo as primeiras; 
com a vozinha fina, falava sem parar. D. Escolstica, numa cadeira ao lado, confirmava tudo, intercalando uma ou outra observao na conversa:
- Temos tido mau tempo, muita chuva e muito frio. As lavouras devem sofrer bastante este ano; dizem que vamos ter geada. Ah! Que tempo!
Sentada na beirada da cadeira, o busto muito erguido, a baronesa perguntava:
        E seus filhinhos, Leopoldina? Como vo?
        Todos bem, baronesa. E seus netos?
 Vo bem agora. O ltimo teve caxumba, creio que apanhou no dia da procisso de Corpus Christi. Essas doenas parece que andam no ar. Saiu de anjo na procisso 
e voltou com caxumba. Agora vai bem.
Adelaide e Cristina entraram; cumprimentaram as visitas e, pedindo licena s senhoras, sentaram-se comportadas e silenciosas. A baronesa continuou:
        Est com mais duas moas em casa, sim senhora! E duas lindas moas. Penso que vamos ter muito breve outras festas de casamento. Multo breve.
As duas coraram, sob o olhar agudo da baronesa, que continuou:
        Como ia dizendo, as doenas andam no ar, mas todos os seus esto bons, no  verdade?
Leopoldina mexeu-se na cadeira e respondeu em lugar de mame:
        Todos com sade, sim senhora. E isso  difcil em famlia to grande como a nossa. Meu ltimo filho est forte e gordo; vou mandar traz-lo para as senhoras 
verem. Tenho multo leite. Francisca Miquelina tambm tem leite bastante, a menina dela vai de vento em popa.
Senti que a Baronesa de Sobral tinha outra pergunta nos lbios, mas faltou-lhe coragem para faz-la, ante a atitude resoluta de Leopoldina. Comeou ento a falar 
nas suas fazendas, nos escravos e no caf, para ganhar tempo.
        Pois, como ia dizendo, h muitas surpresas nas famlias, e h muitos perigos tambm. Nunca contei a histria das cobras que havia nas minhas terras? A minha 
amiga Escolina deve lembrar-se.
D. Escolstica confirmou com animao; ns dissemos no com as cabeas. Ela continuou:
 Foi ainda no tempo do baro, meu marido; tnhamos um rio atravessando parte das nossas terras; era um afluente e esse rio formava uma espcie de ilha, no muito 
longe da casa grande. Tnhamos criao de gado; comeamos a observar que todas as reses que iam parar na ilha, em busca de capim mais tenro, morriam. Os escravos 
vinham contar todos os dias e o prejuzo estava-se tornando grande; eu disse um dia ao baro: O senhor deve mandar ver o que h naquela ilha. Ou  planta venenosa 
ou  cobra que mata as nossas reses.
O baro era um bom homem, mas no me deu f, no acreditava em prosa de mulher; e os animais continuavam a morrer; um dia desapareceu a nossa melhor vaca leiteira; 
mandamos procurar  estava morta na ilha, a barriga inchada.
Fizemos exclamaes de susto; a baronesa prosseguiu:
        Senhor Baro, disse eu, d ordem para os escravos irem ver o que h naquela ilha; e o baro, certo dia, chamou dois negros possantes, mandou enrolar bastante 
palha nas pernas deles, com algodozinho por cima bem amarrado e bem justo at os joelhos, deu-lhes foices bem afiadas dizendo: Vo ver o que h; se for cobra, 
matem tudo. Eu me lembro como se fosse hoje; ficamos esperando na beira do rio. Pois, donas, mataram tanta cobra como nunca vi. Fizemos montes assim de cobras mortas. 
(E ela fez um gesto exagerado mostrando grande altura.)
Leopoldina sentiu um arrepio de medo, enquanto as duas meninas e eu, encolhidas nas cadeiras, vamos cobras subindo nas nossas pernas. D. Escolstica falou:
        Acontecem muitas coisas assim quando se mora em fazenda; e, nas terras onde h muita cobra, todo cuidado  pouco. Em nossa fazenda tambm houve um caso 
mais ou menos assim...
Mame dirigiu-se a mim:
        Rosa, mande trazer caf para as senhoras.
As visitas fizeram gestos hesitantes, levantando as mos:
        Oh! Por quem , no se incomode conosco. No queremos dar trabalho.
Levantei-me para obedecer a minha me e D. Escolstica ficou contando uma histria. Benedito trouxe a bandeja com caf, bolos e sequilhos; nesse momento, a Baronesa 
de Sobral olhou para o lado de D. Escolstica e, com voz mais fina ainda, perguntou enrolando a franja da mantilha entre os dedos, voltando-se de sbito para mame:
        E Maria Letcia? Como vai?
Mame fez uma expresso de tristeza e respondeu:
 Vai indo regularmente. Coitada!
Animada com a palavra coitada, a Sobral entrou resolutamente no assunto:
        Pois quando soubemos l em casa, ficamos muito tristes. Meus filhos e genros mostraram-se desolados; e at disseram: Ferno Albuquerque e a mulher no 
mereciam isso; at no so maus para os escravos.
D.        Escolstica tambm protestou com energia:
        Estive na minha fazenda durante a colheita e s soube quando cheguei, h trs dias apenas! Ora vejam s! Como foi acontecer uma cousa dessas!
E, baixando a voz, inclinou-se para o lado de mame:
        Quando ser o julgamento? Logo?
Leopoldina interveio:
        Nada sabemos ainda, D. Escolstica. Nada sabemos. Talvez seja daqui a um ms, dois ou trs. Rosa, diga para Benedito trazer aquelas broinhas de fub.
Ambas levantaram as mos com protestos veementes:
        No se incomode, Leopoldina. Ora esta! No se incomode!
A Baronesa de Sobral acrescentou:
        Mas, como disse  Escolstica, tudo h de acabar bem, com a graa de Deus. No ser arte dos abolicionistas? Eles so perigosos e ameaam cus e terras, 
mas nada podero fazer com nossas conscincias tranqilas, nada. Foi o que eu disse l em casa.
E servindo-se de mais caf, comeou a beb-lo e a comer broinhas; suas mos magras e secas moviam-se continuamente.
        Os abolicionistas nada conseguiro, afirmou. Estes sequilhos esto muito bem feitos. So de araruta? Na fazenda de um conhecido nosso, deu-se um caso semelhante, 
mas como no houve denncia, muito pouca gente ficou sabendo. Dizem que a denncia contra os viscondes partiu de uma carta annima, no foi? Ora esta, como podem 
os outros saber o que se passa em nossa casa?
A Baronesa de Sobral pigarreou, arranjou o xale e insistiu com maldade:
        Aquela vizinha de Maria Letcia  mulher destemida, eu conheo os Menezes... Uma vez.
Interrompeu a frase e ficou com a mo no ar, observando Carola que, amarela e triste, entrou no salo, cumprimentou-as e, dando um pulinho, porque a cadeira era 
alta para ela, sentou-se ao lado de mame com uma boneca ao colo balanando as perninhas finas, suspensas no espao. A baronesa tomou o flego:
- Ento a menina Carola tem uma filhinha? E como se chama sua linda filhinha? Mas, como ia contando, os Menezes desconhecidos...
        Quer mais sequilhos, baronesa? interrompi. D. Escolstica, outra broinha? No? Vou chamar Benedito para levar a bandeja.
Levantei-me para chamar Benedito. Sentindo um arrepio de frio, Carola encolheu-se ao lado de mame, aconchegando com carinho a bonequinha ao colo. A Baronesa de 
Sobral, teimosa, voltou ao assunto; ningum queria falar no caso, mas ela teimou e falou. Com um simples olhar, mame fez um sinal s meninas para que deixassem 
o salo; saram, e finalmente Carola tambm. Apertando a boneca de loua contra o peito atravessou o salo com seu passinho leve, tic-tac, e desapareceu por uma 
das portas. Como se combinadas, as visitas pulavam de um assunto a outro com incrvel presteza e muita habilidade; D. Escolstica perguntou:
        E essa menina doente ficar sempre com a senhora?
Que pena e que cruz, minha senhora; eis uma cruz pesada.
Pobre me, que deixou esse encargo para a senhora! Mas um bom corao  bom corao e quem no sabe que a senhora o tem?
Deu um suspiro e ia continuar quando a Baronesa de Sobral a olhou com um olhar impaciente e interrompeu:
        Conheci D. Deolinda Menezes na fazenda do comendador, vizinha da fazenda de meu pai. Como ia contando,  uma mulher valente. Certa vez, incendiou-se o paiol 
da fazenda, na ausncia do marido; D. Deolinda reuniu todos os negros e mandou erguer outro paiol. Comearam a resmungar e o feitor veio dizer que os escravos se 
recusavam a trabalhar porque j era noite, e estava chovendo. D. Deolinda no respondeu; entrou na casa, pegou a carabina, e foi sozinha enfrentar a negrada; perguntou 
com voz macia, a carabina no ombro:
Quem disse que no quer trabalhar? Quem foi? Ningum respondeu. Todos sabiam que ela atira num pssaro voando. Levantaram o paiol nessa mesma noite, e ela passou 
a noite ali, vigiando debaixo de chuva. No tem medo de nada,  valentona.
Houve outra pausa, ouviu-se a chuva que caa sobre a cidade, numa desolao. Voltou ao assunto:
        Ento, nada se sabe do julgamento? Ora, tudo h de acabar bem.
D. Escolstica acrescentou:
        Naturalmente que tudo h de sair bem, pois Ferno Seixas e Maria Letcia no merecem sofrer. Ela est aqui com a senhora?
Leopoldina falou:
        Temos esperana de que tudo acabar bem. Est aqui, sim, senhora.
E dirigindo-se para a Sobral, perguntou:
        Sua filha Sinh est na cidade? H quanto tempo no a vejo!
Vendo que o assunto no se encaminhava conforme seu desejo, a Sobral falou ligeiramente sobre a filha e convidou D. Escolstica para sair; ao despedir-se, ainda 
desejaram que tudo acabasse bem. Entraram na carruagem e partiram.
Voltando  sala de jantar, encontramos Maria Letcia conversando com Adelaide e Cristina; ento Leopoldina fingiu que se enrolava numa longa mantilha, e com o busto 
teso, a voz fina, preparou-se para imitar a Baronesa de Sobral. Perguntou a Maria Letcia:
        Quer ver, mana, como faz a Sobral?
Percebi que o nico intuito de Leopoldina era distrair Maria Letcia que estava sempre to triste. Pigarreando, Leopoldina comeou a imitar a voz da baronesa: Pois 
que tudo acabe bem, so os meus votos, e meus maiores desejos. Passe bem, minha senhora, passe bem, Leopoldina. Adeus, Rosa. Recomende-me  Maria Letcia. Adeus, 
adeus, que chuva meu Deus! Recomende-me s outras filhas tambm e ao baro e a todos. No sentem frio? Meu Deus, que frio! Adeusinho! Passem bem!
Comeamos a rir. Vendo que Maria Letcia tambm estava sorrindo, Leopoldina continuou:
- Agora a Sobral danando a quadrilha. Olhe Maria Letcia: En avant! Tour! Promenade  droit!  gache! Retourn! Galop!
E Leopoldina virava, revirava, voltava dando pulinhos, o busto muito erguido, dizendo de vez em quando com vozinha fina: Oh! Mon Dieu! Mon Dieu! A saia rodada fazia 
voltas no ar varrendo tudo que estava ao alcance e Leopoldina, vermelha e mimada pela brincadeira, exagerava cada vez mais, dando pulos cada vez mais altos. Atradas 
pelo barulho, as crianas foram aparecendo acompanhadas das mucamas. Fortunato batia palmas: Olhe mame danando! As duas meninas, com as mos nas cinturas, curvaram-se 
de tanto rir; mame ria discretamente e recomendava:
 Pare com isso, Leopoldina, pode fazer mal para o seu leite!
Mas Leopoldina viu Maria Letcia rir com vontade e quanto mais esta ria, mais ela danava, pulava, exagerava. Carola ficou num canto olhando, a boneca apertada contra 
o peito; sorriu muito de leve quando viu a prima Leopoldina danando sozinha, depois deu uma risadinha alegre e de repente comeou a rir, a rir que no parava mais, 
os olhos midos,  boca aberta. Como aquilo era engraado! Leopoldina dava uns pulinhos e dizia imitando voz de homem: Grande chaine! Tour au centre! E quando dizia 
Galop, arrastava tudo com ela; da ltima vez, levou Bonifacinho, Fortunato, Cristina, Adelaide. Foi uma correria e uma delcia a brincadeira: Maria Letcia ria, 
esquecida de tudo, os olhos alegres, a fisionomia feliz. S cessou o barulho quando papai e nossos irmos entraram sisudos e preocupados, trazendo notcias de Ferno; 
sacudindo os chapus midos da chuva, tirando as capas molhadas, espalharam pela sala, falando alto e fazendo barulho. At as cri
 anas ficaram imveis, esperando qualquer cousa estranha, como se de repente aquele mundo alegre em que estavam vivendo tivesse virado s avessas e um mundo triste 
surgisse de sbito para os aniquilar. Suspensas e com olhos espantados, ficaram olhando para papai, esperando sem saber o que, num gesto de proteo; Carola apertou 
mais a boneca contra si, como se receasse perd-la.
E Maria Letcia, concentrada e triste de novo, levantou os olhos para papai, numa interrogao, os belos olhos azuis aflitos e inquietos.
Papai foi o primeiro a falar, quebrando o opressivo silncio da sala:
        Nada de novo, minha filha. Tudo corre bem e seu marido manda lembranas. Est passando bem.
        E o julgamento, papai?
        Nada se sabe ao certo, mas provavelmente ser na prxima semana. No se preocupe tanto; j falei hoje, corri diversas pessoas e todos so unnimes em dizer 
que Ferno Seixas no tem de que se preocupar.
Flix acrescentou:
        Maria Letcia, foi muito nobre da parte de seu marido chamar a si toda a responsabilidade. Mostra que  de boa raa.
Mame mandou servir vinho do Porto porque se estavam queixando de frio; de p, os clices nas mos, continuavam a conversar sobre o caso. Papai pediu o jantar:
        Esse jantar no vem? J  tarde e estamos com fome.
Apressei-me em mandar servi-lo; a mesa j estava estendida; outros lampies foram acesos sobre ela. A tarde caa rapidamente e, apesar de no ser ainda cinco horas, 
parecia noite fechada.
O frio aumentara tambm; toda a sala estava com as janelas cerradas, mas o vento frio penetrava assim mesmo, como agulhas finas que faziam as mos doerem e as faces 
tornarem-se geladas. Tio Antnio entrou comentando o mau tempo e esfregando as mos; Leopoldina, que fora ver o filho, voltou com ele no colo, bem embrulhado numa 
manta escocesa. Modesta veio queixar-se de que Antnio Ferno estava impertinente e no queria comer, talvez fosse o frio; mame aconselhou:
- Enrole-o em mais um cobertor, Rosa, no quarto de hspedes, no fim do corredor,  esquerda, h muitos cobertores.
Maria Letcia levantou-se para acudir o filho: fui ver o cobertor. Passando perto de papai, ela perguntou num tom hesitante:
        Ele tem... bons agasalhos?
        Tem mais de um cobertor. No se preocupe. E esse jantar?
Sentamos todos  volta da mesa. O marido de Leopoldina chegou um pouco atrasado; estivera tratando do embarque de um caf e a chuva atrasara o servio. Maria Letcia 
voltou e sentou-se tambm; tomamos a sopa quase sem falar; na mesa comprida, onde havia mais de vinte pessoas entre grandes e pequenos, s se ouvia o leve rudo 
das colheres sobre os pratos e o cair da chuva l fora. De repente, papai levantou a cabea, passou o guardanapo na boca e disse a Flix, sentado  sua esquerda:
        O que me aborrece so as testemunhas; so muitas e todas dizem a mesma cousa. Isso vai pesar no julgamento.
Voltara a falar no assunto; Maria Letcia ficou imvel esperando a resposta do irmo; Flix olhou-a de soslaio e, vendo-a com uma aparncia to calma, respondeu:
        Meu pai esquece-se das testemunhas a favor; Ferno Seixas  um homem de corao, nunca mandou castigar severamente os escravos, apenas castigos leves. Ademais, 
as testemunhas da parte contrria podem estar coagidas.
        Ah! Isso no, protestou papai. No havia inimizade na vizinhana, pelo contrrio, at se visitavam. Por que motivo obrigar os escravos a mentir?
Maria Letcia levantou a cabea e fitou papai com uma expresso revoltada:
        Ento papai acredita que eu dei essa ordem? O senhor tambm, meu pai?
Papai voltou-se para ela:
        Nunca, minha filha. Tenho a certeza de que minha filha nunca daria uma ordem dessa natureza, to brbara assim.
Leopoldina perguntou:
        O que diz o advogado, papai? Ele acredita que Maria Letcia deu a ordem?
Papai ficou um pouco embaraado; Lus respondeu por ele:
         isso que as testemunhas dizem; todas dizem a mesma cousa, dizem que ouviram Maria Letcia ordenar...
Flix interrompeu:
        O advogado Simes nos contou hoje em particular...
Eu j estava aflita com o rumo da conversa; mame e Alberto falaram quase ao mesmo tempo:
        No devemos tratar do assunto agora...
E mostraram as crianas no fim da mesa; as mucamas haviam cortado os pedaos de frango que elas comiam em silncio olhando para os pratos; s Carola espiava os grandes, 
interessada no que eles falavam.
Leopoldina impacientou-se:
        No devemos tratar do caso a todo momento, ainda mais na mesa; j tnhamos combinado isso, mas os manos se esquecem...
Augusto deu uma risadinha:
        Ora, quem  que estava to interessada em saber?
E mostrou Leopoldina. Tio Antnio olhou rapidamente para o lado de Maria Letcia:
        Nunca se deve aumentar a aflio dos aflitos.
Perguntou ao marido de Leopoldina:
        Embarcou muito caf hoje?
Falaram longamente a respeito do caf; Maria Letcia virava e revirava a comida no prato, mas no pde jantar. Percebi o que a martirizava a todo o momento: queria 
adivinhar o que nosso pai e irmos pensavam dela. Acreditariam que ela tivesse dado aquela ordem?
Depois do jantar, os homens foram para a saleta vizinha fumar charutos e tomar licor. Mam Zabel entrou como que rolando, a grande saia engomada varrendo o cho; 
veio contar que chegara um feitor de Guararema trazendo Lus Mina, o escravo cego. As crianas ficaram assanhadas; queriam ver o cego. Leopoldina, Maria Letcia 
e eu nos levantamos para ir ver o que havia e as crianas correram na frente. Num canto da cozinha, Lus Mina tinha acabado de jantar; estava sentado num banco baixo, 
as duas mos apoiadas sobre um pau que servia de bengala, o corpo inclinado para a frente, olhando fixamente um ponto do cho. Os olhos sem vida eram avermelhados, 
os cabelos cinzentos formavam uma espcie de carapua sobre sua cabea e a fisionomia imvel tinha uma expresso intensa de desalento. As crianas pararam em frente 
dele, olhando-o com curiosidade; de repente, Bonifacinho passou a mo bem perto do rosto de Lus Mina para ver se era cego de verdade; o
 escravo continuou imvel, Fortunato ento avanou o dedinho diretamente ao nariz do cego e Lus Mina, como se fosse de pedra, no se moveu.
Entramos na cozinha e Lus Mina levantou-se; olhou para o nosso lado e, guiado por nossas vozes, disse: Suns Cristo, Sinhs. Leopoldina perguntou o que havia e 
por que viera de Guararema.
Lus Mina era um escravo alforriado, mas por ser cego, continuara na fazenda debulhando milho, o nico servio que podia fazer. Contou que viera consultar um mdico 
da cidade; o feitor tinha que vir a S. Paulo, para falar com Sinh baro e ele viera tambm; andava muito doente, com pontadas no lado esquerdo. Leopoldina animou-o 
dizendo que no dia seguinte o Dr. Maranho haveria de examin-lo e dar-lhe um remdio. Perguntei:
        No teve medo de vir numa noite assim, Lus Mina? To fria e to escura?
Ele sorriu mostrando as gengivas vermelhas:
        Ah! Sinhazinha, eu vivo na noite escura. Pra mim no h dia, nem luz. Tudo escuro.  uma noite sem fim.
E riu, mostrando os olhos que pareciam duas brasas, num gesto resignado de renncia. Leopoldina olhou-me com ar de censura e eu sorri, embaraada, dizendo:
  verdade, Lus Mina, eu tinha esquecido.
Deixamos a cozinha. Ficamos ainda na sala de jantar depois que as crianas foram para os quartos. Maria Letcia queria saber mais; perguntou a papai o que as testemunhas 
diziam contra ela. Papai hesitou:
        Dizem que... Maria Letcia deu ordem ao feitor de dar na escrava at matar. Todos dizem a mesma cousa.
        Mas, meu pai, como podem dizer isso? As testemunhas ouviram? Onde estavam? Eis o que no posso compreender...
E ficou olhando fixamente a mesa; passei o brao sobre seu ombro:
        No se preocupe; ningum acredita que voc pudesse dar essa ordem. Decerto so testemunhas compradas.
        Mas por quem, mana? Quem compraria essas testemunhas para nos acusar?
Leopoldina falou em voz baixa:
        No seriam os abolicionistas? Tenho quase certeza.
Maria Letcia sacudiu o ombro num gesto de desalento; houve um largo silncio. Olhou um por um  volta da sala; ningum reparava nela, estavam distrados e pareciam 
pensar em suas prprias atribulaes. Levantou-se ento dizendo boa noite aos irmos e, pedindo a bno a papai e mame, chamou-me para ir com ela ao quarto. Era 
o mesmo quarto grande que ocupvamos quando ela e Francisca Miquelina eram solteiras. L estavam a cama da nossa irm, num canto, e ao lado da sua, o bero de Antnio 
Ferno. Olhamos a criana; dormia calmamente, bem agasalhada, as mos ocultas sob as cobertas. A luz fraca da lamparina ardia sobre o oratrio; assim mesmo no escuro 
comeamos a nos despir. O frio era intenso. Maria Letcia olhou mais uma vez o filho para ver se estava bem coberto; agasalhou-o mais. De camisola, sentada na cama, 
pediu-me para pente-la; desfiz-lhe os cabelos repartindo-os ao meio e fiz duas tranas. Ela deitou-se e tento
 u rezar, mas no o conseguiu; fixou a imagem de Nossa Senhora do Rosrio; a chamazinha s vezes aumentava, s vezes diminua. E tremulava sempre. Tremulava. Maria 
Letcia comeou a falar:
        Por minha causa, Ferno est sofrendo, mana Rosa; est passando humilhaes, vergonha, at frio talvez.  esquisito, mas nunca pensei que algum pudesse 
sofrer assim. S agora, porque estou sofrendo, vejo sofrimento em toda a parte.
Tenho impresso que  s olhar  minha volta...
Deitei-me na cama ao lado e fiquei quieta; ela continuou:
        Quando a gente  feliz, s pensa na prpria felicidade e no imagina que h sofrimento, mas o sofrimento existe. A dor existe. Creio que o sofrimento e 
a dor so como a sombra que surge de repente e ofusca a luz, tapando a claridade. Parece que tudo submerge nas trevas, ento a luz se torna um ponto inacessvel, 
to distante e to difcil de ser atingida que a gente sente um impulso de submergir, tambm, no desespero. No acha que  assim?
        Acho.
        Veja um pouco nossa vida agora. No estamos vivendo nas trevas?
No respondi e ela tornou a perguntar:
        No acha boa a comparao?
        Acho.
        S agora reparo na desgraa alheia, nunca antes tinha pensado nisso. Veja o escravo cego, por exemplo. Meu Deus! Viver sem nunca ver a luz, o sol, a beleza 
do mundo, as flores do caminho... No ver nada. Nada. De dia e de noite, escurido. Os olhos abertos, olhos fechados, escurido. Meu Deus! Nunca reparei nos cegos. 
E nossa prima corcundinha, mana Rosa? Por enquanto, ainda  criana e no sabe avaliar seu sofrimento mas quando for grande, quando for moa e vir todas as moas 
alegres e bonitas, s ela triste e feia... e levar eternamente aquele peso nas costas, aquela coisa que todo o amor de tia Leontina no conseguiu tirar, que todo 
o dinheiro do titio no pde curar... Olhei a chama da lamparina e fiquei seguindo seus movimentos. Maria Letcia tornou a falar:
 E Francisca Miquelina? Em seu prprio lar, ser desprezada, humilhada assim? Ver a outra preferida, uma escrava, Uma negra. Ser trocada por uma negra. No  horrvel, 
mana Rosa?
        !
        E nada poder fazer; apenas ficar quieta e fingir. Fingir que ignora e saber que toda a fazenda sabe e comenta. Como pode viver assim?! Ah! Isso eu no suportaria, 
preferia morrer. No sou orgulhosa, mas suportar tamanha humilhao, eu no poderia. E voc, mana Rosa? Suportaria isso?
        No sei, mas creio que sim. O que se pode fazer?
         porque voc e Francisca Miquelina so medrosas, tmidas demais. Queria ver se fosse comigo!
Houve uma pausa. Ela continuou:
        Lembra-se da tia Sousa Mendes? Quanto no ter sofrido? Saber que a escrava manda mais que ela, at nos negcios do tio? E depois uma escrava altaneira 
e mandona. E a tia fecha os olhos, finge que no sabe de nada. Mas deve sofrer. Voc no acha?
        Acho.
        E quantas outras? Agora nossa prpria irm sofre a mesma humilhao.
Puxei mais as cobertas e olhei a luz da lamparina; s vezes ia diminuindo, diminuindo, parecia extinguir-se, mas revivia e dava saltos como se uma simples chama 
pudesse sentir a alegria de viver. Maria Letcia tambm olhava a lamparina; depois estendeu o brao e apalpou o filho para ver se conservava as mos cobertas. Perguntei:
        Ele est quentinho?
        Est. E Ferno? Voc acha que ele est sentindo frio? Eu no quero pensar nele, mas penso. Antes pensasse no Lus Mina. Pobre cego!
Ouvimos a chuva que caa sem parar; batia na vidraa com um rudo suave, macio, como se no quisesse perturbar nossos pensamentos; caa nas paredes das casas, na 
lama das ruas, nos lampies de querosene, nas telhas escuras, inundando e entristecendo a cidade. Pensei tambm: Como pode haver testemunhas se Maria Letcia deu 
a ordem em casa dela e ningum estava perto? Afinal ela no deu essa ordem; mas quem vai acreditar que no deu? E Ferno, que tomou a si toda a responsabilidade? 
Como se justificar no dia do julgamento? O que ir dizer?  melhor no pensar. Ouvi a voz de Maria Letcia:
        Estou h meia hora olhando as feies de Nossa Senhora; ser que ela sofreu muito?
        Quem? Nossa Senhora? Sofreu, sim.
        E ser que foi bonita?
        No sei, mas creio que sim.
A luz da lamparina tremia, pulava, saltava, desenhando sombras nas paredes do quarto; as sombras desenhavam estranhas figuras. Maria Letcia tornou a falar:
 Na vida tambm  assim, como a luz da lamparina; a alegria e a tristeza, a subida e a descida, a felicidade e a desventura, a luz e a sombra. Estou agora na sombra. 
Tudo  escuro  minha volta, como esta prpria noite. Tudo... Voc acha que a luz voltar?
Com os olhos fixos na imagem de Nossa Senhora, Maria Letcia adormeceu logo depois.
O dia do julgamento amanheceu escuro e frio; o vento sul varria a cidade de leste a oeste fazendo os grandes lampies de querosene oscilarem nos seus braos de ferro 
com rangidos sombrios. Poucas pessoas se atreviam a andar pelas ruas, mas, apesar do frio e do vento, a sala do Tribunal do Jri ficou completamente cheia, segundo 
nos informaram depois nossos irmos. Toda S. Paulo quis assistir ao julgamento de Ferno e quando ele apareceu entre dois soldados e sentou-se no banco dos rus, 
um silncio impressionante caiu sobre o recinto.
Passamos o dia todo a consolar Maria Letcia, procurando infundir-lhe nimo, e, para acalm-la, de quando em quando eu trazia um ch de folhas de laranjeira que 
ela tomava aos golinhos, os olhos rasos d'gua. Foi o nico dia em que chorou diante de mame e das outras irms. Sempre procurara mostrar-se calma, como se cousa 
alguma pudesse atingi-la.
Caiu a noite, uma frgida noite de agosto; o frio aumentara; as horas passavam com uma lentido inexorvel. De dez em dez minutos, Leopoldina mandava o moleque Lucas 
at  esquina, para ver se Benedito vinha vindo com alguma notcia, pois papai ficou de mandar Benedito com o resultado. J era tarde, quando Benedito entrou pela 
sala adentro, o rosto aberto num largo sorriso; levantamo-nos todas ao mesmo tempo e ficamos de p diante dele que repetiu a seu modo as palavras de papai:
 Diga l em casa que tudo cab bem; Sinh Ferno est livre.
Foi um grande alvio. Momentos depois, Ferno entrou em casa acompanhado por parentes e amigos que ainda lhe davam parabns e o abraavam, comovidos. Maria Letcia 
esperou-o com o tranqilo sorriso nos lbios, mas, quando viu o marido um pouco plido ainda e com uma expresso tristonha no rosto, abraou-o chorando. Flix sorriu:
        Que  isso, mana? Em vez de rir, est chorando?
Augusto sugeriu:
        Se tudo acabou bem, vamos festejar condignamente, em vez de chorar.
Loureno exultou:
        A corrente abolicionista nada conseguiu desta vez. E papai gritou para Benedito.
        Benedito, traga o conhaque Napolon.
O Dr. Maranho, o Cnego Soares, o Lopes, rodeavam Ferno; Maria Letcia, sentada ao lado dele, pedia pormenores do julgamento. Alberto, tio Antnio e os outros 
irmos repisavam os fatos passados na sala do Tribunal insistindo em que o Dr. Simes lanara por terra de modo brilhante as torpes acusaes das testemunhas. Foi 
ento que o Lopes contou de uma maneira magnfica o que acontecera no Tribunal do Jri.
Todos ns escutamos atentamente, no querendo perder uma s palavra e ficamos cientes de tudo o que se passara. Com o copo de conhaque numa das mos, com a outra 
o velho Lopes fazia largos gestos descrevendo o que sucedera:
        Ferno Seixas respondeu com serenidade s perguntas do juiz; declarou seu nome, idade, naturalidade, estado, profisso e residncia. Perguntaram-lhe em 
seguida onde se achava no dia dezoito de junho de 1872, o dia em que se verificou a morte da escrava Inocncia. Respondeu que estava em casa dormindo e s soube 
da morte no dia seguinte cedo, pois a escrava faleceu durante a noite; mandou lev-la ento ao cemitrio.
Perguntaram-lhe de que faleceu sua escrava Inocncia, e como teve conhecimento. Respondeu que na sua convico e no parecer do mdico da famlia, o Dr. Maranho, 
a escrava havia morrido de uma sncope. Soube por sua esposa no dia seguinte e esta ouviu a notcia de sua escrava Modesta...
Papai interrompeu:
        Perguntaram tambm o que fez ao ter a notcia...
O velho Lopes levantou a mo pedindo que esperasse; levou o copo bojudo aos lbios e tomou um gole.
        Perguntaram-lhe o que fez ao ter notcia. Respondeu que, tendo sido inteis todos os esforos feitos para salvar a escrava, resolveu ento enviar o escravo 
de nome Tomsio ao Rev. Cura da S, e a este pedir o atestado de bito para o sepultamento da referida escrava, visto que o mdico Dr. Maranho, a quem havia mandado 
chamar, estava ausente de S. Paulo.
Perguntaram-lhe o porqu da urgncia com que havia providenciado para o enterramento. Respondeu que, na sua boa f, vendo que nada mais havia a fazer, preferiu que 
o cadver seguisse para o cemitrio e l ficasse depositado, se necessrio, em vez de permanecer em sua casa.
Tio Antnio interrompeu desta vez:
        Nesse ponto est o erro capital. Nunca deviam mandar imediatamente para o cemitrio o cadver da escrava. Deviam enterr-lo  tarde e no de manh; o corpo 
devia ficar na chcara.
Ferno sacudiu os ombros:
        Como podia eu imaginar que ia acontecer o que aconteceu, se tinha a conscincia tranqila?
O Lopes continuou:
        Perguntaram-lhe se alguma pessoa da famlia ou algum da casa havia dado ordem para o sepultamento ser feito com urgncia, conforme o depoimento das testemunhas. 
Respondeu que pode asseverar que no, ningum da famlia ou da casa deu essa ordem e no lhe consta que alguma pessoa tivesse feito tal recomendao.
Alberto perguntou:
        Houve testemunhas que ouviram a ordem de sepultar com urgncia?
        Houve.
O Lopes fez uma pausa:
        Perguntaram-lhe se a escrava Inocncia sofreu os castigos constantes do libelo oficial e quais e quantas vezes cada dia e por quem foi isso feito e executado, 
e bem assim por quem ordenados esses castigos. Respondeu que efetivamente a escrava havia sofrido no dia de seu falecimento alguns castigos, mas no tantos como 
se diz, e que esses castigos foram em conseqncia de desmandos e desobedincia, tendo mandado que, depoente, aplicar os castigos pelo seu feitor Joaquim. Disse 
mais que os castigos em questo tiveram lugar nesse dia 18 e no em dias consecutivos, como caluniosamente afirmaram algumas testemunhas, tendo ele o costume de 
s mandar aplicar castigos com o fim de corrigir, retirando assim a calnia que lhe assacaram.
Nesse ponto, o juiz observou ao interrogado, como lhe pareceu a bem do interesse da verdade e como objeto principal de toda indagao da Justia, que falasse com 
sinceridade ao Tribunal, independentemente de qualquer movimento de sua vontade ou em razo do seu ttulo e posio como chefe de famlia, na presente situao, 
dizendo qual a parte de responsabilidade que lhe cabia pelos fatos constantes da acusao, bem como a parte da responsabilidade que cabia  co-pronunciada mulher 
do acusado. Respondeu que tendo anteriormente dado as mesmas ordens, como tinha o governo da casa, essas por sua responsabilidade eram executadas, sendo ele, portanto, 
quem mandou aplicar os castigos em questo (estando sua mulher em estado delicado de sade), declarando que considera o fato da morte da escrava uma infelicidade 
pela qual no pode dar explicaes, mas que seria incapaz de mandar praticar barbaridades.
Perguntaram-lhe quais os mdicos que deram parecer sobre a morte da escrava. Respondeu que um parecer foi dado nesta cidade pelo Dr. Romualdo Maranho e outro pelo 
Dr. Lus Suzano, mdico da corte.
Flix interrompeu perguntando se Ferno conhecia as testemunhas que o acusaram; o Lopes retomou a palavra:
        Perguntaram-lhe tambm isso; se conhecia as testemunhas e se tinha razes particulares a que atribuir o seu depoimento. Respondeu que conhecia algumas apenas 
de vista, e no tinha motivos nem razes, a no ser a m vontade, a que atribuir tal depoimento.
Perguntaram-lhe tambm se tinha fatos ou cousas a alegar ou motivos que provassem ou mostrassem sua inocncia. Respondeu que sim e que a defesa os apresentaria na 
esperana de provar a verdade. Perguntaram-lhe finalmente se tinha alguma declarao a fazer ou algum fato a esclarecer ao Tribunal, a bem da verdade e da Justia. 
Respondeu que tinha documentos e que estes seriam apresentados pelo advogado de defesa.
Houve um longo silncio na sala quando o velho Lopes acabou de falar. Tio Antnio fez uma observao:
        A acusao foi forte; acusou firmada nas testemunhas e nos depoimentos. O promotor citou as testemunhas uma por uma e historiou os fatos; disse que a maioria 
dos escravos de D. Deolinda Menezes ouviu a ordem dada ao feitor por Maria Letcia como tambm quando a escrava foi aoitada, pois dava gritos agudos, pedindo que 
no batessem mais pelo amor de Deus.
Maria Letcia, plida, ouvia atentamente as palavras de tio Antnio. De repente perguntou:
        D. Deolinda tambm ouviu a ordem, tio Antnio?
Flix respondeu por tio Antnio:
        Diz que no, por que no estava em casa nesse dia, mas quando chegou no dia seguinte ficou ciente, por sua escrava Raimunda, que na casa vizinha haviam 
matado uma escrava com aoites.
Leopoldina abafou um gritinho:
        Impossvel! Que mentira!
O Lopes tornou a falar:
        Outras testemunhas tambm depuseram dizendo que no dia 19 de junho viram passar uma rede ensangentada levada por dois negros que conduziam um cadver ao 
cemitrio.
E o interessante  que dois escravos do comendador Menezes estavam no cemitrio a essa hora e ouviram os escravos que levavam a rede pedirem para enterrarem o cadver 
com a maior urgncia possvel.
Ferno sacudiu a cabea e disse num tom desanimado:
        Isso no posso compreender, pois no dei ordem nenhuma nesse sentido. Por que enterrar a escrava com urgncia?
Alberto acrescentou:
        Eu no entendo nada. Onde estavam as testemunhas que ouviram quase tudo? E como ouviram?
Papai contou que a acusao durou muitas horas; nos intervalos que se faziam algumas vezes, ouvia-se o vento assobiar atravs das ruas e os lampies rangerem nos 
braos de ferro. Foi reaberta a sesso e Ferno foi novamente conduzido  presena do Jri; os debates prosseguiram. O advogado da defesa comeou com estas palavras: 
Por entre as Inumas de um tmulo, envolto na mudez irremedivel da morte, vela-se um mistrio que a inteligncia humana no pode descobrir.
Contaram ento que o advogado Simes falou com voz magnfica, que atroava fortemente pelo recinto; foi imponente na defesa. Examinou com detalhes o auto de corpo 
de delito para chegar  concluso de que este no confirmava o atestado e parecer mdicos atribuindo causa natural  morte da escrava Inocncia. Analisou os depoimentos 
das testemunhas, depois de estudar-lhes a idoneidade moral, e apontou contradies insofismveis que convenciam da mendacidade de tais testemunhas. Depois de duas 
horas, encerrou seu trabalho com estas palavras: Senhores jurados! Neste processo, de que a verdade fugiu como a sombra batida pelo sol, esto em jogo, no apenas 
a liberdade e a reputao do acusado, o que  muito, mas o prestgio da Justia, que  tudo. Nesta hora trgica, em que a noite expira e o dia vem raiando, a Justia 
sois vs, Juzes de fato e de conscincia; sois, sim, a Justia, mas essa Justia que eleva e dignifica, opera
 ndo ressurreies, e no a que se confunde na preamar das paixes que mentem, enganam e envilecem a humanidade. Sois a Justia que no condena sem provas certas, 
claras e incontestveis, respondendo aos que acusam sem oferecer essas provas, pois a dvida equivale  convico de inocncia. Tudo nesta causa  dvida, menos 
a segurana de que o acusado com a lgica dos fatos e das circunstncias, com seu passado ilibado e nobre, respondeu vantajosamente as reticncias, sem mscaras 
de perfdias, dos urdidores da trama que havia de rematar nesse processo. A trama, porm, repelida pelo veredictum absolutrio, que vos adjuro a proferirdes, senhores 
jurados, em nome da Justia, no impediu e nem impedir que o acusado transmita a seus filhos o legado supremo de um nome honrado e respeitvel.
Copiei as palavras do advogado e a histria toda do processo de um folheto que papai mandou imprimir, o caso de Ferno, como chamvamos. Assim terminou o processo 
com a absolvio de Ferno, Visconde de Santarm e do feitor Joaquim, igualmente considerado sem culpa.
Tomamos ch enquanto os homens tomavam conhaque; depois, papai tirou o relgio do bolso:
        Meus filhos e amigos, devemos dar graas a Deus porque tudo terminou bem, e para nossa felicidade. Hoje est comeando um novo dia, e vamos procurar esquecer 
o que se passou.
Todos se levantaram para se recolher; os amigos deixaram a casa. Fui para o quarto onde Adelaide e Cristina j estavam recolhidas e, mal me tinha deitado, Maria 
Letcia entrou com uma vela na mo. Sentei-me na cama, encarando-a.
        Que h, Maria Letcia?
Ela falou em voz baixa tapando a chama da vela com a mo direita.
        Embarcamos para a Europa no primeiro vapor, mana Rosa. Meu marido no se sente com coragem para continuar aqui.
        Para a Europa? To longe? Por que no vo para Santarm?
        Ferno disse que prefere a Europa; no quer mais ver esse advogado que o acusou to fortemente, esses jurados que o olhavam, o juiz que o interrogou como 
quem interroga um negro fugido. Diz que no pode continuar aqui, quer ir para longe...
Sentada na cama, fiquei imvel, olhando para Maria Letcia que, a meu lado, continuava:
        Falei para ele ter coragem, tudo j passou e acabou bem, no devia ficar assim desanimado, mas foi intil; quer ir embora. Disse que falo assim porque no 
passei pelo que ele passou, as noites sem sono, as horas incertas, a dvida, a depresso que sentiu quando o advogado Simes relatou o depoimento das testemunhas. 
Disse que no pode, que adoecer se ficar.
        E a chcara? perguntei.
        Diz que o mano Andr tomar conta, at j falou com ele.
        E a fazenda?
        O mano Andr tambm olhar pela fazenda; e o administrador  muito trabalhador e muito honesto. Diz que tem confiana.
        Houve um silncio. Depois perguntei:
        E o filho que voc est esperando? Como ?
        Falei tambm sobre isso: disse que a viagem levar uns trinta e poucos dias e, como espero s l para o fim do ano, posso ter a criana l. O navio em que 
vamos  o Dussant, que passa daqui a quinze dias. Diz que o advogado j tomou as providncias e o navio  grande e cmodo. Amanh j vou comear a preparar tudo; 
vou pedir a papai para emprestar-me as malas grandes.
        Novo silncio. Perguntei:
        Para onde vo?
        Para a Frana.
        Por quanto tempo?
        No sei ainda, talvez uns seis meses. Passa depressa.
Maria Letcia ficou olhando para mim; levantou mais a vela para me ver melhor. De repente, sussurrou:
        Mana Rosa, pode fazer-me um favor?
        Favor? Naturalmente que posso. O que ? Ela hesitou, depois disse:
        Desejo que nos faa companhia.
Levantei a mo num gesto de protesto e de surpresa; ela continuou:
        Ferno manda pedir, mana Rosa. Assim me ajuda a lidar com as crianas. Vamos. Voc disse que faria o favor, no disse?
- E Modesta?
        Modesta vai para lidar com Antnio Ferno; levaremos Tomsio tambm. Ferno no passa sem ele. Vamos, mana Rosa.
Eram cinco horas da manh, quando, depois de muita relutncia, prometi acompanh-los; o vento de agosto sibilava l fora, sacudindo os lampies nos braos de ferro, 
empurrando as portas e tentando entrar pelas janelas cerradas. Parecia um bando de demnios soltos a fazer estripulias pela cidade deserta.
Levantei-me cedo sem ter dormido quase nada e nesse mesmo dia comeamos os preparativos para a longa viagem, to longa que tive medo de nunca mais voltar.

No mesmo dia, comeamos os preparativos de viagem; meus pais deram-me licena para acompanhar Maria Letcia e Ferno, mas no apoiaram a resoluo sbita da viagem. 
Ferno, porm, permaneceu inflexvel. Fui para a chcara da Penha auxiliar a empacotar roupas e objetos mais necessrios; engavetamos pratas, cristais e porcelanas, 
as moblias, os quadros e as estatuetas foram cobertos com brim pardo para se resguardarem do p, os tapetes, enrolados. Ferno determinou tudo conforme pde, deixou 
seus negcios nas mos do Dr. Simes e encarregou o irmo Andr de dirigir a chcara e a fazenda. Ele e Maria Letcia no se despediram de ningum, disseram que 
depois escreveriam. Eu fiz algumas despedidas necessrias. Fui ento com Carola  Rua da Imperatriz despedir-me das Lages, depois ao Largo da Memria, onde residiam 
nossas primas Simes. Em seguida, mandei a carruagem passar em casa de Leopoldina, que era ali mesmo na la
 deira; fomos encontr-la no quarto dos doces, atrapalhada com as formigas que haviam invadido os potes de melado; uma das mucamas estava pregando oraes de S. 
Brs em todos os potes para afastar as formigas, pois isso era muito bom. Quando deixamos Leopoldina, encontramos um velho escravo vendendo imagens de madeira de 
Santo Onofre, So Damio e outros santos; comprei um Santo Onofre para me acompanhar na viagem  Europa.
Afinal, chegou o dia da partida; foi em fins de agosto, num dia em que o sol amarelado espalhava um brilho triste sobre S. Paulo. Tomamos o trem para Santos; foi 
tudo to rpido e inesperado que nem tivemos tempo de pensar; quando sentimos a realidade, nossos pais, irmos e o mais a que queramos bem, haviam ficado para trs, 
sabe Deus por quanto tempo.
Descendo a serra, Maria Letcia disse que a vida  muito estranha e nunca pensara em fazer essa inesperada viagem, que mais parecia uma fuga. Depois, conversamos 
em voz baixa; disse-me que Ferno andava sempre triste, numa atitude apreensiva, no era o mesmo de antes; j no era alegre, nem expansivo, no tinha os movimentos 
rpidos que tanto lhe distinguiam a personalidade; vivia triste. Perguntou-me o que seria, achava que era a nica culpada de toda aquela tristeza. Respondi que tudo 
era cisma, no havia nada e Ferno era o mesmo. Ela tornou a dizer que no e, quando pensava nisso, sentia-se sufocar, afinal, pensando bem, ela matara uma escrava, 
uma criatura humana que tinha tanto direito  vida como ela prpria, como seu filho Antnio Ferno que estava dormindo no colo de Modesta, como seu marido. Por mais 
que vivesse, no poderia esquecer e por mais que a confortassem dizendo que a culpa no era dela, sabia bem que era. Tinha certeza.
 Tudo isso ela me disse enquanto o trem descia a serra; para disfarar a angstia, olhava atravs da vidraa a paisagem que se desenrolava l fora. Disse afinal:
        Pensei que tudo terminasse quando Ferno sasse livre do julgamento, mas me enganei, mana Rosa. Ele continua arredio e indiferente. No  mais carinhoso 
para mim como antes, parece at evitar-me a companhia.
Perguntei se estava variando devido  viagem, pois Ferno era o mesmo de sempre. Respondeu:
        S penso que vou morrer quando tiver a criana; j fui advertida do que vai acontecer. Morrerei.
Nada repliquei e ela continuou a falar:
        J sei at o que os jornais vo dizer da minha morte; papai e mame vo ficar consternados.
        Oh, Maria Letcia, no pense em tais cousas.
        A Baronesa de Sobral vai levantar o nariz pontudo para cima e vai dizer: No h como um dia depois do outro. Ela foi culpada da morte da escrava, agora 
chegou o seu dia.
        Olhe a paisagem, Maria Letcia, disse eu, procurando desconversar.
Ela no falou mais; o trem continuou descendo, descendo, at que avistamos uma parte da cidade de Santos e o mar coberto de nevoeiro; Antnio Ferno acordou e ficou 
olhando tudo com ar de admirao. Naquela mesma tarde, instalamo-nos no navio Dussant; dormimos a bordo e no dia seguinte partimos. Modesta e Tomsio foram conosco. 
Quando vimos a cidade desaparecer  distncia, depois os morros que a rodeavam, as montanhas, e s ficou o mar para qualquer lado que nos voltssemos, Maria Letcia 
apoiou os braos na grade do tombadilho e ficou olhando durante muito tempo, atravs das lgrimas, para o ponto onde o Brasil havia ficado.
A viagem foi longa e penosa; na cabina estreita e um pouco escura, Maria Letcia passava recostada a maior parte do tempo pensando. Era um pensar sem fim; pensava 
e falava comigo; nos pais, na mana Leopoldina, nos irmos, em Francisca Miquelina, na Chcara da Penha. At em D. Deolinda. Perguntava-me se no fora ela quem escrevera 
a carta annima; quem no adivinhava? S Ferno no queria ver claro. Aquela carta destrura a alegria da sua vida e a felicidade do seu amor. Mulher abominvel! 
De um lado, eu fazia roupinhas para a criana que ia nascer, ou ento lia um pouco para ela ouvir, mas logo o mal-estar a dominava de novo e ela se punha deitada 
de costas, olhando o teto da cabine e pensando... Trs dias depois j sabia de que jeito era o teto.
        Olhe mana, tem uma chapa de ferro pintada de branco. Do lado direito, h uma srie de sinais azuis que eu conto todos os dias at doze. Veja. Quando canso 
de contar em portugus, conto em francs; depois conto de diante para trs e salteado. Ali no dcimo sinal, h um risco irregular, parece uma unhada; fico s vezes 
meditando quem poderia ter dado unhada to grande... No meio do teto, quatro pontos pretos parecem marcas de ferrugem. Todos os dias, quando acordo de madrugada 
e todos ainda esto dormindo, pela claridade baa que entra pela vigia eu procuro os sinais da direita, os pontos pretos e a unhada.  o meu divertimento. Durante 
o dia tambm.
        E  noite, quando est escuro, voc dorme?
        Nem sempre. Ouo o barulho do mar incansvel, cheio de mistrios, e procuro localizar no escuro os sinais do teto.  uma obsesso, pensa que  s isso? 
Conheo todos os movimentos do navio e todos os estalos que d conforme os movimentos. Quando ele se inclina da direita para a esquerda, uma poro de tbuas estalam 
como se algum as estivesse rachando; quando se inclina em sentido contrrio, de uma ponta a outra, d uma guinada e geme, como se sofresse. No reparou ainda?
        No.
        E sabe que sei as horas mesmo sem ver o relgio? Adivinho pela cor da luz que entra pela vigia. Uma cor amarelo-claro  a madrugada; essa cor vai-se acentuando 
at amarelo mais vivo; ento  meio-dia. A cor rosada  o correr do dia; a cor roxa, o crepsculo; a cor negra,  noite.
Passaram-se dias e comeou a segunda semana de viagem; dois dias e duas noites o mar tornou-se agitado e escuro. Ondas enormes quase cobriam o navio; eu no deixava 
Maria Letcia, estava sempre na cabina com ela. No terceiro dia, ela me disse:
        Atrapalhei-me com a cor desta vez, mana Rosa. A cor roxa predominou durante horas, e dias. No acertei mais.
No tomava quase alimento; o mdico de bordo deu-lhe calmantes. Dormia pouco. Disse-me que passava muitas noites ouvindo os estalos do navio e procurando decifrar 
a linguagem de estalos e gemidos; interpretava-os como podia, para passar o tempo. Queria tambm interpretar o que as ondas diziam quando vinham, uma atrs das outras, 
bater contra o costado do navio num vaivm constante. Dizia-me:
        Devem ser ais dos que morrem no mar.
Via Ferno s de manh e  noite, quando se recolhia. Ele perguntava como ela havia passado, conversava um pouco e dormia. Eu ia para a cabina vizinha onde dormia 
com Modesta e Antnio Ferno. Ferno contava que passava os dias jogando com o capito e outros companheiros; dizia que o menino estava aproveitando muito, brincava 
no tombadilho com Modesta e as crianas de bordo. Antnio Ferno no ficava quase com Maria Letcia; naquela cabina pequena e escura, a criana no se sentia feliz. 
Ento, logo de manh, saam todos, vidos de ar e de luz, e eu ficava sozinha com Maria Letcia, ouvindo as vozes e os risos dos que passavam pelo corredor. De costas, 
contando os sinais do teto, Maria Letcia esperava que mais um dia se passasse.
Quando o navio chegou a Lisboa, ela se levantou e foi para o tombadilho; triste e enfraquecida. Ficou olhando o marido e o filho que desceram para visitar a cidade. 
 tarde, Modesta e o menino voltaram descrevendo tudo, especialmente os jardins que tinham visitado. Ferno ficara em terra para jantar com uns amigos, s voltaria 
 noite. S bem tarde ele voltou, quando faltava meia hora para o navio largar; chegou contando as belezas da cidade e o magnfico dia que passara. Depois, adormeceu 
tranqilamente.
Maria Letcia passou a noite em claro, sentindo-se mal; no quis chamar ningum, julgando que melhorasse, mas o dia chegou e o mal-estar continuou. O mdico veio 
v-la de novo e disse que ela no esperaria o fim da viagem; a criana iria nascer talvez no dia seguinte. Ficamos alarmados e preparados para o acontecimento, mas 
nessa altura o navio entrou em guas espanholas e quando o Dussant parou em Vigo, Ferno, aconselhado pelo mdico, resolveu desembarcar.
Maria Letcia foi imediatamente transportada para um hospital da cidade, enquanto a criana, eu e Modesta fomos para um hotel. Naquela mesma noite, Maria Letcia 
deu  luz um filho, Paulo; nasceu antes da poca determinada e Maria Letcia no morreu, como desejava.
Tivemos que ficar quase dois meses em Vigo, pequeno porto de mar, ento sempre envolto em nevoeiro, e onde tudo era difcil e primitivo. Duas ou trs vezes, Ferno 
deixou-nos e foi para Madrid, onde passou vrios dias sem dar notcias. S em fins de novembro, quando o inverno europeu j se fazia anunciar, ameaador, Maria Letcia 
sentiu-se mais forte para continuar a viagem at  Frana.
Instalamo-nos num hotel em Paris e Ferno logo arranjou uma ama para tomar conta do pequeno; depois transferimo-nos para um apartamento na Rua Saint Roch, perto 
do Jardim das Tulherias, onde ficamos definitivamente. O inverno j havia cado sobre Paris; as rvores pareciam humilhadas na sua nudez, os pssaros haviam desaparecido 
dos parques e antes das quatro horas da tarde era preciso acender todas as luzes. Nas ruas e nas lojas, o gs brilhava desde cedo, espalhando cintilaes azuladas 
nas vitrinas de modas e de flores, fazendo parecer tudo mais distante, mais inacessvel. E num dia de dezembro a neve comeou a cair em floquinhos midos e leves, 
durante a tarde e a noite, ininterruptamente; na manh seguinte, a cidade amanheceu toda branca, como se algum a tivesse transformado. Sobre os portes dos jardins 
e nas grades de ferro havia capuzes brancos e as rvores apresentavam seus galhos pesados e espessos. Ficamos maravilhados; passamos o dia
  todo sentadas perto da janela olhando a rua, o jardim ao longe e o telhado das casas mais baixas, onde a neve se acumulava em montinhos pequenos e, enquanto se 
ia derretendo, a gua escorria ao longo das casas, deixando sulcos. E a neve caiu durante todo aquele dia, teimosamente; Antnio Ferno quis sair um pouquinho para 
pegar aquela bolinha branca que caa do cu e foi com Modesta dar uma volta pelo parque, todo enrolado em ls, s o rostinho de fora. Voltou com o nariz vermelho 
e gelado de frio.
Quase em fevereiro recebemos as primeiras cartas do Brasil; uma de Leopoldina e outra de mame. Ficamos com elas na mo durante muito tempo antes de abri-las; depois, 
rasgamos os envelopes bem devagar, antegozando o prazer de ter notcias da famlia; lemos uma, depois outra, depois a primeira novamente. A carta de mame pouco 
contava, mas a de Leopoldina vinha cheia de notcias:
Queridas manas:
Temos tido muitas saudades de vocs; nossa surpresa foi grande quando soubemos do nascimento de Paulo em terras da Espanha. Como vai a criancinha? E Maria Letcia, 
est forte agora?
Nosso tio conselheiro morreu no dia 17 de dezembro, dizem que de desgosto pelo desaparecimento do primo Fabrcio em Cerro-Cor. Papai est muito amofinado e estamos 
de luto.
Francisca Miquelina est em So Paulo esperando o segundo filho, mas veio muito antes do tempo e nossa me ralhou com ela; disse que o lugar dela  na fazenda, ao 
lado do esposo. No sei por que no gosta muito de l, tudo serve de pretexto para vir  cidade.
A Baronesa de Sobral esteve aqui no dia em que partiram para Santos, dessa vez chegou tarde e ficou com o nariz pontudo quando soube que Maria Letcia e Ferno j 
tinham embarcado para a Europa. Ia me esquecendo de contar que mana Leontina veio do Rio de Janeiro para passar uns tempos aqui; dizem que no Rio de Janeiro correu 
a nova de que quem ia responder jri era Maria Letcia e no o primo Ferno. A Sobral j nos tinha falado qualquer cousa a respeito; a Idade do ouro do Brasil do 
ms de setembro trouxe uma referncia sobre o caso e papai no gostou muito, bem desagradvel. Vejam que absurdo! Uma senhora da sociedade ser julgada por uma cousa 
 toa, e ainda mais quando no tem culpa. Tolices. J contei que estou esperando outro filho?  para fins de julho. Maria Letcia e mana Rosa tm passeado muito? 
J conhecem bem Paris? Aceite as saudades muito sinceras de Alberto e beijos dos filhos. Um abrao apertado da Leopoldina P. S.  Ad
 eus. Nossas saudades ao primo Ferno e aos filhinhos. O segundo filho de Leontina j est sentando;  muito brejeiro.
Mas muito tempo se passou antes que Maria Letcia desse seu primeiro passeio. Sa com Modesta mais de uma vez para ver se Maria Letcia ficava mais animada; notei 
ento que os chapus que Maria Letcia e eu havamos trazido do Brasil j no estavam em moda; eram uma espcie de gorra enfeitada com penas de perdiz. Nas lojas 
do bairro em que morvamos, vi chapus bem diferentes: comprei um para mim e joguei fora minha gorra. Comprei botinas com cano mais curto e no usei mais as que 
usava em S. Paulo, com cano at o meio da perna. Escrevi s minhas irms: No usem mais gorras com penas de perdiz, nem botinas com canos at o meio das pernas; 
e mandei dentro da carta modelos do que mais se usava em Paris.
O inverno j ia desaparecendo e a primavera se fazia anunciar; o cu estava mais azul, as rvores comeavam a vestir-se de verde e nos jardins ouvia-se o trinado 
dos pssaros, cada dia mais. Flores brotavam nos canteiros, nos terraos e nos vasos suspensos da sacada; foi quando Maria Letcia resolveu ir com o marido, eu e 
Antnio Ferno dar seu primeiro passeio de carro. Ningum compreendia porque ela no queria sair; os mdicos, interrogados, nada souberam dizer; apenas disseram 
que a doena dela era mais na alma que no corpo. Era inacreditvel que uma mulher jovem e bela como Maria Letcia tivesse to pouca vontade de viver; ningum compreendia, 
apenas eu. Os mdicos diziam que o segundo parto a debilitara muito, contudo, pelo tempo que passara j devia estar completamente restabelecida. Mas no estava; 
sentia profunda apatia e olhava tudo com grande indiferena; passou todo o inverno no apartamento e mesmo quando todos saamos, e
 la ficava deitada no sof da sala ou sentada perto da vidraa, quieta e cismadora. S eu sabia das noites de insnia, do mal que a aniquilava; Ferno fora nobre 
tomando a responsabilidade sobre si e comparecera ao banco dos rus; mas no ntimo, bem no ntimo, creio que a achava culpada, pois se assim no fosse no fugiria 
dela e nem se tornaria indiferente ao amor que os unira. Era evidente que ele se esforava para continuar como antes, para esquecer o passado, mas era intil. O 
passado era muito poderoso para ser esquecido e ali estava entre os dois, como uma barreira de pedra, separando-os inexoravelmente. E assim todo o inverno se escoou. 
Ferno matriculou-se numa Universidade e comeou a fazer o curso de Filosofia; passava quase todo o dia fora; comprou um cavalo e todas as manhs ia passear no Bois 
com alguns amigos. J entabulara relaes de amizade e quando no o viam na Universidade, nem passeando a cavalo, estava na Embaixada B
 rasileira, onde conhecia todo o pessoal.
Num dia de primavera, ele forou Maria Letcia a sair de carro, fomos ento, com o menino, dar um grande passeio. Ainda fazia frio e um vento cortante, de fim de 
inverno, fustigava-nos as faces, mas o sol estava dourado, as aves cantavam e as flores desabrochavam pelos cantos; a cidade parecia acordar de um sono pesado, aps 
uma noite longa e escura.
A carruagem passou diante da massa imponente da Notre Dame, na Ilha da Cite, no Sena. Ficamos comovidas; lembramo-nos das histrias que tio Antnio contava a respeito 
da Notre Dame, aureolada de mistrios; l estava ela, erguendo-se majestosa com as duas torres achatadas e batidas pelo sol da primavera. Atravessamos a Pont Neuf 
sobre o Sena; o rio corria mais rpido sem os gelos do inverno e suas guas pareciam mais claras e tranqilas;  margem esquerda as velhas casas se destacavam escuras. 
Entramos na Rua Rivoli; de um lado as vitrinas cintilantes de jias e objetos preciosos; do outro lado, vimos a massa cinzenta a destacar-se contra o cu. A carruagem 
dobrou o canal da Rua Marengo e dirigiu-se para a Praa da Concrdia; a esttua da praa estava coberta de crepe e rodeada de coroas; parecia de luto. Ferno explicou-nos 
que desde 1870 a Frana chorava a perda da Alscia e Lorena na guerra contra a Prssia e, em sinal de luto, a esttu
 a que representava a cidade de Strasburgo era conservada envolta em crepe negro. Maria Letcia lembrou-se de escrever ao tio para contar-lhe o fato; falou nos termos 
da carta enquanto a carruagem ia contornando a praa: Querido tio, a Frana ainda chora as cidades da Alscia e Lorena que perdeu na guerra de 70: se o senhor estivesse 
aqui, veria o crepe negro envolvendo a esttua de Strasburgo. Fiquei muito comovida....
A noite, sentados em volta da mesa de jantar iluminada por uma grande lmpada a leo, Antnio Ferno comentou o passeio desse dia; de repente, Ferno perguntou a 
Maria Letcia se no queria viajar um pouco; iriam  ustria, Alemanha, talvez Inglaterra. As crianas ficariam comigo; assim eles haviam de se distrair e conhecer 
outras cidades. Olhei Maria Letcia e fiz um breve sinal para que aceitasse; ela olhou o filho mais novo no colo da ama e concordou distrada.
Foi naquela ocasio, quando Paris vibrava de alegria e vida, que nosso mano Incio chegou da Itlia para visitar-nos, era alto e forte e conservava uma barba alourada 
 volta rosto. Quase no conhecemos nosso irmo, pois havia anos no o vamos; ficamos um pouco acanhadas a princpio, pois nos era quase um estranho. Falava portugus 
misturando com palavras francesas e italianas, e assustava Paulo, o pequeno, tinha voz forte e autoritria. Passou trs dias conosco, comeou a sentir-se de tal 
forma adaptado  vida europia que no suportava a idia de voltar ao Brasil; havamos de sentir, se demorssemos algum tempo mais. J havia terminado o estudo de 
pintura, mas queria tomar lies com um mestre italiano. Aquilo sim,  que era vida.
No terceiro dia, refletia maior intimidade entre todos, Incio falou sobre o julgamento de Ferno; contou que recebeu uma carta de um dos primos Sousa Mendes, dizia 
ele na carta que rompera relaes com um amigo e que esse amigo ousara insinuar que Maria Letcia era quem devia ter respondido jri, e no o marido. Dera a entender 
que ela fora covarde, pois nunca devia ter permitido que Ferno enfrentasse os jurados sendo ela a acusada.
Mano Incio, entusiasmado com o vinho que bebera ao almoo, bateu com a mo direita fechada sobre a mesa, fazendo saltar os copos e tinir os pratos:
        Ento h algum que se atreve a acusar a mana? Ah! canalha! Ho de ver quando eu chegar ao Brasil! Ho de se avir comigo. Vou procurar um por um e desafiar 
para que repitam essas mesmas palavras que disseram ao primo Loureno. Canalha mida! Ho de ver o barulho que irei fazer!
Na mesma noite, mano Incio tomou o trem para Roma. Esquecendo o que dissera ao almoo partiu dizendo no pretender voltar ao Brasil, nunca mais. Beijou as crianas, 
roando-lhes as faces com sua barba sedosa e loura, beijou-nos na fronte e, despedindo-se amistosamente de Ferno, saiu pisando firme, deixando atrs de si o suave 
perfume de guas e pomadas caras. Maria Letcia ficou pensativa; depois, me disse:
        Fiquei to contente quando mano Incio disse que ia defender-me quando voltasse ao Brasil; depois creio que ele esqueceu que prometeu defender-me porque 
acabou dizendo no pretender voltar ao Brasil. No me deixam tranqila, mana Rosa. No basta o que estou sofrendo? Ainda aparecem gotas para fazer transbordar meu 
clice de amargura; por que no me deixam em paz? Dizem que sou covarde... Eu no sou covarde! Um dia ainda provarei!
Escondeu o rosto entre as mos e ficou horas inteiras imvel e sozinha sentada a um canto da sala.
Em agosto, quando Ferno teve as frias de vero, Maria Letcia acompanhou-o numa viagem rpida  ustria. Fiquei com as crianas. Quando pensei que ainda estavam 
a caminho, ei-los de volta e nessa mesma noite ela contou-me que no suportara a saudade dos filhos. Haviam seguido diretamente para Viena; fazia calor e a grande 
cidade palpitava de vida. Mostrou-me a imagem de Cristo que havia comprado, dizendo:
 Veja, mana, este Cristo Redentor; comprei na Rua Grabeu,  de Thorwaldsen. Trouxe tambm uns brinquedos para os meninos e uma blusa para voc.
Contou que no domingo haviam tomado um carro aberto foram passar o dia no Prater; seguiram por uma estrada em que atravessava granjas, grupos de rvores, campos 
floridos; as papoulas alegravam os caminhos e os pssaros voavam sobre a carruagem soltando pios estridentes, enquanto gralhas esvoaavam diante dos cavalos. Depois 
de atravessarem um bosque de faias, chegaram ao Prater; havia relva e, ao fundo, a mata fresca e sombria. No rio em frente e aos lados do restaurante, espalhavam-se 
bancos que serviam aos que vinham procurar as sossego do abafamento e calor da cidade; o dono do restaurante apareceu, solcito, tendo na cabea um gorro de Iinho 
preto bordado de amarelo. Ferno encomendou uma bebida numa das mesas do ptio, e para fazer tempo foram pelos atalhos do bosque at uma ponte de madeira e um riozinho; 
a, Ferno inclinou-se numa das margens e bebeu com a mo a gua fresca; almoaram depois sob as rvores frondosas, observando as famlia
 s que se espalhavam. Vendo as outras crianas que corriam e brincavam em volta das mesas, Maria Letcia teve saudades dos filhos e desejou voltar imediatamente 
a Paris; lembrou que Paulo ia fazer um ano no fim do ms e quis ardentemente abra-lo.
Tentou dissuadi-la, dizendo que ainda estavam no princpio da viagem, pois pretendia lev-la a Bruxelas e Londres; tudo foi intil. Queria voltar o mais depressa 
possvel.
Entramos na carruagem para voltar a Viena; a estrada estava movimentada e cheia de p. Os cavalos trotavam e o cocheiro tinha uma pena verde no chapu; o chicote 
e cantarolava baixinho. Que gente alegre!
Atravs da estrada as papoulas vermelhas balanavam-se com o vento; no sei por que, lembrei que podia morrer de repente e pedi a Ferno que, quando eu estivesse 
doente, para morrer, pusesse nas minhas mos o Cristo Redentor; gosto da cabea do Cristo, j reparou? Tem no olhar uma tal expresso de doura e de promessas de 
paz, que desejo ser enterrada com ele.
Sorri e ela me olhou sorrindo tambm:
        Ferno tambm se riu de minhas palavras e disse que esse dia estava muito longe, que sou muito moa e forte para pensar na morte. Ento, olhei a paisagem 
aos lados do caminho, a alegria daqueles campos floridos, o cu que arroxeava no crepsculo, e repliquei que para a morte no h idade, ela vem e leva sem escolher, 
sem procurar, sem esperar. s cegas.
Tomei a imagem de Cristo entre minhas mos e fiquei olhando; houve um longo silncio, depois perguntei:
- No dia seguinte vieram embora?
        No dia seguinte, sim; mas, nessa mesma noite, Ferno levou-me a um lugar muito divertido, a Neue Welt, o melhor lugar de diverses da cidade; estava iluminado 
por grande nmero de bicos de gs ocultos numa espcie de flor de vidro formando tulipas; havia muita gente a divertir-se e as mesinhas, escondidas entre a folhagem, 
tinham um lindo aspecto.
Danavam e cantavam.
 E vocs danaram?
        Uma vez s. A princpio, eu no quis, apenas olhava os outros; s pensava em voltar para junto dos filhos. Depois, quando ouvi a orquestra tocar valsas 
to lindas, pedi a Ferno para danar uma das valsas... A orquestra era magnfica, sabe? E nunca poderei esquecer que o prprio compositor dirigia a orquestra. A 
valsa que dancei chamava-se O Belo Danbio Azul e guardei na memria um trecho da letra. Ah! Esquecia-me de contar que todo o mundo danava e cantava, por isso aprendi 
a letra e cantei tambm. Em francs.
        Voc cantou?
        Em surdina, mana Rosa. A valsa era to linda...
        E o compositor quem era?
        O nome dele  Johann Strauss II e a msica  assim, quer ouvir?
E Maria Letcia cantarolou para mim:
Fleuvre d'azur... Sur ton jlot pur... Glisse la voile... Comme une toile
 E no dia seguinte?
        No dia seguinte, tomamos o trem para Paris. Quando beijei os filhinhos, senti-me mais calma e mais feliz. Graas a Deus, chegamos.
Assim continuamos a mesma vida. No fim desse primeiro ano, perguntei uma noite a Ferno,  hora do jantar: No est na hora de voltarmos ao Brasil?
        Est com pressa de voltar, mana Rosa?
Respondi que no tinha pressa nenhuma e no se falou mais no assunto. Maria Letcia pouco saa; somente nas tardes ia com as crianas e a governante sentar-se num 
banco do jardim das Tulherias, onde ficava por algum tempo imvel pensativa, olhando os filhos brincarem... E assim se foi o lindo o tempo naquela rotina estreita; 
um ano, dois, trs, quatro, cinco... De trs em trs meses, recebamos cartas do Brasil; Adelaide j se casara com um primo-irmo, um filho de um irmo de mame; 
o casamento de Cristina estava tratado com o primo Vicente, filho do tio Baro Sousa Mendes. Francisca Miquelina j tinha quatro filhos, meninas e um menino; Leopoldina, 
porm tivera uma folga do quinto e passara dois anos sem novidade. Mas todas elas diziam que papai e mame nunca mais tiveram alegria, viviam tristes com nossa ausncia. 
Mesmo o casamento de Adelaide fora muito ntimo e no houve festa. Perguntavam sempre quando voltaramos, e, numa car
 ta muito ntima que recebi de Leopoldina, dizia ela que a tristeza de nossos pais vinha desde o julgamento de Ferno; isso os havia acabado muito, apesar de nunca 
dizerem, principalmente o pai.
No terceiro ano em Paris, Maria Letcia teve uma menina; Antnio Ferno j estava com seis anos, Paulo quase quatro. Eram crianas bonitas e sadias; falavam com 
a governanta e at com Modesta algumas vezes, aprendera a lngua da estranja. Ramos ao ouvi-lo responder ao porteiro: Oui, msieu. Meei trsi. Ferno adaptou-se 
de tal forma  vida em Paris que hesitava em retornar ao Brasil; levava uma vida elegante e de ocupaes. Possua cavalos e carruagens prprios; e viajava todos 
os meses.
Quando Maria nasceu, mudamos para um apartamento nas imediaes dos Campos Elseos e ocupamos todo primeiro andar. Eu saa, com os dois meninos e dvamos grandes 
voltas; fazia as compras tambm para todos. S Maria Letcia continuou a mesma, pouco mudou. Sentia incurvel nostalgia da ptria, mas nada dizia. Eu tambm sofria; 
chorava muitas vezes sozinha no quarto e nunca me queixei de ausncia to longa; suportava como podia o desejo de voltar, de rever os meus. Dedicava-me ento inteiramente 
aos sobrinhos e ficava admirada da indiferena de Maria Letcia para com Ferno; deixava o marido levar a vida que quisesse e nunca se incomodou com ele, ao menos, 
aparentemente.
Um dia, estvamos sozinhos em casa, quando Tomsio veio anunciar uma visita; estranhamos o semblante risonho de Tomsio, mas nada dissemos e dirigimo-nos ao salo; 
era to raro ter visitas! Quando a porta se abriu, vi um homem adiantar-se para Maria Letcia com os braos abertos; ela assustou-se a princpio, mas, fixando-lhe 
o rosto, reconheceu tio Antnio; dei um gritinho de espanto: Tio Antnio! Mas como estava diferente, a cabea inteiramente grisalha, profundas rugas a vincar-lhe 
as faces magras. Seus bigodes tambm grisalhos, no tinham mais o brilho da mocidade. Maria Letcia recostou-se no ombro dele, sem uma palavra e comeou a chorar; 
depois, conseguiu dizer: Tio Antnio! E torrentes de lgrimas brotaram-lhe dos olhos. Ele a abraou comovido:
 Ma petite! Ma petite Marie!
Ferno, que estava passando uma temporada em Londres, surpreendeu-se quando, na volta, encontrou tio Antnio:
 Como? Tio Antnio em carne e osso?
E falaram longamente sobre o Brasil; das famlias, dos conhecidos, das fazendas de caf, dos negcios. Durante noites seguidas, ficvamos  mesa depois que as crianas 
se recolhiam evocando a ptria. Tio Antnio contava como S. Paulo crescia dia a dia:
         como uma criana bem desenvolvida, que cresce depressa; nossa cidade j conta trinta mil habitantes, talvez at mais.
Ferno admirou-se:
        Ento vai muito bem! Em 1872 s havia vinte e sete mil habitantes. E a Provncia toda, quanto tem?
Tio Antnio hesitou, alisando os bigodes:
 No estou muito a par, mas creio que tem uns oitocentos e cinqenta mil habitantes.
Ficamos admirados. Ferno perguntou se as idias abolicionistas ainda eram discutidas. Tio Antnio animou-se:
 Como no? Trabalham sempre, trabalham na sombra, como sempre digo, mas nada conseguiro. Como podemos viver sem escravos? Eles so a nossa fora, o nosso alicerce, 
a razo de nosso progresso. Mais tarde, pode-se pensar nisso, mas no agora, o Brasil  muito novo.
Ferno concordou. Mais tarde, tio Antnio contou haver devolvido a papai a parte que lhe cabia nas terras de Taubat; com esse dinheiro viera dar um passeio; seno 
morreria de tdio. Contou tambm que Adelaide j tinha uma filha; Cristina estava casada, morando no Rio de Janeiro. Carola, coitada, daquele jeito mesmo. Nosso 
irmo Loureno est dando muitos aborrecimentos a papai, pois vivia com uma mulher de m vida, com quem no poderia casar-se; mame no sabia de nada. Levantando 
os braos para cima como um hbito seu, terminou dizendo:
 Isto  um grande desgosto para a famlia, um grande desgosto.
Deixou a maior novidade para o fim; a estrada de ferro Iigando S. Paulo ao Rio de Janeiro j estava adiantadssima. Ferno exultou:
 Oh! Mas isso  um grande progresso para nossa terra, Antnio! Vai facilitar o transporte do caf. Ferno mandou Tomsio trazer vinho especial para festejar a Estrada 
de Ferro Central do Brasil. Com essas novidades, as saudades da ptria se avivaram; e pela primeira vez, em muitos anos, Ferno falou em voltar. Ficamos mais esperanosos 
 idia do regresso.
Na noite, em que ficamos a ss com tio Antnio, Letcia falou, pela primeira vez, no caso da escrava.
De repente, Maria Letcia levanta a cabea:
 Tio Antnio, sabe que nunca me conformei com a escrava? E sabe que nunca me conformei tambm com Ferno ter comparecido ao Tribunal em meu lugar?
Eu devia sentar-me no banco dos rus, no ele. No posso esquecer-me do que ele sofreu por minha causa, por isso sofro tambm.
Tio Antnio que brincava com a tesourinha de bordar, voltou-se fazendo um gesto vago:
        O qu? J faz tantos anos que isso se passou e ainda se lembra? Pois se Ferno quis responder jri em seu lugar, fez muito bem, e foi muito nobre da parte 
dele; ademais, voc no estava em condies de comparecer no Tribunal. No, isso no.  um absurdo!
Sacudiu a mo no ar e acrescentou:
        Esquea, esquea.
        No posso esquecer. Estes cinco anos foram demasiado longos para mim; mana Rosa a est para contar. No reparou como estou envelhecida e cansada?  de 
tanto pensar, meu tio.
        No, isso no. Est um pouco abatida, naturalmente devido ao seu estado e tambm pelas saudades dos seus, mas por isso no, minha filha; no deve pensar 
nisso; o que passou, passou. Acabou-se.
Deixei o bordado no colo e encarei tio Antnio:
        J lhe disse muitas vezes para no pensar mais nisso, mas est sempre pensando e se amofinando. J cansei...
Sob a lmpada da mesa, tio Antnio observou o rosto cansado de Maria Letcia, onde j havia pequeninas rugas, imprprias da sua idade; viu-lhe as sombras  volta 
dos olhos e o rictus de amargura no sorriso.
Houve uma pausa, depois ela falou com voz lenta e magoada:
        Tio Antnio, quando voltar ao Brasil, vou provar minha inocncia perante o Tribunal.
Levantei a cabea e sorri para ela, pois pensei que fosse brincadeira. Tio Antnio fitou-a com a boca entreaberta, o olhar incrdulo e admirado:
        Hein?
        Vou, sim, tio Antnio. Como pude deixar Ferno responder jri em meu lugar? Como aceitei tal cousa, se toda a acusao recaiu sobre minha pessoa? Pois se 
ele nem estava em casa quando dei a ordem! Sou a nica culpada do que aconteceu e irei diante dos jurados provar que sou inocente.
Percebi que ela falava seriamente; meu corao como que parou:
        O que, Maria Letcia? Est falando srio? No compreendo!
Tio Antnio largou a tesourinha sobre a mesa, num gesto de contrariedade. Levantou-se e, cruzando os braos, ficou  frente dela, observando-a; depois disse:
        No, no e no. No diga asneiras; o que passou, passou. Nem seu marido consentiria em tal cousa.
Ela levantou a cabea e encarou-nos com expresso orgulhosa no olhar:
        Ele ter de consentir porque irei; se no for, no poderei mais viver. No compreenderam que h mais de cinco anos estou morrendo? Morrendo cada dia um 
pouquinho? Pensa o senhor que estou levando uma bela vida em Paris? Ah! Se soubesse! Mana Rosa a est para contar. Nunca escrevi nada porque no queria pr meu 
corao  mostra, mas desde que chegamos aqui no tive uma nica noite calma, um nico dia tranqilo. Meu segundo filho nasceu antes do tempo por causa disso, nem 
sei como no morreu de to fraquinho, mana que diga. No sinto prazer em cousa alguma e no acompanho meu marido a parte alguma, porque nada me faz feliz.
Tentou levar-me, a princpio, mas depois me abandonou; fica mais com os amigos do que comigo e passa dias e dias longe. No  verdade, mana Rosa? Leva vida alegre 
e divertida. Eu vivo s para meus filhos e, no fossem eles, h muito eu teria sucumbido...
Fez uma pausa e acrescentou com voz um pouco trmula:
 Pensei at em suicdio.
Num gesto rpido, tio Antnio pegou-lhe a mo  acariciou-a. Comecei a tremer sem dizer nada.
 No, ma petite Marie, por piedade, no pense nisso, agora. Creia que seu marido lhe quer muito, e, se faz essa fugida de casa,  porque no encontra aqui os carinhos 
que necessita;  porque v a sua indiferena. Notei desde o princpio que havia qualquer cousa entre os dois. Por Deus, no se entregue a pensamentos tristes, que 
s lhe podem fazer mal. Pense nos filhos que tem e no que vai nascer, em Rosa to dedicada, nos seus caros pais que a esperam, em seu marido...
Andando ao redor da mesa tio Antnio alisava, pensativo, os bigodes grisalhos: uma moa, to bonita, to rica; tem tudo, no pensa em nada. Ainda tem a vida inteira 
diante de si. Sabe o que significa isso? Olhe para mim, para meus cabelos brancos. Que mais posso esperar? Nada. No tenho mulher, no tenho filhos; nem futuro tenho. 
Voc tem tudo e est-se amofinando. Sabe por que vim a Paris? Para despedir-me da vida, ma petite. Esta viagem ser o meu canto de cisne, depois morrerei sossegado. 
Fiz todo o sacrifcio para vir, no quis envelhecer completamente sem ver, pela ltima vez, a cidade onde passei o melhor tempo de minha juventude. E voc ainda 
se queixa! Como  estranha a vida!
E tio Antnio sacudiu os ombros, movendo os lbios num risinho irnico. Retomei o bordado em silncio; Maria Letcia nada disse. Ouviam-se carruagens passando na 
rua e patas de cavalos batendo no calamento, como um rudo surdo. Modesta entrou perguntando se Sinh Letcia precisava de seus cuidados. Tio Antnio olhou para 
a mucama:
        At Modesta est mais bonita em Paris, est quase branca. Vous parlez franais, Modeste?
Modesta riu-se com discrio e, olhando para o lado de Maria Letcia, respondeu:
        Oui, msieu. Un peu.
Tio Antnio voltou-se, divertido:
        Comment? Parlez franais? Comment  va, Modeste?
        Trs bien, m'sieu. Merci.
Modesta disse boa noite e deixou a sala. Tio Antnio voltou-se para ns, rindo-se muito:
        Ora a novidade! No tinha percebido que ela sabia falar francs. E Maria Letcia ainda pensa em cousas tristes, tendo uma mucama preta que fala francs. 
Essa  boa!
E riu-se com gosto; Maria Letcia apenas sorriu. Mais tarde, fui encontr-la no quarto; olhei bem para ela e perguntei firmemente:
         verdade o que disse a tio Antnio? Pretende realizar seu projeto?
        Pretendo.
        No tem pena de nossos pais? Da vergonha que iro passar?
        No acho vergonha nenhuma. Vergonha  viver como vivo.  intil falar e censurar, minha resoluo  irrevogvel. Boa noite.
Sem dizer nada, retirei-me. No dormi essa noite; de madrugada, ouvi quando Ferno entrou e deitou-se no quarto vizinho ao dela; depois, ouvi rudo de portas que 
se abriam e de pisos leves. Devia ser Maria Letcia que se levantava devagarinho e ia examinar as roupas do marido, como fazia sempre. Muitas vezes encontrava flores 
murchas nos bolsos, perfumes franceses. Uma vez ela me contou que encontrara at um leno feminino e um bilhetinho perfumado que comeava assim: querido. Ouvi o 
movimento que ela fez ao voltar ao seu quarto. Fico aqui pensando no regresso ao Brasil. Coitada de Maria Letcia, quem a esperaria na ptria? E aquele orgulho que 
a dominava sempre, onde estaria?


A neve caa lentamente; um vu difano e suave cobria tudo: casas, rvores e ruas. Toda a alegria havia desaparecido e os milhares de flocos brancos que caam no 
espao, formavam uma espcie de sudrio imaculado; alguns flocos voavam um instante como se escolhessem um lugar para pousar, depois caam. Tudo se tornava alvacento: 
os telhados escuros, as cimalhas das casas, os galhos das rvores friorentas, as ruas e as caladas. As pessoas passavam muito apressadas, com espessos casacos, 
as mos nos bolsos e cabeas inclinadas, procurando defender-se do chuvisco gelado.
Maria Letcia e eu sentadas perto da janela, uma de cada lado, quase encostadas  vidraa, olhvamos a neve cair; as crianas conversavam com Modesta em frente  
lareira, onde o fogo parecia brincar, uma chama correndo atrs da outra, e somente as vozes infantis quebravam o silncio. Comentamos em voz baixa que era o quinto 
inverno que passvamos longe do Brasil.
Ferno encontrava-se na Inglaterra; passava semanas fora e ao voltar, trazia novos planos de viagens. Tio Antnio viajara para Viena; depois dos primeiros dias em 
Paris, ele resolvera rever o Ostenreich. Partira numa manh com as mos enluvadas mergulhadas num grande capote de peles que lhe dava aparncia de um bicho, declamando 
a meia voz:
Et je rren vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte,
De , de l...
Pareil  la feuille morte...
L fora a noite era sombria, embora os relgios marcassem apenas quatro e meia; lampies brilhavam nas esquinas e nas portas de algumas casas, sacudidos de quando 
em quando pelo vento glido; a neve continuava a amontoar-se em toda a parte. Passava um ou outro transeunte: s vezes era uma mulher, ou uma criana, outras vezes, 
um velho; conhecamos os velhos antes de v-los, pelo andar lento e arrastado. Os meninos passavam apressados, sorrindo sob os bons cheios de neve. Fazamos apostas 
para ver quem acertava primeiro quem ia passar. Maria Letcia perguntou:
 Estar nevando na Inglaterra?
Pensava no marido. Continuamos a olhar e vimos uma carruagem vir vindo devagar e parar em frente a casa; o vapor d'gua que os animais expiram, condensava-se devido 
ao frio e tornava-se visvel. O cocheiro desceu e falou com o porteiro. Voltou a falar com os que estavam dentro do carro, depois arranjou a manta, de um dos cavalos, 
dando-lhe uma leve palmada, aps o que abriu a portinhola do carro. Vimos um casal descer todo agasalhado e entrar apressadamente no prdio, e quase no mesmo instante 
tocaram a campainha do nosso apartamento. Ento a visita era para ns? Quem seria? Levantamo-nos e ficamos no meio da sala, esperando. Tomsio apareceu no vo da 
porta anunciando os visitantes; era um dos primos de Paiva que foi logo entrando, as mos estendidas para Maria Letcia. Depois, apresentou a esposa, uma das primas 
Sousa Mendes, que conhecramos em menina, e no seramos capazes de reconhecer se a encontrssemos em outro lugar. Tiraram os capotes e
 as luvas e aqueceram-se uns instantes em frente  lareira, esfregando as mos e olhando  volta, curiosos. As crianas, desconfiadas, pararam de brincar e ficaram 
olhando os recm-chegados, as bocas entreabertas de surpresa. Era to raro uma visita em Paris!
Agradavelmente surpreendida, Maria Letcia rodeava-os e pedia notcias dos parentes e de S. Paulo; como era bom ter com quem conversar na mesma lngua, ter os mesmos 
pensamentos; era como se um doce calor aparecesse de repente, trazendo-lhe a lembrana de tudo o que ficara distante. Nos seus olhos alegres e na sua maneira de 
fazer perguntas, lia-se a satisfao que sentia. Pouco a pouco o casal ficou  vontade e comeou a contar-nos todas as novidades sobre o Brasil; tinham chegado havia 
poucos dias em viagem de npcias; no se admiraram ao saber que Ferno viajara, a negcios, como eu disse.
Convidei-os para jantar; foi uma das nicas noites alegres depois da chegada de tio Antnio. Apesar de Maria Letcia ter achado as primas Sousa Mendes feias e insignificantes 
e nunca as ter tratado com intimidade, sentiu-se muito feliz ao ver uma delas ali  sua mesa, falando sobre o Brasil. Pensei que o exlio faz milagres de camaradagem;
Maria Letcia tratou-a com gentileza e convidou-a a voltar muitas vezes, e at podiam ir juntas s compras; entristeceu-se quando soube que os primos seguiriam no 
dia seguinte para a Itlia, Aps o jantar, quando as crianas se retiraram para dormir, estvamos os quatro na sala, diante do fogo, Maria Letcia mandou servir 
licor para os primos e ns tomamos uma xcara de ch.
Tomamos vagarosamente e conversvamos; de repente, o primo disse uma frase que fez Maria Letcia sobressaltar-se:
- Sabe, prima, que em S. Paulo, pouco antes de meu intento, a defendi de uma calnia?
A xcara tremeu na mo de Maria Letcia e eu me levantei para ajud-la; ela apertou a xcara entre as mos e, fingindo indiferena, perguntou:
- Que calnia, primo? A esposa olhou o marido com um olhar de censura, mas continuou, como se no percebesse:
- Por causa da sua questo com a escrava. Por Deus, quase perdi a cabea; quem falou no sabia que eu era seu primo, depois pediu desculpas, mas ouviu o que no 
queria ouvir, e ouviu tudo.
Depositando o clice com fora na mesinha de mrmore, levantou-se e falou, exaltado, fitando Maria Letcia:
- Quis insinuar que a prima  quem devia responder jri, assumir a responsabilidade e enfrentar os jurados. At a entender que foi covardia sua fugir...
        Fugir, primo? Eu no fugi! As circunstncias no permitiram que eu comparecesse perante o Tribunal naquela ocasio, por isso meu marido foi em meu lugar, 
mas eu no fugi, Nunca fugiria ao cumprimento de um dever! Nunca!
E levantando a cabea encarou os primos com altivez; a Sousa Mendes procurou acalm-la:
        Ns sabemos que a prima Letcia no  covarde! Foi ignorncia da pessoa que falou; no devia falar. Quando no se sabe o que se passou, no se fala. E meu 
marido no devia contar-lhe isso...
O primo de Paiva encarou-a com os dedos na cava do colete:
        Ora esta! No contar por qu? Acho que ela deve saber de tudo, tudo o que dizem e o que disseram naquela ocasio. Uma pessoa prevenida vale por duas.
Perguntei, tentando dar s palavras um tom de indiferena:
        Mas, primo, at hoje falam nisso? Faz tanto tempo... Antes que ele respondesse, a prima falou:
        No, agora ningum fala. Falavam naquele tempo... Ele interrompeu:
        Falam at agora. Ningum esqueceu ainda o fato. Houve um breve silncio, depois Maria Letcia disse com voz cansada:
        Foi bom o primo contar, foi muito bom. Prefiro saber a viver na ignorncia. Muito obrigada, primo.
E tomou os ltimos goles de ch que devia estar frio, segurando a xcara com as duas mos. O primo bateu a mo na mesinha:
        Pois  isso mesmo. Respondi  altura, ele teve de ouvir at o fim. Depois, pediu desculpas. Prima Letcia no deve aborrecer-se; o mundo est cheio de intrigantes 
e caluniadores.
No se aborrea; so cousas estpidas que no se devem levar a srio.
Passeou de um lado para outro na frente da lareira e procurou mudar de assunto, contando outros fatos. A voz de Maria Letcia tornou a se elevar:
        No me aborreo com isso. J estou habituada e o que o primo contou, eu j sabia... No , mana Rosa?
         verdade, temos recebido cartas de l e todas falam sobre isso.
Mais tarde, quando se despediram para sair, tornaram a aconselh-la a que no levasse a srio o incidente, pois os fatos insignificantes no merecem que se lhes 
d importncia. Ficamos a porta do apartamento e ouvimos os primeiros passos deles sobre a calada branca de neve; estava tudo parado; no passava quase ningum 
na rua deserta. Voltamos para a sala. Maria Letcia sentou-se diante da lareira, olhando as ltimas chamas. Comecei a recolher as xcaras para levar para dentro 
quando ela me disse:
        Ento sou covarde, hein? Covarde? Pois hei de provar que no sou. Hei de provar. Minha raa  de valentes e no negarei a raa. Voc ver.
        Eu, se fosse voc no levaria a srio o que o primo falou; no deve dar importncia.
        Como no dar importncia? Precisa ser mesmo gua parada para no se importar... Imagine no dar importncia. Chamava gua parada a todas as pessoas calmas. 
Continuou a dar um arranjo na sala; os brinquedos das crianas estavam espalhados pelo tapete. Recolhi tudo e fechando as janelas, convidei-a para nos recolhermos. 
No quarto, comecei a pente-la, como fazia quase todas as noites; reparti seus cabelos em duas tranas. Enquanto isso, ouvamos o leve ressonar das crianas no quarto 
vizinho; de vez em quando um estalo na rua, muito breve como se quebrassem um cristal; talvez fosse um galho de rvore que estalasse sob o peso da neve.
Ela comeou a falar:
 No posso continuar a viver assim, mana Rosa. No compreende? Preciso dar vazo a este sentimento que se acumulou em todos estes anos de exlio; preciso agir, 
fazer alguma coisa, gritar bem alto que sou inocente, fazer o mundo acreditar, ou ento morrer.
 L vem voc com idias negras.
 Morrer, sim. Morrer. Isso no  vida.
Ouvamos passos na rua; vinham vindo devagar, to triste, como se arrastassem um peso enorme. Pareciam to idosos, to cansados... Ficamos imveis escutando.
Podia ser um velho. Um pobre velho cansado e miservel, arrastando sua misria pela neve. Passou devagar sob nossa janela... Seus passos morreram no fim da rua. 
Com os cabelos de Maria Letcia em minhas mos, fiquei escutando tambm. De repente, no ouvimos mais nada. Maria Letcia disse:
        Como h gente infeliz neste mundo! H gente que sofre, h gente que chora! E h os que sentem frio e os que sentem fome! E h os que so doentes e os que 
so tristes! Quem seria, meu Deus! esse que passou na rua nesta noite to fria e quieta? Com passos to cansados e vagarosos?
         verdade, quem seria? Algum pobre de Cristo.
        E para onde iria carregando tanta infelicidade? Coitado!
        Coitado! E voc que possui tudo, ainda se queixa!
        Eu no tenho tudo, mana Rosa. Voc sabe que no tenho.
        O que lhe falta?
        O que me falta?! A coragem para enfrentar a oposio de meu marido e de nossa famlia. Mas hei de vencer! Sim, vencerei! Os passos cansados do homem que 
passou, deram-me a coragem de que precisava. Quando Ferno vier da Inglaterra, hei de convenc-lo, e tio Antnio tambm e papai, mame, todos. Para isso sou Maria 
Letcia! Hei de vencer!
        O primo de Paiva deixou voc transtornada esta noite. Vamos dormir.
Deixei-a e fui para meu quarto; na escurido, fiquei durante muito tempo pensando na resoluo de Maria Letcia. No seria loucura? Pensar num caso ocorrido h tanto 
tempo? Felizmente Ferno havia de impedir. Toda a famlia impediria. Eu tinha Santo Onofre para me ajudar.
Em julho de 1878, Maria Letcia teve uma menina, Ldia. Correu tudo com muita felicidade. Um dia, achando-se na saleta com a criana ao colo e animada pelo sol de 
vero que entrava pelas janelas abertas dando novo brilho aos mveis e tapetes, enquanto uma aragem perfumada balouava as cortinas, ela disse a Ferno que queria 
voltar a S. Paulo e comparecer ante o Tribunal para provar sua inocncia. Ele fitou-a sem dizer nada, acreditando a princpio tratar-se de simples brincadeira sem 
conseqncias; mas depois, conversando a ss com tio Antnio, soube que a idia era velha e amadurecida durante todos esses anos de espera. Ferno veio perguntar-me 
tambm o que havia; contei o que sabia; desde a morte da escrava, criara-se um sentimento de remorso no esprito de Maria Letcia e esse sentimento, em forma de 
angstia, foi-se avolumando, foi se avolumando, foi crescendo e fermentando e, quanto mais tempo passava, mais ela se julgava culpada por
  haver permitido o comparecimento do marido perante o jri, quando a ordem do castigo partira dela. As insinuaes dos que nos visitavam, as cartas que recebamos, 
as palavras enganosas: Letcia, no d importncia, s serviam para aumentar-lhe o desgosto.
Comearam ento as discusses, todas, porm, em vo.
Tio Antnio e Ferno procuravam destruir em Letcia o sentimento de culpa, mais ele se avolumava teimosamente e mais convicta ela se sentia de que s assim teria 
paz na sua vida, a paz que a abandonara havia tantos anos, to longos como uma eternidade, anos sofridos em silncios, de desejos de esquecimento. As advertncias 
de tio Antnio, as admoestaes de Ferno e meus conselhos, caam diante de sua vontade de ferro; era uma vontade nela em quase sete anos de sofrimento e espera 
e no haveria palavras ou argumentos capazes de destru-la.
Desse dia em diante, tio Antnio comeou a insistir com Maria Letcia para que ela sasse, passeasse, fosse a teatros.
Ela no queria, resistia, e s vezes ia, sem muita vontade. Eu ficava com as crianas e Modesta. S uma vez, quando se inaugurava uma Companhia Lrica no Teatro 
da pera, eu fui tambm e levavam nessa noite a pera Huguenotes; eu nunca tinha visto nada to bonito, to artstico, to suntuoso. Mas quando ouvi uma harpa tocando, 
e toda a cena na penumbra, e uma luzinha brilhando num canto, lembrei-me de Miquelina quando tocava harpa. E em vez de ouvir cantarem Huguenotes, ouvi apenas a harpa 
tocada por minha irm no velho casaro de S. Paulo, enquanto as lgrimas desciam pelas minhas faces.
Findou-se mais esse ano e quando a ltima filha de Maria contava j sete meses, em princpios de 1879, Ferno resolveu voltar ao Brasil. Os preparativos foram longos; 
a estadia na Europa, onde trs filhos haviam nascido, eram fundas e no se extinguiriam to facilmente. Ferno vendeu os cavalos, encaixotou obras de arte, tapearias; 
despediu-se dos inmeros amigos, fez grandes compras de roupas e vinhos. E um dia com as crianas, uma governanta, Tomsio e Modesta, tomamos o caminho do Havre, 
e voltaramos com destino ao Brasil. Tio Antnio ficou; disse que ficaria ainda um ano e depois voltaria; na estao. Beijou as crianas, segurou a mo de Maria 
Letcia e suas ltimas palavras foram:
 Pense bem, petite Marie, lembre-se de seus pais. Esquea aquela idia. Quantos no iro sofrer com a sua resoluo?
Maria Letcia sorriu de leve, um sorriso irnico e artificial muito diferente do seu belo sorriso antigo, e fez um gesto com os ombros como quem diz: Que importa? 
O trem comeou a rodar e tio Antnio ficou no mesmo lugar, olhando para ns que acenvamos com os lenos, com certeza admirado do ar ctico de Maria Letcia.
A travessia foi longa e incmoda; a pequenina Ldia sofreu de dores no ouvido e passvamos horas com ela no colo, ou Maria Letcia ou eu, enquanto as outras crianas 
estavam com a governanta no tombadilho; Modesta tomava conta da governanta e vinha contar-nos tudo o que se passava. Pouco deixvamos o camarote; apenas Ferno passou 
o tempo jogando e ouvindo msica no salo. Desembarcamos no Rio de Janeiro, onde ficamos uns dias para descansar; seguiramos depois para S. Paulo pela estrada de 
ferro. Tomsio foi antes a fim de avisar nossos pais e preparar a Chcara da Penha.
A viagem de trem foi longa e quando chegamos a S. Paulo parecia um sonho; agradeci a Santo Onofre termos chegado em paz; nosso encontro com papai, mame e irmos 
foi pattico e comovedor; choramos nos braos uns dos outros. Tantos anos estivemos separados que, a princpio, reinou entre todos uma atmosfera de reserva e quase 
frieza, principalmente entre as crianas; os filhos de Maria Letcia estranharam os parentes e preferiram falar francs; Antnio Ferno, que partira ainda pequeno, 
no conheceu ningum e tratou a todos com pouco caso. As duas meninas, Maria e Ldia, choravam quando viam os avs; e Maria chamava a governanta aos gritos; no 
queria agrados, nem mimos, no entendiam o que os outros falavam. Foi um desentendimento completo; s depois, entre conversas, fatos e recordaes, voltou o calor 
da intimidade. A frieza das crianas foi cedendo ao carinho dos grandes; os laos foram-se estreitando de novo e, alguns dias no er
 am passados, tudo estava bem. As novidades eram muitas; todas iam ver Maria Letcia e Ferno na Chcara da Penha; Leopoldina, entusiasmada com a volta da irm predileta 
que trazia de Paris tanta cousa bonita, ia v-la quase todos os dias, acompanhada dos filhos; Francisca Miquelina veio da fazenda para visit-los; nossos irmos 
e cunhados, primos, parentes de Ferno, todos queriam contar os fatos mais recentes, lembrar alguma cousa que ainda no haviam contado. Perguntavam com um desejo 
de surpreender:
        Souberam das festas em S. Paulo por ocasio da vinda dos condes d'Eu?
 No. E por que vieram os condes? Outro se adiantava para explicar.
        Vieram assistir  inaugurao da Estrada de Ferro Rio de JaneiroS. Paulo.
        Ah! Isso ns j sabamos; Francisca Miquelina escreveu contando. Quando foi mesmo?
 H dois anos atrs. Outro dizia:
        Mas os condes d'Eu estiveram antes aqui; Maria Letcia no soube? Foi a primeira vez que vieram a S. Paulo, em 1875, no me lembro bem... Leopoldina acrescentava:
        Ah! J faz tanto tempo...
Alberto lembrava:
 Por sinal que houve uma linda festa em casa do Baro em Monte Alegre na Rua Jos Bonifcio... Leopoldina exclamava interrompendo:
         verdade, agora me lembro. Eu estava com um vestido de gorgoro azul e ramagens cor-de-rosa. Um dos vestidos bonitos que j tive. Augusto dizia:
 Ah! Mas a maior novidade os manos no souberam. Abriram em S. Paulo uma Companhia Lrica. Esplndida! Ferno respondia:
Francisca Miquelina fingia-se desiludida:
        Ah! Ento vocs sabem tudo, no h novidades.
Contei que assistira em Paris a uma pera muito bonita: no Teatro da pera; todos me olharam com admirao.
 Que sucesso! Gostou, mana?
Afinal, uma tarde, estando todos reunidos, pois era aniversrio de Ferno, Maria Letcia contou a todos que pretendia falar ao advogado e comparecer perante o jri. 
A impresso foi tremenda! Foi como se a morte passasse na sala numa ronda sinistra. At o ar que respirvamos pareceu-me gelado. Houve um silncio e todos se entreolharam; 
mame fixou Maria Letcia como se a estranhasse, papai levantou o brao e deixou-o cair de novo sem nada dizer, um ar perplexo. Flix e Augusto levantaram-se; Aninhas 
e Eponina olharam uma para outra, profundamente surpreendidas. S Francisca Miquelina falou:
        Maria Letcia responder jri? Por qu? Por causa da escrava? Faz tanto tempo que isso se passou, ningum mais se lembra. E depois, Ferno no permitir...
Maria Letcia interrompeu-a:
        Nunca  tarde para se reparar um erro. Errei fugindo ao cumprimento do dever; eu devia comparecer perante o Tribunal naquela ocasio e no meu marido, pois 
a acusao foi contra mim. Fui covarde, mas hoje estou resolvida. Ferno j concordou.
Olharam Ferno que se levantou para dizer qualquer cousa. Foi como se casse tempestade depois do vento gelado; antes que ele falasse, protestos veementes fizeram-se 
ouvir:
        Como? Maria Letcia pensou bem?
        Ferno permite tal loucura? Impossvel que permita!
        Mas isso  uma vergonha para a famlia; um fato sem precedentes!
         uma mancha em nosso nome! Mancha indelvel!
        Nossa irm no Tribunal? Nunca!
Maria Letcia levantou-se tambm, cheia de orgulho e revolta; seu olhar passou sobre todos e admirei-a quando falou:
        Como? Ento meus pais e irmos no acharam que foi vergonha quando Ferno se sentou no banco dos rus? Quando esteve encarcerado meses inteiros esperando 
julgamento, no foi vergonha? Ele que chamou a culpa sobre si quando a nica culpada fui eu? Isso no foi vergonha para o nome dele? Acham vergonha porque agora 
sou eu? Por que os toca mais de perto? Pois comparecerei ante o juiz e provarei minha inocncia.
Rubra de clera, ela batia a mo no peito, a cada frase pronunciada. Flix gritou, o brao estendido na direo dela:
        Provar o que toda a gente j sabe? Sabemos que est inocente. E a mana esquece que  mulher? Uma mulher no Tribunal?
        No serei a primeira, Flix.
 Mas no fica bem,  impossvel. Que acha, papai?
        No fica bem eu continuar vivendo com esse remorso de conscincia.
Papai falou, pedindo silncio; sua voz grave e forte dominou as outras:
 Calma, meus filhos. Vamos ver o que podemos fazer. Maria Letcia.
Ela voltou-se, rpida para papai:
        Nada h a fazer, meu pai. O que resolvi, ser feito. No voltarei atrs.
Augusto voltou-se para Ferno:
        A mana est fora de si.
Ela replicou em lugar do marido:
 Fora de mim estava eu naquele tempo. Mame interveio, conciliadora:
        Minha filha Maria Letcia, pense bem nas palavras que est dizendo. Pense bem.
        H sete anos venho pensando minha me. Sete anos longos; meus trs filhos nasceram sob esse pesadelo, no posso continuar a viver assim. Sinto-me sufocar, 
morrer. Leopoldina aproximou-se de Maria Letcia procurando uma maneira de faz-la mudar de idia; disse-lhe com voz carinhosa:
 Querida mana e os seus filhinhos? J pensou neles? Maria Letcia respondeu corajosamente:
        Mas  por eles, Leopoldina.  por eles; no quero que cresam pensando que a me foi uma covarde.  por eles.
 Quem fala em covardia? Quem falou que voc era covarde?
Um silncio de apreenses pairou na sala. Ferno falou com uma voz, que procurava ser calma:
 Tudo quanto pode ser feito, j fiz para faz-la desistir da resoluo, e nada consegui. Nada. Parece uma rocha, a razo e o argumento se despedaam como gua, 
nada conseguindo. Estou exausto, absolutamente exausto.
Papai exaltou-se ento; a sua voz ecoou na sala outra vez:
 Irei amanh falar com o advogado. No posso permitir que minha filha proceda insensatamente. Vamos ver.
 Perdo, meu pai, mas j mandei uma carta ao advogado.
Aninhas e Eponina olharam-se, horrorizadas; Aninhas tapou a boca com a mo, afogando um grito de espanto. Tambm fiquei aterrada, pois no sabia de carta alguma. 
Papai insistiu:
        Entretanto no fica bem, Maria Letcia; uma senhora no pode fazer certas cousas. No pode e no deve. Como escreveu ao advogado?
Ferno disse que no sabia de nada; Alberto ficou revoltado; estendeu o brao a papai pedindo para falar:
        Perdo, meu sogro, mas Maria Letcia pensa que aqui  como na Europa. Fica feio, no Brasil, uma mulher ter certas liberdades de ao. Isso  imperdovel. 
Pensa que ainda est na Europa?
Fez a pergunta ironicamente, voltando-se para ela, as mos cruzadas sobre o peito. Ela tambm respondeu com ironia:
        Liberdades? Acha liberdade escrever ao nosso advogado sobre um assunto to importante? Um assunto que me toca de perto? Pois falarei com ele.
Augusto e Flix protestaram:
        No falar.
        No pode, no fica bem, Maria Letcia. Onde se viu mulher falar com advogado? Enlouqueceu?
        Falarei amanh com o advogado Simes. Papai gritou:
        Maria Letcia!
Ela voltou-se calmamente, como se apenas estivessem conversando:
        Peo perdo, papai, se estou contrariando seu desejo, mas falarei com o advogado amanh. Mandei o Tomsio com uma carta.
Novo silncio. Loureno, que estava ausente, chegou nesse momento. Vendo todos quietos, olhou um por um e perguntou:
        Que h? Houve alguma cousa?
Alberto e Leopoldina explicaram a Loureno a resoluo de Maria Letcia; Loureno ficou espantado, uma expresso de incredulidade no rosto, depois disse:
        Maria Letcia, antes voc tivesse ficado na Europa.
Mame comeou ento a chorar convulsivamente, escondendo o rosto entre as mos.
        Sinto muito, minha me, sinto muito, declarou Maria Letcia.
Fez uma pausa e concluiu resolutamente, olhando  volta da sala:
 Minha resoluo  irrevogvel. Foi por isso que voltei para S. Paulo, foi por isso.
Leopoldina, com os braos sobre os ombros de mame, falou sarcstica:
        Como est mudada, Maria Letcia. Foram os ares da Europa que a transformaram assim?
Francisca Miquelina perguntou:
        E se Maria Letcia for condenada? Ningum pode prever. Aninhas deu um grito agudo e tapou os olhos com as duas mos. Eponina olhou angustiadamente para 
Flix; senti dar um pulo, pois at ento no tinha pensado nessa possibilidade. Flix observou com voz cansada:
 Mesmo que Maria Letcia seja declarada inocente pela corte, a opinio pblica sempre a considerar culpada.
Augusto, Loureno e Lus concordaram. Maria Letcia voltou-se para Flix:
 No creio. Se provar minha inocncia, como continuarei culpada? Quero provar minha inocncia!
 Mas todos sabem que voc  inocente! Miquelina encarou-a:
  porque voc no sabe como as pessoas so esquisitas, falam quase sempre com um critrio errado, principalmente em se tratando de uma pessoa da alta sociedade, 
algumas ficaro sempre na dvida, e essa dvida ser contra sempre.
Eponina que nada ainda havia dito, timidamente apoiou, tambm penso assim: prove o que provar, a mana Letcia ser apontada como mandante do crime.
Letcia sorriu com altivez e no respondeu; mame em lgrimas, auxiliada por Leopoldina que a consolava, depois, Maria Letcia tornou a falar: esto todos enganados 
a meu respeito. Eu disse que sou inocente. E provarei. Poderei provar quem  a pessoa annima e quem pagou os negros para me acusarem, para deporem contra mim.
Olhou-me como se s eu compreendesse suas palavras. Augusto riu com ironia:
        Maria Letcia est muito bem disposta; lembre-se de que sete anos so sete anos e muitas testemunhas podem ter morrido ou desaparecido.
Ferno tornou a falar, dizendo que tinha muitas vezes chamado a ateno da esposa para esse ponto, mas ela no acreditava; papai falou outra vez, mais calmo:
        Minha filha, voc se esquece de que a opinio pblica  sempre curiosa, e de uma curiosidade maldosa pelos dramas de famlia. E no os esquecem nunca.
Flix acrescentou alto, exagerando:
        E quando lem os detalhes de um crime sensacional s guardam o lado pior, o lado bom  esquecido com facilidade.
Augusto continuou:
        O lado bom no tem interesse para eles; mesmo que o culpado seja declarado inocente, nunca esquecero seu suposto crime. Eis uma verdade indiscutvel.
Leopoldina tornou a intervir:
        No se esquea, Maria Letcia, onde h cinzas, h fogo. E a opinio pblica s se lembrar do fogo.
Francisca Miquelina continuou:
        E ser apontada como culpada, sempre. Daqui a cinqenta anos, apontaro a mana na rua: Foi ela... No se lembram? A histria daquele crime da escrava Inocncia..., 
Loureno deu uma risadinha:
        A Viscondessa de Santarm no jri! Tem graa! Maria Letcia tornou a falar, e desta vez friamente:
        Tudo  intil. Comparecerei perante o jri.
Ferno correu os olhos  volta, abrangendo todos como que a perguntar: No disse que  intil?
Foram deixando a sala porque j era quase noite: alguns, ainda revoltados, mal falaram com Maria Letcia. Eu fiquei porque Ldia, a caula de Maria Letcia estava 
sofrendo novamente de dor de ouvidos e no queria saber de ningum, s queria a mim. Papai pediu-lhe no ltimo instante que pensasse bem, refletisse, lembrasse o 
escndalo que o fato iria causar, tivesse pena da velhice deles. Acabrunhados e tristes, tomaram o carro para a cidade; partiram. Quando os ltimos deixaram a sala, 
Ferno dirigiu-se para o escritrio, mas, antes, voltou para falar com Maria Letcia. Apenas disse isto:
        Que bom presente de aniversrio voc me deu.
E saiu. Ela sentou-se numa cadeira baixa, completamente aniquilada de cansao. Escondeu o rosto entre as mos e ficou na semi-obscuridade da sala, pensando de certo 
que era o princpio, que precisaria de muito mais coragem e valor para chegar ao fim. Coloquei minha mo sobre seu ombro e ia dizer-lhe palavras de animao, quando 
ouvimos passinhos leves e furtivos; levantamos a cabea e vimos Aninhas diante de ns, tmida e comovida. Com a vozinha fina, em tom baixo, um tanto receosa, juntando 
as duas mos, disse:
 Maria Letcia, esqueci a mantilha aqui de propsito s resolvi voltar e dizer uma palavrinha: gostei de ver voc hoje. Fiquei muito orgulhosa. Sozinha contra todos! 
Sozinha! At contra o marido! E falou to bem, to bonito... Abraou Maria Letcia e foi saindo depressa:
 Augusto deve estar impaciente; no se amofine, tudo vai dar certo. Gostei de ver... Que coragem! E dando uma corridinha, deixou a sala. Eu fui acender o lampio 
sobre a mesa; ouvimos uma pessoa parar  porta. Eponina entrou quase correndo, afobada com ar assustado:
 No viram minha sombrinha? Creio que a deixei... Ah! Est ali naquele canto. Pedi a Flix para voltar e pegar a minha sombrinha que ia esquecendo... Procurando 
a sombrinha, espiou para os lados e no vendo a no ser ns, aproximou-se de Maria Letcia. Falou, sussurrando:
 Se todas as mulheres tivessem a sua coragem, Maria, o mundo seria outro para ns. Foi divina hoje! Divina! No esmorea, continue assim at o fim... Saiu quase 
correndo, arrastando a ponta da sombrinha no cho do jardim, entre os canteiros. Aumentei a luz do Iampio, olhei para Maria Letcia; ela respirou aliviada e disse-me: 
j tenho duas pessoas ao meu lado.
Novo processo foi instaurado para o julgamento de Maria Letcia; o advogado Sales foi escolhido para defend-la; a cidade de S. Paulo ficou animada e toda gente 
se surpreendeu; Maria Letcia tornou-se o assunto da sociedade. A Viscondessa de Santarm vinha, por sua livre vontade, sentar-se no banco dos rus? Era inacreditvel. 
Furtivamente, quase s escondidas para no dar muito na vista, comeou a aparecer gente para assistir  sesso de jri mais extraordinria de todos os tempos. Vinha 
a cavalo, de trole, ou de trem; das chcaras, das cidades prximas e at da corte.
Todos os nossos irmos se colocaram ao lado dela logo esquecendo a discusso que houvera de incio; uma por uma, as cunhadas deram-lhe seu apoio. Os outros membros 
reprovaram-na, admirando-a, entretanto, no ntimo.
Viram que era uma mulher de fibra, uma mulher de raa. Quem se atreveria a tanto? Enfrentar o juiz, os jurados, testemunhas maldosas e, acima de tudo, a opinio 
pblica. Simplesmente espartana!
Dias antes, as crianas da famlia foram com suas governantas e mucamas, para a fazenda de Francisca Miquelina, ficando mais prxima de S. Paulo.
No dia 19 de abril de 1880, quase oito anos depois da morte da escrava, Maria Letcia, Viscondessa de Santarm, compareceu perante o Tribunal de S. Paulo. Nem gosto 
de lembrar aquele tempo de aflio e medo; durante noites seguidas, rezamos diante do oratrio pedindo a absolvio de Maria Letcia. Modesta chorava todos os dias 
e mam Zabel fez promessas a So Damio. Chegou afinal o dia 19; era um dia como outro qualquer, mas, para ns, seria inolvidvel. Maria Letcia aparentemente estava 
calma, mas de uma calma muito perfeita para ser natural. Eu fui pentear-lhe os cabelos, depois ajudei-a a vestir-se; mame queria que ela fosse de vestido preto: 
Leopoldina e Aninhas contestaram: Por que preto? No era luto. Devia at ir com vestido bem alegre. Afinal resolveu pr um de veludo cor de mostarda, muito bonito. 
Ela no dizia nada. Quando eu trouxe um ch de folhas de laranjeira, meia hora antes de sair, ela disse que preferia ch de mel
 issa; Modesta foi correndo preparar. Minhas mos tremiam tanto que a xcara quase foi ao cho.
Ela me perguntou, sorrindo palidamente:
        Que  isso, mana? Medo? Pois eu no tenho medo...
Fui ao oratrio do quarto, rezar para Nossa Senhora do Rosrio; embrulhei o Santo Onofre de madeira no meu leno para lev-lo, pois Maria Letcia havia pedido que 
eu fosse tambm. Leopoldina quis que Maria Letcia levasse o saco de veludo bordado com leno e um santo dentro; Maria Letcia disse que no precisava, levaria o 
leno dentro da manga, mas Leopoldina e Eponina disseram que ela devia levar para mostrar como se usava em Paris, pois o saco era de Paris. Ento levou-o. Quase 
na hora de sair, fiz uma promessa a Santo Antoninho; prometi levar uma vela de cera, do meu tamanho, de nossa casa at o altar do santo, na Igreja de S. Francisco. 
A vela tinha que ir acesa, eu de um lado e Maria Letcia do outro. Quando Maria Letcia se levantou para sair, achei-a muito bonita, mas muito plida. Papai e Ferno 
seguraram o brao dela e mame e Leopoldina comearam a chorar. Ento ela prpria lhes deu coragem, dizendo, a sorrir:
        No precisam chorar, e no precisam segurar meu brao. Estou muito firme e no tenho medo. At parece que sou uma condenada  morte...
Aninhas deu um grito tapando a boca. Descemos a escada para entrar na carruagem; estavam todos tristes e quietos; Modesta aproximou-se de Maria Letcia e disse alguma 
coisa, entregando-lhe um embrulhinho, creio que um ramo de guin, mam Zabel falou alto:
        Vou rez pra defunta Sinh Chica; tudo h de corr bem, Sinh.
Maria Letcia confirmou com a cabea e colocou o embrulhinho de Modesta no saco de veludo. Mame ficou chorando no alto da escada, apoiada em Leopoldina que tinha 
os olhos vermelhos; Francisca Miquelina, que havia chegado na vspera, acompanhou-nos at o carro recomendando coragem. Tambm eslava plida e nervosa. Partimos. 
Ningum falou durante o percurso; quando descemos diante do Tribunal, havia uma multido nas imediaes. Papai disse ento:
 Apie-se em meu brao, Maria Letcia.
E ela deu o brao a papai. Ferno ia do outro lado; achei-a um pouco assustada nesse momento, quando enfrentou a multido diante do Tribunal. Rodolfo que nos esperava, 
estava muito calmo; Flix ficou ao meu lado e os outros irmos tambm. Entramos. Meu corao batia tanto que eu quase no podia respirar. Vi Maria Letcia distanciar-se 
com o advogado; fiquei fria, ao lado de papai e Flix. A sala do Tribunal estava completamente cheia e houve um silncio quando entramos. Maria Letcia sentou-se. 
Perguntei ento a papai:
 Aquele  o banco dos rus?
Papai inclinou a cabea afirmativamente e no respondeu.
De repente, tive vontade de chorar. Era ento Maria Letcia que estava sentada ali, ela que fora sempre altiva, to bonita, e to afastada do povo, aquele mesmo 
povo que ela chamava de gentalha e agora estava ali, diante dela, vido de curiosidade... Ela que vivia indiferente ao que se passava. Ela que era orgulhosa e no 
olhava para ningum, no enxergava ningum. E estava ali para ser julgada!
Seus cabelos estavam lisos para trs, repartidos ao meio como ela gostava e realavam-lhe o rosto plido, no qual se viam os olhos azuis, agora amortecidos. Como 
era bonita. Estava impassvel e serena; apenas uma vez olhou para o lado, depois olhou  volta; parece que sentiu um frmito de medo ao ver aqueles rostos fitarem-na, 
admirados.
Assistiu ao julgamento at o fim, sem demonstrar a menor debilidade; depois de responder ao Juiz as perguntas, ouviu sem tremer a acusao da Promotoria. O Dr. Sales 
comeou a falar, atravs das palavras dele, tive certeza nesse momento, convico plena de que a luz da verdade brilharia novamente. Ele comeou a defesa por historiar 
os fatos: Uma carta annima, escrita e levada  polcia, introduzida  noite por baixo da porta da delegacia, indicava a Viscondessa de Santarm como mandante de 
um assassnio. Quem escreveu aquela carta? Quem a levou? Insondvel mistrio. O delegado procedeu ao inqurito contra a viscondessa, mas como ela se achava em melindroso 
estado de sade, o visconde, num raro gesto de nobreza, tomou a si a culpa e se apresentou, procurando assim livr-la de um processo forjado por inimigos que se 
aproveitaram das trevas e do anonimato para fazer denncias. Com a conscincia tranqila, ele compareceu perante o j
 ri oito anos antes e, julgado, foi unanimemente absolvido por deficincia de provas.
A voz do Dr. Sales atroou no recinto ao dizer:
        Srs. Jurados, tal qual uma voz eloqente da Tribuna Judiciria da Frana, eu voz direi neste momento: escutai-me sem favor, porm sem dio, eis tudo o que 
vos peo e tenho direito de esperar de vossa Justia! Olhai, Srs. Jurados, para o banco dos acusados! Quem toma assento ali hoje  uma mulher, uma senhora, que ides 
julgar com todo vosso critrio e sabedoria. Hei de provar que a r foi vtima da maledicncia, vtima da inveja, esse cancro que procura corroer as reputaes e 
destruir a felicidade alheia. Direi como um grande pensador: La verit est en marche et rien ne l'arretera!
O Dr. Sales passou depois a destruir um por um os depoimentos das testemunhas. O silncio seria profundo na assistncia, no fosse a voz do advogado que, palavra 
por palavra, frase por frase, descobria um ponto de luz na obscuridade em que se perdiam os fatos. Falou sobre o auto do corpo de delito e depois sobre a inverdade 
da rede ensangentada, pois se os peritos no exame cadavrico disseram que o tecido celular do corpo se achava embebido de sangue, mas o sangue estava gelado sob 
o mesmo tecido, no podia haver extravasamento de sangue e, portanto, no podia haver rede ensangentada. Foi nesse instante que o promotor pblico interrompeu dizendo 
que se baseava no depoimento de D. Deolinda Menezes. Apertei o brao de papai e senti que suas mos tremiam. A defesa replicou:
        D. Deolinda Menezes pode ser tudo neste processo, menos testemunha. Essa corruptora de conscincias escravas, que compra testemunhas, ausente de sua casa 
s podia ter visto na rede aquela que ela prpria teceu para enlear a liberdade e honra da acusada.
Foi como se um vento passasse pelo recinto; todas as cabeas se moveram. Maria Letcia olhou um breve instante para o lado e continuou impassvel; houve um murmrio 
e depois silncio. A defesa prosseguiu:
 Quando o conselheiro Delegado de Polcia viu concluir-se o exame de corpo de delito, no cemitrio, dirigiu-se para a acusada a fim de procurar vestgios do crime, 
porm no encontrou nada.
O advogado continuou provando que os escravos do visconde no eram castigados; s o eram quando cometiam maldades. Disse que dois mdicos notveis asseveraram que, 
no auto do corpo de delito, no era possvel afirmar que a vtima Inocncia houvesse morrido devido aos castigos; e o Dr. Maranho, o ilustre mdico da famlia, 
j testemunhara que ela sofria de sncopes e que tratara dela mais de uma vez.
Maria Letcia mal respirava; parecia uma esttua. Quando o advogado falou sobre a testemunha Sebastiana que dissera ter ouvido sons de castigo, o promotor interrompeu:
 Ouviu tambm a voz da vtima pedindo que no a castigasse mais, pelo amor de Deus!
O Dr. Sales provou que a escrava Sebastiana, a maior testemunha existente, no era mais escrava, mas uma mulher livre, que lhe fora prometido, fora dado: carta de 
alforria para dizer o que no ouvira. E tudo era falso, pois atrs de tudo havia uma pessoa interessada em arruinar reputaes e relatara o nome dessa pessoa. Houve 
um momento de sensao e de ansiosa expectativa; a platia como que estremeceu quando o promotor percebeu que o depoimento da escrava Sebastiana foi falso no processo 
porque foi coagida a mentir para receber liberdade, quem nos diz que no foi coagida agora a mentir dizendo o contrrio?
A tristeza comeou a apoderar-se de mim ao ouvir acusaes fortes, mas no tive tempo de pensar porque o advogado leu prontamente:
        O nus da prova cabe a quem acusa. Se a acusao se funda em testemunhas que ela prpria aponta como versteis, foroso  concluir que nula  a prova em 
que assenta. Certo , porm, que Sebastiana foi subornada para perder a acusada, e no para salv-la. E no foi s Sebastiana; foram tambm Manuel, Damsio e Pedro, 
comprados como aquela para dizer o que no viram e o que no ouviram. Por outro lado  de se indagar por que os escravos do outro vizinho tambm no ouviram a voz 
de Inocncia implorando que a no castigassem mais? Se a distncia entre a casa da acusada e a dos vizinhos  a mesma, e eu o afirmo porque verifiquei in loco, todos 
os escravos desses vizinhos, e no somente os escravos do Comendador Menezes, teriam por igual ouvido tais gritos.
O promotor contraveio:
        Mas os outros vizinhos podiam estar ausentes da casa na ocasio.
O Dr. Sales revidou:
         uma suposio que no tem foros de argumento.
        Isso pode ter-se dado; e a vizinha da frente, Maria d'Angola, ouviu tambm sons de castigo, mas disse que no prestou muita ateno, insistiu o promotor.
O Dr. Sales replicou:
        Isso prova que os castigos no foram exagerados, nem demasiados, pois, se o fossem, todos os vizinhos prestariam ateno, e no somente os escravos de D. 
Deolinda. O depoimento de Maria d'Angola peca por falta de base;  uma antiga escrava, hoje livre, que reside numa casinha em frente  chcara e  muito dada a libaes 
alcolicas. Todo o mundo sabe, pois  bastante conhecida na cidade. A nobre Promotoria deve compreender que, se os escravos do comendador falaram a verdade, toda 
a vizinhana devia ter ouvido os castigos nessa noite, como em muitas outras noites ou dias consecutivos, segundo as testemunhas que disseram que os castigos da 
chcara do visconde eram brbaros e contnuos. Pergunto eu: Seria possvel que os vizinhos mais prximos no se queixassem nunca? No dessem parte s autoridades? 
No, Srs. Jurados,  falso, como  falsa desde a base toda a acusao.  inacreditvel. Disseram que, durante toda a no
 ite de quinta-feira, se ouviram sons de castigos e gritos na chcara do visconde, mas quem corrobora esse depoimento?
A promotoria respondeu:
 D. Deolinda Menezes.
 D. Deolinda Menezes e Maria d'Angola so as vizinhas mais prximas da chcara; uma no se encontrava em casa nesse dia, e outra disse que ouviu, mas no deu importncia 
aos gritos. No devemos esquecer, Srs. Jurados, que Maria d'Angola tambm foi escrava de D. Deolinda Menezes!
Toda a assistncia se agitou como tocada por um vendaval. A Promotoria revidou:
        Mas h uma testemunha que no foi escrava de D. Deolinda Menezes. Felcio Benedito...
        Felcio Benedito apenas ouviu contar o fato; no ouviu os gritos no dia da morte da escrava.
Nesse instante rezei a So Damio: So Damio, venha em socorro de Maria Letcia, salvai-a do abismo em que est submergida. Iluminai o Dr. Sales.
A Promotoria continuou a acusar:
 No ouviu nesse dia, mas em dias anteriores ouviu diversos castigos na chcara do visconde. Quando ele passava pela cidade, muitas vezes ouviu sons de que uma 
pessoa estava sendo aoitada...
 A nobre Promotoria deve concordar comigo que todo senhor de escravos tem o direito de castig-los quando cometem erros ou desobedecem a seus senhores. Disse que 
dias antes, passando pela chcara s quatro da tarde, ouviu sons de castigos; passando outra vez de noite, ouviu sons de castigos. E, como dias ocorreu a morte da 
escrava Inocncia, Felcio Benedito disse que Inocncia era castigada durante cinco horas por dia. Todos sabem que Felcio Benedito  amigo de Baco.
O Promotor interrompeu:
 Maria d'Angola podia estar ausente da casa entre quatro e a noite.
 Mas no estava. E diz que no se lembra muito bem.
O Promotor fez ento a pergunta capital:
        Mas oito anos so decorridos depois disso. Por que a acusada no veio a julgamento naquela ocasio?
Senti-me desfalecer e vi que tudo estava perdido. Rezei desesperadamente a Santo Onofre: Santo Onofre, agora  a sua vez. Valei-nos, meu santinho. Socorrei Maria 
Letcia. Auxiliai o Dr. Sales. Maria Letcia fez um leve movimento com a mo e ficou ainda mais plida. Ferno fez tambm um movimento como se quisesse levantar-se. 
O Dr. Sales respondeu:
        Porque para uma senhora, e ainda mais uma senhora da mais alta sociedade, era repugnante e deprimente ir para a casa da deteno e esperar julgamento, no 
s devido ao seu estado de sade, mas tambm porque era inocente e mesmo aos inocentes a priso e o julgamento inspiram repulsa.
Veio o marido responder por ela, mas os anos passados depois desse fato no permitiram que ela esquecesse a calnia infamante que sofreu e ei-la ento, diante de 
vs, Srs. Jurados, esperando a vossa sentena de justia. No  fcil para uma senhora enfrentar um Tribunal onde se rene a multido, arrostar o vexame de sentar-se 
no banco dos rus, ouvir as palavras cheias de dureza da Promotoria, encarar os Jurados, enfrentar os Juzes, ouvir os fatos relatados com toda a crueza e realidade, 
ser a figura central do julgamento, ocupando a posio humilhante de acusada e enfrentar a opinio pblica que muitas vezes se engana e acusa injustamente.
Parou e olhou todo o recinto. O silncio era profundo. Continuou:
        Precisamos espancar as sombras do erro, varrer as trevas da ignorncia, pois queremos luz, a luz transparente, a luz branca da verdade. Antes de terminar, 
cito uma frase de Foudras, pois nessa frase se baseia todo este julgamento: On se crotte soi-mme, quand on court sur la boue pour eclabousser quelqu'un! E nesta 
frase se baseia tambm o primeiro processo, assim como o sofrimento e as lgrimas de quase oito anos de dvidas, incertezas e trevas! Termino pedindo justia.
Justia, Srs. Jurados, para uma inocente, Justia para a mater dolorosa de cujo seio se quer arrancar o bando predestinado de crianas que so os seus quatro filhos, 
por via de uma condenao inqua e imerecida. Justia para quem como acusada j trocou a coroa de nobreza por essa outra de espinhos que uma odissia dolorosa de 
infortnios e de sofrimento. Justia!
Uma tempestade de palmas irrompeu pelo recinto; muitas pessoas abraaram o Dr. Sales. Percebi que papai estava profundamente comovido, apertei-lhe o brao para dizer 
que eu tambm estava. Depois, veio um silncio terrivelmente penoso, disso dependia a salvao de Maria Letcia. Creio que foi a nica vez em minha vida que percebi 
como  terrvel esperar.
Letcia continuava imperturbvel. Baixou os olhos e ficou olhando as mos. Nunca esperei tanto. E se ela fosse incriminada? Enquanto os jurados deliberavam na sala 
secreta, lembrei-me de quando Maria Letcia era criana. Voluntariosa, enrgica, quando queria qualquer cousa,  porque queria.
Lembro-me que mam Zabel disse que ela precisava tomar um remdio; ela disse que no tomaria e bateu o p: No. No. No.
Veio mame, veio papai, vieram vrias mucamas. Rodearam-na. Mame dizia: Beba. Ela respondia: No quero beber. Papai disse: Traga a toalha. Ela no se perturbou.
Colocaram uma toalha no seu corpo para prender os braos e papai veio com a colher de remdio. No colo de mam ela procurava fugir, gritava e se descabelava, enquanto 
isso as mucamas procuravam segurar-lhe as pernas. Com a colher, papai abriu-lhe a boca cerrada; veio o remdio.
Ela rejeitou a colher com tanta fora que quebrou um dente; houve gritos, sustos e sangue. E ela no engoliu o remdio que caiu pela toalha toda. Lembro-me de que 
houve comentrios e mam Zabel atirou o dente de leite com solenidade em cima do telhado. Disse que, se no jogasse no telhado, no nasceria outro. E Maria Letcia 
venceu.
Lembrei-me de quando ramos crianas, e ela dizia que eu era bobona e gua podre por que aceitava tudo sem recusar. Quando crescemos mais, ela trocou gua podre 
por gua.
Por qualquer cousa, dizia: Voc  uma gua. E quando batia o pezinho e dizia no, era no para a vida. E foi crescendo orgulhosa.
No fim de algum tempo que no sei dizer como se passou, ouvi uma voz dizer que a Viscondessa de Santarm fora unanimemente absolvida. A absolvio foi confirmada 
pela sentena do Meritssimo Juiz de Direito Presidente do Tribunal de S. Paulo. A alegria reinou em todo o recinto; respirei e sorri para ela. Estava de p, linda 
no seu vestido de veludo mostarda, e auxiliada pelo marido e por nossos irmos deu os primeiros passos para a porta de sada. Caminhei tambm ao lado dela e entramos 
na carruagem. Muita gente falava e dava os parabns e o povo se comprimia  volta do carro. Os cavalos comearam a trotar e respirei aliviada. Maria Letcia continuava 
estranhamente calma.
Nossa casa apresentava um movimento fora do comum; pessoas amigas vieram testemunhar solidariedade e congratular-se pelo bom trmino do caso. Mam Zabel e Modesta 
choravam de alegria; mame, Leopoldina, Francisca Miquelina, irmos e cunhadas riam e falavam abraando umas s outras, sem saber o que fazer. Carola passou correndo 
com um ramo de rosas-ch na mo; foi levar para enfeitar o oratrio do quarto, pois tinha feito uma promessa a Nossa Senhora do Rosrio. Maria Letcia recebeu as 
pessoas que a procuravam com palavras de agradecimento e aceitou as provas de amizade com um sorriso plido e distante. Num momento em que ficamos a ss num canto 
da sala, ela me disse em voz baixa:
        Agora vou para Santarm e nunca mais deixo a fazenda, acontea o que acontecer.
Perguntei:
        Ora esta! Por qu? Agora...
Vimos a Baronesa de Sobral que se aproximava, exuberante em palavras e gestos, o nariz pontudo como que furando o ar; estendeu a mo magra e seca, calada com mitaines 
de renda preta, dizendo com um sorriso melfluo:
        Oh! Maria Letcia, quero dizer, viscondessa, quanto me alegro! Sinto-me to feliz como se o caso fosse comigo. Parabns! Eu no disse sempre que D. Deolinda 
no  boa bisca? Foi ela quem fez tudo, hein? Comprou escravos prometendo casas e cartas de alforria... Mulher cousa ruim!
No pode falar mais; outras pessoas chegavam e falavam animadamente. Aninhas estava com o nariz vermelho, assoando-se com rudo. Alguns filhos do tio de Paiva que 
residiam no Rio de Janeiro vinham entrando para felicit-la. Diziam palavras amveis e comentavam a maldade de D. Deolinda Menezes. Foram todos unnimes em declarar 
que se Maria Letcia no tivesse pedido novo processo e no tivesse descoberto algumas testemunhas ainda do julgamento, uma dvida sempre havia de pairar em muitos 
espritos, mesmo os que diziam acreditar na inocncia dela, duvidariam. De um lado, Flix e o velho Lopes formou um grupo de que forma a polcia descobriu a verdade; 
muitas testemunhas haviam desaparecido; entretanto, trs ex-escravos de D. Deolinda Menezes compareceram  polcia. Aps horas de apertado inqurito, declararam 
que tinham recebido promessas de liberdade, casa e dinheiro, se dissessem que ouviram a viscondessa dar a ordem; a pessoa cumprira em p
 arte o prometido, mas no porque a viscondessa no comparecera ao Tribunal. A deixou de ser cumprida inteiramente. Esses depoimentos foram sensacionais. Apertaram 
o interrogatrio: E quem foi essa pessoa? Os trs homens hesitaram, titubearam com medo de uma vingana; refletiam olhando para o cho, e s resolveram contar quando 
a polcia resolveu proteg-los. Interrogados novamente, um deles olhou os companheiros como a pedir-lhes apoio; confessou em voz baixa e atemorizada: Sinh Deolinda.
Depois, os outros dois confirmaram as palavras do primeiro e causou perplexidade entre todos ns. Loureno falou:
 Como ela fez isso? A vizinha que se dava com eles, os convidava para jogar e para festas! Hipcrita!
Ele continuou:
 No primeiro momento, at a polcia duvidou: No era mentira daqueles negros? No seria uma calnia? Pois que ela sempre foi ruim para os escravos. Mas isso tudo 
foi esclarecido e a verdade transpareceu. Sobral sacudiu a mo calada de mitaine e disse: Ela  capaz de tudo, de tudo.
Maranho aproximou-se com um sorriso animado a Maria Letcia; o Cnego Soares tambm lhe apertou a mo calorosamente. Mas seus olhos amortecidos olhavam todos indiferentemente 
e seu sorriso era to triste como seu rosto. Mais tarde, ela me disse outra vez:
        Mana Rosa, a provao foi muito dura para mim. Enquanto estava no Tribunal ouvindo o Dr. Sales, uma idia surgiu na minha cabea, e foi ficando cada vez 
mais firme. Vou para Santarm e l ficarei at morrer.
        Meu Deus, agora que tudo vai bem, voc fala em ir embora?
        Ah!  porque voc no sabe o que  perder a f nas pessoas e na felicidade. Parece que no creio mais em nada; parece que tudo o que era bom e doce na minha 
vida desapareceu com a f. Voc no compreende isso. Adquiri, de repente, a certeza, a convico de que, enquanto viver, no serei feliz. Santarm ser para mim 
um refgio, uma espcie de esconderijo, um lenitivo para a enorme desiluso que tenho hoje do mundo e das pessoas.
        No diga isso... Tudo acabou bem, e voc poder ser to feliz ainda, tem Ferno, os filhos...
        No. Nada mais importa. Sofri muito; os anos podem passar, arrastar tudo com eles; tudo pode viver e fenecer. Viverei sempre  sombra desta lembrana, desta 
dor por que passei e tenho a certeza de que, por mais que tente libertar-me, no o conseguirei. Sinto-me como que meio morta...
        Qual! H de passar. Voc fala isso hoje porque ainda est sob a impresso do Tribunal, dos jurados, do juiz, do advogado da acusao. Foi mesmo deprimente, 
Maria Letcia, mas passou. Trate de esquecer e no tenha idias negras, Vocs tm a Chcara da Penha, to bonita, to agradvel para se morar.
Todas as visitas, os parentes e amigos foram deixando a casa; aquela nuvem negra que durante anos havia pairado sobre nossa famlia, havia afinal desaparecido. Maria 
Letcia sorriu feliz novamente;  noite, quando se despediu para ir para a chcara, eu lhe disse:
        Fui a nica que ainda no a cumprimentou, Maria Letcia. Graas a Deus, tudo acabou bem...
Ela me olhou sorrindo.
        Graas a Deus, mana.
Mas seu sorriso no era feliz. No compreendi por que, pois devia sentir-se venturosa ao realizar o que tanto desejou. Provou perante a famlia, perante o marido, 
perante a sociedade de S. Paulo, que era inocente. A intriga e a calnia haviam-na torturado durante esses longos anos; o corao nefando de Deolinda havia-a perseguido 
e maltratado, mas tudo terminara com a graa de Deus. Tudo terminara. Ela podia levantar a cabea bem alto e dizer: No dei ordem para matarem a escrava. Se morreu, 
no tenho culpa. Fora absolvida. Li ento uma frase sobre os caluniadores: Le demon la fraude, ce monsre trange et redoutable...
Manteve-se firme  resoluo de residir em Santarm; que as crianas, mesmo depois de crescidas, poderiam ficar com a governanta que os acompanhava desde a Europa, 
era muito instruda. Mais tarde, mandaria contratar um professor de dana e outro de msica.
Na Chcara da Penha, eram grandes os preparativos para a mudana definitiva; encaixotavam-se louas, enrolavam-se talheres, a azfama era geral, como se aquilo fora 
o fim de tanta cousa irremedivel. Maio havia chegado; as chuvas, naquele ano, comearam a cair incessantemente.
Ficou tudo alagado; as plantaes, as ruas; e at o crrego da chcara cresceu como um ribeiro. Leopoldina tentava, por todos os meios possveis, dissuadir Maria 
Letcia de ir para Santarm; eu estava na chcara auxiliando-a. Leopoldina ia todos os dias para l a fim de convenc-la, ela continuava inflexvel. Numa quinta-feira 
fria Leopoldina passou horas conversando conosco a fim demover a irm uma vez mais. As crianas brincavam no canto da sala, no podiam sair devido ao tempo.
Depois do ch, despediu-se e fomos at o porto acompanhar at a carruagem. A rua parecia deserta, a chuva teimosa e fria continuava a cair; o ar estava mido e 
as plantas, como que cansadas de tanta gua, inclinavam os galhos pesados.
Nunca mais, na famlia, falamos sobre o julgamento de Maria Letcia; papai disse que o melhor era pr uma pedra em cima. E assim foi; ningum ousava tocar na pedra. 
Os Menezes continuavam a residir na chcara vizinha, mas nunca mais os vimos, nem deles ouvimos falar; Modesta contou que estavam tambm de mudana, para o Rio de 
Janeiro.
Depois que Leopoldina partiu com os filhos, Maria Letcia e eu ficamos  janela, vendo a chuva cair. Vimos umas negras subindo a ladeira. Duas delas equilibravam 
na cabea tabuleiros, cobertos de panos devido  chuva. Passaram por ns e de longe ofereceram doces: sacudimos a cabea para dizer que no queramos. Maria Letcia 
disse:
        Os doces devem estar molhados, com esta chuva...
Perguntei:
        Que doces sero?
        Quindins, pastis de nata, cocadas... Uma vez Paulo pediu para comprar alguns e vi o tabuleiro; tudo muito arranjadinho, muito limpo, d gosto ver. So 
negras forras que vivem de vender doces na cidade.
Elas tinham parado no alto da ladeira e descansavam, as cabeas cobertas com panos brancos; os tabuleiros estavam colocados no cho, perto de um barranco. Foi ento 
que vimos Casimiro, o filho de D. Deolinda Menezes, sair  rua com um chicote na mo; era um belo rapaz de dezoito anos, louro e corado. Modesta que estava por trs 
de ns,  janela, falou:
        Um dia esse moo ainda sofre um desastre. T domando a paria do carro novo que compraram; so uns cavalo preto, danado.  perigoso porque os cavalos so 
bravo. Sinh j viu?
E por trs de ns mostrou o escravo que vinha conduzindo o carro novo puxado por dois cavalos negros. Num pulo, o rapaz subiu  bolia e empunhou as rdeas; admirei 
a destreza e elegncia com que o rapaz dominou os cavalos impacientes; Maria Letcia comentou o quanto ele era bonito. No ar pairava agora apenas uma leve garoa, 
a chuva quase desaparecera. Casimiro estava sem chapu e os cabelos alourados reluziam molhados pela chuva. No se importando com as ruas enlameadas aprontou-se 
para dirigir o carro e ordenou ao escravo que largasse os cavalos. Vimos as negras dos tabuleiros, interessadas pelo rapaz, seguir os movimentos dele, enquanto uma 
delas tirou um cachimbo do bolso da saia, acendendo-o e tirou uma fumaada. Quando o escravo largou os cavalos, fez uma advertncia ao rapaz, com certeza sobre a 
lama da rua; vimos Casimiro sacudir os ombros num gesto de desafio, e, dando um estalo leve com o comprido chicote, obrigou os cavalos ao trote. Ao partir
 , fez um sinal a algum que se ocultava numa das sacadas da casa vizinha; Maria Letcia sussurrou que devia ser D. Deolinda. Acompanhamos Casimiro com o olhar; 
vimos seu pulso forte dominar os cavalos com percia; l no fim da rua, voltou em rpido galope.
As vendedoras de doces falaram alto, entusiasmadas; a negra com o cachimbo, apontou-o para Casimiro, rindo alegremente. Olhamos outra vez para o carro; os cavalos 
obedeciam a Casimiro, mas percebia-se que o faziam com certa relutncia, ainda no estavam habituados ao carro. Num esforo que o rapaz fez para cont-los, inclinava 
o busto para trs e via-se ento o seu belo rosto banhado de umidade; airoso e gil, volteava o chicote no ar e, cada vez que passava diante da casa vizinha, dava 
um adeus para a pessoa oculta atrs da cortina. Subiu novamente a rua, procurando cansar os animais; tornou a desc-la num trote largo. O cu estava cinzento-escuro, 
carregado, ameaador. As vendedoras seguiam a corrida do carro, com interesse; a negra do cachimbo tirava grandes fumaadas e falava com animao. Casimiro tornou 
a passar para dizer adeus, e de sbito, no fim da descida, ouvimos o barulho de madeira quebrada, depois gritos estridentes e aflio s
 eguida, um grito agudo de mulher, to desesperado prolongado que abafou os outros rudos.
As negras dos doces desceram a ladeira com as mos abanando, aflitas, aos gritos, deixando os tabuleiros ao lado, esquecidos sob a chuva.
Debruamo-nos no parapeito da janela para ver o que tinha acontecido e presenciamos ento um espetculo horroroso: Casimiro cara do carro, mas um dos ps ficara 
preso e os cavalos o arrastavam, pisando-o vrias vezes; o carro ia aos saltos, levando o corpo dele. Com um leve gemido, Maria Letcia tapou os olhos com suas mos, 
no querendo acreditar no que via; dei um grito agudo de horror e no mesmo instante grande alarido em toda a rua. Os escravos de D. Deolinda, os vizinhos, Tomsio 
e Modesta, correram para acudir, cheios de espanto e terror. Em baixo da ladeira, os cavalos pararam, afinal; o carro estava desmantelado, e uma das rodas separou-se 
do carro e rodou sozinha at encostar num barranco, metros alm. Deixamos a janela, descemos as escadas e corremos ao porto do jardim. Todos corriam e se aprestavam 
para auxiliar. S ento vimos D. Deolinda Menezes passar por ns; levava as mos  cabea e gritava, enquanto suas saias de seda
 se arrastavam na lama pegajosa da rua; sua voz era rouca e angustiada, a fisionomia estampava desespero: Meu filho! Meu Casimiro!
Ficamos imveis no porto, sem conseguir desviar os olhos da me desesperada; era horrvel; as mos de Maria Letcia tremiam enquanto apertavam contra o peito a 
mantilha de l. Murmurou:
        Mana Rosa, o que ela mais amava no mundo era esse filho.
Tudo fora muito rpido, no havia possibilidade de o rapaz ainda estar com vida; l embaixo, os gritos eram cada vez mais estridentes, lancinantes; entre todos, 
sobressaa o grito da me: Ca-si-mi-ro! E o eco repetia no sei onde: Ca-si-mi-ro!
Vimos o grupo fnebre subindo devagar a ladeira enlameada; dois negros carregavam o rapaz, cuja cabea estava irreconhecvel  um monte de lama e sangue; ao lado 
deles, a me angustiada tropeava nas poas d'gua, arquejava, chorava e procurava amparar com carinho um dos braos do filho, quase separado do corpo. Uma das vendedoras 
de doces levava entre as mos a botina do rapaz; as outras diziam:
        Virge do Cu, to bonito, com aquela cara de anjo, quem havera de diz.
Nesse momento, o comendador saiu da casa e foi ao encontro do grupo. Parecia uma figura sinistra; quando compreendeu o que havia acontecido, no pde chegar at 
onde estava o filho, como se fosse demasiado para ele; caiu de joelhos no cho, arquejando num estertor. Depois, o tronco tombou pesadamente para a frente, tal qual 
uma rvore derrubada a machado; e ficou deitado, o rosto contra a lama todo encharcado de gua, at que Modesta e outros escravo, solcitos, o levantaram e levaram.
A rua encheu-se de gente no mesmo instante; comentavam o acidente; falavam todos ao mesmo tempo querendo explicar como se dera o fato; entre gritos e explicaes, 
outros escravos traziam pela rdea um dos cavalos, o outro ficou no mesmo lugar com uma perna quebrada, iriam mat-lo mais tarde.
Maria Letcia entrou e eu ainda fiquei olhando; vi as vendedoras de doces deixarem a casa falando alto e dirigirem-se para onde haviam deixado os tabuleiros; ficaram 
conversando ainda durante algum tempo, depois uma delas tornou a pegar o cachimbo do bolso da saia e tornou a acend-lo. Colocaram os tabuleiros na cabea e foram 
andando devagar; vez em quando, olhavam para trs e falavam; a do cachimbo, apontava-o para o fim da rua, onde se dera o desastre. Fui ver Maria Letcia que estava 
com os filhos na sala de jantar; passou o resto da tarde quase sem falar e nem a ouvir os comentrios de Modesta. Quando Ferno chegou, sabia de tudo; um escravo 
fora contar l onde ele estava. Jantamos em silncio, depois ficamos olhando atravs da vidraa. Como aconteceu algumas vezes, a chuva passara, s a cerrao estava 
forte, envolvendo a cidade manto escuro. Anoiteceu. Ferno e Maria Letcia ficaram silenciosos, sem coragem de falar, apenas olhando a esc
 urido que se fazia l fora cada vez mais densa. De vez em quando, ouvamos um grito na casa vizinha; era algum chamando outro algum: Ca-si-mi-ro! Mas ningum 
respondia, e as trevas iam crescendo e, com elas, a cerrao. Maria Letcia foi para o meu quarto durante a noite, no conseguia dormir. Com a mo sobre o corao, 
como a querer parar as pancadas aflitivas, ouvia a voz torturada chamando pelo filho nas horas mortas da noite, mas s o silncio respondia ao apelo angustioso,
A voz torturada gemeu e gritou a noite toda, at a Lua aparecer num canto do cu: Casimiro! e o eco vindo no sei de onde, como a brincar: Casimiro!
Em Santarm, Maria Letcia procurou adaptar-se para o resto da vida, como dizia; mau grado sua mocidade, completara trinta anos de idade, procurava o isolamento 
que sua alma sempre ambicionara e o desejo tanto tempo alimentado de viver  margem, quase isolada. A pedido dela e de Ferno, acompanhei-os; Ldia no se separava 
de mim. Organizamos horrios para os estudos das crianas como se estivessem na cidade; Ferno mandou fazer um galpo perto do pomar, onde os meninos estudavam nos 
dias de sol, quase ao ar livre. Tambm comprou livros e assinou revistas estrangeiras para no perder completamente o contato com o mundo; de quinze em quinze dias, 
recebamos jornais que papai mandava de S. Paulo; ento, metodicamente, Maria Letcia punha-se a l-los pela ordem das datas.
Carola foi para Santarm passar algum tempo; j tinha dezenove anos, mas uns dezenove anos fracos, raquticos, doentios. No crescera quase e continuava plida e 
magra, o comprido nariz a salientar-se na magreza do rosto e no dava mais belisces, nem alfinetadas nas escravas, e seu rosto adquirira um ar tristonho. Sua vida, 
porm, encontrara afinal um objetivo; cantava.  noite, quando Maria Letcia tocava piano na sala grande, ela cantava acompanhando; sua voz, embora fraca, era agradvel. 
Mame mandara-a estudar canto durante alguns anos e proporcionara-lhe a felicidade; Carola encontrara alegria em seu caminho, pois enquanto cantava esquecia seu 
mal. Esquecia sua desdita e na sua vozinha trmula parecia pulsar toda a tortura de sua alma doente. Quando eu a via, feia e triste, cantando ao lado de Maria Letcia, 
esquecia a deformidade que a infelicitava e s reparava na voz, aquela voz harmoniosa que se elevava no silncio da fazenda, cantand
 o as tristezas de sua vida. Parecia um passarinho encarcerado de asa quebrada; muitas vezes, quando cantava, dava toda uma escala inesperada, como um desabafo. 
Durante o dia, fazia croch; eram metros e metros de croch que saam de suas mos amareladas: toalhas, colchas, roupa branca, entremeios, enfeites. s vezes, ia 
dar um passeio a p e em algumas dessas ocasies Maria Letcia e eu fomos encontr-la sentada num canto do pomar, sobre folhas secas, a riscar o cho com um pauzinho. 
Maria Letcia perguntava:
        Que est fazendo, priminha? A vozinha fina respondia:
        Olhando as formigas.
Certa ocasio Bonifacinho e os dois filhos mais velhos de Leopoldina foram passar as frias em Santarm; houve grande animao na casa. Os quartos de hspedes foram 
abertos e arejados; das gavetas, quase emperradas, das grandes cmodas, foram retiradas colchas da ndia, lenis de linho, toalhas de croch para os consolos e 
as mesas. Todos os dias organizavam-se passeios a cavalo; almoos na mata, banhos no ribeiro, entre gritarias e brincadeiras; Bonifacinho j estava com dezessete 
anos, no era muito alto, mas forte e cheio de vivacidade; ria-se quando recordava os tempos em que usava os cabelos em cachos; andava o dia todo de esporas e dava 
galopadas loucas atravs dos campos, esporeando os animais.
Quando as aulas foram reiniciadas e os meninos voltaram para S. Paulo, Carola tambm voltou para continuar as aulas. Maria Letcia e eu ficamos novamente ss as 
com crianas. Ferno viajava continuamente; ora estava em S. Paulo, ora na fazenda; dirigia tambm os negcios da me.
Um ano depois que estvamos em Santarm, tio Antnio voltou da Europa e refugiou-se na fazenda. Gastara tudo que mais possua e no tendo terras para vender, nem 
tendo direito  fazenda que herdara, foi viver em Santarm com Maria Letcia e Ferno. Estava velho; com cinqenta e poucos anos, mas davam-lhe muito mais; bigodes 
grisalhos caam-lhe sobre a boca e tinha os olhos empapuados. Comparava a vida a uma fruta, dizia que se deve tirar todo o suco enquanto se pode, segundo essa teoria, 
espremera a fruta de tal forma que nada mais restava, nem bagao. Sua velhice era como a fruta espremida; no conservara amizades, afeies, carinhos. Somente recordaes, 
o que ele ainda achava muito.
Andava  cavalo uma vez ou outra; vivia deitado na rede com uma pilha de livros e revistas estrangeiras ao lado. Maria Letcia se sentava ali perto para costurar, 
deixava a revista cair das mos e comeava a falar da Frana; ento seus olhos adquiriam novo brilho e, entremeando palavras inteiras em francs, contava episdios 
que Maria Letcia ouvia com complacncia, confirmando com a cabea de quando em quando. s vezes, dormia na rede, longas horas, a boca aberta e a cabea pendida 
para um lado.
Muitas cartas chegavam com freqncia a Santarm, contando novidades; Leopoldina escrevia:
Queridas manas:
Temos tido bons espetculos ultimamente; o Rossi conseguiu encher o S. Jos duas noites consecutivas, pela primeira vez. Maria Letcia no se anima a vir assistir? 
Por que esse degredo, essa amofinao? Sentimos tanto a ausncia das manas. Venham.
Adelaide que estava passando uns tempos em So Paulo, escreveu tambm:
Querida Maria Letcia:
J deve saber pelos jornais que papai mandou, que vamos ter uma Companhia Lrica de primeira ordem em S. Paulo, graas a Deus. Vamos ouvir o Trovador, Huguenotes, 
Rigoletto, pela Maria Duran e Bassi. Estou to feliz! Nunca assisti a nada disso e estou emocionada. Como pode a mana viver assim longe de tudo? Creio que somos 
bem diferentes uma da outra; nossos pais sofrem com seu exlio voluntrio. Venha ao menos no fim do ano.
Saudades de Adelaide.

Mais cinco anos decorreram, longos e silenciosos. Sem emoes, sem vibraes, sem movimento. E a vida passou como as guas paradas de um lago numa planura deserta; 
no havia ondas no lago e, se as houvesse, no perturbariam a superfcie sempre lisa, igual e montona como a de um espelho. A vida refletida nesse espelho era to 
estreita que no empanava seu brilho; todos os dias a mesma rotina; tudo rodava como a grande roda de um moinho e s se ouviam rangidos, s vezes, o nico rudo 
a perturbar o silncio de Santarm. Blen... Blen... Blen... O sino chamando os escravos na roa, os sinos avisando a hora de seguir, a hora do almoo, a hora de 
voltar. Ricardo socando o pilo todos os dias, espalhando para longe as casquinhas de arroz. Quando o sol a pino parecia incendiar a fazenda, o papagaio gritava 
do seu poleiro na cozinha: Soca, Ricardo, peste do diabo! E Ricardo socava.
Nas noites de luar, ouviam-se tmidos sons de viola, l para os lados das senzalas e de vez em quando uma voz no silncio, uma voz medrosa e cheia de nostalgia. 
Saudade. Vontade de chorar. E silncio. Silncio a imperar por toda a vastido; at o ribeiro corria em silncio. Somente no charco, os sapos coaxavam durante a 
noite; e ao anoitecer,  hora do crepsculo, um nambu chamava outro com gritos breves e as saracuras gritavam: Quebrei trs potes! Umas s outras. Um co levantava 
o focinho para a lua e uivava tristemente at que um grito o fizesse calar. E o silncio voltava de novo, a imperar mais fortemente por toda a vastido. Silncio 
dos lugares ermos, sem vida, onde os dias so muito longos e as noites quase infinitas.
No decorrer desses cinco anos, fui duas vezes para S. Paulo e por duas vezes tornei a voltar para Santarm. Maria Letcia foi apenas uma vez, quando papai teve uma 
congesto e ficou meio paraltico do lado esquerdo. Encontramos ele convalescente, livre de perigo; recebeu-nos recostado nos travesseiros altos e quando viu Maria 
Letcia entrar no quarto ficou aflito, seu olho direito estremeceu e encheu-se de lgrimas; o esquerdo continuou estranhamente parado e fixo depois que nos inclinamos 
para beijar-lhe a mo. No falava com voz possante que fazia vibrar o casaro, falava balbuciando as palavras e a face esquerda estremecia de leve ao movimento da 
boca, como se fosse repuxada.
No dia seguinte, mame contou-nos entre lgrimas que o causador dessa desgraa fora Loureno. Ultimamente, Loureno andava querendo casar com uma moa de m fama, 
e ele no queria o casamento; um dia, papai e ele altercaram fechados no escritrio; mame estava de fora escutando e ouviu papai dizer: Se continuar com essa maluquice, 
ser expulso desta casa. Francisca Miquelina, interrompeu a mame:
 Que maluquice era essa a que papai se referia?
 O casamento. Loureno disse ao pai que ia casar-se com a moa.
Olhamos admiradas para mame; Leopoldina e nossas irms escutavam em silncio. Francisca Miquelina perguntou: Mas ele falou em casar com a moa? Maria Letcia sacudiu 
a cabea, reprovando; mame enxugou as lgrimas e continuou:
 Ah! Minhas filhas, o que temos sofrido por causa de Loureno. A princpio, no queriam que eu soubesse e andaram ocultando o fato, depois fiquei sabendo de tudo 
por mam Zabel. Isso vem durando h uns quatro anos j, nem sei mais. Loureno teimando sempre, no queria deixar esse namoro. Tem sido uma luta.
Maria Letcia perguntou, resoluta:
        Por que no mandaram Loureno para a Europa?
        Tentou-se tudo, nada ele quis. Na semana passada, apareceu aqui muito agitado, dizendo que se tinha casado nessa manh.
Olhamo-nos umas s outras, atoleimadas; falei, horrorizada:
        Casado? Ento Loureno casou? Santo Onofre, valei-nos!
Mame tornou a chorar; depois mais calma:
        Casou-se com a rapariga; seu pai, quando ouviu a nova, ficou branco e levantou-se dizendo: Saia desta casa, filho desobediente! J. Eu gritei: O senhor 
se esquece de que Loureno  nosso filho? Mas ele foi intransigente. Havia dito, um dia, que expulsaria Loureno se ele se casasse, e expulsou.  homem de palavra.
Houve uma pausa; Leopoldina e Francisca Miquelina escutavam de cabea baixa. Mame falou chorando:
        O baro ficou desesperado. Disse que Loureno havia desprezado... as tradies do nome e da... famlia, casando-se com uma rapariga sem nome, sem bons costumes, 
sem distino. Chegou a dizer que ele havia desonrado nossos cabelos brancos... Foi horrvel de se ouvir, principalmente quando o expulsou.
Maria Letcia perguntou:
        E Loureno? Que fez?
        No disse uma palavra. Pegou o chapu que estava sobre uma cadeira e saiu. Antes de sair, olhou para mim e isso me cortou o corao. Essa cena foi depois 
do jantar, podia ser umas cinco horas. Nessa noite, seu pai teve a congesto.
Escutvamos, consternadas. Depois Francisca Miquelina perguntou em voz baixa:
        E a rapariga no presta mesmo?
Mame assoou-se e disse:
        A moa no sei quem , nem quero saber; mas a av dela foi mulher-dama. Viveu muito tempo com um homem sem ser casada e j tinha cinco filhos quando resolveu 
casar.
Leopoldina acrescentou:
        Os filhos eram todos naturais; e a me da moa  uma das filhas desse casal.
Francisca Miquelina juntou as mos:
        Viviam amancebados? Que horror! e o pai dela, quem era?  de famlia conhecida?
Eponina explicou:
 No sabemos, vieram do interior. Gentalha. Dizem que so pobres, mas direitos, moram numa casinha l pela Estao do Vergueiro. No sei, s se sabe que a av foi 
cousa  toa.
Arrisquei a medo:
        Quem sabe at so gente boa? E que culpa tem a neta, se a av no prestava? Pode ser muito boa moa...
Mame interrompeu-me asperamente:
 A raa  que vale; se a av no prestava, como quer que a neta preste? No diga asneiras, Rosa.
        A raa em primeiro lugar, no se esquea disso, advertiu Leopoldina.
Maria Letcia perguntou:
 Como  que Loureno, de uma famlia como a nossa, foi gostar de uma rapariga de uma famlia to baixa? No compreendo.
Leopoldina suspirou:
        Como se pode saber? Loucuras da educao moderna. No reparou nos modernismos de hoje? Em vez de procurar uma boa moa para se casar, preferem qualquer 
uma por a. So liberdades de que os moos de hoje abusam. O resultado  casar com uma desconhecida! Ou, ento, devia casar com a vizinha, como papai sempre diz: 
casai vosso filho com a do vosso vizinho. Dava mais certo.
Suspirei:         que infelicidade! E Loureno era to bom! Nunca vi isso dele. Nem eu! Nem eu! Rodeamos mame que recomeava a chorar, sentada numa cadeira baixa, 
de palhinha, o rosto entre as mos. Carola que estava num canto escutando, no disse nada. De repente, lembrou, com um arzinho assustado:
 Nossa Senhora da Boa Morte! Que no dir a Baronesa Sobral?
Na tarde desse mesmo dia, levamos um susto muito grande: estvamos tomando o caf do meio-dia na sala de jantar, quando o mordomo Benedito cochichou qualquer cousa 
ao ouvido de mame. Vi o rosto dela transfigurar-se, e, olhando para todos, comeou a tremer enquanto suas mos, que serviam o caf, deixaram o bule e comearam 
tambm a tremer. Leopoldina notou e levantou-se, assustada:
        Que h mame?
Maria Letcia ficou indecisa e perguntou tambm, olhando  volta:
        Aconteceu alguma cousa?
Mame serenou um pouco; fazendo sinal para esperarmos, tomou um pouco d'gua que Benedito j havia posto na sua frente; bebeu uns golinhos e, depondo o copo sobre 
a mesa, falou baixinho para todas ns que espervamos curiosas:
        Loureno est a! Soube que o pai est doente e pediu para v-lo.
Olhamo-nos, perplexas; Maria Letcia foi a primeira a falar, os lbios cerrados:
        Impossvel! Papai no o receber!
Falei:
        Coitado! Papai est to doente... Quem sabe, falando com ele...
As mos de mame tornaram a tremer.
        No falemos nisso, eu conheo o baro. Se ele expulsou Loureno,  porque no quer saber dele. Eu sei.  um homem de palavra.
Leopoldina perguntou, conciliadora:
        E se tentssemos, mame? Quem sabe?
Reunimo-nos mais estreitamente para deliberar, enquanto Benedito foi avisar Loureno que voltasse mais tarde,  hora do jantar. Depois do concilibulo secreto, Leopoldina 
e eu fomos em primeiro lugar falar com papai e ver se conseguiramos a reconciliao. Entramos no grande quarto que, com as rtulas cerradas, estava quase s escuras; 
papai, sentado numa poltrona de veludo marrom desbotado, tinha uma bengala grossa ao alcance da mo direita; servia-lhe de apoio quando se levantava, ou para bater 
com fora na cadeira prxima a fim de chamar algum. Leopoldina abriu um vozinho numa das rtulas para poder observar a fisionomia de papai quando comeasse a falar; 
arranjei-lhe a almofada sob a cabea, vi se havia gua fresca na moringa de barro, enquanto Leopoldina perguntava se ele queria alguma cousa; depois, sentamo-nos 
ao lado dele e Leopoldina foi firme ao assunto:
        Papai, tenho muita pena de Loureno.
Ele agitou a mo direita que descansava sobre uma das mesas, e segurou a bengala; nada disse. Ela continuou:
        Acho que ele  infeliz, afinal de contas; agora mesmo estava falando nisso para Mana Rosa. Depois, deve estar to arrependido! Tenho pena dele.
Confirmei com a cabea e acrescentei:
        Eu tambm.
Leopoldina repetiu:
        Muita pena mesmo.
Silencio. Espiamos o rosto de papai. Falei mais animada:
        Quantos rapazes no do cabeadas para depois se arrependerem? Ele  um coitado e deve estar arrependido. No , Leopoldina?
Leopoldina ia falar, mas papai falou antes dela, com dificuldade:
        Por que no me falou antes? No  assim, chegar ante de mim e dizer: Casei-me hoje. Isso no se faz. A lngua enrolava-se-lhe fazendo as palavras brotarem 
entrecortadas. Leopoldina ouviu as palavras balbuciantes e disse:
        Ora, papai, so loucuras da mocidade; defeitos da poca moderna. Ele foi sempre to bom, to obediente...
Pausa. Perguntei:
        Ele sempre foi bom filho, no papai?
Ele no respondeu e sacudiu de leve o ombro direito, Leopoldina falou, um tanto receosa:
        Nosso pai devia perdoar-lhe. Temos tanta pena dele.
Papai agitou-se de novo levantando a bengala que continuava a segurar:
        Nunca. No me fale nisso. Nunca. E bateu a bengala no cho como se golpeasse algum, olhei depressa para Leopoldina que estava um pouco assustada, suspirou 
e mudou de assunto, completamente desanimada:
        No sente calor, papai? Alberto disse que este ano as chuvas vm atrasadas e vo estragar a colheita.
Papai concordou com um ligeiro aceno da cabea. Minutos depois, Leopoldina e eu voltamos  sala de jantar, onde as outras esperavam, ansiosas, o resultado da conversa:
        Ento? Conseguiram?
        Nada. Diz que nunca perdoar a Loureno. Mame suspirou:
        Minha Nossa Senhora! Tenha pena de ns! Francisca Miquelina olhou para Maria Letcia:
        E se fssemos tentar, Maria Letcia? Leopoldina sorriu, como a desafi-las:
        Tentem. Ns nada conseguimos.
Francisca Miquelina ps o filho pequeno no colo de Eponina, enquanto Maria Letcia acabava de mastigar um biscoito:
        Vamos ento. Mana Rosa, vamos tambm.
Mame olhava fixamente a mesa; dirigimo-nos silenciosamente para o corredor escuro, Maria Letcia fez Francisca Miquelina parar um instante:
        Francisca Miquelina nunca mais tivemos ocasio da conversar; eu queria saber sobre aquela conversa... h tantos anos atrs. Lembra-se? Quando voc estava 
para ter o primeiro filho, e eu e Mana Rosa estvamos no seu quarto. Sobre Rodolfo.
        Rodolfo? Vai bem. Voc quer saber sobre a Ambrosina, no ?
Confirmamos com a cabea. Ela baixou a voz:
        Vai do mesmo jeito. No h remdio, Rodolfo continua com a Ambrosina l em casa. E a Ambrosina anda arrogante, quer tudo para os filhos dela, do bom e do 
melhor. Ah! Eu tenho sofrido!
        Ela tem filhos?
        Tem. A nica diferena  que ela tem dois e eu tenho quatro; e no posso impedir que meus filhos brinquem com os dela o dia inteiro. So amigos.
Maria Letcia quase deu um grito. Olhamos assustadas uma para a outra:
        Como, Francisca Miquelina? Os filhos brincam juntos? Mas isso  indigno de um homem de bem. Como pode Rodolfo permitir tal cousa? E voc no se revolta?
Perguntei:
        Por que deixa? No devia deixar.
        J me revoltei muitas vezes. O que adianta? O melhor  fingir que no se sabe; temos que abafar nossas revoltas nesse mundo. O que fazer? H muitos maridos 
que se amancebam com as escravas, o meu no  o primeiro, e nossa me diz que nosso dever  aceitar a situao. Conheo muitos assim...
Terminou sacudindo os ombros num gesto de indiferena repetindo:
        Muitos!
O semblante de Maria Letcia tornou-se zangado; falou com uma expresso colrica, batendo uma mo na outra:
        Mas h certos fatos que nos deixam revoltadas. E mesmo que a gente queira esconder, no  possvel. Esse, por exemplo, eu no suportaria. Ah! Nunca suportaria! 
Ver meus filhos brincando com os filhos da escrava? Nunca! Falaria com ele, contaria a toda gente, mas no ficaria quieta. No sei, mas alguma cousa me diz que nossas 
filhas ou nossas netas tero outra viso que no a nossa...
Francisca Miquelina sorriu palidamente e levantou a mo num gesto vago, mas nada disse. Arranjou a gola do vestido.
Fizemos um momento em silncio, depois nos dirigimos para o quarto de papai, no fim do corredor. Maria Letcia ia  frente, murmurando:
        Que vida triste a sua, mana! Que vida triste!
Sentaram ao lado de papai, perguntaram se se sentia bem, se tudo estava em ordem; depois, puseram-se a conversar a respeito do tempo, da Companhia Lrica, dos filhos, 
papai escutava, interessado, e dava um ou outro aparte. Maria Letcia falou:
        Papai precisava ver como Ldia  estudiosa! Fica horas inteiras com o livro na mo, l tudo o que pode. No  mesmo Rosa? E o que no pode tambm; outro 
dia surpreendi-a com um romance francs de tio Antnio...
Papai, que estava sorridente, franziu o sobrolho, Francisca Leopoldina tomou a palavra:
 Meu pai precisava ver Aninhas recitar Meus oito anos. O mais engraado  que ela apenas tem sete e diz que pode bem ter saudades dos oito anos porque ainda no 
chegou. Por mais que se lhe diga que s se tem saudades do que passou,  intil. Diz que tambm se pode ter saudades do que est para vir... Rimos. A fisionomia 
de papai alegrou-se outra vez. Maria Letcia continuou:
 E o Antnio Ferno que quer estudar medicina? S pensou e resolveu. Paulo quer ir para a Europa, estudar pintura, como mano Incio. Acho lindo ser pintor, e, quando 
mano Incio nos visitou em Paris, Paulo impressionou-se, no se lembra, mana Rosa? Diz que quer ter uma barba loura e grande como o mano e uma gravata com lao esvoaante. 
Maria gosta de msica; tenta tudo quanto toco, gosta mesmo de piano. Francisca Miquelina interrompeu:
        Ah! Isso os meus tambm. Principalmente quando me vem tocando harpa, todos querem estudar tambm, at j andei dando umas lies a Aninhas.
Continuaram por algum tempo ainda, cada qual fazendo sobressair as qualidades dos filhos; de um lado, eu abanava papai com um leque para as moscas no pousarem nele. 
De repente, lembraram-se do motivo que as levara ali; olharam-se em silncio e Maria Letcia falou:
        Meu pai, ficamos to tristes hoje... No, Francisca Miquelina?
        Nem fale.
Papai olhou-as interrogando; Maria Letcia hesitou antes de mentir:
        Soubemos que... que mano Loureno est doente...
Fixaram os olhos em papai e ficaram esperando. Nada.
Ento Francisca Miquelina acrescentou com voz entrecortada:
        E bem doente... Pobre Loureno! To bom e nosso amigo. Lembra-se, Maria Letcia, como ele sofreu quando voc foi julgada no Tribunal? Como se revoltou! 
Quis at matar a pessoa que mandou a carta annima.
Maria Letcia, que no gostava que tocassem no caso e at papai j tinha pedido para pormos uma pedra em cima, irritou-se; voltou-se para Francisca Miquelina e fez 
um gesto incontido de revolta, os olhos fuzilantes:
        Por que falar nisso agora? Ora esta! guas passadas... Voc parece gostar de recordar certas cousas...
Abanei papai com mais fora; Francisca Miquelina sorriu timidamente e baixou a cabea como a pedir perdo de ter tocado na ferida; Maria Letcia esperou um instante 
para se acalmar e falou:
        Papai, soubemos que Loureno est arrependido, muito arrependido de ter-se casado...
Os dedos da mo direita de papai comearam a se abrir e fechar, abrir e fechar; de sbito, fecharam-se sobre o casto da bengala. Francisca Miquelina, no reparando 
nesses sinais evidentes de clera, manifestou-se diretamente.
         Papai, dizem que a mulher dele  boa; os pais dela tambm so bons, s a av  que no prestava...
No concluiu. Papai espumava de raiva; o olho direito brilhava de dio e a boca se movia, mas no articulava som algum. A longa barba, quase inteiramente branca, 
agitava-se-lhe sobre o peito; levantou a bengala  altura da cabea das duas e conseguiu dizer:
        No me fa... lem nesse filho in... gra... to. Nem uma palavra. No quero saber de...le. J dis...se mais de u... ma vez.
E bateu a bengala com tanta fora na cadeira da frente que o leque caiu de minha mo; as duas estremeceram. Maria Letcia ficou estarrecida; tomei um copo com gua 
e levei-o aos lbios de papai:
        Tome um pouco d'gua. No falemos mais nisso, nosso pai no quer.
Francisca Miquelina, emocionada, levantou-se e aproximou-se da janela, procurando uma frase qualquer para esquecer o incidente; falou, satisfeita, olhando atravs 
da rtula:
        Maria Letcia, venha ver nossos maridos que vm chegando. Flix tambm est com eles. Vamos saber que novidades nos trazem e mandar buscar caf.
Aliviadas, deixamos o quarto. Chegando  sala de jantar, quando os homens acabavam de entrar, encontramos Leopoldina, curiosa por saber o resultado da conversa com 
papai:
        Ento manas? Foram bem sucedidas?
        Nada. Nada conseguimos. Leopoldina fitou-nos, meio zombeteira:
        Eu j sabia.
Aquela tarde era de carnaval; desde dias antes, Aninhas, Antonina, Leopoldina e eu nos reunamos num cmodo pegado  despensa a fim de preparar laranjinhas para 
os rapazes se divertiram. Em vista do estado de sade de papai haver melhorado muito nos ltimos dias, os rapazes tiveram permisso para fazer parte nos folguedos.
Ali estvamos ns lidando com a cera finssima, a forma e o perfume para ench-las; Leopoldina era mestra no preparo da flor de laranjeira, receita de mam Zabel; 
Aninhas moldava a cera com forminhas cncavas e semicirculares; Eponina tratava de colori-las e eu unia uma metade  outra cuidando de que as bordas ficassem bem 
coladas. As bandejas foram-se enchendo de delicados globos coloridos; de vez em quando, Bonifacinho espiava pelo vo da porta:
        Manas, quando podemos sair? Estamos em pleno entrudo ...
        Tenha um pouco mais de pacincia, Roma no se fez num dia.
 tarde, Bonifacinho, Fortunato, Csar e Augusto, muito bem preparados, despediram-se de papai, de mame, de ns todas e saram  rua para os divertimentos do entrudo; 
iriam primeiro  casa das primas Simes. Cada um deles ia acompanhado de um pajem sobraando uma bandeja carregada de laranjinhas de cheiro. As ruas estavam movimentadas 
e cheias de gente que se divertia; jogavam-se e retribuam-se laranjinhas; das janelas jogavam gua sobre os incautos que passavam prximo s casas. O carnaval estava 
em plena animao. Os rapazes foram em primeiro lugar  casa das primas Simes, no Largo da Memria. Depois contaram que, de longe, avistaram as primas; l estavam 
elas  janela, ataviadas e preparadas para o brinquedo. Bonifacinho foi o primeiro; com muita delicadeza, acertou uma laranjinha no pescoo da prima Zenaide; ela 
deu um gritinho de susto enquanto o perfume de flor de laranjeira se espalhava no ar. Num gesto gracioso, prima Zenai
 de passou a mo no pescoo, onde a laranjinha havia acertado, depois tomou outra da bandeja que uma escrava segurava junto  janela e atirou com tal pontaria que 
foi bater em cheio no peito de Bonifacinho. Com a laranjinha, enviou-lhe seu mais belo sorriso. Bonifacinho agradeceu e o jogo tomou grande animao; Csar, Fortunato 
e Augusto tomaram parte ativa na batalha; sentia-se a mistura agradvel de vrios perfumes. Meia hora no era passada, quando um dos pajens dos rapazes voltou correndo 
para casa, em busca de mais laranjinhas, pois os Sinhs se dirigiam agora  Rua da Imperatriz,  casa das Lages. Enchi duas bandejas que o pajem levou quase correndo; 
nas ruas o movimento era cada vez maior e o pajem disse que quase no se podia andar de tanto povo.  noite, os rapazes voltaram, as roupas midas de perfume, cansados 
e suarentos; haviam passado uma tarde divertidssima. Carnaval to animado como esse, havia muitos anos que no se via em
  S. Paulo,  volta da mesa, na sala de jantar, nossos irmos mais velhos conversavam. Foi quando Bonifacinho entrou, mostrou o olho esquerdo inchado e vermelho; 
recebera uma laranjinha nesse olho, atirada com tanta fora, que ele at julgara que tivesse vazado a vista. Corri com gua de salmoura para passar-lhe no olho; 
e, enquanto eu o fazia, contou ele que essa laranjinha no partira das moas; fora atirada por uma pessoa qualquer do povo, gentalha com certeza, porque a cera era 
grossa, mal feita; por isso machucara. Flix revoltou-se:
        Eis a brutalidade dos brinquedos de hoje; o entrudo, no meu tempo, era muito mais delicado e divertido. Ofereciam-se flores s moas; quando elas moravam 
num sobrado, colocavam-se as flores na ponta de uma vara toda enfeitada; ou, quando a janela era baixa, dava-se na mo. Conforme a beleza da moa, assim era a beleza 
da flor... Lembra-se, Eponina? Olhamos para Eponina que ficou muito vermelha; Flix continuou:
        As belezas precisavam aproximar-se. E o mais interessante  que nossos pajens j sabiam disso; escolhiam a mais bela flor quando a moa era bonita de fato. 
Da janela, a moa retirava a flor da ponta da vara, agradecia e colocava outra que ns agradecamos tambm. Dei flor para muita gente bonita no meu tempo...
E olhou outra vez para Eponina que baixou os olhos e fez um muxoxo de pouco caso. Rodolfo tambm falou:
        Era muito mais divertido que hoje; percorramos a cidade toda a cavalo com os pajens levando a vara e a bandeja de flores. Nem se compara com as brutalidades 
de agora. Flix continuou:
        Muito mais delicado; no gosto dos jogos modernos, grosseiros, fica-se todo molhado, molha-se os outros tambm, com risco de apanhar um resfriado... ou 
ento de se machucar como o Bonifacinho.
Augusto interrompeu:
        E se vissem o que vi hoje na Rua do Jogo da Bola!
Pessoas jogando enormes jarros de gua uns nos outros, entre as pessoas da multido que enchia a rua. Um absurdo.
Ferno replicou:
        Isso at devia ser proibido pela polcia. Uma selvageria sem conta; gente do povo s se diverte assim...
Rodolfo disse:
        Mas o povo tambm precisa divertir-se; Nero j dizia: Dai po e circo que o povo fica satisfeito.
Csar e Fortunato contaram que em casa das Lages, na Rua da Imperatriz, se haviam divertido muito. Bonifacinho foi na frente e bateu na porta; a Leontina Lages perguntou 
quem era, sem abri-la; ento, Bonifacinho falou: Sou Bonifacinho, abra a porta, prima Leontina, deixe-me esconder a, pois querem atirar-me dentro de uma tina d'gua. 
Leontina Lages abriu a porta e todos entraram fazendo grande alvoroo; a sala estava cheia de moas e no tinham laranjinhas suficientes para jogar nos rapazes; 
ento, jogavam gua que as mucamas traziam em jarros e outras vasilhas. Foi um grande divertimento. Mame perguntou, sorrindo:
        E Nh Chica Lages?
Augusto, o filho de Aninhas, respondeu:
        Nh Chica estava deitada na rede num canto da sala; jogamos laranjinhas nela tambm, que se levantou e ps a rede na frente, assim, para se defender. Depois 
uma das moas contou que ela estava com reumatismo.
Houve exclamaes de susto e eu perguntei:
        Coitada! Com reumatismo? Ento a esta hora est pior.
Os rapazes riram-se. Fortunato falou:
        Qual o qu! Agora ela vai sarar; gua de flor de laranja faz bem para reumatismo.
Bonifacinho queixou-se de que o olho estava dolorido; Leopoldina e eu nos levantamos e fomos novamente alivi-lo com banhos de salmoura. Flix disse a Bonifacinho 
que trouxesse cerveja preta porque fazia calor; j haviam tomado caf. Rodolfo preferiu, lembrando a hora, um clice de Calvados. Do outro lado da sala, recostadas 
no sof medalho, estavam Eponina, Aninhas e mame; comentavam em voz baixa o caso de Loureno. Loureno viria aquela tarde. Que iramos fazer? Como resolver a questo?
Sentado na frente de Ferno, Rodolfo tomava o seu Calvado; a barba preta rodeava-lhe o rosto todo, dando-lhe aparncia de homem distinto e ilustre. Flix,  cabeceira 
da mesa, no lugar onde papai costumava sentar-se, depositou o copo vazio sobre a mesa, exclamando:
        Uma cerveja preta  bem agradvel num dia de calor!
Ferno concordou esvaziando seu copo, depois disse:
        Mas em 1854, nossa zona, veja bem, s nossa zona produziu mais de um milho de arrobas de caf; eu sei por que papai dizia. E temos l em Santarm os dados 
sobre a produo.
Percebia-se que o assunto j estava sendo debatido antes de entrarem os rapazes; haviam-no interrompido para o caf e a cerveja. Rodolfo respondeu:
        Est certo. No digo este ano, mas o ano que vem vamos ter uma produo maior.
        No creio.
        Como no? No tem reparado nos cafezais? Nunca vi tanta florada to promissora como este ano, as rvores esto carregadinhas de flores. Flix interrompeu:
        Deixe vir uma chuva de pedra ou uma geada, ento vamos ver.
        Bom. Isso estragar a florada, mas que a lavoura promete, promete.
Nosso irmo Augusto replicou:
        No creio na colheita de caf, como diz Rodolfo, creio na de algodo.
        Algodo? Est muito enganado.
        Enganado por qu? J produzimos centenas de arrobas de algodo; h uns anos atrs no foi assim? Por que acha que no continuar a produzir este ano? Lus 
concordou com Augusto:
        S em Guararema vamos colher vrias arrobas. Flix tornou a encher o copo de cerveja:
        Estamos falando no ar. J leram os jornais?
Todos olharam Flix esperando que ele continuasse: Vejam o que dizem os abolicionistas. Vamos lutar por falta de braos, meus amigos.
E bebeu um gole de cerveja. Alberto perguntou:
 Acredita na abolio to depressa assim?
 To certo como estarmos aqui.
Uma torrente de protestos levantou-se  volta da mesa; junto com a fumaa dos cigarros e com o cheiro das bebidas e da gua de flor de laranja que ainda pairava 
no ar, as vozes alteraram-se, excitadas. Rodolfo explicou batendo na mesa, fazendo o clice saltar:
        Se tivermos que lutar, lutaremos, mas no podemos aceitar essa lei. Pelo menos agora, no estamos preparados.
No queremos a abolio para j. Vamos ter uma guerra de secesso como a dos Estados Unidos em sessenta. Escutem as minhas palavras. Vo ver.
Flix olhou-o com ar cptico:
        Rodolfo, no  questo de querer ou no querer. A lei vir.
Ele voltou-se, arrogante, para Flix:
        Voc acredita nesse absurdo? E para Ferno:
        Voc tambm? Ora esta! Ferno respondeu:
        Daqui a pouco tempo deixar de ser um absurdo, ser uma realidade.
        No daqui a pouco tempo, daqui a muitos anos talvez. No diga que ser logo.  uma utopia, um sonho de meia dzia de visionrios. Diga uma cousa: Como vamos 
colher nosso caf? Nosso algodo? Com o qu?
        Colheremos da mesma forma por que colhemos hoje; s que teremos assalariados e no escravos.
        E o capital que empregamos na aquisio desses escravos? Quem nos indenizar?
Houve novos protestos ao redor da mesa; Lus lembrou que deviam mandar um abaixo-assinado ao imperador pedindo proteo aos fazendeiros. Rodolfo tornou a bater na 
mesa, exaltado:
        Qual o qu! Iremos ns em pessoa falar com D. Pedro.
Organizaremos uma comisso de agricultores e iremos ao Rio de Janeiro a cavalo pedir uma audincia. Isso  o mais aceitado; no podemos ficar assim, desprotegidos. 
J estamos pensando nisso, queremos ver se arranjamos uns mil ou mais cavalarianos. Ser de impressionar.
Alberto perguntou acendendo um cigarro:
        J pensaram na fase mais obscura da questo? Olharam Alberto em silncio. Augusto arriscou:
        Tudo  obscuro e intrincado nessa questo.
Alberto continuou:
        Digamos que venha a abolio. Est bem. Pagaremos nossos escravos, quero dizer, sero homens assalariados da em diante. Mas eles, como homens livres, tero 
o direito de escolher; muitos querero vir para as cidades viver por outros meios. Mas a produo tende a aumentar, pois h uns dez anos atrs a produo cafeeira 
no Municpio de Moji das Cruzes foi de 100.000 arrobas de caf, e hoje  o dobro; quer dizer que tende sempre a subir e os braos tendem a faltar, muitos escravos 
nos abandonaro, tenho a certeza. E ento? Rodolfo protestou:
        Por isso digo que  cedo para a abolio no Brasil. Flix interveio:
        Mas para isso temos a imigrao... Rodolfo exaltou-se de novo:
 Imigrao italiana? Qual! No tenho f. Se vier essa lei maldita, o Brasil ficar na misria e nunca mais se levantar. Acreditem.
Lus protestou:
        No diga isso. S em S. Paulo recebemos h dois anos atrs cerca de 30.000 imigrantes. Por que no h de dar certo?
Rodolfo rebateu:
 Porque eles no se aclimatam aqui. Meu vizinho recebeu vrias famlias italianas para colher caf; pensa que ficaram? Nem dois meses. Foram embora dizendo que 
no podiam com o clima, nem com a comida, embarcaram para a Argentina no Provence. Sei disso porque vi.
Flix replicou:
        Isso  um caso isolado, cunhado. A imigrao est vindo com grande incremento, principalmente nesta provncia; todos os anos recebemos italianos, espanhis, 
portugueses, alemes. Ho de se acostumar afinal.
Ferno perguntou:
        O que entra mais? Italianos?
        Em primeiro lugar italianos, depois portugueses, espanhis. Depois outras nacionalidades como austracos, alemes, dinamarqueses. Alberto admirou-se:
        U! Dinamarqueses tambm?
 De 82 para c chegaram mais de mil, no sabia?
Ferno levantou-se e interpelou Rodolfo:
        Na Amrica do Norte a guerra civil durou quatro anos; foi tremenda, mas a abolio venceu graas a Lincoln.
 No v que o pas ficou mais pobre?
        Ficou. Tenho certeza de que o pas empobreceu; se a agricultura hoje  uma fonte de riqueza e se amanh destroem a fonte, o pas tem que sofrer forosamente. 
No leu os artigos da Revue des Deux Mondes!
Alberto replicou:
        Mas esse empobrecimento  transitrio. O pas se levantar de novo.
        Mas quando? Daqui a quantos anos? Essa mania de abolio me deixa nervoso, no sei que pensar.
E Rodolfo comeou a passear de um lado para outro da sala; todos se levantaram. Augusto e Lus foram para o quarto de papai. Mame chamou Flix para um lado e contou, 
aflita, esfregando as mozinhas finas, uma contra a outra:
        Que faremos, filho? Loureno esteve aqui e quer ver o pai, mas ele se nega a receb-lo.
        Loureno esteve aqui?
        Esteve e falou com Benedito; as meninas j foram sondar o pai e ele ficou exaltadssimo; pediu at que no lhe tocassem mais nesse assunto. Pode at fazer 
mal e ele piorar.
        E quando Loureno vai voltar?
        Hoje  hora do jantar.
O assunto foi ventilado; todos ficaram a par do que se passava e cada um deu sua opinio a respeito. Afinal, ficou resolvido que falariam com Loureno na porta da 
rua, pois se papai soubesse que ele fora recebido por ns, podia ter uma recada e o Dr. Maranho recomendara muitas vezes que evitassem contrariedades ao doente. 
Mais tarde, quando Loureno chegou e Benedito veio na ponta dos ps avisar que Sinhozinho estava  porta, esperando, mame foi falar com ele acompanhada por Flix, 
Augusto e eu. Eles explicaram a situao a Loureno; papai j estava melhor, mas se negava a receb-lo, talvez mais tarde, quando a afronta estivesse esquecida. 
Loureno, nada disse; beijou a mo de mame, e despedindo-se de ns montou a cavalo e partiu para a chcara dos sogros, l pelos lados do Vergueiro. Tive mpetos 
de perguntar-lhe da esposa mas tive medo de meus irmos mais velhos que eram muito rigorosos.
 hora do jantar, evitamos o assunto sobre Loureno, grande era o abatimento de mame. Ferno e Maria Letcia resolveram regressar no dia seguinte para Santarm, 
em vista da melhora de papai. Rodolfo voltou-se para Francisca Miquelina com ar autoritrio:
        Prepare-se para voltarmos tambm, Francisca Miquelina. Sairemos amanh de madrugada para a fazenda.
        Est muito bem, respondeu Francisca Miquelina com voz sumida.
Maria Letcia e eu olhamos de esguelha para nossa irm. Pensei: Ela se humilha tanto, por isso o marido judia dela. Ele parece trat-la com superioridade e, quando 
fala com ela, adota um tom de mando. Atrevido!
E, olhando Rodolfo, vi que ele olhava para mim por cima do copo de vinho; ento sorri para ele amavelmente.
Bonifacinho tornou a queixar-se do olho durante o jantar. Mame mandou vir salmoura outra vez; quando nos levantamos da mesa, mame sentou-se no sof e Bonifacinho 
deitou a cabea no colo dela para que pingasse salmoura nos olhos. Com muito cuidado, passei o algodo muitas vezes pelos olhos de Bonifacinho. Do outro lado da 
sala, Leopoldina perguntava a Benedito se papai jantara bem. Os irmos mais velhos, reunidos ainda  volta da mesa, recomearam a discutir sobre a abolio e suas 
conseqncias.
No dia seguinte, fui com Francisca Miquelina e Rodolfo para a fazenda deles, Santa Engraa. Havia muito tempo, Francisca Miquelina tinha-me pedido para ajud-la 
a fazer roupas para as crianas, bordar fronhas e lenis para a casa da fazenda. Maria Letcia porm, no gostou muito, pois j se acostumara comigo em Santarm; 
fez-me ento prometer que no ficaria mais de trs meses. Prometi.
Santa Engraa ficava perto da cidade de Itu. Era uma fazenda muito grande, onde colhiam no sei quantas arrobas de caf por ano. Tinha sido do pai de Rodolfo; l 
haviam residido por muitos anos, l a me dele morrera e a primeira mulher tambm, a Carlotinha. Por isso diziam que a casa da fazenda era mal-assombrada. Nunca 
acreditei muito nessas cousas de assombrao, mas, quando vi a casa velha entre rvores enormes, muito sombrias, lembrei-me das almas do outro mundo.
Logo no dia seguinte cortei as costuras e comeamos a costurar e a bordar; as camisinhas para as meninas eram de crepe; cada uma das meninas usava duas saias por 
cima das calas e, como estas eram bordadas com ponto de espinhos, havia muito servio a fazer. Quando amos de visita a outras famlias ou a S. Paulo, as mucamas 
colocavam as meninas em uma mesa e, com as duas mos por baixo das saias, viravam estas para cima a fim de ficarem bem armadas; tinham as saias guarnecidas com trs 
ordens de fofos e todas enfeitadas com franja Tom Pouce.
Muitas vezes, durante a noite, eu ficava acordada, esperando o fantasma; diziam que ele entrava pela porta da frente e vinha andando pelo corredor escuro: paf... 
paf... paf... Ouvia-se muito bem. Quase sempre parava em frente  porta do quarto, onde Francisca Miquelina dormia com Rodolfo; as escravas contavam que era a defunta 
Carlotinha que vinha todas as noites passear pela casa e vigiar o marido. O fantasma parava  porta do quarto deles e nunca ouvi dizer que tivesse entrado, felizmente. 
Creio que ficava s escutando. Francisca Miquelina contou-me que uma vez ela estava sozinha com as crianas e as mucamas; Rodolfo tinha ido a S. Paulo. Uma noite, 
logo que ela se deitou, ouviu os passos que vinham vindo da porta da frente, pelo corredor, como que arrastados. Ela sentiu um calafrio e sentou-se na cama, escutando; 
por mais que parea impossvel, disse-me que no teve medo, apenas fez o sinal da cruz. O fantasma parou na porta do quarto dela e, como a porta est
 ava fechada com chave, no pde entrar. No dia seguinte, ela deixou a porta fechada s com o trinco e ficou esperando. Recolheu-se cedo, mas ainda tomou banho, 
rezou, viu se as crianas estavam bem cobertas e esperou. Quase sempre o fantasma vinha  meia-noite; de repente, quando faltavam uns minutos ela apagou a vela e 
esperou; l vinham os passos, vagarosos e arrastados... Quando pararam na porta do quarto, Francisca Miquelina disse em voz alta: Entre. Esperou o trinco mover-se 
e a porta abrir-se diante do fantasma da defunta Carlotinha, mas a porta continuou fechada. Sentada na cama, ela rezava e esperava; rezou para Santo Antnio e So 
Damio. Dizia: Valei-me, So Damio, socorrei-me Santo Antoninho... Entre... So Damio, acuda-me; So Damio, proteja-me... Entre. Disse trs vezes a palavra 
entre para a defunta Carlotinha e, apesar de a porta estar aberta essa noite, ela no entrou. Senti um arrepio quando Fra
 ncisca Miquelina me contou e perguntei o que ela faria se a Carlotinha entrasse; respondeu que perguntaria o que desejava e, se fosse missa, mandaria rezar por 
alma dela. Aconselhei-a a mandar rezar missas para Carlotinha, mesmo que ela no pedisse. E nessa noite, esperei a visita do fantasma; cheguei a ouvir algum rudo, 
depois percebi que era o vento no jardim. Felizmente nunca veio para o lado do meu quarto; tambm eu dormia agarrada a Santo Onofre.
Quase sempre passevamos  tarde pelo pomar que ficava quase pegado  casa ou ento amos at o tanque de lavar caf, s vezes at o princpio do cafezal. Logo nos 
primeiros dias que passei em Santa Engraa, fiquei conhecendo a Ambrosina e os dois filhos; ela ajudava a passadeira de roupa, mas creio que s fingia que trabalhava: 
levava um vido. E fosse Francisca Miquelina dizer alguma cousa para ver; tinha que ficar calada. Ela era uma mulata clara e um pouco gorda, bem bonita. Francisca 
Miquelina quase no falava com ela e, quando queria dar alguma ordem, falava com Alexandrina, a escrava de dentro, mas a Ambrosina era dengosa; procurava meios de 
falar com Francisca Miquelina ou inventava pretextos, creio que era provocadora. Vinha tambm falar comigo e eu fingia que ignorava o que se passava com ela e Rodolfo.
Um dia veio trazer-me umas goiabas porque eu havia dito que gostava dessa fruta; estvamos todas costurando no alpendre, quando ela apareceu com um cesto de goiabas 
muito bonitas na cabea. Agradeci as frutas e conversei com ela; enquanto conversvamos, o dedal de ouro de Francisca Miquelina desapareceu. Procuramos por todos 
os cantos e nada; ento Ambrosina disse que ia pedir a So Longuinho que fazia achar as cousas perdidas; mas o santo era engraado, gostava de barulho, por isso 
ela ia gritar. E ali mesmo, no alpendre, deu trs gritos que acordaram o pequeno l dentro; o dedal de ouro apareceu no mesmo instante no prprio cestinho de costura 
de Francisca Miquelina; creio que So Longuinho fez aparecer o dedal.
Eu conversava sempre com a Ambrosina e apesar de achar um dos filhos dela muito parecido com Rodolfo, no disse nada fingi no haver notado. Durante esse tempo, 
fui uma vez a cavalo com Francisca Miquelina, Rodolfo e as duas meninas mais velhas, at a cidade de Itu, onde assistimos a uma procisso muito concorrida. Demos 
umas voltas pela cidade e voltamos nesse dia mesmo; no dia seguinte, amanheceu chovendo, estava costurando perto da janela do meu quarto e de vez em quando levantava 
a cabea e olhava a chuva cair l fora. As crianas tinham ido com Alexandrina at  casa do administrador e a chuva as retivera l. Todas as plantas estavam cheias 
de gua; eu estava distrada com meus pensamentos e meu trabalho e de repente comecei a ouvir uns gritos vindos l de dentro. Eram gritos abafados de quem estava 
tapando a boca para no queria gritar; levantei-me e fui ver o que era; percebi que vinham do quarto de Francisca Miquelina e fiquei assustada. Co
 rri para l e empurrei a porta com fora; vi ento Francisca Miquelina plida como uma morta, de p, encostada  janela e chorando; Rodolfo no meio do quarto, tinha 
um chicote na mo. Ele olhou furioso para mim; seus olhos no pareciam os mesmos e toda sua fisionomia estava transtornada pela clera; parecia outro homem. Gritou 
para mim:
        O que quer?
No sei como tive a presena de esprito de responder como respondi; creio que foi Santo Onofre que me ajudou. Disse:
        Ouvi chamarem meu nome, por isso vim. Voc no chamou, Francisca Miquelina?
E minha voz era to calma, toda a minha pessoa era to plcida e to tranqila que a mo que segurava o chicote foi-se abrindo devagar e o chicote caiu ao cho, 
perto dele. Inclinei-me para levantar o chicote do cho, depois disse:
        Rodolfo, olhe seu chicote.
E, voltando-me para Francisca Miquelina, perguntei com voz mais calma ainda:
        Est sentindo alguma cousa, mana? Quer algum ch? Sente dor?
Arrastando o chicote pelo cho, Rodolfo deixou o quarto sem nada dizer; Francisca Miquelina caiu sentada na cama e chorou amargamente. Depois, contou-me que isso 
acontecia muitas vezes e ela suportava tudo porque nada podia fazer.
        Mas por qu? perguntei. O que voc fez para ele lhe bater?
        Nada. s vezes  porque falo mal da Ambrosina; s vezes porque tem cimes de mim.
        Cimes? Ele tem cimes de voc? Mas de quem? Se no vem ningum aqui.
 Ele disse que ontem em Itu, na procisso, eu olhei muito para o lado onde estava um moo. Diz que eu fiz de propsito.
'  Mas quem era esse moo?
        No sei, mana. No vi moo nenhum.
        Que horror!  sempre assim?
        Quase sempre, mas depois ele se arrepende e pede perdo, s vezes at chora.
        E algumas vezes aquele chicote machuca voc?
        Como no, mana Rosa? Hoje mesmo fiquei com um vergo no brao. Veja.
Vendo-lhe o vergo no brao, chorei ao lado dela e misturamos nossas lgrimas; depois, passei-lhe um blsamo no brao ferido. Ela ainda se lamentou:
 Por isso nunca convidei ningum para vir a Santa Engraa, mana. Esse gnio terrvel de Rodolfo me mata, encurta minha vida. E tenho vergonha; no quero que mame 
saiba, que ningum saiba, no vale a pena.
Prometi no falar a ningum e consolei-a quanto pude. Em meu quarto, fui ver quanto tempo ainda ficaria na fazenda, pois esperava a vinda de Lus e Bonifacinho, 
em cuja companhia eu regressaria para S. Paulo. Apenas alguns dias, felizmente.
Nessa mesma tarde, ao jantar, Rodolfo estava amvel e alegre; mandou servir cerveja preta e fez questo de que todos tomassem, at as duas meninas; convidou-me depois 
para ficar mais tempo, pois iramos fazer um lindo passeio a Porto Feliz, belo rio. Respondi que infelizmente no podia, tinha muito que fazer em S. Paulo e s esperava 
que meus irmos viessem buscar-me. Mas sentia muito no poder ficar. E enquanto eu tomava o copo de cerveja, olhava a fisionomia sorridente de Rodolfo: j no parecia 
o mesmo que segurava o chicote. Que sombrios pensamentos passavam por trs daquela mscara?
Somente um ano e meio depois, no inverno de 1886, Maria Letcia voltou a S. Paulo para ter outro filho; Ldia j estava com sete anos. Dessa vez sofreu muito desde 
o princpio; seu organismo ressentiu-se dando-lhe aparncia de grande abatimento. Eu fazia-lhe companhia em Santarm; ela passava os dias deitada num sof que Ferno 
mandou colocar no alpendre a fim de poder seguir o movimento das filhas no jardim; ou, ento, deixava-se ficar sentada na poltrona baixa da sala de estar, sem coragem 
para nada. No quis seguir logo para S. Paulo, preferindo esperar mais tempo, e isso era motivo de muitas discusses com o marido; Ferno achava que devia ir o mais 
breve possvel e ela procurava mil pretextos para ficar mais tempo na fazenda; parece que qualquer cousa lhe segredava no corao que no devia partir. Disse-me 
um dia que achava Ferno agitado, inquieto, como nunca estivera at ento. Os negcios andariam mal?
 verdade que aquele ano no era promissor; primeiro as chuvas de pedra, depois o frio de junho haviam destrudo grande parte da colheita; a cana estava mirrada, 
no daria boa safra como nos anos anteriores.
Estendida no sof do alpendre e enrolada numa manta escocesa por causa do frio, Maria Letcia todas as manhs acompanhava o movimento da casa. Via Ldia e Maria 
sarem para o pomar com a professora; via Modesta ir e vir vrias vezes pela sala dando ordens  cozinheira,  forneira e  lavadeira; via tio Antnio passar com 
um livro sob o brao e desaparecer no caminho da mata. Via Estefnia, a filha da lavadeira, entrar carregando a cesta de roupa na cabea; era quase branca, pois 
seu pai, o feitor Belisrio, era branco. Diziam que ela ia casar-se com Juvncio, um cafuzo esperto e trabalhador, o melhor auxiliar do feitor. Seria um bom casamento 
e Maria Letcia pretendia organizar uma festa para os noivos. Estefnia, equilibrando a cesta, aproximava-se de ns:
        Bom dia, Sinh Letcia. Bom dia, Sinh Rosa. Vossuncs to boa?
Conversvamos ligeiramente; Estefnia podia ter uns dezesseis anos, era uma cabocla bonita; rolia e corada. Quando ria, mostrava os dentinhos brancos, muito iguais. 
Com os dois braos levantados, mantinha a cesta no alto, enquanto eu lhe observava os braos perfeitos, morenos e torneados, o busto cheio, onde sobressaam os seios 
pequeninos e redondos. Perguntava, para v-la corar:
        Como vai o Juvncio, Estefnia?
Ela enrubescia; baixava os olhos escuros e ficava virando-se de um lado para outro, olhando os ps, envergonhada, tmida, Maria Letcia ria-se ao v-la corar. As 
crianas vinham do pomar com a professora; bem agasalhadas e alegres corriam para ver quem chegava primeiro perto de mame. E durante o dia, muitas vezes, quando 
Maria Letcia ficava na salinha prxima ao escritrio do marido, olhava cismadora para o quadro onde um gato rajado dava tapinhas num novelo de l. Eu costurava 
ao lado dela. Ouvamos as vozes das meninas, no alpendre, cantando juntas para mame ficar logo boa; cantavam em francs, como a professora ensinara e as duas vozinhas 
elevavam-se ao silncio:
 Oh! Ma Reine, oh! Vige Marie, Je vous donne mon coeur, Je vous consacre pour la vie Mes peines, mon bonheur.
E Maria Letcia no se sentia melhor; sempre um mal-estar, uma sufocao que no a deixava tranqila. Afinal, resolveu ir a S. Paulo e pediu-me para ficar em Santarm 
com as crianas. Estava to fraca que Ferno mandou preparar o carro de bois para transport-la  estao, pois subir a serra no trole podia ser prejudicial. Apenas 
Modesta acompanhou-a. O carro de bois subiu a serra gemendo e cantando nas grandes rodas; ia devagar e Ferno o acompanhava a cavalo. J ia longe e eu ainda ouvia 
o rangido vagaroso e montono; o carreiro espicaava os bois sonolentos: Eia, Pintado! bamo, Tinhoso!
Ferno voltou uma semana depois; disse que a viagem fora penosa e Maria Letcia chegara muito enfraquecida. Nossos pais assustaram-se ao v-la e o Dr. Maranho foi 
chamado imediatamente; tranqilizou-os e dias depois ela estava melhor. Apesar de ter saudades das meninas, estava conformada em casa de mame e em companhia dos 
filhos mais velhos, Antnio Ferno e Paulo que j estavam nessa poca com dezesseis e quinze anos e estudavam na capital. Mas estava aflita por voltar a Santarm; 
disse que o amor que sentia por aquelas terras, aquela solido, com os cafezais de um lado e a mata do outro, a perder-se de vista no horizonte verde-negro, no 
lhe permitia ser feliz em qualquer outro lugar. Amava Santarm. Mus eu percebia que Maria Letcia ainda no era feliz.
Em Santarm, Ferno continuou desassossegado. A inquietao que o dominava havia meses, aumentou com a ausncia de Maria Letcia. Tio Antnio parecia no existir: 
ou estava de visita s outras fazendas, ou vivia no pomar, vagando com um livro na mo. Quando comia em Santarm, quase no almoava e, mal terminava a refeio, 
saa a p ou a cavalo, desaparecendo nos cafezais. Eu ficava costurando, sempre ao lado das duas meninas e da professora; as meninas brincavam ou estudavam.  tarde 
Ferno jantava conosco, depois ia com as meninas dar um passeio pelo pomar; s vezes iam de mos dadas no tanque de lavar o caf ou at o ribeiro.
Era agosto e fazia bastante frio; muitos fazendeiros receavam nova geada; perscrutavam o cu ansiosamente procurando divisar alm das nuvens. Quando apareciam na 
fazenda, perguntavam a Ferno:
        Reparou como o cu estava limpo ontem? Pensei que viesse uma geada.
        Reparei. Mas recobrei alento quando vi o cu sujando-se l pelo lado sul. Disse com meus botes: Por hoje estamos livres.
O outro coava a cabea, pensativo:
        , mas, se ela vier, vai ser um estrago. A florada est bonita.
         verdade. Se se perder o restinho da lavoura este ano, vai ser um estrago. O negcio est feio, ainda mais com esses rumores de abolio.
        Creio que geada no cai este ano. Penso mais na escravatura; se ela nos faltar, estamos mal.
        Qual! No  para j.
E despediam-se, apreensivos. Ferno levantava-se de madrugada, mandava encilhar o alazo e ia esperar os negros na roa. Depois corria toda a fazenda; fiscalizava 
as plantaes, dava ordens, aparecia em toda a parte, e olhava os escravos limparem os carreadores. Um dia, mandou pr fogo numa capoeira para nela fazer uma plantao 
de feijo;  tardinha, vieram avis-lo de que o fogo se estendera  mata e alastrava-se cada vez mais. Foi imediatamente ver o que havia; Tomsio contou depois que 
foi preciso mandar fazer um grande aceiro para isolar a mata do perigo; todos os escravos da fazenda foram dar combate ao fogo. A Estefnia, filha do Belisrio, 
tambm estava l procurando auxiliar o pai.
Viram Estefnia ao claro das labaredas, as faces coradas, quando tentava cortar os galhos com uma machadinha. Quando Sinh Ferno chegou perto, ouviram-na avisando:
        Acho bom vossunc no fic muito perto que  pirigoso.
Ele aproximou-se mais e perguntou:
        E para voc no  perigoso?
Tomsio disse que ela riu e levantou a machadinha acima da cabea, depois respondeu:
        No tenho medo.
E os olhos dela brilhavam que nem fogo. No demorou muito tempo, um galho queimado, quente como brasa, caiu de repente e roou-lhe o brao. Ela deu um grito e Ferno 
chegou perto para ver; ela fazia fora para no chorar de dor e apertava o brao queimado; o pai e alguns escravos foram examinar a queimadura; ento Ferno montou 
a cavalo e foi em casa buscar um blsamo. Eu mesma tirei o blsamo da prateleira, onde Maria Letcia guardava os remdios e dei-o a Ferno; quando ele voltou, ela 
estava sentada no cho, soprando a queimadura; ento ele mesmo passou o blsamo no lugar queimado e ao agradecer ela estava corada de vergonha. O fogo s foi extinto 
de madrugada.
No dia seguinte, eu estava no alpendre, quando vi Estefnia chegar muito ressabiada, dizendo que Sinh Ferno dera ordem para ir todos os dias curar o brao na fazenda; 
achei muito razovel e muita bondade da parte de Ferno; levantei-me para ir buscar o blsamo quando vi Ferno deixar o escritrio e dizer que ele mesmo trataria 
do brao de Estefnia, no precisava eu me incomodar. Desde esse dia, Estefnia aparecia todas as tardes para curar o brao; uma vez, eu ia passando pelo corredor, 
quando ouvi a risadinha de Estefnia no escritrio de Ferno; achei imprprio Ferno receb-la no escritrio; no resisti e espiei pelo vo da porta; vi os dois 
de p e Ferno acariciar-lhe o rosto com os dedos finos. Estefnia procurava desviar-se e inclinava o busto para trs, mas ele insistia; depois ele perguntou-lhe 
se algum j lhe havia dito que ela era muito bonita. Estefnia baixava os olhos, envergonhada; corri, at o f
 im do corredor, quase sem flego; pensei em escrever para Maria Letcia no mesmo dia, mas de que adiantaria, se ela no podia vir? Resolvi intervir de qualquer 
modo e, criando coragem, voltei pelo corredor, fazendo barulho com minhas botinas e tossindo; felizmente ela j tinha ido embora. Ento comecei a vigi-los. Quando 
via Estefnia subindo a escada do alpendre, mandava a qualquer pretexto as crianas l para dentro; mandava uma buscar um carretel de linha, outra trazer-me a linha 
de bordar que eu havia esquecido no quarto, pedia para trazerem um copo d'gua; e, s vezes, ia eu mesma passar pela porta do escritrio para ver se via alguma cousa 
mais. E sempre perguntava a Estefnia se o brao j estava curado, se precisava mais curativos, se o blsamo era bom.
Uma tarde, ela no apareceu; fiquei aliviada pensando que tivesse acabado. Fui com as crianas at o pomar e, sentei  sombra das rvores, fizemos nossa merenda 
de bolos e gelias. Quando voltvamos, as meninas quiseram levar a professora at o curral, onde havia um bezerrinho doente. Entrei sozinha em casa; as mucamas tagarelavam 
na cozinha, o papagaio gritava na sua vozinha fina: Peste do diabo! Peste do diabo!... Depois, silncio. Quando ia para o meu quarto, lembrei-me de passar pelo escritrio 
para ver se no havia novidade. O escritrio de Ferno estava deserto; fui sem fazer barulho at o fim do corredor. Foi quando ouvi um sussurro de vozes. Parei para 
escutar, e percebi que as vozes vinham de uma das alcovas pegadas a um dos quartos de hspedes. Caminhei mais e quase dei um grito de susto: Ferno e Estefnia estavam 
na alcova sozinhos. Ouvi vozes abafadas; depois a voz de Estefnia perguntar:
 Sinh, como  Sinh? No ouvi a resposta dele nem quis mais ficar ali; voltei desesperada para o quarto, arrependida de no ter ido ver o bezerrinho doente.
Dessa tarde em diante, percebi que as cousas mudaram em Santarm. Estefnia comeou a trabalhar no quarto de passar roupa, como ajudante da passadeira; Ferno mandou 
preparar um quarto s para ela, pegado ao quarto das mucamas. Deu uma casa maior para Belisrio, perto da mata. Muitas vezes, durante o dia, eu ouvia um assobio 
especial; a princpio, no sabia o que era; depois percebi que quando Estefnia ouvia este assobio, saa disfarando do quarto para passar roupa e tomava o caminho 
do pomar. Um dia fingi que ia colher laranjas e fui atrs dela; percebi ento que o pomar era um pretexto; ela dava uma grande volta e encaminhava-se depois para 
o lado da mata. Imaginei que eles se encontravam l, no silncio da mata onde ningum podia desconfiar. Passei noites de insnia, pensando no que aconteceria se 
Maria Letcia um dia descobrisse a verdade; e guardei bem guardado o segredo.
Quando recebemos em Santarm a nova de que Maria Letcia tivera uma filhinha, Ferno contrariou-se em vez de se alegrar; percebi que no podia viver mais sem Estefnia. 
Teve que ir para S. Paulo buscar Maria Letcia, mas me admirei quando o vi voltar sozinho; disse-me ento que achava Maria Letcia ainda muito fraca para viajar 
e resolvera deix-la mais uns tempos em casa dos pais. Contou que a criana era forte e fizeram o batizado muito simples em casa de papai; puseram-lhe o nome de 
Ernestina. J estvamos em outubro e ele me disse que Maria Letcia s viria em novembro. No dia em que Ferno chegou quase no dormi; fiquei acordada durante muito 
tempo; foi quando ouvi uma porta abrir-se l dentro, l pelo lado da cozinha. Levantei-me e fui ver o que havia; mas como pressenti que devia ser Ferno, no acendi 
a vela e abri a porta com cuidado; vi ento Ferno com uma vela na mo seguir at o fim do corredor; depois vi dois vulto
 s que se encaminhavam para a alcova; a vela estava apagada. Compreendi tudo; ele no queria trazer Maria Letcia para ficar mais  vontade com Estefnia na prpria 
casa, pois o quarto dela era pegado ao quarto das negras e no era to seguro. Com risco de me surpreenderem, fui no escuro at a porta da alcova; e fiquei escutando. 
E todas as noites foi a mesma cousa. Assim se passou outubro e chegou novembro; no havia razo para uma ausncia to prolongada e Ferno foi buscar Maria Letcia.
Passei uns dias tranqilos; pensei que o melhor seria fazer o casamento de Estefnia com o Juvncio assim que Maria Letcia chegasse; pensei em ir falar com a me 
da Estefnia para no deix-la mais trabalhar na casa grande, mas no fiz nada e continuei calada.
Maria Letcia e Ferno chegaram de S. Paulo numa tarde quente; todos queriam ver a criancinha nova e cumprimentar Sinh Letcia. Estefnia tambm foi, mas j no 
era a moa acanhada e medrosa que baixava os olhos e corava, mal respondendo s perguntas; tinha agora um ar arrogante e ousado que Maria Letcia estranhou. Perguntou 
depois que ela saiu:
 Que tem Estefnia? Parece mais bonita, mais alta! Ningum respondeu; ela voltou-se para Ferno que estava perto:
        Quando  o casamento dela com o Juvncio? J est marcado?
        No sei, respondeu ele distraidamente, brincando com a filhinha.
Nessas primeiras noites, no ouvi nada. Creio que ele no levou Estefnia para dentro da casa. Dias mais tarde, porm, marcaram os encontros na mata. Ouvi os assobios. 
E poucas se manas depois encontraram-se outra vez no quarto de hspedes; ouvi quando ele deixou o prprio quarto e vi-o andando no escuro at a alcova. Tremi por 
Maria Letcia, mas ningum percebeu, nem ouviu. Todas as escravas da casa j sabiam, nada falavam, nem comentavam. Ouvi uma delas dizer a outra: Sinh faz o que 
qu e ningum tem que repar.
Eu esperava com curiosidade o dia em que o pai e a me de Estefnia soubessem da vergonha; o Belisrio iria fazer um barulho e havia de chamar Estefnia de desavergonhada. 
Ao mesmo tempo, achava que no haveria nada  patro  patro.
Maria Letcia ficou satisfeita em encontrar o marido mais calmo, mais moderado; j no era irrequieto como meses atrs, no se queixava da falta de sono e nem se 
levantava da mesa sem jantar. Agora ficava horas inteiras deitado na rede do alpendre, ora dormindo, ora brincando com as filhas. Lembrei-me de um dia em que Ferno 
contara ter visto Estefnia dando banho nos irmozinhos na beira do ribeiro; ele ia passando a cavalo quando vira a cena; ela estava com a saia arregaada, os braos 
nus, e ensaboava rapidamente as quatro crianas; empurrou-as depois para dentro d'gua, entre gritos e protestos. Ferno rira ao assistir  cena e s nesse dia notou 
a beleza de Estefnia, porque disse ao jantar que ela parecia uma flor, tinha a cor do jambo maduro e o corpo faria inveja a muita moa branca. Concordamos, distradas, 
mas achei suas palavras um pouco inconvenientes. Recapitulando, lembrei-me de que o desassossego de Ferno comeara nes
 sa poca  era paixo. Uma paixo desvairada. No dormia, no tinha calma e saa galopando pelos cafezais afora. Como deixara esse sentimento apoderar-se dele? 
No teria foras para resistir? Como podia viver assim atormentado? Era at estupidez; um homem como ele, culto, rico, viajado, um homem que sempre tirara da vida 
o melhor bocado, viver obcecado por uma mestia ignorante que mal sabia falar. Nunca pude compreender.
Um dia, a Zefa me disse que a Estefnia era muito ambiciosa e astuciosa; e a Zefa ficou a olhar-me de lado para ver o que eu diria; continuei costurando e nada respondi; 
ento ela falou que Estefnia queria ter vestido de seda como os de Sinh Letcia, tinha orgulho de dizer que o pai era branco e o primeiro feitor da fazenda, e 
que um dia ainda havia de mandar nas outras escravas, principalmente nela e na Clementina, as duas mucamas de dentro. Eu disse  Zefa que nada disso aconteceria 
e no repetisse essas cousas para ningum porque tudo era mentira da Estefnia, mas fiquei preocupada. E se Maria Letcia descobrisse? O que faria?
Uma tarde, no cafezal, vi os dois; eu tinha ido na frente para esperar a professora e as meninas; estava sentada num toco de rvore, distrada, quando ouvi vozes 
e percebi que Estefnia e Ferno estavam ali perto conversando. No desvairamento da paixo, ele no pensava em nada, nem mesmo nas filhas que podiam aparecer de 
um momento para outro ali perto. Fiquei imvel, sem saber se devia tossir e dar sinal de minha presena, ou continuar quieta. Percebi que as vozes se vinham aproximando 
mais; levantei-me para ir embora quando vi os dois atrs de um enorme p de caf. No me movi. De repente, ele abraou-a e beijou-a no pescoo e no rosto; ela tentou 
resistir, olhando assustada para todos os lados; mas Ferno no se importou e segurou-a entre os braos. Estefnia ainda procurou fugir e evitar os beijos apaixonados, 
mas no o conseguiu; parece que o corpo dela foi perdendo as foras, foi amolecendo e vi Ferno carreg-la como se ela f
 osse uma pena e lev-la para longe; ela ainda protestava, mas fracamente. Impressionada, sa correndo, tropeando nos paus atravessados no cafezal, completamente 
aniquilada de vergonha e medo. Aquilo era paixo, paixo, paixo.
Uma noite, semanas depois, a criancinha chorou e eu acordei; fui ao quarto de Maria Letcia saber o que havia; encontrei-a passeando pelo quarto com Ernestina ao 
colo; pediu-me para ficar com a criana enquanto ia buscar um remdio no armrio. Receando que ela pudesse descobrir a verdade, ofereci-me prontamente para ir buscar 
o remdio. Depois de tratarmos da Ernestina, ficamos ainda um tempo conversando e fui para o meu quarto. Percebi a porta do quarto de Ferno fazer clic e ranger 
levemente; devia ser ele que saa. Passou-se meia hora e no ouvi o menor rudo; a casa estava silenciosa e mergulhada na escurido. A fazenda tambm; s vezes ouvia-se 
o latido de um co ou o canto de um galo, muito ao longe.
Mais tarde, acordei outra vez com o choro da criana; levantei-me novamente e fui ver se Maria Letcia precisava de alguma cousa. Ela no estava no quarto; no bero, 
a criancinha choramingava como se sentisse dor. Tomei-a no colo e procurei Maria Letcia; de repente, a porta do corredor abriu com rudo e Maria Letcia entrou, 
mais branca que a cal da parede; assustou-se um pouco quando me viu e disse que havia ido . cozinha fazer uma tisana para a criana, pois o remdio para a dor de 
ouvidos no dera resultado, devia ser dor de barriga. Enquanto falava, observei-a e no tive dvida: Maria Letcia descobrira a verdade! Estava trmula, esquisita, 
um olhar desvairado. Tomou a Ernestina dos meus braos e disse-me que podia ir dormir, que ela mesma daria o ch  criana. Voltei sem nada dizer.
Na noite seguinte, fiquei acordada at tarde; o silncio era profundo. Ouvi a porta ranger. Era Ferno. Levantei-me no escuro e abri a porta do meu quarto com todo 
o cuidado; logo mais vi Maria Letcia passar tambm. Levava um castial na mo esquerda e com a direita protegia a chama da vela contra o vento, apesar de no haver 
vento. Estava de camisola, as lindas tranas soltas nas costas. Passou pela sala de jantar e continuou; tudo estava escuro e deserto. Entrou no corredor que levava 
aos quartos dos hspedes; logo que deu alguns passos nesse segundo corredor, creio que assoprou a vela porque a escurido se tornou completa. Com certeza ouviu a 
voz de Ferno, vinda da alcova dos hspedes; num gesto aflito, levei a mo ao peito e fiquei comprimindo-o como se as fortes batidas de meu corao pudessem ser 
ouvidas. Procurei acalmar-me. Pobre Maria Letcia! Nunca poderia imaginar que Ferno fizesse o que ela tanto recriminara em Rodolfo: receb
 er algum na sua prpria casa e ficar fechado na alcova. Era inquietante e desesperador. Mais tarde, percebi quando ela voltou; deitei-me e fiquei quieta, como 
se dormisse, caso ela entrasse em meu quarto. Mas no entrou. Ouvi-a chorando depois, abafando os soluos no travesseiro; passou o resto da noite numa angstia sem 
fim. A madrugada j se anunciava e as pombas estavam arrulhando no telhado quando a porta do quarto de Ferno rangeu de novo. Que faria ela no dia seguinte? De que 
forma receberia essa humilhao? Ela que era orgulhosa, diferente, e dizia que no suportaria a situao de Francisca Miquelina? No tivera coragem de enfrentar 
um Tribunal? Com certeza no sofreria tamanho ultraje e falaria com Ferno. Era intrpida e, de qualquer modo, falaria.
Assim se passou o primeiro dia, igual aos outros; s Maria Letcia estava inquieta, irritada com as crianas e parecia vigilante, mas nada demonstrou. Pensei que 
decerto ela. no sabia quem estava com Ferno na alcova dos hspedes. Como podia saber? Por isso, parecia vigilante, atenta a tudo o que se passava e, quando Ferno 
estava presente, observava-o. Devia desesperar tal situao: saber que algum passava as noites com o marido em sua prpria casa e ignorar esse algum.
Desconfiaria de muita gente, menos da Estefnia; pois Estefnia no ia casar-se com o Juvncio? E Estefnia no era escrava, era filha do Belisrio. Pensaria que 
fosse a Clementina, ou Zefa ou outra qualquer, menos a Estefnia. Seu crebro trabalharia desesperadamente, mas seria difcil acertar. Passou-se o segundo dia; ela 
foi cedo para o quarto, pretextando enxaqueca. Fiquei  espreita. J era tarde quando a porta rangeu. Logo mais, percebi que ela tambm se levantava para seguir 
o marido; tive medo, um medo horrvel de qualquer cousa e levantei-me tambm, sem saber ainda o que fazer. Que tortura! Durante mais de uma hora, esperei. Depois, 
resolvi ir  cozinha fazer um ch para mim; podia assim evitar muita cousa. Fiz barulho, acendi vela, abri a porta do meu quarto batendo de leve, tossi alto e, aps 
tudo isso, sa para o corredor. Nada. Penso que ela correu e refugiou-se no quarto quando ouvia meus movimentos. Atravessei a sala de jan
 tar e entrei no corredor sombrio e quieto, passei pela alcova sem parar como das outras vezes e entrei na cozinha. Voltei com uma xcara na mo e entrei no meu 
quarto outra vez; nada mais ouvi essa noite.
No dia seguinte, estvamos no alpendre, quando a Estefnia passou de longe com um vestido cheio de ramagens vermelhas; Maria Letcia teve um choque. Moveu-se na 
cadeira e ficou seguindo Estefnia com a vista at desaparecer por trs da tulha. Ouvi-a mais tarde, perguntando a Modesta se o marido da Clementina estava na fazenda; 
parece que ouvira dizer que Ferno o mandara embora. Modesta negou:
        Clementina? T a mesmo, Sinh. E o marido tambm. Inda onte vi ele passando com um saco de mio nas costas.
Maria Letcia suspirou; ento no era a Clementina. Disfaradamente perguntou depois:
        Onde est Rita, Modesta? Faz tanto tempo que no a vejo.
Modesta contou que Rita estava lavando roupa no rio e esperava a vinda de um padre  fazenda para fazer o casamento dela com Joo Cip, Maria Letcia suspirou outra 
vez; ento, no era Rita.
Comeou a dar voltas pelas dependncias da casa todos os dias; ia  cozinha mais de uma vez falar com Gabriela, ia no quarto de passar roupa, visitava os quartos 
dos hspedes, nesse segundo dia mandou abri-Ios todos e examinou durante bom tempo a alcova onde ouvira vozes. Com certeza, queria descobrir algum indcio, algum 
sinal, alguma roupa que denunciasse quem entrava ali durante a noite, mas creio que nada descobriu. Perguntou depois a Modesta:
 E Estefnia, Modesta? Vai casar-se com Juvncio?
Modesta hesitou um momento e olhou, depressa para mim que estava costurando muito distrada. Respondeu que o casamento se realizaria, mas no sabia quando, talvez 
em dezembro, no Natal. Percebi que Modesta sabia.
Mais tarde, estava tio Antnio cochilando na rede quando Maria Letcia perguntou se havia gente nova na fazenda. Parece que em sua ausncia Ferno comprara novos 
escravos. Tio Antnio disse que no sabia de nada, mas achava que no havia ningum de fora. S a mim, nada perguntou. E nessa noite, seguiu-o outra vez, e assim 
muitas outras. Comeou a emagrecer desde ento e a enfraquecer-se; durante o dia tinha sono, mas no queria dormir para ficar vigilante e descobrir. Percebi que 
seu nico objetivo era descobrir a mulher, no pensava em mais nada.
Chegou dezembro e os dois filhos mais velhos, em companhia dos filhos de Leopoldina, vieram passar as frias em Santarm; mais tarde, chegou Bonifacinho. A casa 
novamente ficou cheia de vida e barulho; os quartos foram arrumados e espanados; as gavetas emperradas foram abertas e as toalhas de croch, os lenis de linho, 
as colchas da ndia foram de novo usados. As noites eram tranqilas e nunca mais ouvi ranger de portas. Todo o ms de dezembro se escoou; chegou janeiro com muitas 
chuvas; os rapazes saam a cavalo paia dar seus passeios e voltavam completamente molhados; trocavam de roupa entre gritaria e gargalhadas.
Um dia houve uma estiada e o sol apareceu quente o bonito; Maria Letcia convidou-me para dar um passeio. Chamou as crianas, mas elas j tinham ido com a professora 
ver a enchente do ribeiro; resolvemos ir tambm. Tomamos o caminho da mata; tudo estava mido e sombrio. Desvivamos das poas d'gua formadas no caminho quando 
ouvimos um rudo de galhos quebrados; algum andava por ali. Estacamos e ficamos esperando. Vimos ento Estefnia saindo do fundo do arvoredo, onde a mata era mais 
fechada, mas uma Estefnia muito diferente. Seu lindo corpo esbelto e rolio engrossara, os seios haviam crescido e o vestido mal disfarava a gravidez. Deu de frente 
conosco e ficou vermelha, olhando o ps, num grande embarao, como quem quer chorar. No primeiro instante, Maria Letcia ficou parada, olhando a cabocla sem nada 
dizer; depois, perguntou pelos pais e irmos.
Continuamos a caminhada sem falar. Quando chegamos  margem do ribeiro, onde estavam todos vendo a enchente, Maria Letcia parou de repente com a mo no peito, 
muito plida. Creio que s nesse momento ela soube que era a Estefnia; no precisava ningum contar nem precisava ver para se certificar. Com os olhos muito azuis 
fixos na correnteza que passava rugindo, arrastando galhos, troncos, folhas secas, cousas mortas, entre o alarido que as crianas faziam mostrando o que o rio ia 
carregando, Maria Letcia estava como que desvairada de dio. dio da Estefnia. No precisava ningum contar o que eu tanto procurava esconder. Os olhos haviam 
denunciado o que o corao guardara.

DESDE ento todos os meus caminhos foram speros e espinhosos; e a tempestade rugia sobre minha cabea. Na fazenda de Francisca Miquelina, onde eu esperava encontrar 
tranqilidade, encontrara chicotes em mos brutais, verges vermelhos em braos brancos e lgrimas tristes. Em Santarm, onde eu sempre tivera paz e amor, encontrara 
agora uma paixo desvairada, uma loucura. Onde me refugiar? Foi quando recebi carta de S. Paulo dizendo que papai pedia minha presena. Mam Zabel havia morrido 
de repente; dera para beber nos ltimos tempos, e a casa toda ficara desorganizada. Chorei a morte de Mam Zabel; ela me havia criado, passara noites inteiras comigo 
ao colo, deixara os filhos dela por mim, era minha segunda me. Maria Letcia no chorou quando soube, a princpio fiquei impressionada, depois lembrei-me que o 
desgosto que ela estava sofrendo nessa ocasio, era to grande que pairava por cima de tudo e no seria a morte de uma criada ve
 lha que iria comov-la.
Preparei meu saco de viagem e meu ba velho e esperei a vinda de Bonifacinho; assim que ele chegou, partimos. Desta vez no senti deixar Santarm, nem minha sobrinha 
Ldia que era muito agarrada comigo; fui-me embora depressa, deixando a tempestade que rugia, ameaadora.
Em S. Paulo, papai no tivera melhoras; continuava na almofada de veludo, paraltico do lado esquerdo, impaciente e fastioso. Adelaide viera do Rio de Janeiro visitar 
papai, e o filho mais velho, talvez estranhando o clima, teve pneumonia e quase morreu. Eu passei muitas noites com o menino ao colo quando mame e Adelaide j estavam 
exaustas e papai reclamava o abandono em que ficava nesses dias em que todos s se dedicavam  criana doente. Adelaide nada sabia fazer, seno chorar. E o filhinho, 
com as faces a queimar de febre, respirao sibilante, parecia agonizar em meus braos. De hora em hora, trocava o emplastro de linhaa e mostarda que o Dr. Maranho 
receitara, mas a criana gemia e sofria. S na segunda semana de luta, comeou a melhorar. Ento fui dormir sossegada.
Foi ento que reparei na situao poltica de S. Paulo, conservadores e liberais discutiam pelas esquinas das ruas, nas portas das igrejas e nas reunies de famlia. 
Abolicionistas e escravagistas tramavam s ocultas; nas horas quietas da noite, muitos escravos fugidos eram recolhidos nas casas dos abolicionistas e l ficavam 
escondidos, esperando a lei que viria libert-los para sempre. Por toda a parte havia polmicas; o pas caminhava para grandes modificaes.
Uns diziam que o imprio estava abalado; outros, que no, que nunca estivera to firme. E tudo foi-se transformando aos poucos; no se sabia de que forma terminaria, 
mas sabia-se que haveria um fim prximo para a situao, do contrrio o Brasil mergulharia no caos.
Todas as noites, em nossa casa, os amigos reuniam-se para discutir poltica; o primeiro a chegar era o Bulhes, depois o Cnego Soares, o Dr. Maranho e o Lopes 
Velho. Em seguida, vinham outros e sentavam-se no quarto de papai, em cmodas cadeiras. Tomavam caf e examinavam a situao; papai, apesar de no poder tomar parte 
ativa na conversa, gostava de ouvir e quando queria dar um aparte e sucedia estarem todos falando, ele levantava a bengala com a mo direita e batia-a com fora 
sobre a cadeira em frente; fazia-se ento silncio e papai falava vagarosamente, enrolando a lngua, para externar suas idias.
A lei de 28 de setembro de 85 era intensamente discutida; os escravos sexagenrios haviam sido libertos sob a condio de servirem seus senhores por mais alguns 
anos. Havia forte corrente contra o abolicionismo. O nmero de imigrantes j era considervel em S. Paulo, mas mesmo assim o pnico foi-se apoderando dos fazendeiros, 
pois os escravos fugiam das fazendas cada dia em maior nmero; nada mais os retinha e ningum conseguia captur-los. Encontravam guarida em casas abolicionistas. 
De Guararema, chegavam ms notcias todas as semanas; Rodolfo, exaltado, exasperava-se contra a situao e vinha a S. Paulo frequentemente, queixar-se tambm. Em 
sua fazenda, era um verdadeiro xodo; e no se sabia mais que medidas tomar.
Por toda parte, discutia-se com animao. O Bulhes partidrio da lei de 1885, achava-a benfica; negros com mais de sessenta anos no deviam mesmo continuar no 
eito. Estava perto. O Cnego Soares tambm estava de acordo, mas no aceitava a abolio total da escravatura, antes de uns cinco anos ainda; julgava que o pas 
no estava preparado ainda para enfrentar o problema, o sonho desses apaixonados idealistas iria levar o Brasil a uma tremenda decadncia. O Dr. Maranho dizia que 
a lei abolicionista devia ser promulgada o mais breve possvel, porque viver  beira de um abismo era pior do que viver dentro dele; que viesse a lei para as providncias 
serem tomadas. Assim como estava, o pas se arruinaria. Essas palavras desencadeavam controvrsias fervorosas. Ento o mdico chamava a ateno dos ouvintes para 
os Estados Unidos.
        A Amrica do Norte vai num surto de progresso invejvel depois da lei da abolio; seguiremos esse exemplo e no havemos de nos arrepender. Nabuco tem razo.
        Nabuco determinou a data da abolio total para o primeiro de janeiro de 1890. Duvido que consiga;  loucura, absurdo.
        A Lei Dantas foi sancionada porque era justa, mas fixar a data da abolio  uma utopia; e se essa lei for sancionada nessa data, onde iremos parar? Estamos 
perdidos.
O Cnego Soares levantava o brao pedindo a palavra:
        Ainda bem que o gabinete e a maioria liberal se recusaram a discutir a propsito, mas, se aceitassem a sugesto de Nabuco, o pas estaria perdido. Desde 
a Lei do Ventre Livre, vimos sofrendo o problema de braos para a lavoura. Quantos escravos fugiram desde ento? E quantos ficaram livres? Verdadeira calamidade, 
senhores. H quem segure hoje um negro fugido?
E suas mos gordas e peludas agitavam-se, nervosas. Rodolfo interrompia:
        Cada dia est pior, padre. Cada dia est pior. Onde esto os imigrantes para substituir os escravos? Onde a indenizao para o enorme prejuzo que estamos 
tendo? O Dr. Maranho apaziguava:
        As provncias do Cear e Amazonas libertaram seus escravos dois anos antes. Esto vivendo pior? No me consta. Pior estamos ns  beira de um vulco, como 
j disse.
         porque o amigo no est l para ver; ouvir falar de longe  uma cousa, v l para ver. Esto lutando para viver; os senhores de engenho esto a braos 
com um problema sem soluo. E o Cear e o Amazonas no so S. Paulo...
        Discordo. No  um problema sem soluo.
        Dantas venceu com a lei da libertao dos sexagenrios, mas no venceu com a lei total.
Rodolfo bateu no brao da cadeira:
        No vencer. Lutaremos se for necessrio, como lutaram na Amrica do Norte, dois, trs, quatro anos, mas  cedo para a abolio. Talvez daqui a alguns anos. 
E digo talvez, notem bem.
Benedito entrava com a bandeja de caf e eu servia; alguns pediam um copo d'gua antes do caf e eu ia tirar gua fresca da moringa.
O Dr. Maranho fazia, a medo, uma advertncia:
        No se enganem. Mais cedo ou mais tarde, a lei ser discutida novamente e sair vencedora. Talvez mais cedo do que pensamos. O melhor  prevenir...
Rodolfo exaltou-se:
        Prevenir como? Quem segura os negros hoje? Esto arrogantes e desaforados. Pois se aqui mesmo em S. Paulo h muito abolicionista que acoita escravos, d-lhes 
alimento e trato. Onde se viu isso?  uma desmoralizao para ns; por que os negros ho de cumprir nossas ordens, sabendo que h gente que os protege contra ns? 
Ainda no estamos perdidos, havemos de reagir.
Acabou de tomar o caf, olhou o relgio e pediu-me sua capa preta. Vestiu a capa que caa at os ps e ficou abotoando-a em silncio. O Cnego Soares aproveitou 
a ocasio para contar um fato:
        Lembra-se, senhor baro, da escrava Guilhermina que estava separada do filho h muitos anos?
E voltando-se para os outros, explicou:
        Esta escrava Guilhermina foi vendida h muito tempo a meu tio Pedro, em Campinas. Ela vivia lamentando-se e contava aos tios que na mesma ocasio em que 
foi vendida tambm lhe venderam o filho, Sabino, para outro senhor. Pois bem, anos se passaram e ela no pde esquecer o filho, vivia chorando. Agora fiquem sabendo 
o fim da histria. Tempos atrs, estava uma leva de escravos exposta na porta da igreja matriz, em Campinas, a fim de serem vendidos. Mulheres de um lado, homens 
do outro. Pois bem. A escrava Guilhermina ia entrando na igreja com Nhanh, como chamava minha tia, e de repente, fixando um dos moleques que estava  venda, exclamou: 
 meu filho!  meu filho que perdi quando pequeno.  Sabino. Chegou-se ao moleque e perguntou: Como  seu nome? Sou Sabino, respondeu o moleque. E era mesmo 
o filho de Guilhermina, perdido havia tanto tempo. A escrava comeou a chorar e abraar o filho; nesse mesmo dia tio Pedro comprou
 o moleque e reuniu me e filho outra vez.
Ficou esperando os comentrios. O Dr. Maranho acrescentou:
        Isso  uma barbaridade, vender a me para um dono e o filho para outro.
Lopes Velho perguntou:
        Mas como se explica que ela reconhecesse o filho depois de tantos anos? Ele j era adulto?
        Era adulto, mas ela o reconheceu. Decerto a voz do corao; qualquer instinto contou-lhe que aquele era o seu filho.
Papai agitou-se para falar:
        Nunca fiz... se... me... lhante cousa. Nun... ca.
Rodolfo comeou a despedir-se; papai agitou-se novamente:
        No vem dormir a... qui?
        Sim. Voltarei mais tarde; vou visitar um amigo que est me esperando. Na Rua de So Bento.
Deixou o quarto e fez-se silncio na roda; de repente, Bulhes falou, cofiando a barba branca:
 Tem havido umas reunies por a, contra o movimento abolicionista. Isso  perigoso; a corrente da abolio est forte e pode haver qualquer distrbio.
O Cnego Soares concordou com a cabea. Bulhes continuou com o seu vozeiro:
        J ouvi dizer que tem havido escaramuas depois dessas reunies; gente que fica de tocaia na rua, esperando.
Papai mexeu-se de novo e seu olho direito brilhou estranhamente; percebi o que ele ia dizer e perguntei, enquanto recolhia as xcaras vazias:
        Ser que Rodolfo foi a uma dessas reunies?
Ningum respondeu e todos se entreolharam. O Dr. Maranho respondeu depois:
 No. Creio que no. Ele me disse hoje que iria visitar um amigo doente, se no me engano, na Rua de So Bento.
Papai queria saber quem estava doente na Rua de So Bento, mas no souberam dizer. Lopes Velho procurou mudar de assunto:
        Chamam a princesa de fantica por causa desse movimento; e, por falar nisso, como ir o imperador? As ltimas notcias diziam que estava sofrendo males 
do fgado.
O Cnego Soares voltou ao assunto:
- Precisavam ver como o Sul se refere a esse movimento; diz que o Brasil est declinando sob o Imprio de uma senhora inclinada ao fanatismo e casada com um prncipe 
estrangeiro. Foram essas as palavras; tem havido srios tumultos por causa disso.
        Isso  um absurdo; quero ver o que os republicanos vo fazer; se vencerem, eles vo levar o Brasil  desgraa. Digo e afirmo.
Papai concordou energicamente com a cabea; todos os velhos eram conservadores extremados, enquanto a maioria da mocidade propendia pela Repblica e como Rodolfo, 
embora escravagista, era republicano, esperaram a sua sada para por o corao  larga. Papai pediu-me para arranjar-lhe os travesseiros. Disse um dos presentes:
        Os distrbios so inevitveis; eu j disse que pode haver at guerra civil, como na Amrica do Norte; a sim, o pas levar a breca...
O Bulhes levantou-se:
        E os quilombos existentes por a? A negrada anda s soltas, ameaando a paz de todos ns... Santos virou ninho de negros fugidos, e o negro que cai l, 
ningum pega.
        No precisamos ir to longe. Por aqui tambm, no Ipiranga,  a mesma cousa...
O Cnego Soares levantou-se de repente, como se tivesse uma idia:
        Ah! senhor baro, ia-me esquecendo de lhe mostrar o documento de que lhe falei outro dia. Quer ver agora? Lembrei porque se falou no Ipiranga.  uma carta 
escrita por um tal Gabriel Cantinho, pedindo soldados para os canhambolas que viviam no Ipiranga. Tenho a cpia comigo. Quer ver?
Benedito levou a bandeja e os copos usados. O Bulhes que havia falado em sair, sentou-se outra vez, resignado. Eu estava na porta quando o Cnego me perguntou se 
no queria ouvir. Parei para escutar; ele tirou um papel amarelado do bolso, estendeu-o sobre os joelhos, colocou os culos no nariz e leu pausadamente:
Exmos. Revmos. Snrs. E Senhorias:
Consta-me que ao p desta cidade em uma passagem chamada Ipiranga, est hum Quilombo de Canhambolas que esto roubando pelos caminhos e furtando gado e tambm negros. 
Tenho dado as providncias aos Capitam de Matto e Ordenanas, mas como me dizem que esto fortes eu da minha parte peo auxilio a Vss. e Srias. para darem soldados 
para se arrumarem nas estradas, e tudo deve ser da meia-noite para o dia, determinando V. Exa. e Srias., a quem dar os soldados para o auxilio a toda a hora que 
se lhe pedir.
Deus guarde a V. E. e S. S. S. Paulo 19 de Janeiro de 1818.
De v. Ex. o mais humilde sdito.
Gabriel Frz. Cantinho
Alguns riram da maneira como a carta estava escrita; O Dr. Maranho tirou o cigarro da boca para falar:
        Esto vendo? Desde essa poca, os negros esto ameaando. Quando foi mesmo?
 1818.
        Pois  isso. Precisamos acabar de uma vez com essa ameaa; do contrrio, nunca teremos sossego.
A carta andou de mo em mo e alguns liam alto certos trechos. O Bulhes resmungou:
        Com esta eu vou indo...
E tirando o relgio do bolso do colete, admirou-se: O qu! Dez e tanto. Pensei que eram nove e pouco. Boa noite, senhores.
Os outros levantaram-se tambm e aos poucos foram saindo pela noite afora. Benedito veio preparar papai para dormir; mame apareceu perguntando se ele desejava alguma 
cousa. Dormia no quarto prximo.
Fiquei imvel no meu leito, durante muito tempo, no quarto escuro, sem poder dormir. Pensava nos perigos que Rodolfo corria freqentando reunies contra o abolicionismo, 
pois era quase certo que as freqentava, apesar de nada dizer. Bem mais tarde, ouvi o rudo de passos parar junto  porta da casa; era Rodolfo que entrava. Acendi 
a vela e olhei as horas; uma hora da manh. Tornei a apagar a vela num leve sopro. Ouvi depois mame perguntar a papai, do outro quarto:
        O senhor est sentindo alguma coisa?
        No; estou bem.
Papai tambm estava acordado  espera de Rodolfo; tambm no dormira ainda. Imaginei-o com o olho esquerdo meio fechado, parecendo morto, a plpebra descida, e o 
olho direito fixando sinistramente as trevas, enquanto seu pensamento girava em torno da lei da abolio. Que iria acontecer depois?
Voltei a Santarm no fim desse ano, pois Maria Letcia estava desolada; Ferno resolvera mandar para a Europa os dois filhos mais velhos. Antnio Ferno e Paulo. 
Um dos genros de nosso tio de Sousa Mendes ia ocupar um posto na Embaixada Brasileira na Itlia; ficou ento combinado que levaria Antnio Ferno e Paulo. Apesar 
da insistncia do marido, ela no quis acompanhar os filhos at o Rio de Janeiro; sentia-se to velha e cansada que preferiu no deixar Santarm. Eles passaram dois 
dias na fazenda em setembro, para se despedir da me. Ela no se perturbou muito na hora da despedida, abraou e beijou os filhos agora com dezessete e dezesseis 
anos, Antnio Ferno parecia-se mais com ela, tinha os mesmos olhos azuis e uma expresso tranqila. Paulo sara ao pai; at na inquietao do gnio; era vivo, irrequieto, 
mais alegre que o irmo. De p, no trole que os levava  estao, voltaram-se muitas vezes para acenar
  me que ficara no portozinho do jardim, muito calma e resignada, sacudindo a mo para eles. Mas quando a ltima curva do caminho os ocultou de nossa vista, ela 
voltou-se e entrou rapidamente no quarto, ajoelhou-se diante do bero da filhinha e comeou a chorar, um pranto sentido e angustiado, vindo do fundo do corao. 
Passou o dia todo com os olhos vermelhos, lembrando-se dos meninos que partiam para to longe; nem sabia quando os veria de novo. Sentia-se profundamente infeliz.
Achei Santarm muito triste dessa vez; a tristeza pairava em toda a parte. No havia um som em toda aquela solido, os pssaros cantavam baixinho, o ribeiro corria 
a medo, como que suspirando, os sapos pouco coaxavam durante a noite e a Mulata, no poleiro da porta da cozinha, no gritou uma vez sequer.
Modesta, uma tarde, contou-me tudo. Disse que o feitor Belisrio, chegando da roa um dia, cansado e coberto de suor, encontrou a mulher chorando: perguntou-lhe 
o que havia e ela, sentada  porta da casa, negava-se a responder-lhe; mas ele insistiu, interpelou-a com dois berros e ela confessou entre soluos; estranhava Estefnia 
h vrios dias; estava plida, no comia e queixava-se de dores no estmago. No sabia o que era, mas desconfiava... Belisrio bebeu uma caneca cheia d'gua, jogou 
o resto no cho da cozinha e passando as costas da mo direita pela boca, indagou:
        Onde t ela?
        Na casa grande; s vem aqui pra se queixa e s veis passa dois, trs dias sem aparec.
Belisrio mandou o filho menor chamar Estefnia e pediu o jantar; enquanto esperava, foi dar milho s galinhas e recolheu o bezerrinho; meia hora depois, avistou 
a filha vindo pelo caminho da mata; ps a mo em pala sobre o rosto e semicerrou os olhos para observ-la; como estava diferente! E ele que no notara nada at ento? 
At o modo de andar era outro. Desgraada! Havia-se perdido por a... Mas havia de ver, havia de ver.
Ela chegou, tomou a bno ao pai, depois entrou na cozinha para falar com a me. Eram quatro horas e o sol j ia sumindo por trs do cafezal; o dia estivera quente 
e abafado, prenunciador de chuvas. Quando se sentaram  mesa de tbua para jantar, Estefnia no apareceu; ficou na cozinha fazendo uma tisana para aliviar sua dor 
de estmago; Belisrio gritou por ela:
        Estefnia!
A rapariga chegou  porta, ressabiada e indecisa, as duas mos sobre o estmago. Ele ordenou:
        Venha jant, Estefnia.
        No tenho fome, pai. Vou faz um chazinho pra mim.
        J disse que venha jant. Sente a.
E apontou-lhe o banco tosco em frente a ele; ela sentou-se com os olhos baixos e tomou um prato para se servir. O pai tornou a falar:
        Por que no come, rapariga?
        No tenho fome, pai. Prefiro tom ch de erva-cidreira ou de losna.
Mas o pai, teimoso, mandou-a jantar; a me preparou-lhe o prato; os meninos comiam avidamente, sem reparar o que se passava  volta. Estefnia pegou a colher e comeou 
a misturar a comida no prato, sem coragem de comer; amassou o feijo, misturou-o com arroz, batata-doce e farinha; depois de tudo misturado, provou uma colherada. 
Disfarou a nusea com medo do pai e comeu outra colherada; fez esforo para engolir; na terceira vez, o estmago reagiu e ela sentiu que o alimento lhe subia de 
novo pela garganta. Levantou-se da mesa com a mo na boca e foi vomitar na porta da cozinha, tomada por nsias horrveis; ps tudo para fora, entre gemidos de dor. 
Depois, em vez de voltar  mesa, postou-se num canto da cozinha, trmula de medo; bebeu uns goles d'gua da caneca o sentiu-se melhor. Os meninos foram brincar no 
terreiro, cada um mastigando seu pedao de rapadura. Belisrio comeou a fazer um cigarro de palha, a testa cheia de rugas, um ar pr
 eocupado. Quando a mulher trouxe o caf e colocou a cafeteira  frente dele, juntamente com uma tigelinha desbeiada, ele pediu pinga. Mau sinal. S bebia ao jantar 
quando perdia o bom humor. Tomou a pinga de um trago e bateu com fora a caneca sobre a mesa, gritando:
        Estefnia!
Ela veio da cozinha, encolhida, amedrontada, os olha midos; perguntou baixinho:
        Chamou, pai?
        Que tem, rapariga?
        Num sei. Faz dia que t assim com um enjo e umas dores nas cadera.
        Que ando fazendo? Quando come isso?
Enrolando o cigarro, observava a filha; ela hesitou um instante, depois disse que desde o outro ms, no estava passando bem, mas aquilo havia de passar, no era 
nada. Do repente, ele explodiu:
        Pois quando o dot vier no fim do ms, vai te examin.
        No precisa, pai, isso passa.
        Precisa. J disse que precisa e acab-se. E esta noite dorme aqui. No vai para o sobrado.
O beio inferior da Estefnia comeou a tremer e ela disse, num soluo:
        Tenho que volt, pai. To me esperando.
Ele levantou-se e ficou diante dela, na expectativa:
        Quem est esperando?
        As mucamas to esperando pra acab de pass roupa.
        Mentira. Ningum vai pass roupa fora de hora.
        Mas preciso ir, pai, elas me pediram.
E encarou o pai, com ar aflito e ao mesmo tempo resoluto. Belisrio encarou-a tambm como a adivinhar qualquer cousa, qualquer cousa que o cobria de vergonha. Avanou 
para a filha:
        Desavergonhada! Oc qu dormi por a, isso  o que oc qu. No qu fica mais na casa de seu pai, pois vai v, rapariga.
E estalou uma tapa no rosto da filha; ela escondeu a cabea entre os braos e comeou a chorar alto; a me, na porta da cozinha, assistia  cena, assustada, as mos 
cruzadas sobre o ventre. O pai tornou a levantar o brao:
        Quem  que te fez isso, rapariga? Conta ou te arrebento.
Soluando, Estefnia no falou; seus ombros tremiam. A me procurou acalmar o marido:
        Num bate nela, Belisrio. Ela conta.
        Conta? Quem num v que essa rapariga me desgra?
E avanou outra vez, segurando-lhe o brao. Sacudiu-a:
        Fale quem , Estefnia. Com quem tu anda pela mata?
No   toa que uns negro me avisaram e deram risada, mas no acreditei. Os safados. Diga quem  ou te arrebento. Fale de uma veis. Fale.
Sacudiu-a com mais fora pelo brao. Mas Estefnia no pronunciou uma s palavra; procurava abafar os soluos na manga do vestido, sem nimo para falar. Ento o 
Belisrio dirigiu-se a um canto da sala, onde um chicote estava dependurado, sob o chapu de palha. Com o chicote na mo, olhou a filha; os meninos atrados pelos 
gritos do pai, ficaram espiando pela janela, olhos arregalados, surpresos e medrosos.
As galinhas cacarejavam no terreiro em frente  casa; a me aconselhou  filha:
        Fale, Estefnia, fale de uma veis. Oc no engana com esse jeito, rapariga.  mi fal.
O pai levantou o chicote e brandiu-o nas pernas da filha; o couro enrolou-se nas saias de Estefnia e ela soltou um grito, encolhendo-se. Mas no se moveu; continuou 
chorando no mesmo lugar. O pai perguntou:
        Quem ? O Juvncio?
Estefnia continuou chorando e no falou; o chicote tornou a subir e tornou a descer; desta vez enrolou-se na cintura e ela deu um grito maior. Retorceu-se e pediu:
        No me bata, pai. No me bata mais.
        Ento fala. A me insistiu:
        Fala, Estefnia.
        Ser que essa desgraada and com algum negro safado e no tem coragem de cont?
E pela terceira vez o chicote subiu; ento a Estefnia caiu de joelhos e descobrindo a cabea, gritou entre lgrimas:
        Eu falo, pai, si vossunc no bate mais.
        Ento fale, quem ?
Ela procurou enxugar o rosto com a manga do vestido, fungando, aflita, e ali mesmo, ajoelhada, pronunciou um nome que ningum entendeu. A me aproximou-se dela e 
procurou levant-la.
        Fale, fia. Teu pai no te bate mais se fal. Quem ?
Ela levantou-se cambaleando e sentou-se num banquinho no canto da sala; depois balbuciou, entre envergonhada e orgulhosa:
         Sinh, pai.
Pai e me duvidaram; inclinaram-se para ouvir melhor. A me pediu:
        Repita, Estefnia.
        Sinh Ferno, me.
Eles entreolharam-se e nada disseram; Belisrio jogou o chicote longe, com fora, no terreiro, e o couro bateu, em cheio sobre uma galinha, que saiu correndo e cacarejando, 
asas abertas. Estefnia parou de chorar e dirigiu-se para o quarto dela, em silncio. A me foi  cozinha lavar as panelas e o pai ficou sentado na porta da casa, 
enrolando outro cigarro. A noite foi caindo devagar e tudo ficou silencioso  volta da casa; os animais aquietaram-se e nada mais se ouviu.
Foi quando Modesta chegou  casa do Belisrio e a mulher dele contou tudo. S se ouviam os grilos a fazerem cri-cri nas moitas e viam-se os vaga-lumes iluminando 
o caminho da mata. O candeeiro de querosene foi aceso e colocado na mesinha da sala, sobre a toalha de croch. Atrados pela luz, alguns besouros, entraram e debateram-se, 
tontos, contra o candeeiro; depois caram no cho e ficaram pelos cantos, esquecidos, alguns de costas, esforando-se por se levantar, sacudindo as patinhas no ar 
inutilmente. Modesta deu boa noite e retirou-se.
A casa do Belisrio continuou em silncio; ningum mais falou; mais tarde o feitor apagou o lampio e todos foram deitar-se, como de costume. Logo mais, o casal 
ouviu o rudo da porta abrindo e fechando; era Estefnia que fugia furtivamente para ir  casa grande, passar a noite; Belisrio e a mulher ouviram. A mulher avisou:
        L vai ela, Belisrio, ouvi o barulho da tramela da porta.
Belisrio respondeu, dando  voz um tom descorooado:
        Pois que v. Que posso faz?  o destino, mui, e o destino tem muita fora na vida da gente.
Quando Modesta acabou de contar-me, fiquei assustadssima. Perguntei:
        E Maria Letcia, Modesta?
Modesta disse que Maria Letcia vivia amargurada, mas nada dizia. Continuava como se no soubesse de nada. Mas sofria. Quem no via que ela estava sofrendo?
Nessa mesma noite, quando ficamos sozinhas em Santarm, pois Ferno tinha ido ao Rio de Janeiro acompanhar os filhos, Maria Letcia contou-me que descobrira tudo 
havia muito tempo, antes de minha ida a So Paulo e que havia de se vingar. Olhei para ela, muito assustada e perguntei:
        Mas de que jeito, Maria Letcia?
        No sei ainda, e todas as noites, quando me deito, tenho projetos de desforra na minha cabea, mas no sei.
Aconselhei-a a continuar a fingir ignorncia e nada fazer, como era costume entre as mulheres de nossa famlia. Perguntou-me, indignada:
        Acha ento que devo ficar quieta? Aquilo que tanto critiquei no marido de Francisca Miquelina e falei a ele muitas vezes, a Ferno, e agora meu marido faz 
a mesma indignidade?
 cruel e indigno, no h perdo para um ato desses... Nunca perdoarei. J pensei em me separar dele definitivamente, no receb-lo mais no meu quarto, mas no tive 
foras para afast-lo. Afinal  meu marido, o pai dos meus filhinhos adorados, no sei o que possa fazer. Fingir ignorncia e procurar esquecer, no conseguirei. 
Impossvel.
E, amargurada, Maria Letcia chorou de novo.
Os dias foram-se passando com desesperadora lentido. Em vo procurei ver Estefnia ou ouvir alguma frase referente a ela, sem perguntar. Mas nada ouvi durante muitos 
dias, nem sequer a vi. Soube um dia, por acaso, que Estefnia estava em casa dos pais, esperando o filho; Maria Letcia e eu amos passando pelo quarto de passar 
roupa quando ouvimos duas escravas conversando. Maria Letcia parou para escutar. Rita dizia:
        Agora t importante qui nem rainha, nem fala co'a gente. Decerto qu que chame ela de Sinh Estefnia, mas no chamo. Nem que me mate, num chamo. Pronto.
Ouvimos a outra escrava assoprar o ferro de engomar, o estalinho do dedo molhado para experimentar o calor; depois a voz da engomadeira:
        Os brancos fais tudo que qu, depois  isso: o fio vem vindo. A Estefnia era assanhada, logo vi. No se alembra quando vinha traz roupa? Nem sei o que 
parecia de to orguiosa.
        Agora t na casa da me esperando. L o Sinh num vai.
        Pra qu? Quem no sabe que eles se encontram na mata pra l do ribeiro? Rita, esse ferro t quente demais, rapariga. Chamusca a camisa.
Outro estalinho e a voz de Rita:
        Num chamusca. Num tem perigo.
Puxei Maria Letcia por um brao e fomos embora. Era demasiado para ela.
Ferno voltou do Rio de Janeiro contando que os filhos haviam embarcado no vapor Valparaiso, e estavam contentssimos com a viagem.
Passaram-se mais alguns meses. Em junho, os dias eram muito bonitos, mas muito frios. Calculei que o filho de Estefnia devia nascer nessa poca. Por mais que observasse 
Ferno nada notava. Continuava imperturbvel. Um dia, ouvi Maria Letcia perguntar a Modesta, procurando dar a voz um tom natural:
        Estefnia j teve a criana?
Modesta admirou-se da calma da Sinh e respondeu serenamente:
        Teve, Sinh. Fais uns trs dias. Diz que no pass bem, a criana no queria nasc. Comadre Josefa foi assisti ela, diz que foi um custo.  um menino.
Maria Letcia nada disse, continuou a costurar, pensativa. Suspirou e absorveu-se no trabalho, fingindo-se muito interessada pela costura.  noite, vi-a quando observava 
Ferno. Ouviu-o contando histria para Maria e Ldia, alheio ao que se passava. Pensei: Como os homens podem ser assim? Que vida desconcertante!
No dia seguinte, Maria Letcia recebeu uma carta de Leopoldina:
Mana muito querida:
Nosso pai no est passando bem; isso foi desde que recebeu uma carta do mano Incio. Imagine que mano Incio escreve nessa carta que vem para S. Paulo nestes dois 
meses e vem casado. Casado! com quem? Com uma italiana. Mame j disse que deve ser uma aventureira. Conheceu-a em Roma quando estudava pintura com o professor Bernardelli. 
Diz na carta que ela  romana, muito bonita e canta. Acho que  cantora de teatro. Chama-se Carmela.
Nossos irmos agora deram para fazer asneiras; um casa-se com uma desconhecida, de uma famlia sem tradio, outro casa-se com uma estrangeira. Nossa me chorou 
muito quando leu a notcia; papai leu a carta sem dizer nada, depois ficou agitado, as mos tremendo. Fez o que faz sempre que est amofinado; pegou a bengala e 
jogou longe no cho; desta vez ela se quebrou. O Benedito foi apanh-la, mas estava em dois pedaos. Tivemos que mandar comprar outra s pressas. Desde esse dia, 
no quis mais ir para a mesa, s quer comer no quarto. No fala quase. Por que voc no vem fazer-lhe visita? Deixe mana Rosa com as crianas na fazenda e venha. 
Faria bem a papai e quem sabe at h de melhorar?
Seus meninos j deram noticias da viagem?
Estou aborrecida porque Fortunato no quer estudar, s nos d desgosto. Quando vier, contarei tudo. Venha, mana. Estamos to saudosos! A Ernestina j est andando? 
Est engraadinha?  bonita como as outras?
D. Escolstica contou-me que da fazenda dela, em Guaratinguet, fugiram cerca de cinqenta escravos. Isso  importante, a lei da abolio se aproxima a passos largos 
e isso tem concorrido para agravar os males de papai.
Cada vez que Flix vem de Guararema, ele pergunta: Quantos mais fugiram? E fica acabrunhado. Dizem que os prprios abolicionistas do guarida em suas casas aos negros 
fugidos.  uma loucura. Alberto j disse: Precisamos acautelar-nos. O grito  Sauve qui peu, como dizia nosso mestre M. Jean. At breve.
Um abrao da mana Leopoldina
Nessa mesma tarde, Maria Letcia disse que queria ir a S. Paulo visitar papai, mas levaria todas as crianas, Modesta e eu. Ferno olhou Maria Letcia, como que 
observando-a, depois disse que podia ir, sem muito entusiasmo.

QUANDO chegamos ao casaro do Largo do Ouvidor, encontramos um ambiente triste e silencioso; papai, cada vez falava com mais dificuldade. Todo o lado esquerdo estava 
tomado pela paralisia; a boca entortara mais, de modo que as palavras saam dificilmente e s mame e Benedito, que lidavam com ele, podiam entend-lo. Passava os 
dias sentado na antiga poltrona de veludo desbotado e dali s saa para o leito, pois raramente se arriscava ir  sala de jantar e sentar-se  cabeceira da mesa 
para presidir as refeies. Os poucos passos que dava eram arrastados e sempre se apoiava na bengala e no Benedito. Todas as noites recebia os amigos costumeiros: 
Dr. Maranho, Cnego Soares, Lopes Velho, Bulhes, os genros e os filhos. Eram as nicas horas distradas dos seus longos dias; contavam-lhe novas, davam opinies 
sobre os problemas que apareciam e acaloradamente discutiam poltica. Papai ouvia quase sem replicar; e, quando queria falar, batia com a
 bengala na cadeira prxima, pois o brao direito ainda se conservava normal. Os outros procuravam auxili-lo a encontrar as palavras, a adivinhar-lhe o pensamento, 
mas quando no o conseguiam, o que acontecia muitas vezes, ele se irritava mais e a boca entortava visivelmente, num rctus doloroso. Discutiam as conseqncias 
da lei de 1885. Quando eu ajudava a servir caf, gua ou alguma tisana, encontrava papai ouvindo os amigos. O Dr. Maranho, ar pensativo, olhava o teto e dizia:
 Vi hoje um bando de escravos velhos pedindo esmolas na porta da Igreja de So Pedro.
Lopes Velho exaltava-se:
        Vamos mandar esse bando de mendigos para a casa dos abolicionistas; eles que dem comida e casa para essa gente.
O Cnego Soares replicava:
        Quiseram fazer o bem e praticaram o mal. Quem aceita hoje um homem velho para trabalhar na roa?
O Bulhes tomava a xcara de caf de minhas mos e interrompia:
        Muito obrigado. No serve para a roa, nem para a cidade. Eis a o resultado. Mas eu sabia disso, falei desde o princpio.
E olhava papai, que confirmava com a cabea, penosamente. O Dr. Maranho falava com voz compungida:
        Causam d esses coitados andando pela cidade pedindo trabalho; ningum lhes d trabalho. Pedem ento uma esmola ou um prato de comida.  lastimvel. Um 
pouco mais de acar, D. Rosa? Faa o favor.
Outro continuava, nervoso:
        Queriam liberdade, no ? Pois a a tm. Ei-la. So homens livres, mas que adianta a liberdade quando no h forno?
Fazia uma pausa; depois:
        Este caf est delicioso.  aquele caf de Guararema? Da colheita de 85?
Eu dizia que sim, enquanto outro continuava com o assunto:
        No. Que adianta a liberdade quando se tem sessenta anos ou mais? Que fazer com ela? Antes continuassem escravos, O Dr. Maranho replicava, irnico:
        Continuar escravo at morrer? Trabalhar at no poder mais? Tambm no.
Eu dava o caf para papai; segurava o pires bem perto enquanto ele levava a xcara  boca, vagarosamente. De repente, deixou a xcara no pires e levantou a bengala. 
Ia falar. Todos ficaram na expectativa, esperando. Levantando o brao direito como se o brao pudesse auxili-lo a emitir as slabas, falou devagar, procurando as 
palavras:
        Sempre fui... contra a... a... lei de 85. Quando meu irmo Sou... sa... Sou... sa...
O cnego auxiliou:
        Sousa Mendes?
Papai fez sinal que sim e continuou:
        ... me falou, sobre a lei... eu... disse que era e... ener... ener...
Lopes Velho terminou a frase:
        Energicamente?
        Isso, confirmou papai, aliviado.
E a mo trmula baixou outra vez na xcara. O Dr. Maranho falou:
        Muitas vezes no se pensa nas conseqncias de um ato; pensa-se irrefletidamente. E os resultados so espantosos.  triste ver um homem trabalhar at setenta 
anos, sempre escravo, sob o jugo da escravido, mas tambm  triste ver esses velhos sem trabalho, sem saber o que fazer de si.
        E quando vier a lei total, como dizem que vem? Milhares de homens vo perambular pelas ruas sem destino, sem ter onde dormir, sem ter o que comer. Ento, 
senhores, veremos o lado mais triste do problema. Por enquanto no  nada.
Protestavam:
        Isso tambm no. Homens moos tero trabalho. E os braos para a lavoura?
        A lei total no vir to cedo...
Lopes Velho falou em voz baixa:
        Dizem que o Sousa e Castro j bandeou para o lado dos abolicionistas.
Houve um coro de admirao e protesto:
        No  possvel.
        No acredito.
        Como soube isso?  boato...
Papai levantou a bengala para falar. Houve um silncio:
        Eu sa... bia. No acredi... tei, mas  ver... da... de.
Dizem... que... at que...
O Bulhes interrompia:
        Vai entrar para a Ordem do Rosrio?
        Isso, concluiu papai.
Eu ajuntava as xcaras e copos. Voltava l para dentro e quando mais tarde eles deixavam nossa casa, falando alto, iam comentando a situao pela rua afora. O futuro 
era incerto e ningum poderia prever os acontecimentos.
Eu sabia que bandos de homens e mulheres andavam pelas ruas, magros e maltrapilhos, pedindo um canto para ficar ou um meio para ganhar algum dinheiro. Mas nada encontravam; 
andavam de casa em casa, vivendo de esmolas, famintos e esqulidos. No sabiam e no podiam viver libertos, estavam habituados, desde crianas, a ser escravos e 
como tais tratados, tendo quem lhes desse comida, roupa e remdios; e a liberdade, depois de sessenta anos, era-lhes um fardo pesado. Seus ombros velhos e cansados 
no suportavam o fardo; ficaram como criaturas perdidas numa longa noite, tateando a escurido e a escurido estendendo-se cada vez mais diante deles, at o infinito. 
Coraes generosos, davam-lhes esmolas e tratavam deles algum tempo; outros no encontravam ningum que os socorresse, viviam tremendo de frio e fome nas portas 
das igrejas, procurando em vo um recanto onde viver e morrer.
Esse era o tema palpitante de todas as reunies; e todas as noites nossa casa animava-se com o grupo de amigos; s vezes faltava um ou outro.
As noites eram assim animadas mas durante o dia, reinava profunda: quietude no casaro, s interrompida, algumas vezes, pela vozinha fina de Carola que cantava uma 
romana de Beethoven: Delizia, acompanhada pela professora, l no fundo do salo. O grupo animado e alegre dos nossos irmos, sentados  volta da velha mesa de jacarand 
da sala de jantar, havia-se desvanecido havia muitos anos. Um por um, tinham partido para seus destinos e o casaro tranqilo guardava, nos seus recantos e nos seus 
silncios, a saudade dos dias idos.
Passamos uma temporada em S. Paulo, e apesar de Leopoldina, os irmos casados e as cunhadas insistirem com Maria Letcia para lev-la a teatros ou passeios, no 
os acompanhou uma vez sequer, vivia retrada e s saa para ir  igreja.
Uma tarde, quando estvamos todos reunidos na sala de jantar, ouvimos um carro de boi parar em frente  casa; pensamos que vinha de Guararema trazendo frutas ou 
caf, mas de repente Modesta entrou na sala, muito assustada, as mos na cabea:
 Sinh Baronesa, Sinh Francisca ta no carro, acho que t doente.
Levantamo-nos todos e corremos para a porta da rua, Rodolfo, auxiliado por dois escravos da Fazenda Santa Engraa, tirava Francisca Miquelina do carro de boi com 
todo o cuidado; houve exclamaes de susto, gritos, perguntas: Que aconteceu?
Francisca Miquelina estava deitada num colcho, branca como o lenol que a cobria, gemendo de dor: havia cado do cavalo e quebrado uma perna. Houve um rebulio 
escravos correram para chamar o Dr. Maranho, enquanto Francisca Miquelina era levada para dentro e colocada em sua antiga cama de solteira; ficou deitada sem se 
mover, prostrada pela dor. Gente corria pela casa toda; uns foram providenciar, na cozinha, e arranjar tudo o que o mdico precisasse; eu fui contar o sucedido a 
papai que, ouvindo o movimento e no sabendo do que se tratava, batia a bengala com fora na cadeira da frente.
E na mesma tarde a perna de Francisca Miquelina foi tratada por dois mdicos e colocada entre talas de madeira. A notcia correu clere pela cidade; cunhados, tios 
e primas, e todos da famlia vieram visit-la. Era um entrar e sair do sobrado; primas solcitas mandavam pratinhos de cocada, copinhos de gelia de mocot feita 
por elas mesmas, ou levavam as primeiras rosas do ano, em raminhos preparados, com fitinhas  volta. A Baronesa de Sobral apareceu na cadeirinha forrada de veludo 
verde; contou todas as novidades que sabia. D. Escolstica veio da fazenda em Guaratinguet apenas para visitar e confortar mame que estava atravessando um momento 
aflitivo.
Maria Letcia resolveu prolongar sua estada em S. Paulo por causa de Francisca Miquelina. Que Ferno fique por l, decerto est dando graas a Deus com minha ausncia, 
pensava ela, colrica. E franzia a testa.
Durante alguns meses, Francisca Miquelina ficou em tratamento; Rodolfo ia para a Santa Engraa e vinha de quinze em quinze dias. Os filhos ficaram com ela. Durante 
sua convalescena conversamos muito. Um dia perguntei-lhe sobre a assombrao de Santa Engraa; respondeu-me que ia cada vez pior, mais ousada, mais intrometida. 
Um ms antes, havia dado uma tapa nas costas de Alexandrina. Eram nove horas da noite e todos j se tinham recolhido; Alexandrina deixou o quarto das crianas e 
foi acender o pito na cozinha. Toda a casa estava s escuras e, no fogo, apenas algumas brasas. Alexandrina debruou-se sobre as brasas e quando estava entretida 
assoprando-as para acender o pito, sentiu um bafo gelado e uma grande tapa nas costas. Assustou-se tanto que deu um grito e comeou a correr, deixando o pito queimar-se 
nas brasas; Francisca Miquelina disse que, como o caso estava cada vez mais grave, Rodolfo mandara vir um padre para benzer a fazenda. O padre perc
 orreu todos os recantos da casa, depois foi ao pomar, ao tanque, ao curral, ao jardim onde as sempre-vivas, as perptuas e os malmequeres morriam de sede. Depois, 
mandaram rezar duas missas por alma da defunta Carlotinha; uma na fazenda e outra na Igreja de S. Francisco, em S. Paulo. Em vista disso, a assombrao estava mais 
sossegada e nos ltimos dias, antes de Francisca Miquelina vir  cidade, no dera mais sinal de vida, parece que iria ficar tranqila da em diante.
Uma noite, Francisca Miquelina estava sofrendo muito, e cansada de estar na mesma posio, sem saber quando ficaria boa, comeou a chorar. Maria Letcia sentou-se 
num lado da cama e eu no outro. Maria Letcia consolou-a:
        No chore assim, mana. Logo ficar boa.
        Mas estou cansada de sofrer, nem sei como ainda tenho lgrimas. Sofro muito.
Maria Letcia comeou a arranjar as cobertas da cama e percebi que ela ia falar alguma cousa. Comeou:
        Todos sofremos, Francisca Miquelina. De um modo ou de outro, todos sofremos.
        No diga isso. O sofrimento no  para todos, parece que tem seus prediletos. Eis o que no compreendo.
        Uns sofrem mais tarde, outros mais cedo, mas todos sofrem. Todos.
Francisca Miquelina levantou a mo num gesto de protesto.
        Voc sofre tambm?
        Tambm.
        E por qu?
Antes de responder, Maria Letcia levantou-se e deu uma volta pelo quarto para verificar se estvamos ss. Pegou o castial de prata e trouxe-o para perto de ns. 
Depois mandou-me espiar no corredor para ver se estava deserto. Ento perguntou em voz baixa:
        Lembras, Francisca Miquelina, no dia. em que fiquei noiva de Ferno?
        Lembro.
        Foi neste quarto que dormamos juntas, no foi? Voc nesta cama perto da sacada, eu ali, e mana Rosa l do outro lado.
        Isso mesmo.
Maria Letcia fez uma pausa e fixando a chama da vela que danava como se fosse assoprada pelo vento, continuou:
        Pois nessa noite eu estava cheia de orgulho. Meu Deus! Como eu era orgulhosa! Achava que no mundo tudo era meu porque era bonita, era rica e fora pedida 
em casamento por Ferno Seixas. Escolhida por ele! Quase arrebentei de orgulho, mana, mas foi meu castigo.
Escutvamos atentamente, Francisca Miquelina ainda com os olhos brilhantes de lgrimas. Maria Letcia tirou com a ponta da unha o espermacete que se acumulava no 
castial e prosseguiu:
        Isso faz dezenove anos e nesses dezenove anos passei por tantos sofrimentos que voc no pode saber, nem adivinhar.
        Refere-se ao jri?
        Primeiro a morte da escrava, depois a denncia, a priso de Ferno, depois o jri. E se Ferno fosse condenado? Pense um pouco! A culpa seria minha. Minha!
        Seria doloroso.
        Nem me fale. Depois a viagem  Europa que mais parecia uma fuga. Lembra-se, mana Rosa? E pensa que fui feliz nesse tempo que passei na Europa? Pensa?
        No foi?
        Pergunte a mana Rosa. Fui muito infeliz. Desde a vivemos sempre meio separados, cada vez mais longe um do outro. Na Europa, Ferno passava semanas viajando, 
meses mesmo, e eu em Paris com mana Rosa e as crianas. Quando Paulo nasceu, at rezei para morrer. Rezei mesmo...
Procuramos consol-la; Francisca Miquelina falou:
        Oh! Maria Letcia, voc foi sempre to forte, to valorosa, no chore...
Maria Letcia chorava, a cabea entre as mos; depois continuou quase sorrindo:
        No estou chorando. Lembrei-me at de uma frase dita por um rei, na literatura clssica que M. Jean nos ensinava. Vocs lembram? Naquele mesmo dia, entre 
as tormentas d'alma, implorei a Morte, mas a Morte no veio para aplacar-me a nsia desabrida.
        Lembro, sim. Como eu custava a decorar e voc decorava tudo com tanta facilidade...
        E eu? Eu ento no conseguia decorar nada.
Maria Letcia continuou:
        Desejei tanto morrer, mas no morri. No agentava mais viver assim... com a indiferena dele. Tratava-me bem, com delicadeza, mas com a maior indiferena. 
Era como se eu no fosse algum, compreende? Como se eu fosse uma boneca; era preciso ter cuidado porque era frgil. Estava escrito no pacote: Fragile. Mas era como 
se eu no fosse gente. Sorriu outra vez:
        Na Europa, viveu a grande vida. Freqentou teatros, festas, teve amigos, teve carruagens e passeava a cavalo todos os dias. Eu no fui a lugar nenhum.
        Mas ele me disse uma vez que voc no queria passear, ir a teatros, no queria viajar por outros pases, nada...
Maria Letcia explicou:
        Ele me convidava algumas vezes, mas a gente sente quando o convite  sincero ou no. E eu sentia que ele no queria que eu aceitasse...
        Louvado Deus! Protestei:
        Oh! Maria Letcia, no diga isso...
        Como no? Ainda afirmo mais: Ferno acreditou que eu tivesse dado a ordem para dar na escrava at matar...
Francisca Miquelina e eu protestamos com energia. Ela continuou:
        Eu sei que foram quase oito anos de desiluses. Na Europa passeava e ceava com mulheres...
        Ser possvel?
        Ora, tenho certeza. Por mais de uma vez li os bilhetes que elas punham no bolso dele... lencinhos perfumados, flores. Quando regressamos e compareci perante 
o Tribunal, pensei que depois fosse feliz, depois que tudo tivesse passado. Pensava ento: Agora sim, vou ser feliz outra vez, to feliz, como quando nos casamos.
Fez outra pausa e deu um piparote na chama da vela. Continuou:
        Ento aconteceu o pior; lembra-se de que vim a S. Paulo para ter a Ernestina? Passei aqui quatro meses porque estava muito fraca e doente, e, quando voltei 
a Santarm, encontrei Ferno vivendo com Estefnia, filha do feitor Belisrio, Mana Rosa sabe de tudo.
Francisca Miquelina afogou um grito de surpresa com a mo sobre a boca:
        Maria Letcia! Ferno?
        Sim, senhora e em minha prpria casa...
        Pobre da mana!
        Pobre de mim! O que sofri e sofro. J teve um filho dele e Ferno faz tudo como se eu no estivesse l. Na fazenda, todos sabem...
Francisca Miquelina disse com um leve tom de triunfo na voz:
        Ah! Isso Rodolfo nunca fez. Nunca trouxe Ambrosina para dentro de casa, nunca.
Houve uma pausa breve e, de repente, Maria Letcia baixou a cabea e comeou a chorar, escondendo o rosto entre as mos. Ao leve claro da vela, vimos sobre a cabea 
inclinada os primeiros fios brancos. Muito de leve, afaguei-lhe o brao:
        No chore assim, tudo h de acabar. Entre soluos, ela respondeu:
        Tenho uma vontade de morrer... Francisca Miquelina falou:
        Eu tambm j tive essa vontade, mas agora no. Rodolfo  muito bom. Tem l essa fraqueza pela Ambrosina, mas  bom. No viu agora na minha doena como ele 
tem sido dedicado?
Olhei Francisca Miquelina duvidando das suas palavras; ela desviou o olhar e fixou o teto. Maria Letcia, admirada, levantou a cabea e encarou a irm enquanto enxugava 
as lgrimas:
        Mas... ele... Rodolfo deixou a escrava?
        No. Creio que nem deixar, mas isso no impede que seja bom para mim. Um bom marido, dedicado, amvel.
        Ah!
        E os filhos da Ambrosina brincam com os meus todos os dias. Brincam juntos.
        E voc, deixa, mana?
        Por que no? Eles at so bonzinhos. Que  que tem brincarem juntos?
Durante alguns instantes ficamos silenciosas olhando a chama da vela; Francisca Miquelina tinha nos lbios um calmo sorriso. Maria Letcia assoava-se e olhava de 
soslaio para a irm, quase no acreditando no que ouvira. Francisca Miquelina tornou a falar:
        Daqui a uns anos voc vai mudar tambm. Vai achar tudo natural e vai deixar seus filhos brincarem com os da Estefnia.
Maria Letcia fez um gesto de revolta:
        Isso nunca. Nunca perdoarei.
Francisca Miquelina deu uma risadinha:
        Um dia voc vai contar-me isso! A gente muda tanto neste mundo. No se lembra quando me disse aqui nesta casa que preferia morrer a suportar a situao 
que eu suportava?
No se lembra? Ou j esqueceu? No se lembra, mana Rosa?
        Sim, lembro-me.
Maria Letcia suspirou:
        Lembro-me, sim. Nunca pensei que fosse acontecer o mesmo comigo.
-  Nunca se deve dizer: Desta gua no beberei... Humilhada, Maria Letcia ouviu em silncio. Francisca Miquelina tornou a falar:
        A gente muda muito! Hoje me considero feliz, pois vejo outras sofrerem mais.
Suspirou, depois continuou:
        Lembra-se daquele soneto que M. Jean traduziu do ingls para ns? Ns achvamos muito bonito e decoramos logo. Comeava assim: Sem vs,  sol dos dias passageiros, 
triste inverno tem sido minha vida. ..
Maria Letcia sorriu tristemente:
        Como no hei de me lembrar? Como a gente muda com o tempo. Achvamos que a vida seria sempre assim, como um sonho.
Fitei a chama da vela com um olhar parado e continuei o soneto:
 No me encantam os lrios de alvo manto, nem a profunda prpura das rosas... E termina assim: E com elas eu fico  vossa espera, sentindo o inverno em plena primavera...
Riram ambas. Maria Letcia falou:
        No se esqueceu, mana Rosa? Mana Rosa tambm gosta de poesia?
        Por que no? Por que sou velha e no me casei?
Maria Letcia disse:
        No. Olhe, eu estou assim como o soneto: Sentindo o inverno em plena primavera...
Levantei-me dizendo:
         tarde, Francisca Miquelina. Vou mandar a mucama aqui para tratar de voc. Quer alguma cousa?
        Obrigada. No quero nada.
Maria Letcia tambm se levantou. Francisca Miquelina disse:
        Olhe, Maria Letcia, vamos esquecer nossos dissabores. A vida no  to ingrata assim, no pense mais em morrer...
        No pensarei mais. Boa noite, durma bem.
        Boa noite.
Deixamos o quarto. Os olhos de Francisca Miquelina refletiam felicidade e paz. Pensei: Ser que ela ficou contente de saber que Maria Letcia est sofrendo do mesmo 
mal? Parece que ficou aliviada, principalmente quando disse: No diga desta gua no beberei. Tinha triunfo no olhar. Ser?... Maria Letcia foi andando pelo corredor 
escuro e dizendo para si mesma: Sem vs,  sol dos dias passageiros, triste inverno tem sido minha vida... Coitada, pensei com meus botes.
Como o fogo que diminui de intensidade e vai morrendo aos poucos por falta de combustvel, s deixando brasas que queimam inutilmente, assim a paixo de Ferno Seixas 
pela Estefnia foi diminuindo como chama sem alimento. Foi isso que eu pensei quando, certo dia, chegou a S. Paulo, queixando-se da solido de Santarm e da falta 
que sentia de Maria Letcia e das crianas. A esposa recebeu-o aptica, indiferente.
Comeamos os preparativos para voltar  fazenda. s ocultas Ferno mandou vir do Rio de Janeiro um medalho de ouro cravejado de prolas para dar a Maria Letcia 
no aniversrio de casamento. Foi nessa ocasio que tivemos notcias da chegada, ao Rio de Janeiro, de mano Incio com a mulher. Alvoroados por conhecermos a estrangeira, 
adiamos a viagem a Santarm e reunimo-nos para esper-la. O casal chegou a S. Paulo dias depois.
Mano Incio, que passara na Europa quase vinte anos, sem vir ao Brasil, parecia desambientado, como se fosse ele o estrangeiro; a mulher, ainda muito jovem, comeou 
logo a adaptar-se ao meio. A atmosfera continuava carregada em nossa casa; numa ala do sobrado, papai reclamava e batia a bengala no cho ou na cadeira; na outra 
ala, Francisca Miquelina, ainda na cama, queixava-se, o rosto muito plido e os lbios exangues, contrastando com os cabelos negros. Mame e papai receberam a estrangeira 
friamente, quase hostilmente. Tratavam-na com cerimnia e reserva que colocavam a moa a uma distncia quase intransponvel. Carmela falava corretamente o francs, 
e embora todos em casa falassem essa lngua, teimavam na sua presena em s se exprimir em portugus.
Mano Incio esquecera muitas palavras, e pedia a Carola que o ensinasse a falar; todos os dias, priminha Carola chamava mano Incio e a mulher; fazia-os sentarem-se 
diante dela no escritrio de papai e mandava-os falar. Da sala, eu ouvia a vozinha fina de Carola:
        Agora diga: Fui  fazenda e voltei em duas horas e meia sem me fatigar...
        Andai ed voltai in due ori...
        No. Em portugus. Por-tu-gus.
E Carola batia uma rgua na mesa, convencida da sua autoridade:
        Diga!
        Fui e voltei dalla campagna... A rgua batia outra vez:
        Fazenda! Voc falou campagna...
        Fa-zen-da.
        Bem. Em duas horas e meia sem me fatigar.
        In due ori in mezzo senza a affatigar...
 Nossa Senhora da Boa Morte! Est falando italiano! Batia a rgua com mais fora; mano Incio intervinha em francs:
        Diga uma frase mais curta...
        Fale portugus, primo. Quer aprender ou no?
        Quero sim...
Os dois esforavam-se. Carola tornava a pronunciar bem devagar:
        O dia est muito bonito e o sol muito quente.
        O dia st molto belo...
        Muito bonito.
        Molto bonito.
        Fale direito. Portugus.
        Bonito ed il sole molto caldo...
        Credo!  quente, Carmela.
        Quente. Oh! Ces trs difficile...
        No  difficile. Leia aqui:
        II sole molto caldo.
        No  caldo, Carmela. Quente.
        Quente.
        Che graciotta!
        No acho nada de graciotta. Estamos em aula de portugus.
A rgua subia e descia repetidas vezes. Mano Incio repetia a lio; pronunciava as palavras erradamente. Chamava ptio de patio e ningum entendia. Um horror. Muito 
tempo depois, o gelo comeou a derreter entre nossa famlia e a estrangeira.
Voltamos de novo a Santarm. Ferno recebeu boas notcias dos filhos mais velhos que estudavam na Inglaterra, num grande colgio. Passou-se o aniversrio de casamento 
e Maria Letcia recebeu o medalho com calma indiferena.
Naquele ano, houve uma epidemia de febre em Santarm; ningum descobriu a causa. Desconfiou-se de que as guas do ribeiro vinham contaminadas desde as nascentes, 
no alto da serra, mas nada ficou provado. A primeira vtima foi um escravo velho que, malgrado a lei que o libertara, no quisera deixar a fazenda por no ter para 
onde ir; prestava servio batendo feijo e socando farinha.
Comeou com febre alta, depois sua temperatura estacionou durante alguns dias, e afinal morreu; o mdico que visitava Santarm todos os meses, foi chamado e apenas 
constatou a morte do negro; ao mesmo tempo, dois companheiros do escravo caram com febre. No dia seguinte, um casal adoeceu tambm; ento o pnico apoderou-se de 
todos.
O mdico procurou atalhar o mal por todos os meios ao seu alcance, mas a epidemia continuava sem lhe dar trguas, e ao fim de uma semana quatro escravos haviam morrido. 
Todas as medidas foram tomadas para impedir a propagao do mal; Maria Letcia no deixava as filhas sarem de casa, no comiam frutas e eu fervia toda a gua que 
devamos beber. O ar da fazenda parecia tomado pela peste; muitos colches foram queimados, as senzalas lavadas; certos objetos atirados ao rio; mas a desolao 
continuava a imperar.
E ningum descobria a origem do mal. Entre os escravos, havia alguns feiticeiros  uma dezena de negros e negras que no se misturavam com os outros; respeitados 
e temidos por suas artes de mandinga e por suas magias, ocupavam senzalas separadas das outras e mesmo na roa, capinando ou plantando, semeando ou colhendo, se 
mantinham afastados dos demais. Ferno simulava ignorar-lhes as bruxarias e os encontros que realizavam na mata, em dias determinados.
Um dia, durante a epidemia, Ricardo, o filho da cozinheira, disse que iria  mata, ao lugar onde os feiticeiros se reuniam e assistiria, escondido, aos bruxedos 
que eles iam fazer para espantar os demnios da peste. Ricardo saiu de casa, tomando o caminho do pomar; deu uma grande volta e alcanou a mata l pelo lado do brejo. 
Entrou sorrateiramente pelo bosque adentro e dirigiu-se para uma clareira, apontada como o lugar preferido pelos feiticeiros. Subiu numa perobeira gigante, ocultou-se 
l em cima entre os galhos fechados. Caiu a noite e tudo silenciou; apenas um ou outro bicho passava entre as rvores, estalando as folhas secas do cho, uma ou 
outra ave soltava um silvo agudo entre a ramagem escura; encarapitado num galho, Ricardo esperava, atento e excitado pela curiosidade. De repente, ouviu vozes que 
se aproximavam. Acertara... era ali a macumba; apesar de nada ver atravs da espessura da folhagem, ficou imvel,  escuta.
Os negros foram chegando e reunindo-se  volta da clareira, iluminados pelos raios do luar e por duas ou trs achas acesas que alguns deles traziam. Conversavam 
em sussurros, cautelosos. Ricardo desceu um ou dois galhos para poder espreitar alguma cousa e viu-os; eram todos velhos africanos, homens e mulheres, sentados em 
semicrculo; trocavam uma ou outra frase ininteligvel esperando o momento de dar incio  bruxaria a fim de espantar o esprito do mal que trouxera febres a Santarm. 
Apesar da distncia e da escurido, Ricardo conheceu alguns escravos; l estavam o Galdino Angola, Jlia Baiana, Fidncio Mina. Galdino Angola e Jlia Baiana pareciam 
os chefes; de p, no meio da clareira, determinavam os lugares onde os recm-chegados deviam ficar. Uns doze j l estavam quando teve incio a macumba. Galdino 
Angola, no meio da roda, comeou a entoar um canto montono acompanhando-o de gestos esquisitos e batendo o p no cho entre
  palavras de nag. Os que estavam sentados no cho, com as pernas cruzadas, inclinavam-se para a frente e levantavam os braos para o alto numa invocao, repetindo 
as palavras e depois batendo com fora no peito: Tum  tum -tum.
Interessado, Ricardo debruou-se mais e ficou assombrado. Jlia Baiana levantara-se e principiara uma dana no meio da roda; parecia uma serpente fazendo trejeitos; 
inclinava-se para a frente e para trs, at quase tocar a cabea no cho, soltando gritos guturais que no pareciam sons humanos:
Eh! Eh! Eh! Ricardo sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha; no era a Jlia Baiana que cantava, era outro esprito no corpo dela. Afinal, ela deu um grito estridente 
e caiu de borco no cho, estrebuchando. Galdino Angola parou de cantar e todos se entreolharam. Que seria? Ento Jlia Baiana levantou-se, assustada, e olhou  volta 
com expresso de pnico, de pavor. Houve cochichos; depois Galdino Angola disse, naquela sua fala extravagante de negro velho:
 No pudemo faz nossa reza hoje. Jlia Baiana viu gente estranha aqui perto. Vamo, companhero. Vamo embora.
Ricardo ouviu-o e viu quando todos se levantaram e com as achas no alto da cabea comearam a procurar, entre as moitas, quem era o ousado que se atrevera a penetrar 
no mundo da bruxaria. Estremeceu. Como podiam saber que ele estava ali? Ento eles tinham mesmo parte com o demo. Tremendo, procurou conservar-se imvel, quase sem 
respirar, certo de que, se o descobrissem, seria morto no mesmo instante. Nada encontrando, mas cientes de estarem sendo vigiados, os feiticeiros comearam a dispersar-se 
pela mata afora, colricos e revoltados. Olhavam para trs, levantavam os braos para a lua cheia e faziam gestos amaldioando o intruso.
Ricardo passou a noite toda em cima da rvore, receando ser descoberto se descesse. S no dia seguinte, e j dia claro, apareceu na cozinha da casa grande, assustado 
e sonolento. Contou-me tudo o que presenciara, trmulo de medo. Gabriela que estava fazendo caf, olhou firmemente o filho e ali mesmo, perto de mim, deu-lhe dois 
tabefes bem dados e mandou-o socar arroz. Vagaroso, ele se dirigiu ao pilo. O papagaio gritou do alto do poleiro: Soca, Ricardo.
E a epidemia continuou em Santarm.
Ferno andava alarmado; tornou-se irascvel, nervoso, revelando seu temperamento irrequieto. Saa a cavalo bem cedo procurando descobrir a causa da epidemia; percorria 
o ribeiro, os cafezais, as matas. Deu ordens para suspenderem a moagem de cana, enquanto perdurasse o surto da febre. Quando entrava em casa para tomar as refeies, 
sentava-se  mesa, contrariado, a testa cheia de rugas, maldizendo-se, receoso de que as meninas apanhassem a febre; empurrava o prato sem toc-lo.  tarde, saa 
outra vez, em galopadas furiosas, aborrecido e infeliz. Consultava o mdico, perguntava, queria saber; mas o mdico, silencioso e cabisbaixo, tirava do bolso a caixinha 
de rap, onde havia a figura de uma danarina, tomava uma pitada, aspirava com fora e sacudia os ombros num gesto resignado de ignorncia.
Depois ficavam ambos quietos e imveis, olhando o sol amarelado que brilhava em Santarm e fazia com que as guas do ribeiro, atravs da distncia, tivessem enganosas 
cintilaes de prata lquida.
Maria Letcia continuou estranhamente calma; proibiu as filhas de sarem, tomou enrgicas providncias para manter a ordem, e resolveu ir ela prpria levar algum 
conforto aos escravos convalescentes. Penetrou, ento, num mundo at ento desconhecido para ela; comeou a visitar as senzalas todos os dias, acompanhada por mim 
e por Modesta, que ia atrs levando a cesta carregada de garrafas de leite, pacotes de araruta e medicamentos. Parece que sentia prazer em enfrentar a febre, parecia 
querer sentir o ar carregado e pestilento e apanhar a molstia. Dizia-me que era profundamente infeliz e achava que sua vida fracassara desde o casamento. Por mais 
que eu lhe dissesse o contrrio, no se convencia. Dizia que s o primeiro ano de casamento fora realmente feliz, mas passara com rapidez e quase no deixara vestgios. 
Quando a escrava Inocncia morreu, imaginava que tudo fosse esquecido logo e seu marido continuasse como antes, mas se enganara. Fer
 no transformara-se, era outro homem. At agora, vinte anos depois, ainda pensava muitas vezes consigo mesmo se o marido acreditara realmente que ela dera a brbara 
ordem.
No compreendia como Ferno podia acreditar nisso e dizia que, durante horas inteiras, pensava na desdita que a acompanhava. Via tudo sombrio  sua volta, tristemente 
sombrio. Por onde se voltasse, a sombra seguia. Sabia que nunca poderia ser feliz e sua desgraa culminaria com a humilhao sofrida por causa de Estefnia. Era 
deprimente sua vida, profundamente deprimente. Saber e fingir ignorar um fato que saltava aos olhos, sabido de toda a fazenda. Disse-me uma noite que, se apanhasse 
a febre e morresse, no sentiria a morte, seria como a libertao depois de anos de cativeiro. Quantas vezes desejara a morte? Nem a lembrana dos filhos lhe arrefecia 
o desejo de morrer. Suas belas iluses haviam-se desvanecido no ar como fumaa; tinha o amor dos filhos, mas isso no bastava. Os mais velhos j haviam deixado o 
ninho e as meninas, ainda que bonitas e fortes, no lhe bastavam. Ansiava por outro afeto, como a planta por gua. Comparava-se a uma
 flor em rico vaso de cristal; sem trato, murchava dia a dia e o afeto que seria para ela como a gua pura para a flor, o marido dava-o a uma msera e ignorante 
cabocla. Como a odiava! Nunca pensou que pudesse odiar assim com tal intensidade, com tal fora.
Maria Letcia sempre gostara de fazer comparaes; desde menina, quando fazia composies na aula de literatura, escrevia imagens poticas que a professora elogiava. 
Disse-me nessa ocasio que sua vida partira-se com a morte de Inocncia e ningum poderia consert-la; era como o piano das primas Sousa Mendes: desde que uns negros 
descuidados o haviam deixado tombar na ladeira, nenhum afinador conseguira dar-lhe o som antigo. E pressentia que nunca mais as cousas voltariam  normalidade. Seria 
um castigo do cu para seu orgulho de outros tempos? No merecia tanto. Sua vida era como a morte longa, morria cada dia um pouquinho, como a flor sem gua...
Resolveu contrair a febre e morrer. Era uma idia doentia, mas um lenitivo. Penetrava nas senzalas, onde a recebiam como a uma rainha; falava com os doentes, indagava 
dos remdios, distribua os pacotes e o leite. Os negros, reverentes, postavam-se  sua volta, comovidos e agradecidos. Levantavam os braos pedindo a bno do 
cu para Sinhazinha to boa, to caridosa. Maria Letcia comeou a ver as cousas que nunca vira antes. Muitos moleques tinham os ps inchados e andavam com dificuldade; 
mancavam, andavam aos pulos. Indagou a razo e responderam-lhe com evasivas, quase sempre a mesma explicao: bicho-de-p inflamado. Um dia, mandou um dos moleques 
 casa grande para ser examinado; o negrinho chegou assustado, os olhos muito abertos. Modesta perguntou:
 Lavou os p, Simplcio? Sinh vai examina oc.
O moleque disse que sim, mas Modesta esfregou-lhe os ps de novo. Quando Maria Letcia e eu nos curvamos para examin-lo, vimos tratar-se realmente de bicho-de-p, 
mas em grande quantidade; sob a pele, havia cavernas profundas, sujeitas a infeco de um momento para outro. Com cuidado e pacincia, tiramos os bichos, um por 
um, enquanto Modesta segurava Simplcio que gritava e estorcia-se, pedindo para deixar assim mesmo, pois preferia ter os ps inchados. Com o dedal, Modesta raspou 
depois a cal da parede e encheu os buraquinhos deixados pelos bichos; disse que era o melhor remdio para evitar ferida braba. Em outro dia, vimos um menino com 
um enorme pelote na cabea; parecia tumor. Tratavam havia muito com ervas fervidas e folhas pisadas, sem melhora; pelo contrrio, cada vez mais crescia. Mandamo-lo 
para a casa grande a fim de ser examinado no dia da visita do mdico. Quando este viu o calombo, tratou de rasg-lo: no passava de um berne, ali l
 ocalizado havia meses e desenvolvendo-se ativamente. Seguramos a cabea do menino para auxiliar o mdico. Como era possvel tal cousa? Um bicho asqueroso a desenvolver-se 
na cabea de uma criana? Maria Letcia nunca imaginara nada semelhante. E ento uma procisso de misrias passou-lhe pela mente angustiada; falou-me no velho trpego, 
arrastando-se pela neve, em Paris; naquela noite longnqua em que o negro cego que nunca mais vira o sol, nem as flores, nem cu azul, fora a S. Paulo consultar 
um mdico; nos moleques de ps inchados e disformes que andavam aos pulos e em todas as tristezas que presenciara. Encontrava, afinal, uma evaso para as suas prprias 
torturas; dali por diante, disse-me, iria dedicar-se a minorar o sofrimento alheio, comeando pelos seus escravos. Em suas visitas, vira cobertas rotas, colches 
gastos e ftidos; verificara tambm que  falta de travesseiros, a maioria dos negros dormia com a cabea apoiada s
 obre os braos.
O que mais a impressionou, porm, foi assistir ao almoo das crianas nas senzalas; antes que depusessem no terreiro o gamelo cheio de feijo com angu, misturados 
numa s massa amarelada e escura, os molecotes j o rodeavam erguendo os bracinhos e gritando com satisfao; e, quando os viu comer servindo-se das mos, que avanavam 
com avidez para a comida insossa, sentiu nuseas e comparou-os a porcos. Ento era assim que se alimentavam os filhos de seus escravos? Como animais sujos e irracionais? 
No, nunca pudera imaginar tal cousa. Olhou-os mais uma vez. Sentados  volta do gamelo, os negrinhos levavam a comida  boca com a mo direita, em movimentos seguidos 
e rpidos a fim de no perder tempo, conservando a mo esquerda cheia de comida, para o fim. As mozinhas iam e vinham com velocidade e aquela comida era empurrada, 
forada, jogada pela garganta abaixo, sem tempo sequer para ser mastigada, do contrrio os outros acabari
 am com a gamela e aquele que perdesse tempo em mastigar, ficaria com fome. Fascinada, Maria Letcia olhou de novo, sem poder acreditar. Em poucos segundos a comida 
desapareceu; quando nada mais restava no fundo da gamela, principiaram eles a mastigar vagarosamente a comida guardada desde o comeo na mo esquerda. Mas era to 
pouco o que cabia naquelas mozinhas to pequenas! Insatisfeitos, sujos e magros, espalharam-se pelo terreiro da senzala;  distncia, mais se lhes destacavam as 
barrigas salientes nos corpos mirrados. Alguns deitaram-se na terra batida, e ficaram com a barriga exposta ao sol, rolando no cho, como porquinhos, nada mais que 
porcos. Maria Letcia impressionou-se; naquele mesmo dia deu ordens para que a comida fosse aumentada, para que comessem com colher e mandou fazer farta distribuio 
de bananas e laranjas nas senzalas. Os feitores protestaram, indignados: Negros no precisam de frutas. E onde iriam encontrar frutas para ma
 is de quinhentos escravos? Mas as frutas foram distribudas.
Alguns dias depois fomos de novo ver os molecotes comer. Continuavam a comer com as mos; algumas colheres haviam desaparecido, outras caam dependuradas de suas 
cinturas, como enfeites. Estavam deformadas, tortas, quebradas; serviam para fazer montes de terra da barranca do rio, cavoucar o cho ou outras cousas, menos para 
comer. E apesar de ser o dobro, a comida parecia sempre pouca, pois levantaram-se depois de esvaziada a gamela e foram mastigar a comida da mo esquerda, os olhos 
arregalados, com cara de fome.
Ouvimos dizer por Modesta que os negros murmuravam: Enquanto no vi um padre benz Santarm, as febre continuam a mat gente. Maria Letcia mandou buscar um padre 
na cidade prxima; antes do dia designado, avisou os escravos que haveria batizados e casamentos nesse dia; aqueles que viviam amancebados deviam casar-se, e os 
que no haviam sido batizados, deviam batizar-se. Houve grande movimento em Santarm. Dias antes, muitos receberam roupas novas e prepararam-se para o dia esperado. 
Ricardo, filho da Gabriela, disse que queria casar-se com Tio, a negrinha que auxiliava as passadeiras; ganhou roupa, nova tambm. Armamos um altar no fundo do 
galpo, com velas acesas em altos castiais e um grande Cristo de nix no fundo, contra uma alva toalha de croch. Aos lados, colocamos jarras azuis cheias de goivos 
e sempre-vivas, as nicas flores existentes na ocasio. No era a primeira vez que um padre visitava Santarm, mas sempre que
 isto acontecia os escravos ficavam excitados e tagarelas; para eles a visita de um padre constitua um acontecimento inolvidvel. No dia da vinda do sacerdote, 
logo de manh bem cedo, ainda bem escuro, toda a fazenda se movimentou; por toda a parte, os negros limpos e bem vestidos falavam e moviam-se. Um trole fora buscar 
o padre na estao e Maria Letcia e eu entramos na sala de jantar para ver se nada faltava  mesa do caf. Ouvimos a voz da Gabriela falando com o filho na cozinha:
        Ricardo, hoje  o dia do seu casamento; oc lav os p, nego?
No ouvindo resposta, a voz continuou:
        V lav as oreia tambm. Anda. E bem lavado!
Ricardo saiu assobiando l para os lados do ribeiro.
Ouviu-se ainda a voz de Gabriela, num tom mais baixo:
        Lave os suvaco tambm...
Maria Letcia olhou para mim e sorriu. O assobio de Ricardo perdeu-se na beira do rio. Voltou de l com a cara alumiando, as orelhas reluzentes salientando-se na 
carapinha armada, e j de roupa nova. Estava tomando caf na cozinha quando a noiva entrou. Tio tinha treze anos, a pele negrssima, os dentes to alvos que ofuscavam. 
Estava com um vestido novo que eu havia feito para ela, branco, e com um ramo de saias de Maria entre as mos, a nica flor encontrada em toda a redondeza.
Acompanhado por todos ns, o padre visitou as senzalas, deu bno aos doentes, coragem aos desanimados e alegria aos tristes. Dirigiu-se depois ao altar, onde celebrou 
missa. Aps o caf, voltou ao galpo e celebrou casamentos e batizados. Ricardo e Tio foram os primeiros; muito acanhados, aproximaram-se do altar, olhos baixos 
e medrosos. Eu fazia sinal a Tio que levantasse a cabea para ouvir o padre; mas ela inclinava cada vez mais a cabea para a frente e olhava o cho, obstinada. 
Quando iam saindo, ela tropeou num dos bancos do galpo e quase caiu; as saias de Maria pendiam das suas mos grossas, completamente murchas. Depois da cerimnia, 
houve um almoo especial para todos os escravos. No houve batuque aquela noite por causa dos doentes, mas fez-se farta distribuio de frutas e doces para todos. 
 tarde, o trole levou o padre  estao e Santarm retornou ao silncio.
Uma semana depois, tendo diminudo o surto da epidemia, os escravos recomearam a trabalhar; aos poucos a fazenda retomava o aspecto habitual e os negros, de dentro 
ou do eito, entregues de novo s suas tarefas, j quase no se lembravam do perigo passado.
Um dia, levamos um susto horrvel. Chegou aos nossos ouvidos que havia um quilombo na Serra, no muito longe da fazenda. Negros fugidos acoitavam-se l e viviam 
saqueando as fazendas vizinhas. Ferno estava no Rio de Janeiro h mais de uma semana e tio Antnio andava de visita a S. Paulo.
Maria Letcia no teve medo; mandou chamar os feitores de mais confiana e todos confirmaram a notcia. Um deles sara pela mata para verificar e ouvira gritos mais 
de uma vez e vira fogueiras na beira do rio, no sop de serra. Pensamos na melhor forma de agir, caso os negros aparecessem em Santarm; Maria Letcia disse que 
no poderamos contar com os prprios escravos, pois poderiam de um momento para outro juntar-se aos quilombolas. Lembrei que poderamos mandar um escravo pedir 
socorro nas fazendas vizinhas, mas ela no quis e serenamente ficou esperando os acontecimentos; mandou dois escravos postarem-se de sentinela na porteira, dia e 
noite. Tomou uma das carabinas dependuradas na parede do escritrio, examinou-a, viu se nada faltava e esperou. Aprendera a atirar desde moa na fazenda de papai 
e mais de uma vez matara um pssaro em pleno vo. Era a melhor atiradora da famlia. Proibiu a professora e as meninas de se afastarem de casa,
  e esperou, sem saber ainda o que faria se os negros viessem. Um pouco assustada, tirei outra carabina de Ferno da parede e esperei. Estvamos prontas para qualquer 
eventualidade. Uma noite, cerca das dez horas, no havamos dormido ainda, quando Ricardo chegou, assustadssimo; estava de sentinela na porteira quando pressentiu 
um bando de negros dirigir-se  casa grande. Vinham protegidos pela escurido; ele correra na frente para avisar que chegariam de um momento para outro. A professora 
apareceu na porta do quarto, torcendo as mos e chorando. Maria Letcia deu ordens rpidas: Ricardo que fosse chamar os feitores e trouxessem foices. Repreendeu 
a professora, proibindo-a de sair do quarto das meninas, e tirando a carabina da parede examinou-a mais uma vez, plida de susto. Tomei a outra carabina e ela pediu-me 
que ficasse no quarto com as crianas; disse-lhe que no, que onde ela estivesse, tambm eu estaria. Precisvamos enfrentar a situa
 o da melhor forma possvel; os negros deviam saber que Ferno viajara e tio Antnio estava ausente. Modesta, ao nosso lado, no se afastou; Gabriela veio da cozinha 
com um grande faco oculto entre as saias.
O silncio era horrvel e penoso; por mais que quisssemos ouvir algum rudo, nada se ouvia. Minutos mais tarde, a porta da cozinha foi arranhada de leve. Antes 
de tirar a tranca, Gabriela perguntou quem era. Eram os feitores acompanhados de Ricardo. Entraram e dirigiram-se  sala de jantar, onde estvamos de p, Maria Letcia 
com uma das mos apoiada na carabina, iluminada pela luz avermelhada do lampio. Deu ordens; ningum devia aparecer enquanto ela no chamasse; vigiassem as portas 
dos fundos e o alpendre do lado. Os feitores olharam-na, estupefatos. Como? Sinh Letcia ia aparecer sozinha diante dos quilombolas? Podiam at desrespeit-la, 
eram negros perigosos. Negros fugidos. Modesta choramingou:
        Aceite o conseio de uma nega veia, Sinhazinha. No aparea diante dos quilombola. Sinh Rosa, diga pra ela...
Estavam trocando essas frases, quando ouvimos um sussurro de vozes no jardim da frente  uma voz rouca chamar:
         de casa!
Meu corao parou. Todos se olharam, apavorados. Maria Letcia encaminhou-se, resoluta, para a sala da frente e disse a Modesta:
        Leve o lampio bem alto.
E voltando-se para mim que estava mais branca que um cadver:
        Quer vir comigo, mana Rosa?
Os outros olhavam-na sem nada dizer. Ricardo tirou a tranca da porta da frente com mos trmulas; Maria Letcia apareceu no alpendre, iluminada pelo lampio que 
Modesta levantava bem alto, a carabina entre as mos. Olhei seu rosto pequeno e branco; sobressaa no halo de luz e parecia uma flor esmaecida. Estava intensamente 
plida. A princpio, no vimos nada, depois vislumbramos trs vultos escuros que deram uns passos  frente e ficaram sob o foco do lampio Eram horrendos e maltrapilhos. 
A voz clara de Maria Letcia vibrou na noite escura:
        Que querem.na fazenda de Santarm?
Houve um breve silncio; admirados talvez de ver a intrepidez e a calma daquela mulher que no os temia, ficaram silenciosos. Depois um deles, falou hesitante:
        Sinh, somo pobre nego que no temo o que com. Viemo pedi pra Sinh um poco de comida. Tamo com fome.
        Quantos so?
        Somo vinte, Sinh.
Outros vultos foram aparecendo tambm sob o foco de luz; ela tornou a perguntar serenamente:
        E por que fugiram?
        Muito sofrimento, Sinh. Patro ruim como cobra. Nis viemo de Barrero; esses daqui viero de uma fazenda pertinho de S. Paulo.
Um outro deu um passo  frente e falou:
        Tenho a marca das pancadas que recebi, Sinh. Quase morri.
Outro tambm falou:
        Puseram nis num formigueiro pra diverti as visita.
Despois que nis tava bem mordido, puseram gua e salmora por cima. E as visita dava risada com nossos grito. Ficamo inteirinho mordido. Diziam que era pra nis 
no fugi mais.
Maria Letcia levantou as mos como a pedir silncio e disse aos negros que esperassem. Chamou Gabriela e mandou arranjar um saco de arroz, outro de feijo, caf 
e acar. Mandou cortar grandes nacos de toucinho dependurado nas traves da despensa; ordenou que trouxessem farinha tambm. Enquanto esperava, ficou de p  porta 
do alpendre, olhando os negros esparsos no cho do terreiro, em atitude humilde.
Quando viram Ricardo trazer os sacos de mantimentos e depositar aos ps deles, comearam a agradecer e a levantar as mos para o cu:
        Deus abenoe a Sinhazinha, seus fio e sua famia intera...
Ela mandou buscar sal. Jogaram os sacos nas costas, dispostos a partir. Ento um deles, o mais velho talvez, com a carapinha quase toda branca, ps um joelho em 
terra e deu uma espcie de bno a Maria Letcia, chorando de contentamento. Ouvimos sua voz rouca dizer alto depois:
        Deus abenoe vossunc.
Ficamos de p, vendo-os partir a caminho da serra. Ela apenas disse:
        Estavam famintos, os pobres.
Quando Ferno chegou, dois dias depois, alarmou-se: Ento ela protegera negros fugidos? Nunca devia ter feito isso. Afugentasse-os de Santarm  bala, para isso 
havia uma gaveta cheia de cartuchos.
Maria Letcia olhou-o sem nada dizer. Ele interpelou-a:
        Tem idias abolicionistas? Pretende proteger sempre os escravos?
        Sempre, respondeu ela. Tenho horror  escravido.
Ele fitou-a, incrdulo. Olhei tambm para ela quando Ferno tornou a perguntar:
        J pensou que ficaremos pobres se vier a abolio? Ela correspondeu ao olhar com firmeza:
        J. E prefiro a pobreza.
Ferno virou-lhe as costas, furioso; e nada mais disseram a respeito. Foi nesse dia que percebi que ela tambm era abolicionista, mas no trocamos uma palavra sobre 
isso.
No dia seguinte, Modesta chegou-se de manso a Maria Letcia e disse em voz baixa:
        Sinh, a Estefnia t com a febre.
Maria Letcia nada disse e eu fingi no ter ouvido. Creio que Maria Letcia se sentiu feliz com a notcia. Depois de uns minutos, perguntou:
        Quem est tratando dela?
        A me e duas negra. Come h dois dia com um febro.
Mais tarde, ouvi-a quando falava com a mucama:
        Modesta, veja que nada falte a Estefnia. Nada. E tudo o que o mdico disser, ser feito.
Modesta deixou-a dizendo:
        Eu j sabia que vossunc ia fal ansim.
Ferno continuava preocupado com os efeitos da epidemia, mas no parecia emocionado, nem pediu maiores notcias quando soube da doena da Estefnia. Passaram-se 
dias, e ao fim de uma semana Modesta informou:
  De ontem pr hoje, mior um tiquinho, Sinh.
Dois dias depois deu a notcia:
        O mdico t sem esperana. Pior muito de ontem pra c.
No ntimo, creio que Maria Letcia estava desejando a morte de Estefnia, mas no me disse nada. Eu  que rezei: Tomara que morra. Tomara. Fiquei esperando as notcias 
por Modesta. No dia seguinte, a mucama falou de novo:
        Ela t ruim, Sinh. No engole mais nada. O dot acha ela muito mal.
E no fim do dcimo primeiro dia, Modesta disse com voz mais baixa:
        Sinh, Estefnia t gonizando. Maria Letcia assustou-se. Perguntei:
        Est to mal assim?
        T gonizando.
        E o mdico nada pode fazer?
        Nada. J fis tudo. Maria Letcia perguntou:
        E Sinh Ferno sabe, Modesta?
        Deve sab. To sempre junto, ele e o dot.
E no dia seguinte, Modesta voltou com outra nova:
        Sinh, ela cham vossunc.
        Quem? Estefnia? Que disse ela? Que quer comigo? E Maria Letcia olhou-me, assustada. Modesta respondeu:
        Ningum sabe o que ela qu. Ouvimo ela diz duas veis: Sinh Letcia! Sinh Letcia!, revirando os io, numa aflio.
Perguntei se ela ouvira, disse que sim. Olhei Maria Letcia; parecia revoltada como se dissesse: Pois que morra.
Deixou o quarto e foi para o alpendre; voltou ao quarto e foi  sala; afinal resolveu dar uma volta pelo pomar. Fiquei no alpendre e via-a caminhando entre as laranjeiras 
e mangueiras; vi-a depois parada diante da enorme figueira, onde seu nome e o de Ferno estavam gravados no tronco. Com certeza estava se recordando do primeiro 
dia de sua chegada a Santarm, quando Ferno com o canivete entalhara na figueira os nomes entrelaados. Foi quando eu chegara ao lado deles; ela sentia-se to feliz 
que at dissera uns versos de Fagundes Varela; tentei recordar-me, mas s me lembrei das duas ltimas estrofes: E nessas letras que aos cus subiam, meus belos sonhos 
de amor perdi... As iniciais haviam crescido com a rvore; l estavam elas destacadas no tronco, como uma ferida, um sinal, uma advertncia de que vinte anos antes 
Maria Letcia acertara ao pronunciar aqueles versos, pois perdera mesmo seu amor... Foi ento que a vi entrar apressadamente e cham
 ar Modesta. Voltou-se para mim:
        Mana Rosa, vamos ver Estefnia...
Fomos. Em casa do Belisrio, predominava a desolao que precede a morte; os olhos vermelhos, fisionomias abatidas.
Quando entramos, o silncio fez-se maior, mais profundo; s se ouvia, no quarto ao lado, o estertor da agonizante. Estava rodeada pelos pais e algumas escravas da 
fazenda. O mdico j se havia retirado porque nada mais podia fazer.
Aproximamo-nos do leito e olhamos; ali estava a mulher que tanto concorrera para a infelicidade de Maria Letcia. A me de Estefnia, ajoelhada perto da cabeceira, 
passava de momento a momento um pano mido na testa da doente e do outro lado, aos ps da cama, Belisrio soluava com a cabea entre as mos; seus soluos pareciam 
gemidos. Maria Letcia comoveu-se; quem estava estendida ali no leito, sofrendo e morrendo, no era mais a mestia bonita e forte, mas um ser humano despedindo-se 
da vida. Ento, muito lentamente, Maria Letcia estendeu a mo e passou-a pela cabea de Estefnia; parece que a doente sentiu uma presena porque abriu os olhos 
e procurou v-la; fixou-os no rosto de Maria Letcia que, inclinada sobre o leito, procurava anim-la.
        Voc vai sarar, Estefnia. A febre vai passar.
Sentimos um bafo quente e ftido que se evolava do corpo de Estefnia. Dai-me coragem, meu Deus, dai-me foras, pedi mentalmente. E inclinei-me tambm. Surpresa 
com o que via, Estefnia abriu mais os olhos e levantou a mo direita com dificuldade; seus dedos moviam-se automaticamente, no tinham mais firmeza. Maria Letcia 
pegou aquela mo que tateava o espao e, ajoelhando-se  cabeceira, perguntou baixinho:
        Quer alguma cousa, Estefnia? Diga o que deseja...
Sou eu, Sinh Letcia...
A cabocla queria falar; seus lbios procuravam formar as palavras, mas estas no se articulavam; no se ouvia som algum. Maria Letcia inclinou-se mais:
        Deseja alguma cousa, Estefnia? Fale...
Com a cabea, a enferma fez um leve sinal de assentimento. Queria falar. Deram-lhe gua, mas a gua voltou-lhe da boca e escorreu pelos cantos do travesseiro. A 
me tomou a passar-lhe o pano mido na testa e no pescoo; Estefnia segurava a mo de Maria Letcia, no querendo larg-la. Afinal, fez um esforo maior para falar:
        Sinh...
Maria Letcia curvou-se mais:
 Fale, Estefnia. Estou aqui.
Era tal o silncio naquele momento, na alcova sombria, que se ouviu vindo l do fundo da mata muito longe o grito de uma araponga. Pela terceira vez a doente falou 
com esforo:
        Sinh o meu fio... Sinh... Tenha d dele...
Compreendemos e por cima do leito Maria Letcia olhou para mim. Confirmou com a cabea e disse para Estefnia:
        Pode ficar sossegada, eu ouvi! Olharei por seu filho, Estefnia!
Nunca admirei Maria Letcia como naquele instante; achei-a grandiosa na promessa que fez a Estefnia.
Ento, fechando os olhos, a testa gotejando suor pelo esforo feito, a doente comeou a morrer. Do canto dos olhos, descia uma lgrima grossa, seguida de outra, 
depois outra, que lhe umedeciam a camisola. Fiquei comovida e procurei  volta um crucifixo para colocar nas mos da agonizante; no achei nenhum. Parece que Maria 
Letcia me compreendeu porque chamou Modesta com um gesto e mandou-a depressa  casa grande buscar o Cristo que havia comprado em Viena, havia muitos anos... Olhei-a, 
atnita de surpresa. Mandar buscar o Cristo Redentor de Thorwaldsen. . . Pusemos uma vela acesa na mo de Estefnia e a me ficou ajudando a moribunda a segurar 
a vela que vacilava de um lado para outro. Ela continuava a chorar; dos olhos cerrados descia um manancial de lgrimas que parecia inesgotvel. Belisrio, tomando 
um velho livro de rezas de cima da prateleira, entregou-mo soluando; pediu-me que rezasse uma orao.
Lembrei-me da orao dos moribundos e procurei-a no livrinho; li ento umas frases que todos comearam a repetir com voz trmula: Repouso eterno dai-lhe, Senhor. 
Sobre ela brilhe a eterna luz. Li a ladainha inteira de Nossa Senhora e quando disse: Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor, Modesta 
entrou.
Maria Letcia, tomando o Cristo Redentor que comprara para si mesma, dep-lo carinhosamente no peito de Estefnia, murmurando: Cor Jesus in agonia factum, miserere 
morientium. Amm! Disse eu.
Entreabrindo os olhos, Estefnia pareceu perceber o gesto generoso; apertou o Cristo de Thorwaldsen com as duas mos como se nunca mais quisesse separar-se d'Ele 
e morreu.

A 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei da Abolio. O Pas todo estremeceu tocado pela borrasca. Os chefes da Confederao Abolicionista exultavam 
e enalteciam a Redentora, enquanto bandos de escravos partiam das fazendas em busca de outros destinos. Patrocnio, o rosto transformado pelo delrio de ver sua 
raa libertada caiu, chorando, aos ps da princesa, exclamando: Minha alma sobe de joelho nestes Paos! A multido nas ruas, delirava de entusiasmo. Machado de 
Assis escreveu mais tarde: Houve sol, o grande sol naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos samos  rua. Todos respirvamos 
felicidade, tudo era delrio. Na corte e nas provncias. Rebouas, atirava-se nos braos de Taunay: La joie fait peur.
O xodo das fazendas continuava, como um rio que engrossava cada vez mais, correndo em diversas direes. Negros partiam para as cidades, ou para fazendas diferentes.
Em Santarm numa madrugada clara e radiosa de fim de maio, Maria Letcia e eu chegamos  janela e recuamos assustadas; uma fila de escravos rumava para outras plagas 
a caminho da serra... Liberdade!
Maria Letcia olhou-me surpreendida:
 Os nossos tambm partem? Depois de tudo que fizemos por eles? Por que nos abandonam? No fomos sempre bons?
Respondi que nem eles mesmos por certo sabiam por que partiam. Foram sem dizer uma palavra aos Sinhs. Passavam, passavam, um atrs do outro, risonhos e palradores, 
livres para sempre do eito; as senzalas ficaram desertas, os campos e os cafezais abandonados.
Maria Letcia disse de repente:
 Eles tm razo, coitados! Viver cativos a vida toda como um animal, humilhado, deprimido, surrado. Lembra-se do que nosso pai contava quando ia comprar escravos 
no Largo do Piques? Disse que uma poro de gente ficava assistindo ao leilo e eles, encurralados, de p, como mercadoria a ser escolhida e comprada. O leiloeiro 
batia o martelo e gritava, exibia os braos de uns e as pernas de outros. Lembra-se?
        Lembro-me. E mandava-os rir. Ria, negro. E o pobre ria sem vontade para mostrar os dentes. Mandavam abrir a boca para examin-la, ver-lhe as gengivas. 
No eram gente, eram peas.
        Que cousa horrvel! Imagine o leiloeiro dizer: Tenho vinte peas para serem vendidas... Oh!
        E quando eram escolhidos por algum, benziam-se na esperana de que o Sinh fosse bom e benigno, mas muitas vezes no era... Quando todas as peas eram 
vendidas, eles partiam, cada um com seu dono, sem saber para onde.
        E o pior era separar irmo de irmo, me de filho, marido de mulher... Muitas vezes era assim... Que dor!
        Viva a Princesa Isabel!
        Viva!
        A Magnnima!
        A Santa!
        A Redentora!
As cabeas continuavam a passar sob nossa janela e logo mais elevou-se um canto distante. Eram eles que subiam a serra, libertos dos grilhes, cantando para a liberdade. 
Maria Letcia lembrou:
        E aquele escravo preso do tio baro? Como ser agora?
        Nem me lembrei. Que faro com ele?
O tio Sousa Mendes tinha, na fazenda dele, havia muitos anos, um escravo preso com corrente pelos ps. O negro tinha tanto dio no tio que dizia que se o soltassem, 
mataria o Sinh baro. Ento vivia assim, acorrentado.
Horas depois, quando o silncio voltou  fazenda, uma grande quietude de abandono e morte, Maria Letcia e eu fomos percorrer a casa para ver quem tinha ficado. 
Com o corao a palpitar, entramos na cozinha; l estava Gabriela moendo os gros torrados de caf no moinho velho, como se nada tivesse ocorrido. Samos para o 
terreiro, onde Ricardo se preparava para socar arroz no pilo. Quem mais? Chegamos ao alpendre do lado, e avistamos Tomsio tratando dos ces caadores, como fazia 
sempre quela hora, todos os dias. Os ces sacudiam as caudas longas e peludas, satisfeitos com a aproximao de Tomsio que lhes trazia gua e angu em grandes gamelas. 
O corao de Maria Letcia inundou-se de compaixo pelo Tomsio. Depois entramos no quarto das meninas. Como se aquele dia fosse igual a todos os dias do ano e nunca 
tivesse havido uma lei de 13 de maio. Modesta vestia as crianas, aprontando-as para sarem com a professora. Maria L
 etcia comoveu-se; teve mpetos de atirar-se nos braos dela e chorar: Modesta, minha negra, minha velha! Mas no disse nada, no sabia expressar-se com palavras; 
fora sempre assim, vivendo para si mesma. E eu a compreendia to bem! Modesta, inclinada, calava os sapatinhos de Ernestina e a menina ria-se e puxava-lhe a carapinha. 
Maria Letcia aproximou-se de Modesta, a fez levantar e colocou as duas mos sobre os ombros dela, sem dizer nada, olhos lacrimejando. Ento, para disfarar a emoo, 
Modesta explicou:
 Aqueles bandidos que foram embora, Sinh,.. Eles vo se arrepend um dia... Sinh vai v...
E fungando inclinou-se outra vez para calar o outro sapatinho, enquanto Ernestina lhe agarrava com fora os cabelos, Maria Letcia foi encontrar Ferno no terreiro, 
olhando tudo  volta com expresso de desalento. Uma centena de escravos havia ficado em Santarm, mas a erva daninha j comeava a medrar nos cafezais. Os braos 
no eram suficientes para plantar e capinar, nem para tratar da moagem. A derrocada.
Todo o ano de 1888 foi de lutas, lutas contra homens e cousas; mame escreveu que Guararema estava quase deserta; nossos irmos j haviam estado na Inspetoria da 
Imigrao para ver se resolviam o problema, mas a soluo parecia difcil. Ela pressagiava, para toda a famlia, grandes vicissitudes.
Maria Letcia e Ferno ouviam clamores de todos os lados; procuravam viver como podiam, mas as dificuldades eram muitas. Em 1889, Ferno mandou preparar toda uma 
parte da fazenda perto do ribeiro para receber os primeiros colonos italianos. No podendo manter os filhos mais velhos na Inglaterra, ordenara-lhes que voltassem 
imediatamente. E tudo isso os acabrunhava. Enchiam-se de temores para o futuro. Que lhes reservava? Tudo ia mal. A poltica tambm vacilava. Conservadores e liberais 
continuavam a discutir nas ruas, nas casas, nos teatros e at nos templos. A Monarquia agonizava. Ferno, tendo conhecimento do que se passava na corte e nas capitais 
das provncias, exclamava a todo instante:
        Isso  cousa da maonaria...
Maria Letcia e eu observvamos conciliadoramente:
        No, Ferno,  a vida que se modifica, o mundo que caminha.
Maria Letcia perguntava:
        Maonaria por que, se dizem que o imperador  o seu gro-mestre?
Todos os dias chegavam-nos novas, ora atravs de cartas dos parentes, ora por um ou outro viajante que pedia pousada. Afinal, uma tarde, tivemos notcia da queda 
do regime. A 15 de novembro daquele ano, foi proclamada a Repblica. Embora afastados do centro por lguas e lguas, acompanhvamos, emocionados, os fatos desenrolados 
no Rio de Janeiro. Organizado o Governo Provisrio, enviou-se uma mensagem ao imperador; o Major Slon, um dos integrantes da comisso republicana, incumbido de 
entregar o documento histrico a Suas Majestades Imperiais, dissera a D. Pedro II: Venho da parte do Governo Provisrio entregar mui respeitosamente a V. M. esta 
mensagem. Eram duas horas da tarde.
E foi naquela mesma tarde que a Princesa Isabel disse uma frase digna da sua grandeza. Passando junto da mesa em que assinara, a 13 de maio de 1888, o Decreto da 
Abolio, murmurou: Se nos expulsam, a mim e a minha famlia, pelo que assinei nesta mesa, repostas as cousas como dantes, hoje eu tornaria a escrever o meu nome 
sem vacilao.
E a 16 de novembro escreveu:  com o corao partido de dor que me afasto de meus amigos, de todos os brasileiros e do Pas que tanto amei e amo, para cuja felicidade 
me esforcei por contribuir, e pela qual continuarei a fazer os mais ardentes votos. Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1889. Isabel, Condessa d'Eu.
O Alagoas levou-os para o exlio.
Numa tarde quente de janeiro de 1890, Maria Letcia parecia feliz; alguns escravos tinham voltado  fazenda e, apesar da desolao, Santarm poderia renascer um 
dia. Trajando uma montaria de sarja negra, preparava-se para sair a cavalo com o marido; e ao tomar do chicotinho, dependurado na parede do escritrio, entregaram-lhe 
uma carta. Era de Leopoldina e ela leu alto:
Saudosa mana:
Em primeiro lugar devo falar sobre a sade de nosso pai. Est passando bem, principalmente as noites, quando os amigos se renem para conversar. Abateu-se muito 
a princpio com a Repblica, agora vai melhor. A maior alegria desse ano que findou, foram as pazes entre papai e Loureno. Parece milagre. Foi num domingo, logo 
depois de proclamada a Repblica; Loureno chegou resolutamente e, depois de falar conosco, disse que ia falar com papai. Antes que pudssemos impedi-lo, Loureno 
enveredou para o quarto e quando corremos atrs dele, esperando ouvir gritos e imprecaes, ouvimo-lo dizer calmamente: Meu pai, vim participar que j h o terceiro 
Loureno na famlia.
Houve um minuto de espanto, depois ouvimos papai dizer; Pois desejo ao terceiro Loureno felicidade e sade. Loureno beijou a mo dele e todos choramos. No sei, 
mana, mas depois que a gente sofre um abalo muito grande, aceita fatos que antes no aceitaria. Depois da Repblica, papai aceita tudo. Essa  a verdade.
Adelaide e Cristina escreveram do Rio de Janeiro que Bonifacinho vai ficar noivo da filha mais moa do primo Loureno e isso foi tambm motivo de jbilo para ns.
Carmela no pode mais ser chamada a estrangeira;  a alegria da casa. Carola no a deixa; cantam juntas duetos em italiano e francs e as duas vozes combinam muito 
bem. Outro dia visitei a Baronesa de Sobral; est doente, mas sabe de tudo que se passa na cidade e fora dela. Contou que D. Deolinda Menezes, lembra-se? (Que pergunta, 
ento no h de se lembrar?) foi abandonada pelo marido e pelas filhas e enlouqueceu; est num hospcio, sustentada por caridade. Devemos dizer como disse um Santo 
de cujo nome no me lembro agora: Largo  o caminho da vida e nem todos acertam com ele... D. Deolinda no acertou, errou desde o princpio.
Quando nos vem visitar? Temos tanto que conversar...
Ouvimos a voz de Ferno:
        Maria Letcia! Vamos!
Deixou a carta na minha mo para ler depois at o fim e, segurando o roupo de montar, desceu os degraus para o jardim. Ernestina correu-lhe ao encontro para abra-la: 
Mame! E atrs de Ernestina surgiu o filhinho da Estefnia, as perninhas levemente tortas, estendendo-lhe os braos. Maria Letcia inclinou-se para beijar a filha 
e passou a mo sobre a cabea do menino numa terna carcia. Modesta que tomava conta do menino, adiantou-se:
        Deixem Sinh Letcia sossegada!
Ela endireitou-se e aproximou-se do animal. Tomsio que segurava as rdeas, juntou as duas mos em concha onde Maria Letcia colocou o p direito e, num pulo gil, 
montou o cavalo. Partiram. O sol ia descambando e do lado da mata vinha uma leve virao; toda a fazenda parecia inundada de luz. Vi quando os cavaleiros se distanciavam 
e alcanaram os cafezais; devido s chuvas o mato crescia rapidamente entre os ps de caf; os poucos colonos chegados no eram suficientes para a capinao. Vi 
quando subiram a encosta, depois desapareceram dos meus olhos. Fiquei olhando as crianas que brincavam no terreiro; o filho da Estefnia brincava com Ernestina. 
E Maria Letcia havia dito: Prefiro morrer a ver meus filhos brincarem com os filhos dela... E no morrera e ali estavam brincando juntos. Por que certos fatos 
se sucedem sem que possamos impedir?
 tardinha, quando j estava anoitecendo, Maria Letcia e Ferno voltaram do passeio; os cavalos vinham devagar, os dois conversavam animadamente. Depois, no quarto, 
ela me contou:
        Mana Rosa, l de cima da encosta, avistamos as casas brancas que antigamente eram senzalas e hoje esto reformadas. Tudo alinhadinho com as famlias dos 
imigrantes... Mas Ferno est triste, apontou com o chicote para o arrozal, e o canavial, dizendo: Falta gente para tudo isso, veja que desolao.
        Mas essa gente vir, no acha? Logo mais tudo estar capinado e poder continuar a moagem da cana.
        E nossos filhos, que no podem mais ser educados na Inglaterra?
        Ora, Maria Letcia, aqui tambm se educam filhos, quem sabe at sero mais felizes conosco!
Ento ela me contou que percorreram as roas e os pomares. Chegaram ao ribeiro. Enquanto caminhavam, ela ia pensando que os sentimentos de orgulho que lhe haviam 
enchido a vida, tinham desaparecido pouco a pouco no espao, como fumaa. Tudo de que se orgulhara, fora espezinhado. Nada ficara intacto. At sua fortuna estava 
agora abalada e prestes a soobrar no abismo. Ouvia brados de socorro de todos os lados, mas que podia fazer? Tambm eles estavam ameaados de runa. Nunca pensara 
que seus filhos no pudessem seguir um curso superior na Europa, por falta de recursos. Lamentou-se olhando para o teto:
        Oh! Vida cheia de revelaes... Que me resta?
Quase nada. O amor de meu marido em quem confiei cegamente,  agora incerto e cheio de dvidas. Nunca pensei que pudesse perdoar-lhe. Imaginava que, por mais que 
desejasse, no o poderia. Mas agora ele  pobre e infeliz, no  mais aquele arrogante e vibrante Ferno; aquele desapareceu para dar lugar a um outro, quieto, humilde 
e triste Ferno que ia ao meu lado hoje, no cafezal.
Houve uma pausa, depois perguntei:
        Ento voc lhe perdoou?
 Os vencidos devem ser perdoados porque so infelizes, no acha? E a infelicidade  um fardo muito pesado. Eu no devia perdoar-lhe, ele me abandonou quando eu 
mais precisava de conforto e carinho, humilhou-me, no se importou quando eu sofri, fugiu de mim. Pensei sempre em vingar-me, mana Rosa. Viver longe dele tanto quanto 
fosse possvel, fugir, no perdoar nunca... Mas foi impossvel.
Pensou um pouquinho com o rosto apoiado, entre as mos, depois continuou:
        E sabe de uma cousa? Estamos pobres! Nunca analisei esta palavra, nunca imaginei que algum dia meu pensamento se fixasse nela. Acreditava-me to acima de 
tudo: da humilhao, da infidelidade, da pobreza, da mediocridade... E provei de tudo. De todos os meus princpios, que me resta?
        A coragem.
        Mas de que me serve a coragem? Para vencer o qu? Para qu?
        Todo mundo precisa de coragem para viver; voc h de precisar muito tambm, ver. Conte como foi que voc perdoou a Ferno. Foi hoje?
Ela riu-se e sacudiu o dedo indicador para mim; seus olhos cintilavam:
        Curiosa! Sabe onde o rio forma lagoas profundas? L, paramos os cavalos e ficamos olhando os redemoinhos que o rio fazia, como se no quisesse continuar 
seu curso. Margeamos o rio e dirigimo-nos para a ponte a fim de atravess-lo. De repente, Ferno falou com ternura: Maria Letcia, voc tem sido tudo para mim. 
Se no fosse voc, eu no suportaria a situao...
        E voc, que respondeu?
        Nada. No houve tempo porque ele continuou: Tem-me dado fora e coragem. Tem-me auxiliado a vencer esta tremenda crise que atravessamos. Tem sido meu guia 
e meu esteio. No sei, mas creio que abandonaria tudo, se no fosse voc e sua coragem...
        No digo que a gente precisa sempre de coragem?
        Espere. Os cavalos estavam caminhando juntos um do outro; de repente, ele pegou minhas mos e beijou. Depois disse que minha mozinha no era fina e sedosa, 
era a mo grossa de quem faz qualquer trabalho.
        E voc?
        Fiquei emocionada e no respondi. Os cavalos iam a passo. Ele tornou a falar: Tenho errado muitas vezes, mas quem no erra neste mundo? Tenho sido injusto 
e at cruel muitas vezes. E sinto-me to cansado... Parece que sou um velho. Sinto-me como uma pessoa que tem vivido sempre na obscuridade, de repente v a luz e 
fica estonteada, no sabe onde est o caminho. E tudo  to enganoso na vida. Bem dizem: Nem tudo que brilha  ouro. Como nos enganamos e como nos debatemos sem 
saber onde est a verdade...
Maria Letcia olhou para mim e ficou quieta. Depois perguntou:
        Voc acha que ele se estava referindo a... a... Estefnia?
        Acho, sim. E depois?
        Depois ele disse que nossa vida vai ser diferente de agora em diante, que devemos lutar, lutar muito. No teremos a mesma grande vida que tivemos sempre; 
precisaremos economizar, nossas despesas vo ser enormes porque teremos de pagar os trabalhadores. Mas disse que, comigo ao lado, ele se sente outro porque eu lhe 
dou coragem e confiana no futuro. Tudo muda e fica diferente quando se lembra de que estou junto dele. E diz que tudo deve a mim...
        Que felicidade, Maria Letcia! E que respondeu voc?
Ela ficou quieta e pensativa outra vez; apoiou os cotovelos nos joelhos, numa atitude pensativa. Depois disse:
        Mana, lembra-se de uma frase que papai diz sempre? Todos aqueles que reconhecem seus prprios erros, devem ser perdoados...
        Lembro, sim.
        Ento eu sorri para ele e estendi-lhe a mo assim... Estava tremendo... Ele pegou minha mo entre as dele e beijou-a uma poro de vezes. Falei ento:
        Ento tudo deu certo, como nos romances que tio Antnio tem na escrivaninha do quarto. E tudo vai bem quando acaba bem.
Ficamos silenciosas longo tempo. Cheguei-me  janela; no poente, o sol despedia-se numa magnificncia de cores: ouro, azul, vermelho e roxo, a confundirem-se no 
horizonte. Lembrei-me de uma msica de Cherubini que Francisca Miquelina tocava na harpa: As duas jornadas. Maria Letcia j vencera uma: rdua, penosa, humilhante. 
Agora havia outra pela frente, talvez mais espinhosa, mais difcil, mais spera; venc-la-ia tambm?
O sol era como uma grande bola de fogo no cu crepuscular; vi os girassis enfileirados  volta do ptio, as cabeas redondas inclinadas para o poente, como que 
pensativos. Mais alm, na beira da mata, Estefnia dormia; num recanto solitrio e ermo, onde ningum passava, seu sono no seria jamais interrompido. Apenas uma 
cruz de madeira e um nome resumiam a histria de uma breve vida, to breve que no tivera tempo de realizar um nico dos seus sonhos de ambio. L estava ela sozinha, 
na entrada da mata; sua gente havia partido na derrocada de 88.
Olhei o vale. Saracuras gritavam no brejo, sapos coaxavam em vrios tons. Depois silncio. Em todo aquele resplendor que parecia iluminar Santarm, vi uma luz muito 
tnue que conduzia Maria Letcia, que a levava para a frente, a apontar-lhe o caminho. Senti que era uma luz pura e duradoura. Era a luz das conscincias tranqilas 
e da paz dos coraes; a luz da bondade, da ternura e do perdo. Luz que brilha somente para os que sabem amar, sofrer, esperar. E para os que sabem perdoar.
Olhando ento Maria Letcia que estava de p na minha frente, vi que seu sorriso era completamente feliz, depois de muitos, muitos anos.
Mais um ano se passou sobre a velha Santarm e, apesar de ser um ano de apreenses quanto ao futuro, foi tambm de felicidades.
O ribeiro corria murmurando entre as pedras, e os pssaros faziam seus ninhos nas rvores prximas  casa-grande. Os colonos passavam a caminho dos cafezais quando 
o sino da fazenda tocava nas madrugadas, levando as enxadas nos ombros e, quando o sol brilhava sobre as velhas telhas, as pombas abriam as asas em leque e brincavam 
de roda.
O monjolo que Ferno mandou fazer quebrava o silncio batendo com fora o milho que se partia em pedacinhos brancos e amarelos e o murmrio doce da gua como que 
cantava quando o monjolo caa. O papagaio estava velho e sonolento no poleiro da cozinha, mas gritava todas as vezes que Ricardo passava: Soca, Ricardo.
Novo mastro de S. Joo foi levantado esse ano em Santarm, entre jogos e alegrias; l estava ele, rangendo e fazendo a vontade do vento. A cabecinha crespa de S. 
Joo voltava-se para todos os lados, apertando o carneirinho nos braos e o vento parecia querer contar-lhe que Santarm era feliz novamente.
No havia mais senzalas, nem gemidos de viola, nem canto de negros. Aos sbados  noite, os colonos danavam na tulha; Sirelli, com o velho cachimbo num canto da 
boca, tocava sanfona e seguia com os olhos sua filha Assunta que danava com Giuseppe uma valsa rodada, enquanto o p se levantava do cho e empanava a luz do lampio 
de querosene, suspenso numa trave do teto.
Antnio Ferno e Paulo chegaram da Inglaterra e passaram um ms na fazenda; novamente as gavetas emperradas das velhas cmodas foram abertas com estrpito e mais 
uma vez as colchas de seda da ndia, multicores e alegres foram estendidas sobre os leitos de jacarand. Havia riso e paz. As tardes eram bonitas. Com chapus de 
palha, Maria Letcia e eu cantvamos a ciranda com as meninas: Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... E as vozes estridentes das crianas perdiam-se ao longe, 
na beira do rio: O anel que tu me deste sexta-feira da paixo, ficou largo no meu dedo e apertou meu corao... Meu corao est apertado at agora quando me lembro 
de como esse ano se findou. Fomos todos para So Paulo porque Maria Letcia ia ter uma criana. Os dois meninos mais velhos foram para o Rio de Janeiro continuar 
os estudos; na casa do Largo do Ouvidor, ficamos ns, as trs meninas, a professora e Modesta; Ferno ia e vinha da fazenda. P
 apai contou-nos que ia vender o sobrado; j estava em negociaes. Nada corria muito bem e preferia residir em Guararema com os filhos solteiros. Os casados continuariam 
em S. Paulo. Ficamos penalizados ao lembrar que o casaro com as sacadas de ferro enfeitadas de abacaxi, com seu jardim interno, onde passevamos entre os canteiros 
rodeados de caramujos, com seus corredores, seus quartos e seu salo com o lustre de cristal, iria passar para outras mos, mas nada dissemos.
Nunca o jasmineiro dera tantas flores como nesse ano: adivinhou talvez que ficaria abandonado. As flores caam em pencas perfumadas e havia jasmins sobre a mesa 
da sala de jantar, dependurados nos lustres e nas jarras azuis do salo. Chegou dezembro.
Num dia bonito e quente, Maria Letcia teve outra menina; Ferno disse que se chamaria Maria Letcia. O batizado seria para quando a me se levantasse, mas a me 
nunca mais se levantou. Teve febre. A princpio, ningum imaginou o que seria, mas depois o Dr. Maranho comeou a se alarmar porque a febre no cedia. E ela foi-se 
enfraquecendo, seus olhos foram-se amortecendo, suas mos queimavam. Veio uma ama para amamentar a criancinha que dormia no meu quarto e eu sentia por ela todo o 
amor que a me no lhe podia dar. Um ms se passou; a febre foi minando o organismo de Maria Letcia at mat-la. Francisca Miquelina veio da fazenda, toda a famlia 
se reuniu em volta do leito mas a febre foi mais forte que a vontade dos homens e as preces das mulheres. Nada pde salv-la. Tio Antnio chegou de Santarm, completamente 
apalermado com a notcia; correu para o quarto dela e apertou-lhe a mo:
        Ma petite Marie, o que  isso ento? Vamos voltar para Santarm l  muito triste sem voc.
Ela sorriu tristemente e balbuciou os versos de Verlaine que ele nos havia ensinado e repetia sempre que ia viajar:
        Tio Antnio, et je m'en vais au vent mauvais...
        No, petite Marie, no...
Engasgou um pouquinho e continuou:
        Santarm est to bonita... Vamos para l. Toda a fazenda est se enfeitando para esperar a dona: as rvores, o rio, o canavial, os cafezais...
Ela no disse nada e ficou olhando o teto como se no tivesse ouvido. Na vspera de morrer, pediu a Francisca Miquelina que tocasse harpa, mas, como a harpa estava 
na Fazenda Santa Engraa, Leopoldina tocou piano e Lus, flauta. Mas ela insistiu em que queria ouvir harpa porque gostava mais; nesse mesmo dia, Rodolfo foi a Santa 
Engraa a cavalo e no dia seguinte chegava a harpa num carro de boi. Viajara durante a noite toda e de manh o carro parava rinchando em frente do sobrado. A harpa, 
enrolada em cobertores, foi levada para o salo.
Nesse dia, na obscuridade do quarto de Maria Letcia foi ouvida uma valsa de Chopin tocada por Francisca Miquelina, Leopoldina e Lus como nos velhos tempos. Todos 
choramos. Papai foi carregado na cadeira de veludo e ficou num canto escutando. Depois de ouvir a msica, Maria Letcia levantou a mo e disse: Deus lhe pague. 
Falou to baixo que mal entendemos e foram suas ltimas palavras. Veio um frade franciscano dar-lhe extrema-uno e os santos leos, mas no sei se ela percebeu. 
Foi morrendo aos poucos como vela que se apaga. Ferno, sentado ao lado do leito, segurou-lhe a mo at o fim; quando o Dr. Maranho disse que tudo estava acabado, 
ouvi a voz de papai: Vamos rezar. Mame ajoelhou-se soluando ao lado do leito, Ferno ficou do outro lado, os irmos e cunhados estavam espalhados pelo quarto, 
Sentado na cadeira, papai comeou: Padre nosso que estais no cu... Ns repetimos em voz alta: Padre nosso que estais no c E9u... Santificado seja o vosso nome... 
Venha a ns o vosso reino, seja feita a vossa vontade... Ao chegar a essas palavras, a voz de papai quebrou-se num soluo. Tentou rezar e repetiu: Seja feita a vossa 
vontade...
Chamou em voz alta: Minha filha! Oh! Meu Deus! Aproximei-me dele e apertei-lhe a mo direita para infundir-Ihe coragem. Sua longa barba, agora toda branca, estava 
mida de pranto. Ento a voz do frade continuou com serenidade: Assim na terra como no cu...
Ldia entrou no quarto na ponta dos ps, olhou a me sobre o leito, depois o pai. As lgrimas corriam dos olhos de Ferno; ento Ldia, sem se perturbar, tirou o 
lencinho do bolso do vestido, aproximou-se do pai e enxugou-lhe as lgrimas; depois, ajoelhou-se e juntou as mozinhas para acompanhar a orao do frade. Olhou outra 
vez o pai, cujo rosto estava novamente molhado de lgrimas; tornou a tirar o lencinho do bolso e de novo enxugou o rosto de Ferno. Aninhas aproximou-se sem dizer 
nada, tomou Ldia pela mo e levou-a do quarto; ouvimos seu pranto abafado no fim do corredor.
Sa tambm e fui ver a criancinha. Pareceu-me ouvi-la chorar. Dormia com as mozinhas fechadas em sono plcido. Ferno havia dito nesse dia que eu tomaria conta 
da criana. Era minha. Comecei a falar com ela como se me pudesse entender, confundindo a Maria Letcia que eu havia perdido com a outra Maria Letcia que havia 
nascido: Pobre filhinha sem me, corao da mana Rosa... Que poderei fazer por voc? Que poderei dar-lhe para que voc seja feliz? As horas dos meus dias e o sono 
das minhas noites? Minha dedicao e minha ternura? Todo o meu amor? Este amor que guardei a vida inteira dentro do peito? Ouo ainda a voz de Maria Letcia quando 
brincava com as crianas: Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... Seja feita a vossa vontade,  meu Deus! Assim na terra como no cu. No quero lembrar-me do 
quanto ela foi boa para mim. No. Quero recordar apenas as vezes em que me chamou de bobona, gua parada, solteirona. No qu
 ero lembrar-me da nossa grande amizade, porque me faz sofrer; quero lembrar-me do seu orgulho, dos seus defeitos, das brigas que tivemos. Mas de todo modo eu sofro 
porque a amizade que nos uniu foi to forte como o ao... O anel que tu me deste... ficou largo no meu dedo e apertou meu corao... Meu corao est to apertado, 
to pequenino, Maria Letcia... Minha pobre filhinha...
Olhei atravs da janela. Enfileiradas na trave do alpendre onde tinham seus ninhos sob o telhado as andorinhas passavam os biquinhos entre as penas, alegres e apressadas, 
chilreando num alvoroo... Oh! Meu Deus, seja feita a vossa vontade...
Senti que no podia mais, a dor era demasiada; lembrei-me de que teria uma tarefa da em diante e isso foi como um lenitivo: teria que olhar um bero. Foi como um 
raio de sol para minha imensa dor. Tentei sorrir e inclinei-me ao lado do leito, onde Maria Letcia, a segunda, dormia tranquilamente.

































VALE A PENA LER OS CLSSICOS!

BOM LIVRO Nossos grandes escritores e os ttulos mais importantes da literatura brasileira esto reunidos na srie Bom Livro da tica, com textos integrais e notas 
de rodap que facilitam o entendimento.
Conhea-os:

Adolfo Caminha:
Bom-Crioulo
A normalista
Alexandre Herculano
Eurico, o presbtero

Alusio Azevedo:
Casa de penso
O cortio
O mulato

Bernardo Guimares:
A escrava Isaura
O garimpeiro
O seminarista

Camilo Castelo Branco:
Amor de perdio

Domingos Olmpio:
Luzia-Homem

Ea de Queirs:
O crime do Padre Amaro
O primo Baslio

Franklin Tvora:
O cabeleira

Joaquim Manuel de Macedo:
A luneta mgica
A moreninha
O moo loiro

Jos de Alencar:
A pata da gazela
Cinco minutos  A viuvinha
Diva
Encarnao
Iracema
Lucola
O gacho
O guarani
O sertanejo
O tronco do ip
Senhora
Sonhos d'ouro
Til
Ubirajara

Jlio Dinis:
As pupilas do Senhor Reitor

Lima Barreto:
Os bruzundangas
Recordaes do escrivo Isaas Caminha
Triste fim de Policarpo Quaresma

Lindolfo Rocha:
Maria Dus




Machado de Assis:
A mo e a luva
Contos (seleo)
Dom Casmurro
Esa e Jac
Helena
lai Garcia
Memorial de Aires
Memrias pstumas de Brs Cubas
O alienista
Quincas Borba
Ressurreio

Manoel de Oliveira Paiva:
Dona Guidinha do Poo

Manuel A. de Almeida:
Memrias de um sargento de milcias

Raul Pompia:
O Ateneu

Visconde de Taunay:
Inocncia












Na vida tambm  assim, como a luz da lamparina; a alegria e a tristeza, a subida e a descida, a felicidade e a desventura, a luz e a sombra. Essas palavras da 
autora revelam bem a mensagem deste livro: retratar a ambigidade do homem e da vida.
A estria se passa no sculo XIX, numa poca de profundas transformaes sociais no Brasil e na Europa.
O seu estilo  agradvel e notadamente lrico, narrando episdios marcados pela graa, pela emoo, e ainda pela revolta. O ambiente  de uma aristocracia rural, 
onde so mostrados os seus aspectos positivos e negativos, abordando inclusive a condio do escravo na sociedade da poca. Paralelamente se faz referncia a acontecimentos 
histricos da Europa e do Brasil no final do sculo passado.
Cada pgina atrai a prxima leitura, e assim o leitor vai penetrando no mundo de Maria Letcia, Ferno, Rosa, Francisca Miquelina, seus pais e outros. Um mundo que 
apresenta duas faces: a luz e a sombra  neste contraste est a essncia humana, to bem retratada por Maria Jos Dupr.
